sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

POR ACASO, UMA FOTO



O dia era tórrido naquele finzinho de agosto em Roma e lá estava eu encarapitada no alto de um desses ônibus de dois andares para turistas. Debaixo de muito filtro solar, óculos escuros e um chapéu Panamá que me deixava com cara de mafiosa, ia me deliciando com a cidade.


A parada feita junto à entrada das ruínas do Fórum foi mais longa. Hordas de turistas buscavam se entender entre sorveteiros, carros, guias e barraquinhas de souvenires. Provavelmente algum americano já entrado em anos tentava escalar as escadas do ônibus para chegar até onde eu estava. Esperei...

E, enquanto esperava, meus olhos iam passeando pelas pessoas, pelos recantos, pelos detalhes. De repente, a foto. Era ela que me esperava ali, ao acaso, por acaso. Naquele momento eu entendi. Esta seria a foto do último texto do ano. Saquei da câmera e com a rapidez de um pistoleiro de faroeste-espaguete, aprisionei o momento em megabytes. O céu absurdamente azul, um pedaço de copa de árvore e uma pombinha pousada ... em um ponto de interrogação!?!



Pois esta foto sintetiza tudo que eu desejo para mim e para todos que eu amo no ano de 2010.


Que sejamos ecologicamente felizes... Verdes... Pura esperança... Sejamos múltiplas copas de árvores a desafiar e vencer o que houver de CO2 em nossos caminhos.



Que o nosso céu, mesmo nos dias de chuva, insista em se manter desavergonhadamente azul. Um pano de fundo onde possamos realizar nossos desejos mais íntimos.



E que haja sempre, à sombra de nossos medos e questionamentos, uma pombinha, se possível bem branca, para fazer com que cada uma de nossas dúvidas se transforme em vôo seguro e certeiro.



Que assim seja 2010.



Feliz ano novo!



Muito feliz!

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

HALLACAS


Se alguém pensa em Natal e em Venezuela terá necessariamente que pensar em hallacas. Buscando em vários sites, descobri ou confirmei muitas coisas que eu já sabia ou intuía depois de passar três dezembros em Caracas e de degustar algumas hallacas maravilhosas. Existem no mundo dois tipos de pessoas: as que gostam de hallacas e aquelas que as odeiam. Eu sou uma hallaca person.



Inundei o inicio do texto com a palavra hallaca na tentativa de dar ao leitor uma leve idéia do que é novembro e dezembro na Venezuela. Todos falam de hallacas. Os supermercados oferecem seus ingredientes, os restaurantes anunciam que já servem o prato navideño, hallacas congeladas são vendidas em delicatessens como El Rey David e as famílias começam as negociações de que tipo de contribuição cada um terá na feitura do quitute. Há, também, programas de rádio com as mais variadas entrevistas sobre o assunto. Um tópico bastante discutido é o de como comer hallacas e não engordar. Todos os anos, inclusive, é feita uma pesquisa, com certas conotações políticas, que investiga o quão inflacionados estão os ingredientes das hallacas e se a família média terá condições financeiras de cumprir com a tradição.


Há muitas teorias sobre a origem do prato e o seu nome. Encontrei, por exemplo, em um comentário de um site a seguinte observação:






La hallaca es una receta tradicional y típica de Venezuela. También conocida y popular en las Islas Canarias (España), especialmente en Navidad. Las hallacas guardan cierta similitud con los tamales de otros países de América Latina. Como se ve en la receta, las hallacas se hacen con una masa de harina de maíz rellena de diversos ingredientes, luego se envuelve en hojas de cambur (o de plátano) y finalmente amarrada con "pabilo" y se hierve en agua caliente.[in www.mis-recetas.org]






Fiz a citação, pois estava tentando resumir o irresumível e acho que o texto acima conseguiu. Quando falei que as famílias negociam suas tarefas na feitura da hallaca foi porque há, além das diferentes receitas dependendo da região, muitas etapas em sua preparação. Por exemplo, Claudia, minha professora, é apenas responsável por preparar as folhas de bananeira que envolverão o acepipe para sua família (uma média de 400 folhas!!??!!).


Para matar a curiosidade do leitor mais chegado a um fogão listo apenas os ingredientes necessários para se fazer uma hallaca básica: (Se não quiserem podem pular esta parte, só a incluí para dar um certo clima ao texto. Estou imitando Humberto Eco em seu livro O Nome da Rosa. Muito latim para trazer a atmosfera da época)


1/2 Kilogramo de Carne de ternera, 1/2 kilogramo de carne de cerdo, ambas cortadas en parmentier, 1/2 kiogramo de pollo cortado en julianas, 1/4. kilogramo de cebollín, puerro, pimientos, cebolla, todos cortados en brunoisse, 100 gramos de alcaparras desaladas, 150 gramos de olivas rellenas con pimientos, 1 cucharada de comino recién tostado y triturado, 1 cucharadita de curry en polvo (madras), 1 cucharada de azúcar, 1 taza de vino dulce, 1/4 taza de puré de tomate, 3 dientes de ajo majado, sal, cantidad necesaria, 1 kilogramo de harina de maíz, choclo, elote, mazorca de maíz, jojoto, chilote, aceite onotado, hojas de plátano ahumadas, hilo para cocina 1 madeja, y cucharada de leche en polvo y otra de harina de trigo.


Hallacas … Quanto mais penso nelas, mais as considero uma metáfora perfeita do Natal atual, moderno e tropical.


Tudo começa com a massa. Informe. Pesada. Úmida. Seguirá cegamente todas as subrepticias sugestões da mídia e do marketing. O presente da moda. A loja da moda. O point da moda. A moda da moda. E é essa massa que envolve o guisado. A geléia geral. Amigos (secretos ou não). Parentes (distantes ou não). Há lugar para todos. Papais Noéis suarentos. Renas! Chaminés!!! E neve!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ao som de Jingle Bells expomos a nossa alegria comprada nas 25-de-março da vida. Celebramos. Celebramos muito. Celebramos intensamente. Enquanto, com pressa, esbarramos em reis magros caminhando por seus desertos particulares. E a massa e o guisado (nós?) é embrulhada para presente, em folhas de cambúr super chiques. Nos enfatiotamos e ... fervemos.


Acabo de reler o que estou escrevendo e levei um susto. Não era este o texto que eu queria. Acho que virei uma hallaca desandada, embora, realmente, tenha gostado da comparação. E vou insistir nela por teimosia.


Como disse, sou uma hallaca person e se por um lado o Natal virou um evento marqueteiro. Uma efeméride da mídia. Uma hallaca mal embrulhada e fervida. Por outro, insiste em ter um sabor especial. Realmente acredito que, na noite de paz (?!), possamos reencontrar a magia infantil da festa. Nem que seja por um segundo. Em um sorriso. Um telefonema de alguém distante. Uma gargalhada inesperada. Ou na eloqüência do silencio.


Neste Natal, que todos nós tenhamos a delicadeza de sermos criança por um minuto que seja. Uma criança... Qualquer criança... Que, em um momento, brote de nossas almas ou do umbigo mesmo, um sorriso infantil como só as crianças sabem dar (mesmo que já não acreditem em Papai Noel). Um sorriso de menino... daquele menino... a quem insistimos em chamar de Cristo.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A CÁPSULA



Cheguei em São Paulo na 3ª feira. O vôo Caracas/Sampa foi tranqüilo, mas aterrissei em uma cidade em pleno caos. A sorte foi que optei por fazer a conexão em Guarulhos, pois se tivesse seguido o que normalmente faço e ido para Congonhas, provavelmente ainda estaria tentando chegar ao Rio.



O caos, na verdade, não era absoluto. Tenho que ser justa. Havia teto para voar, nenhuma bagagem foi extraviada, os passageiros passaram pela imigração e alfândega ordenadamente e até havia algumas coisas interessantes na Free Shop. Para que eu chegasse ao Rio só faltava uma coisinha básica: os pilotos. Eles, apesar de toda a sua expertise para deslocamentos velozes e sob intempéries, simplesmente não conseguiam vencer as inundações do Tietê e do Pinheiros. Assim é São Paulo. Grande. Caótica. Deslumbrante.


Esperei.


Depois de mais ou menos duas horas e de uma longa conversa com um americano que tentava entender o que estava acontecendo e, principalmente, o que era a cidade de São Paulo, consegui levantar vôo e chegar a um Rio de Janeiro caótico e semi-inundado. Estivera eu em Kopenhagen, seria um testemunho vivo de que o clima do planeta realmente enlouqueceu.


Mas cheguei.


E, depois de três dias de correrias entre bancos, visitas a amigos, reunião na Cultura e ida a Niterói, acordei às 5:30 da manhã de 6ª feira na ... onde mesmo que eu estou? ... Ah, sim ... na cápsula.

Decidi me levantar.

Olhei a minha volta e mantive um silêncio sepulcral. Márcia continua ficando no apartamento durante a semana e dormia profundamente. Como eu sou International Vagabond e ela anda trabalhando enlouquecidamente, decidi respeitar o seu descanso.


Fui para a sala e me sentei na cadeira de balanço, um dos poucos móveis que restou das três casas onde eu morava antes de ir para Caracas. Fiquei um tempo me embalando e lembrando de tantas coisas que passei naquele apartamentinho do Humaitá.


Quando fui para a Venezuela, Márcia me sugeriu que eu escrevesse uma peça de teatro chamada A Cápsula. Na verdade, a gente costumava brincar sobre esta peça já fazia algum tempo. Tínhamos certeza que seria um sucesso!Ficávamos pensando que atrizes poderiam fazer as nossas personagens, como seria o cenário, a iluminação... A trilha sonora nós já havíamos escolhido: Roda Viva de Chico Buarque... A gente vai contra a corrente / até não poder resistir / na volta do barco é que sente/ o quanto deixou de cumprir...


Era assim que eu me sentia naquela época. Uma devedora de mim. Correndo muito para chegar a lugar nenhum.


Cursos, palestras, congressos, reuniões, o MBA e a permanente distância de Silvio. A gente ria, brincava sobre o assunto, mas quanto mais passava o tempo, mas pesava estarmos longe um do outro. Afinal foi uma espera de dez anos para que nós pudéssemos jantar juntos em um dia de semana. Dez anos para podermos conversar ao vivo e a cores depois de um dia de trabalho. Dez anos para que pudéssemos até ter tempo para brigar. (Quem tem tempo de brigar se só tem o final de semana para estar junto?) Mas brigar faz falta também.


Olhei novamente a minha volta. O dia já tinha amanhecido e havia lá fora uma mistura que só acontece na Rua Humaitá: passarinhos cantando, uma cigarra sobrevivente da chuva torrencial da noite anterior e o barulho do trânsito começando a ficar cada vez mais pesado.


Como a cápsula mudou nesses quase sete anos! Quando alugamos o apartamento de Jorge, o lugar era um chiquê, tinha até cadeiras assinadas por designer famoso. Depois, quando comprei o imóvel, ainda tentamos dar um charme ao espaço, mas com a minha viagem, ele foi ficando cada vez mais cheio de livros, móveis, utensílios. Coisas que eu insisto em preservar.

Acho que a cápsula é uma espécie de metáfora de mim. Ou talvez seja uma fiel parceira em minha trajetória. Tanto ela quanto eu fomos nos adaptando às novas realidades. Reinventamos espaços. Fomos nos desfazendo de supérfluos. Preservamos apenas o que nos parece essencial e, mesmo assim, de vez em quando fazemos novo balanço e sempre encontramos algo para jogar fora.


Talvez não tenhamos mais o glamour de cadeiras assinadas, mas ... preservamos a cadeira de balanço, onde embalamos os mais recônditos sonhos e deliciosas recordações.




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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

UMA CARTA AO NIÑO JESÚS



Querido Niño Jesús,



Eu sei que já faz algum tempo que não lhe escrevo, mas esta coisa de ter Papai Noel como intermediário sempre me incomodou muito. Como estou aqui em Caracas, as coisas ficam mais fáceis, pois por aqui as cartas vão direto para você. Isto é certo. Pode perguntar a qualquer criança da cidade. Então decidi lhe escrever.


Antes de tudo, quero lhe dizer que acho que tenho sido uma ótima aluna. Tenho aprendido muitas coisas novas e feito um grande esforço para desaprender algumas que já estão muito antigas, ultrapassadas mesmo. Esta tem sido a maior dificuldade... Pobres de nós, mortais! Como é difícil desaprender os vícios!

Vou também lhe contar um pouco do que está se passando por aqui. Dia 1º., La Cruz Del Ávila foi acesa com pompa e circunstância para o inicio das celebrações navideñas, mas, este ano, por motivos de racionamento de luz, ela só vai ficar acesa das seis da tarde até a meia noite. Perdi minha companheira das madrugadas no mês de dezembro. Não faz mal, pelo menos ela foi acesa, o que já dá uma ponta de esperança.

Os centros comercias também estão menos iluminados, mas a abundância de presépios permanece. Los pesebres não podem faltar. Tem presépios de todos os tamanhos, formatos e materiais. De metal, plástico, vidro e até de tagua, que é uma semente que parece marfim.


Todas as famílias já estão mobilizadas comprando os ingredientes das hallacas e já se pode comer el plato navideño em muitos restaurantes da cidade (hallaca, pan de jamón, ensalada de gallina e de sobremesa dulce de lechosa). Depois querem saber porque eu engordei tanto... Tem a ver com os vícios!


Mas para quê eu estou lhe contando tudo isso, se eu sei que você está bem pertinho, olhando a cidade lá do alto de Galipán. Pelo menos é o que diz uma antiga canção de Natal... (El niñito baja desde Galipán, viene con sus flores y sus mil colores para los regalos que vienen y van [Bis])

Sabe, a cidade pode estar um pouco mais escura e com falta de água, mas a lua tem estado perfeita nestas noites límpidas de dezembro. Há coisas que não abrem mão de ser o que são. Não mudam. Nem de cor. Nem de direção. Não seguem ordens. Têm seu brilho próprio. E, talvez por isso, sejam sempre mais brilhantes.


Quanto aos meus pedidos, os meus regalos mais desejados, você já sabe o que são. Eles são sempre os mesmos. Olha por Silvio e por mim, cuida bem da gente. Protege também as nossas famílias e a todos os nossos amigos. Eu sei que o mundo está, como sempre, uma loucura, e agora então com essas mudanças climáticas!... Mas não esquece da gente não. Reserva um tempinho que seja para olhar por nós.


Este ano, eu vou pedir um pouquinho mais. Afinal, eu me comportei bem e até aprendi a cozinhar! Então, aí vai o meu pedido: Olhe com muito carinho por esse povo que me recebeu tão bem. Por esse povo que sempre está disposto a me ajudar. Por este povo que entende o meu espanhol de pé quebrado quando grito !Ayudenme!. Se você estiver muito atarefado, por favor, peça a senhora sua mãe, que aqui tem muitos nomes (Coromoto, Chiquinquirá, Del Valle...) para te ajudar. O importante é ter sempre alguém que esteja pendiente, para que eles nunca fiquem sozinhos.


E assim, vou terminando minha cartinha que eu sei que você vai ter que ler muitas outras mais.


Saludos, muchos besitos y Feliz Navidad,



Patricia


PS: Ah! Já ia esquecendo. Se der, não é prioritário, mas se der, traz um Chihuahua pra mim?

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

UM TEXTO PARA ALZIRA

Em seus últimos comentários, Alzira aponta uma certa melancolia. Fiquei pendiente (como se diz por aqui). Confesso que me senti um pouquinho culpada. Ando escrevendo uns textos um tanto  meditativos. Então, decidi: esta semana a coisa vai ser diferente.


E, portanto, convido a Alzira a viajar comigo. O texto de hoje é dedicado a ela. É só dela. Se bem que conhecendo o seu altruísmo, tenho certeza que ela vai adorar dividir esta história com as outras pessoas.


Amiga Alzira,



Há um lugar onde existe uma cidade dentro de outra. Em uma terra moderna, brota, bem de seu centro, uma cidadela, una ciudad amurallada. E por de trás de seus altos e grossos muros, surgem resquícios de piratas, donzelas com leque e mantilha, comerciantes, ricos senhores e negros escravos. Em suas ruelas, pode-se ainda ouvir o burburinho de tempos passados. Tempos de muitas esmeraldas.


Há, ali, uma praça Bolívar, como sempre, cercada de museus, igrejas e lojas. É por onde transitam os vendedores de frutas, os guias de turismo e a gente da terra. Morena, mulata. Uma mescla de muitas Histórias.

Não se deve usar carro nesta cidade sem tempo. O ideal é perambular por suas vielas. Surpreender-se com seus pátios abertos. Encantar-se com o repicar de seus sinos, som que se perde entre os muitos sobrados com seus balcones floridos.

 


Há que subir nas muralhas. Andar entre o que sobrou dos canhões que protegiam o pueblo de ambiciosos corsários e sentir o vento do mar que, sem cerimônias, vai entrando na gente, alma adentro, salgando nossos sentidos... e, de repente, tudo virá um enorme por de sol.

É também do alto da muralha que se pode ver, a uma certa distância, a casa de Gabo, envolvida em romance e mistério.

À noite, depois de um passeio de carruagem!!! por esta  cidade tão mágica, a gente se senta nas praças, em seus restaurantes e bares e joga conversa fora e ouve música típica e vê improvisos e danças.

Bem junto à praça, há uma escultura gorducha, um regalo de Botero à tão famosa província. Estátua solidária e cúmplice de exageros etílicos. E há que se fazer comilanças com arroz de coco e pescado. (Que a gordita abençoa tão saboroso pecado).




É fundamental que numa manhã, bem cedinho, a gente se encaminhe pro porto e, de lá, em uma lancha voadeira vá direto pras islas, Las Islas Del Rosário, um arquipélago de corais em pleno mar do Caribe. E nas ilhas a gente fica só olhando o vento e o mar...

No mergulho a gente vê a transparência da água. Vê o dedão do pé, vê peixinho, vê arraia. Por perto tem tubarão, mas nada que amedronte. E de tarde, depois de um lauto almoço, a gente deita na hamaca e fica sentindo a vida, a vida que vai passando... pouco a pouco.




Essa é uma terra de histórias, um quase conto de fadas.

E na corrida da vida, no tempo que insiste em voar, nesta terra a gente encontra um pouso, uma parada... Pra virar fotografia!


Uma imagem sonolenta de muitos coqueiros e praias. E, na sombra do momento, o sol que vai se pondo aos poucos em tênues vermelhos rosados.






Assim é esse lugar que tem nome e sobrenome: Cartagena de las Índias, um cantinho na Colômbia.

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

QUE CAMINHOS TOMAR?



Se olharmos bem a foto, podemos ver que há outros picos além do Ávila na Cordilheira da Costa e, também, há muitos caminhos para se chegar ao topo. Os caraquenhos, muitos deles, curtem caminhar e até mesmo correr montanha acima pelas várias trilhas que há na região.



Tudo começa na Cota Mil, uma larga e longa avenida que fica a exatamente mil metros do nível do mar e que costeia uma boa parte da montanha. É na Cota Mil que se pode pegar aguaceiros inesquecíveis. As nuvens batem na Cordilheira e se derramam em água pesada. Un palo de agua, como dizem por aqui.


À noite, aqui de casa, posso ver um cordão de luz no sopé da montanha, parece uma praia, mas na verdade é a Cota Mil iluminada.

Pois é de lá que se escolhe o caminho a trilhar. Há o teleférico e também os jeeps que saem de San Bernardino e que levam turistas até Galipan. E há os caminhos, as estradinhas, as trilhas que vão serpenteando a montanha em um intrincado labirinto de possibilidades.


Além disso, há uma variedade de picos a escolher: o Ávila, o Ocidental, o Oriental, passando pela Silla (que de longe parece uma cela de cavalo), até se chegar ao Naigatá.


De lá de cima há a promessa de se ver o mar. Até se chegar lá em cima, há a possibilidade de se fazer paradas em cachoeiras ou laguinhos ou grutas. E por todo o caminho, muito esforço, que é sempre recompensado pela paisagem e pela sensação de vitória por um desafio cumprido: Chegar!


(Parei agora de escrever e fui até a varanda olhar a montanha. A tarde está caindo e há uma brisa suave. Um helicóptero passou bem perto da Cota Mil, deve ser de alguma rádio dando informações sobre o trânsito. Em breve vai ser noite e a avenida vai se iluminar.)

Há muitos caminhos para se chegar ao topo. E ... há muitos picos se a visitar. Cabe a cada um de nós escolher que paradas queremos fazer, que paisagens queremos fotografar e com que esforço vamos fazer a subida. Alguns querem caminhar. Outros só aceitam se for na corrida, pra chegar logo, pra chegar primeiro, porque o que importa é chegar.


Esses não param pra fotos. Não descobrem recantos. E se há um riacho, dão um salto e num pulo se livram daquele obstáculo, que é a possibilidade de molhar os pés na água gelada, mexer os dedos, molhar o rosto, descansar. Não. Um pulo e já se foram pra próxima etapa, porque o que importa é chegar.


O que me surpreende é o quanto de paisagem que eles deixam de ver em seu passo apertado, em sua corrida pro topo, não importa que pico... o que importa é chegar.


O que me intriga é que nessa corrida, não há espaço pro outro, pro parceiro de trilha. Que gente faz a gente perder tempo e... o que importa é chegar.


O que mais me entristece nessa escalada infinita é que estamos treinando os nossos meninos para a trilha mais curta, para o atalho mais fácil, para o pico mais baixo, porque... o que importa... é chegar.


(Voltei à varanda. Já é noite e decidi fotografar a Cota Mil para registrar esta praia às avessas. A cordilheira está bem nítida neste outono caribenho. Silvio chegou e foi para a varanda também. Me contou do seu dia... Olhamos a paisagem ...)


Há muitos caminhos para se chegar ao topo. Há muitos picos a se visitar. E é dever de cada um escolher... Ou será um direito? E será mesmo que o importante é chegar?




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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

SIMPLICIO (OU A ESTRELA PERFEITA)

video

Claudia combinou de nos apanhar de manhã para irmos conhecer a feirinha de artesanato que é montada aos sábados perto do Teatro Teresa Carreño. A idéia, mais que ver e comprar as artezanías, era conhecer as barraquinhas de buhoneros (camelôs) que vendem DVDs de filmes venezuelanos.

A Venezuela é um país caribenho e, portanto, afeito à pirataria. Em Caracas, pode-se comprar qualquer filme, digamos assim ... genérico, do o mais cult ao mais comercial, em lojas especializadas, a preços bem módicos e com direito a recibo. Filmes estrangeiros, é verdade, pois há uma espécie de acordo de cavalheiros que filme venezuelano deve ser preservado. Mas na feirinha do Teresa Carreño se encontra de tudo da produção local.

O grupo não era pequeno, pois Soraya mais Bragança e seus pais e o irmão se juntaram a nós. Deixamos o carro em Sabana Grande, tomamos o metro e duas estações depois já estávamos entre artesãos, pulseirinhas, discos de vinil de segunda mão, muitos CDs, incenso e as barracas dos DVDs. Claudia ia mostrando os clássicos criollos e nós íamos montando nosso acervo particular: comédias, dramas, policias, filmes históricos e documentários. O vendedor, conhecedor do cinema venezuelano, estava em êxtase diante de duas brasileiras que pediam sugestões e iam separando os filmes. Ao todo foram quatorze películas. Uma féria inesperada para o nosso camelô. Como bons venezuelanos, mais gente foi se juntando a nós, opinando, sugerindo. A barraca virou uma festa.

E, de noite, nos preparamos, Silvio e eu, para a nossa sessão de cinema, com direito a pipoca e tudo. Foi ele quem sugeriu que víssemos Simplicio, pois disse que estava com saudades do mar (Silvio tem dessas coisas... saudades do mar!?!) e como o filme se passa na Isla Margarita...

O filme, de 1978, foi dirigido por Franco Rubartelli. Recebeu um prêmio se não me engano em Cannes e seus atores não eram profissionais, era gente da ilha. Conta a história de Simplicio, um menino que foi abandonado pelos pais (um bandido e uma prostituta) e que passa a ser criado por um velho pescador.

A cópia não era lá essas coisas e o sotaque margaritenho dos atores só piorava a qualidade do som, mas com todas as dificuldades, Simplicio foi tomando conta da gente. O menino e o pescador, a morte do pescador, a decisão de ficar morando no barco pesqueiro abandonado, o novo amigo (uma gaivota ferida), a preocupação do padre com o menino sozinho, as discussões do menino com o padre e o sacristão, sua necessidade visceral de liberdade, as brigas com os outros meninos, os encontros com o fantasma do amigo, suas falas... seus silêncios. O fim eu não conto. Inesperado.

Mas o que mais me encantou foi a amizade incondicional entre o menino e o velho. Inicio e fim de vidas. História escrita e página em branco. Uma amizade de dois seres humanos que se contemplam e se completam em pura cumplicidade.

Me lembrei de vovô Claudio e eu (com uns cinco anos) comendo churrasquinho passado na farinha e tomando Mineirinho depois que ele me buscava na escola. Não conta nada pra sua mãe que a gente tá comendo isso, senão ela briga comigo. E eu solidária: Pode deixar, não conto nada... Vovô, conta de novo a história de quando um tubarão te raptou. O clímax dessa história, que ele me contava quase todas as tardes, era quando ele tinha de trabalhar na casa do tubarão varrendo a sala e as correntes marinhas empurravam o lixo de volta para dentro da casa. Um sofrimento. E eu, de olhos marejados, sempre buscava uma maneira de ele se livrar do suplício.

O menino e o pescador. Simplesmente... Simplicio.

A cena que agrego ao texto se passa no inicio do filme e é quando vamos entendendo o quão ligados eram os dois. Certamente o som é inaudível e, portanto, faço aqui uma transcrição de pé quebrado.

Simplicio se irrita e não entende porque os outros meninos implicam tanto. O velho lhe diz que é porque o menino anda sempre com ele. Os outros, na verdade, querem mesmo é agredi-lo (Por ser velho? Por ser podre? Por não ser como os demais?): No hagas caso...E eles, então, dançam, e nadam, e brincam e medem forças. Observam pelicanos.
O menino, ao sair do mar, diz que queria poder voar para visitar muitas estrelas. E o pescador lhe segreda, até encontrar a estrela perfeita. O menino lhe pergunta como é essa estrela e ele conta que é um lugar onde todos se queiram bem. E o menino acrescenta: como nós dois. O pescador fecha a cena com um sussurro de fala: Sin ninguna duda nuestra amistad es la estrella perfecta.

Amistad...

Penso agora em amigos com quem compartilho estrelas perfeitas. Distantes ou próximos, não importa. São esses amigos que me enchem de luz, que me fazem pensar que vale a pena seguir, que me presenteiam com um bem querer que é feito de mar. Queridos amigos em estrelas perfeitas, onde a qualquer hora se pode chegar.

Amistad...

E neste vôo de acasos, a que chamamos vida, são eles meu mapa, minha bússola e meu compasso. São eles que me indicam no espaço vazio, a rota e o rumo no caminho do Sol.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

ASSIM FALOU LEVÍ-STRAUSS



Silvio me avisou que teria de ir a Jose (onde vai ser construída a planta petroquímica) no dia seguinte. É um vôo curto, como uma ponte aérea, mas como moramos em Caracas, a mil metros de altura, e o aeroporto fica em Maiquetia (a beira do mar do Caribe) qualquer viagem de avião fica mais demorada, pela estrada e, dependendo do horário, pelos engarrafamentos. Silvio me disse que o carro viria buscá-lo por volta das quatro da manhã e, então, fiz o meu plano: que o carro chegasse, o apanhasse e fosse embora, que eu ia ficar dormindo.



Ouvi o despertador, o barulho de Silvio se arrumando, mas fiquei bem quietinha. Me negava a acordar àquela hora. Silvio começou a andar de um lado para o outro, com uma ansiedade absolutamente incomum nele. O celular tocou e ele começou um diálogo mais que conhecido para mim: ?Donde estás? ?Cerca de la Embajada? ?Conoces Unicasa? Entendi de imediato. Motorista novo e totalmente perdido. Para se chegar a nosso apartamento é preciso ser um experto em caminos verdes.


Decidiram, ele e o motorista, que deixariam o celular ligado e Silvio iria dando as orientações necessárias. O tempo passava, Silvio resfolegava e o motorista continuava perdido. Foi quando o sinal do celular caiu que eu decidi me levantar. Não tinha nada que fazer, mas pelo menos estaria solidária.


Quando conseguiram restabelecer contato, Silvio achou melhor descer e eu tive meus quinze segundos de fama. Fiquei na janela de vigia. Ao ver o carro chegando, fui eu que avisei ao motorista que ele estava no caminho certo e que Silvio já havia descido.


Depois deste acordar, diríamos... intempestivo, quem consegue voltar a dormir? Às quatro e meia da manhã, eu estava a toda.



Olhei a minha volta. Tudo em penumbra. Somente algumas luzes acesas na casa e o dia, que ainda era noite, iniciando timidamente o seu oficio de amanhecer. Silêncio.


Voltei para a cama e tentei terminar de ler o Trem Noturno para Lisboa. Um desafio para mim. Lento... Um livro estranhamente masculino. Isabel Allende disse que era bom, mas prefiro os livros dela. Decidi saltar algumas frases, depois parágrafos e quando saltei algumas páginas, achei melhor ir fazer um café.


A janela da cozinha estava entreaberta e entrava o friozinho da madrugada. O cheiro do café foi, aos poucos, aquecendo o ambiente.


De caneca em punho fui para a sala ver o amanhecer. A essa hora não dá para ficar no balcón. Silêncio.

E enquanto olhava a cidade ir aos poucos se acendendo (os caraquenhos acordam cedo para fugir das colas) e o céu se iluminando para mais um dia de seca (quem sabe hoje choveria?), pensei em Leví-Strauss...

Tristes Trópicos...

Quando cheguei a Caracas, achava que o Brasil ficava em outro continente e que estávamos a quilômetros e a séculos de distância. Essa América hispânica tão diferente de nós... Mas, enquanto o dia nascia, eu ia vendo que, no mapa de nossos destinos, compartilhamos os mesmos descaminhos. Ia entendendo que a nossa linha do equador fica bem abaixo do Texas.

Tristes Trópicos...

Essa África equivocada. Essa irônica Europa. Essa América feita de ouro, prata e sacrifícios. De todas as nossas pirâmides escorre sangue e sonho em onírica hemorragia.

Terra pecadoramente católica. Carnavalescamente caótica.

Vivemos um sincretismo de astúcias. Falamos demais. Prometemos demais. Esperamos demais. E trocamos por espelhos a nossa pedra mais preciosa...  a vida.




Tristes Trópicos...


E apesar disso dançamos e rimos e vamos a praia e fazemos amor e arte. Gingamos ao som de maracas, tambores, cuícas... Vamos ao sabor do vento... ou das tempestades. Mas vamos...

Talvez seja essa alegria descabida que nos faça possíveis.

Olhei a minha volta. Silêncio...

O café tinha acabado. O dia já havia amanhecido e eu, decididamente, devia estar dormindo.

Tristes Trópicos?

Talvez seja essa alegria descabida que nos faça possíveis... Talvez...



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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DIAS ALARANJADOS




Não sei se foram os dias muito corridos nestas últimas semanas ou talvez este outubro que escorreu entre os dedos numa velocidade de filme de ficção científica...



Ou quem sabe não foi esta seca fora de estação que faz com que já se anuncie em cadeia nacional um racionamento de água e de luz no país e que já me deixou tal qual sertaneja catando gotas em baldes há alguns dias atrás...

Ou talvez seja a proximidade de um novo Natal, novamente, uma data que não me cai muito bem já faz algum tempo...


Pode ter sido a ida ao Cementério (contra a vontade de Silvio), um mercado popular que fica em um bairro aqui de Caracas famoso pela violência. Um mercado onde se pode comprar de tudo a preços inacreditáveis. Uma babel de roupas e comidas. Uma mistura perfeita de Porto bello Road e Mercadão de Madureira...


Não sei ... O fato é que tenho andado cansada.

(Pode também ser a idade ... Que ninguém nos ouça.)


É um cansaço estranho que nem mesmo me sentar no balcón e ficar vendo a vista do Ávila consegue resolver. A cidade me parece mais congestionada e os venezuelanos um pouco mais impacientes, principalmente nos dias dos jogos da temporada de beisebol. (Ainda bem que os Leones estão ganhando!) Outro dia, só porque dei uma paradinha na rua, impedindo que todo o trânsito fluísse, uma coisinha rápida, já tinha um motorista atrás me gritando: !!!Arrecha!!! (Que seria algo como: Arrogante ou ... Fodona.) Me enfureci, me indignei, mas não sabia como responder ao insulto. De qualquer forma gritei: !!!Coño!!! Acho que funcionou, pois o motorista saiu ventando e fazendo gestos com as mãos que são conhecidos internacionalmente.


(Pode ser a idade sim ... Ando cansada e impaciente.)


Replantei minha hortinha há quase um mês: manjericão, salsa e chicória e nada das sementes brotarem. Faço tudo que meus sogros faziam quando estavam por aqui. Rego, ponho pra pegar sol, falo com a terra, suplico: Cresce. Nasce. E nada. Ou pior, estão saindo uns verdinhos que eu acho que é mato.


(É a idade... Ando muito impaciente.)


Podem também ser Los Dias Naranjos. Hoje, enquanto eu ouvia Contra Reloj, um de meus programas favoritos, ouvi uma entrevista com o produtor de um novo filme venezuelano sobre um de esses dias alaranjados. O filme trata de outras coisas, mas é verdade, tem amanhecido e entardecido mais cedo e o céu de seca assume esta cor sempre que o sol chega e se vai. Isto deve mexer com a gente.


(Não tem nada a ver com a idade.)


Tem a ver com o silêncio das tardes e também das manhãs. Por onde andam minhas amigas, las guacharacas,  que não as escuto ao amanhecer?

Está uma época estranha ... Não é a idade, não.


E aí me ponho em frente ao computador para escrever um novo texto. E não sai nada. Só a tela em branco me olhando de lado. Me desafiando... Vai arrecha. Escreve! E eu nada. Só olhando.


Quem sabe mais tarde, eu tento de novo. Sei lá, acho que o texto desta semana não sai não.

(in pblower-vistadelvila)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NOVAS ANTIGAS EXPERIÊNCIAS



Não tive muitos ônibus em minha vida, mas os que existiram foram inesquecíveis.



Me explico. Não sei se é assim com todo mundo, mas para mim, houve alguns ônibus (os seus trajetos, seus horários, as pessoas que usualmente encontrava neles) que me marcaram para sempre.


Não vou nem falar das recordações mais remotas da infância. A voz de papai dizendo: Vou pegar a amarelinha. Ou quando saía com mamãe e a gente comprava as fichas da lotação e depois as deixava cair em um vidro acestavado e fazia um barulho surdo ... Plom, plom, plom. As fichas tinham cores diferentes e como eu as desejava em silêncio. Eu costumava brincar de cobradora de ônibus com vovô Claudio e seria um sucesso ter as fichas para usar na brincadeira. Eu e as minhas idéias me menina.


Mas o primeiro ônibus em minha vida foi o 49. Um circular que nem sei se ainda existe em Niterói. Circulava de tal forma que quando se entrava no ônibus sempre se encontrava alguém conhecido. Como estava sempre cheio, ia todo mundo apertado, se esbarrando e os motoristas ainda davam umas freadinhas que empurravam as pessoas mais para frente, o que eles chamavam de freio de arrumação e aí dava para entrar mais gente. Pois foi o 49 o representante de um dos ritos de passagem em minha vida. Um dia mamãe me deu o dinheiro da merenda e o da passagem também e disse: Já tá na hora de você ir sozinha pra escola. Ali começou minha adolescência. (As coisas eram bem mais simples naquele tempo. Eu nem sabia, na época, que eu era uma pré-adolescente com grandes variações hormonais e com potencial de sofrer problemas existências que poderiam afetar minha psique para o resto da vida). Nada disso. Me senti uma adulta(!!), pegando o 49 sozinha.


Depois foram o 119 e o 154. Era meu primeiro ano de faculdade. Eu tomava a barca, fazia a travessia Niterói/Rio, aproveitava para estudar no percurso, pegava um dos ônibus para chegar à praia de Botafogo e, finalmente, chegar à universidade. Eu gostava mais do 154, era mais vazio. São inesquecíveis as manhãs de outono, quando passávamos pelo Aterro e uma névoa baixa, um resquício da noite, insistia em permanecer na paisagem. Era o ônibus correndo e a minha cabeça a mil... planos para futuras aulas, viagens desejadas, muitos poemas ... Todas as possibilidades da vida se abriam para mim naquelas manhãs.

No ano seguinte, decidi ir para a faculdade de 996. Não tomava mais a barca, atravessava a ponte, que, naquela época, eu achava engarrafada. (Que inocentes podem ser os jovens! Nos muitos anos que se seguiram enfrentei na ponte engarrafamentos antológicos). O 996 demorava e ainda demora tanto tempo para chegar a qualquer destino que se pode tomar decisões das mais profundas em seu percurso. Uma pessoa pode criar estratégias consistentes para mudar toda a sua vida entre a Praia de Icaraí e a Gávea. E foi no 996 que comecei a planejar minha primeira viagem à Europa e também fui visitada por inúmeros poemas inéditos. A cabeça ia encostada na janela, vento no rosto e as palavras fervilhando no cérebro.


Mas, no outro ano, comecei a ir para a faculdade de carro e me transformei no que sou ainda hoje, uma motorista compulsiva, um ente moderno feito de cabeça, tronco e rodas.


Tenho uma amiga que diz que tem dificuldades de andar de ônibus porque perdeu o timing entre tocar a campainha e sair no ponto desejado. Tenho o mesmo problema. Quanto tempo antes se deve avisar ao motorista que se quer saltar? Quando o ônibus está cheio então é um horror!



Passei muitos anos sem pisar em um ônibus e, portanto, quando cheguei a Caracas, nem cogitei de usar transporte público. Mesmo no tempo que fiquei sem carro por aqui, preferia contar com os táxis, que também são problemáticos, mas, pelo menos, eram meios mais conhecidos para mim.


O transporte público aqui deixa a desejar. Há o Metro (se diz métro) que é muito bom, moderno, mas que só atinge uma parte da cidade e está sempre, como eles dizem... full. Táxi não tem taxímetro e pode ser moderno e confortável ou absolutamente bandalha, em todos os sentidos. Há o Metrobus, excelente, mas que não chega onde moro. E, há os ônibus normais, menores e às vezes bem velhos: as camioneticas ou melhor dizendo ... las busetas. Tenho problemas para usá-las por muitas razões, mas acho que a principal é lingüística. Em bom espanhol, pegar um ônibus é tomar, ou pior, agarrar una buseta!!!!! Por mais cabeça aberta que eu seja, tenho dificuldades para perguntar as pessoas: Por favor, ?Donde se agarra la buseta para Bello Monte? Difícil, né?


Mas, naquele dia, Claudia, nossa professora, nos queria mostrar a cidade por outro ângulo. Sugeriu que fôssemos à Quinta Anaudo Arriba, a casa mais antiga de Caracas (1632) e que fica em San Bernardino, um bairro tradicional da cidade. Iríamos de carro até Sabana Grande, tomaríamos o Metro para o centro, tomaríamos um Metrobus até o Hotel Ávila, almoçaríamos no hotel e, depois, tomaríamos una camionetica (Claudia nunca diz buseta) até à Quinta.

No Metro, apesar de totalmente full, deu para eu matar saudades de Londres. O barulho do trem nos trilhos (caplac, caplac, caplac), o escuro e as luzes. Só não tinha o mind the gap. Eles não falam nada aqui. Cada um que cuide de si. No Metrobus, passando pelo centro, Ana e eu optamos por ficar em pé, perto do motorista, para ver todo o movimento da cidade. Chegamos ao hotel e o lugar era uma delícia. Um parque bem aos pés do Ávila. Almoçamos super bem e aí chegou a hora fatídica: !La hora de la buseta! Fiz de tudo para Claudia desistir. Propus pagar táxis para todas, mas ninguém me dava apoio e lá fomos nós para o ponto. Logo chegou uma camionetica que não era tão velha e não estava tão cheia. Não havia muita gente esperando na parada e, quando entramos, as amigas fizeram questão de me fotografar. Achei exótico o motorista estar acompanhado do Piu-Piu, mas mascotas são mascotas, não dá para questionar.


O trajeto foi rápido e, confesso, bastante interessante. A senhora sentada a meu lado, como boa venezuelana, imediatamente começou a conversar comigo. Me explicava onde estávamos e dizia das vantagens daquela buseta. Atendia a toda a região e era bastante barata.


Uns dois ou três pontos depois chegamos à Quinta e, depois da visita, regressamos ao ponto para o percurso de volta. A espera foi mais longa desta vez, mas valeu, pois a buseta que pegamos era super incrementada. Toda pintadinha de verde, com cortinas nas janelas, uma imagem de La Virgen de Coromoto e uma frase gravada junto ao vidro: En honor de mi hijo. Perguntamos a Claudia, mas nem ela sabia dizer se era uma homenagem póstuma ou uma celebração pelo nascimento do filho. Não importava. Ela também nos explicou que aquela buseta podia fazer transporte para outras cidades, pois tinha cortinas nas janelas, o que indicava que tinha autorização para tal.


E lá fomos nós, descendo e subindo ladeiras. As amigas fotografando, conversando, rindo, mexendo comigo. Mas, como o percurso era mais longo, foi todo mundo se calando e, de repente, me vi em uma cena antiga... a cabeça encostada no vidro, o vento no rosto, não havia mais planos de aula, nem mesmo o desejo de viagens, só meu olhar correndo a cidade, visitando o entardecer... E, aí, as palavras começaram a fervilhar...

(in pblower-vistadelvila)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

UM ANO DE BLOG



E já se passou um ano desde o primeiro texto. E já se passaram 54 textos! Quase três anos em Caracas e um ano cumplido, escrevendo o blog.

O primeiro texto, bem curtinho, uma tentativa de trabalho em um tipo de mídia tão novo para mim, dizia apenas:


Aqui começa a narrativa de minhas experiências e impressões vivendo junto à Cordilheira Del Ávila ou Warairarepano (El mar que se hizo tierra), a montanha mágica que abraça e observa a cidade de Caracas, Venezuela.
Será meu diário, algo que havia me prometido fazer há mais de um ano quando cheguei a Caracas. Só agora me disponho a fazê-lo. Espero que este registro possa ser para mim um bom companheiro de viagem!


E como tem sido parceiro e amigo este meu espaço virtual onde me conto e me encontro com amigos. Onde me aconchego, em meus silêncios, nas tardes de chuva; em minha alegria, quando o sol nasce iluminado; em minha eterna surpresa e deslumbramento, quando olho a Cordilheira da Costa e vejo, à distancia, o meu Cerro Ávila.


Na primeira apresentação do blog, eu informava que ele traria “Relatos de experiências e impressões de uma brasileira vivendo em Caracas, Venezuela.” E assim foi, no inicio, mas aí comecei a querer mais. Queria contar para além das fronteiras da cidade. Foi Eulália quem me propôs a mudança. Um dia ela me disse: "Amplia a apresentação" e então complementei: "E ainda ... eventuais poemas e outras histórias."


De um salto, cruzei a montanha e cai no Caribe e em um mar de possibilidades. De um salto, abri meu baú e me reencontrei com poemas escritos há tanto tempo. Uns ainda tão eu, outros, uma sombra de tempos passados (perdidos?).


A disciplina de trazer um novo texto a cada semana reativou em mim uma coisa que estava adormecida há tempos: o olhar atento ao detalhe, ao acaso, à surpresa. Olhar e ver. Ver para contar. E olhar para fora e para dentro. E perceber reflexos em espelhos, metais, estilhaços, vidraças ... Reflexos em profundas superfícies, como naquele texto sobre amigos:


Se amigo é casa, amizade, para mim, é uma vidraça muito transparente. E é no silêncio do vidro que se dá o encontro. Íntimo. Pleno. Muitas vezes, raro. Amizade que nos surpreende, nos emociona. Cúmplice superposição de almas.(in Amigo é Casa)

E ao longo deste ano, quantos encontros aconteceram. Lúcia e Bia, a quem fui apresentada via comentários e que depois encontrei pessoalmente numa deliciosa tarde no Rio. Elzinha, Marilia, Celina e Eulália, amigas/irmãs de tantos anos e que me visitam com íntima assiduidade. Mônica e seus comentários rápidos e precisos. Soraya, companheira de aventuras em terras caribenhas. Alzira (um gratissimo reencontro!) e suas observações feitas de contida emoção. E Cida Neves, que nunca aparece, mas que agora eu conto para vocês, me escreve (via email!) toda semana. O blog para nós serve de uma boa desculpa para matarmos saudades e colocarmos o assunto em dia.

Outros são invisíveis encontros. Como quando estou com alguém que me diz: "O texto desta semana foi ótimo!" Ou: "Leio seu blog toda semana."

 

E que gratas surpresas são as visitas esporádicas de Ricardo, Ana Cristina, Valéria e Vera, amigos de diferentes épocas. Queridos amigos.

Quando penso nos textos, descubro que há os grandes sucessos. Os preferidos. E em primeiríssimo lugar está Jo hablo Portinhol ou Jonathan, Mãos Sujas, a saga de um eletricista em minha casa.


Tive ímpetos de pedir para que parasse de se arrastar pelas paredes e fosse lavar as mãos, mas nem os meus dez anos de análise me possibilitaram tal gesto. Em que registro se pede para que o electricista, tão aguardado, pare tudo e vá lavar as mãos.

Minhas aventuras entre terremotos e enxurradas têm também boa receptividade, bem como meus esforços em academias de ginástica.

É um blog com muitas fotos, mas nenhum rosto. Cabe ao leitor desenhar seus personagens. E por falar em personagens... Não posso deixar de falar de Silvio, meu companheiro de todas as viagens e meu personagem mais que especial. Lembro que um dia ele ficou de mal comigo porque eu o comparei a Shrek em um dos textos. (Mas era verdade!)


Nas últimas semanas Silvio chegava do trabalho cada vez mais verde. Foi esverdeando aos poucos, mas sua cor de Shrek se intensificava a olhos vistos.(in Um Casal Argentino)


Mas também foi para ele que fiz um dos textos que mais gostei de escrever e que Valéria classificou como “narrative verse”. Fiquei super orgulhosa.


Depois ele olhou para mim e sorriu um sorriso que só ele sabe dar. Não se fez de rogado: “Viu? A pedra maior é a minha, porque sou maior e mais forte.” E eu sorri e me fiz de ofendida e incrédula, mas não disse nada ... Eu sabia que era verdade. Olhei para o nosso castelo. Nossas pedras unidas, o vento e o sol. Fotografei o momento com a câmera e meu coração.(in Amor)


Momentos. Meus momentos ... que compartilho com todos que me queiram ler.


Quando comecei o blog, acreditava que seria a autora de minhas histórias, mas que nada. Hoje, percebo que não passo de uma das muitas personagens. Quem me narra, me cria e me dá vida, é quem me observa, a uma certa distancia, e que, com a sabedoria das montanhas, pode perceber todas as minhas nuances. Minhas mudanças de tom e humor. Meus dias de arco-íris.


Um ano de blog... Agora sei quem é o meu autor e, como cúmplice, em um pacto de vida, me entrego em suas mãos e permaneço, pelo menos por mais um ano,  À Vista Del Ávila.



(in pblower-vistadelvila)


PS: Podem enviar comentários. Agora a configuração está modificada e os comentários entram. Pelo menos, espero que entrem.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

DA ILHA DE CAPRI AO SOL DA TOSCANA



Saimos cedo de Sorrento, mas ainda deu tempo de conhecermos uma fábrica de marchetaria com produtos lindíssimos. Nunca pensei que os trabalhos fossem feitos com lâminas de madeira tão finas. Pura arte.



De lá para o cais, rumo a Capri. O guia foi insistente: Temos que chegar à Gruta Azul antes dos japoneses, porque senão vamos esperar um tempão para entrar. Aquilo me soou quase como uma operação de guerra. Brasileiros, australianos e demais aliados prontos a enfrentar o inimigo comum. A estratégia deu certo. Chegamos ao catamarã antes dos japoneses, nos colocamos em melhores posições para ver a chegada à ilha e tomamos os barcos para a Gruta, sempre à frente dos demais. Apesar da corrida, chegar a Capri faz bem à alma. Tudo é simples e bonito. E há um burburinho, uma mistura de vozes, diferentes línguas, água batendo no cais e uma música...


Fomos costeando a ilha até chegarmos à entrada da Gruta. Aí sim, uma operação de guerra. Mar batendo, barquinhos à volta, barqueiros gritando e, num pulo, você se atira no barquinho e, agachado no chão, está pronto para enfrentar a entrada. Por sorte a maré estava baixa, se não, não dá para entrar. O barqueiro grita: uno, due, tre! Você abaixa a cabeça e tchibum! Está dentro da Gruta. A total escuridão explicita o azul do chão. Os barqueiros cantam, levantam os remos para que a gente possa ver a água brilhante caindo no mar. O SOLE MIO!!!!


Foi bom voltar. Depois de tanto tempo. Quando estive com Silvio na Itália, o clima não permitiu que fôssemos a Capri. Então, só agora, eu pude me encontrar, na escuridão do momento, com aquela moça cheia de sonhos que tinha ficado perdida por trinta anos na Gruta. Uma Patricia que já não existe hoje em dia. Nos entreolhamos e sorrimos uma para a outra. Molhamos juntas as mãos na água e juntas vimos gotas brilhantes caindo de nossos dedos. Ela não me falou de seus sonhos e eu não tive coragem de lhe contar que muitos não se realizaram. Quis me aconchegar em sua juventude... mas o barqueiro nos avisou que era hora de abaixar novamente a cabeça. Hora de sair. Voltar para o mar aberto. Uno, due, tre e tchibum. Como em um parto, voltamos à luz do dia. O SOLE MIO!!!!


Depois da Gruta, a ilha. Silvio parecia uma criança. Queria registrar tudo. Ele, que normalmente é tão preguiçoso, tomou a câmera da minha mão e saiu fotografando. É lindo ver como esse gaúcho de Santa Maria da Boca do Monte pertence ao mar.




Enquanto almoçávamos, o guia nos falou de um teleférico que chega ao topo da ilha. Eu já sabia, seria inevitável subir. Silvio também é apaixonado por teleféricos e topos de ilhas. No Canadá, subi em todos e, na Grécia, fiquei especialista em dirigir até o ponto mais alto de muitas das Cyclades.


A subida é linda. A ilha vai se espraiando diante de nós. Me lembrei de minha amiga Cida enquanto subia. Podia vê-la dizendo: Você é maluca! Ia vendo as escarpas, os limoeiros, o mar ao longe... e Silvio na cadeirinha de trás me gritando: Está filmando? Está filmando?





Depois tudo foi muito rápido: cais, Nápoles, ônibus, estrada, placas indicando a chegada a Roma. O hotel, um bom banho e o sono dos justos e dos exaustos.


No dia seguinte, como a agência de turismo continuava na frente do hotel, decidimos passar por lá para ver se havia outro passeio que pudéssemos fazer. Eu queria muito voltar a Florença. Queria que Silvio visitasse a cidade. E assim, foi. Escolhemos uma excursão de um dia. Uma visita rápida, mas daria para ele ver o sol da Toscana.



Dessa vez, o programa só não foi de índio, porque estávamos na Europa.


Bem cedinho, uma vanzinha veio nos buscar no hotel e nos levou a um ponto de encontro junto à Santa Maria Maior. Havia muitos turistas e ninguém sabia que ônibus nos levaria a Florença. Depois de entrar e sair de vários, sempre seguidos por um casal que falava uma língua de formiga (depois descobrimos que eram libaneses), conseguimos encontrar o veículo certo, mas aí o ônibus já estava cheio e só nos restou um dos últimos bancos, a cozinha mesmo. E por falar em cozinha, nossas companheiras eram três latino-americanas (depois descobrimos que eram hondurenhas) que fizeram no banco seu picnic particular. Cabe registrar um detalhe bastante relevante: era terminantemente proibido comer no ônibus. Como em um golpe de estado, as hondurenhas decidiram transgredir e abriram um farnel que ia desde leite e pão ao indefectível frango, não só assado como defumado também. O cheiro foi se espalhando como um rastilho de pólvora, como gás lacrimogêneo. Apesar da proibição, ninguém questionou o desayuno. Alguns se entreolhavam, como o casal de espanhóis a nossa frente, mas ninguém falou nada. Se elas só comessem dava para resistir, mas elas falavam. Falavam muiiiito! O tempo todo. E falavam alto, porque duas delas, já bem entradas em anos, eram surdas, com direito a aparelho e tudo. Me senti em plena embaixada brasileira em Tegucigalpa, cercada pelas forças rebeldes. Não tive coragem de perguntar se elas eram contra ou a favor de Zelaya.



E assim, entre frangos, iogurtes e conversas, atravessamos o Lazio, a Úmbria e chegamos a Florença.







De imediato, descobrimos que setembro é o mes em que a cidade é mais visitada. imaginem a praia de Copacabana em um dia de verão escaldante. Quando a gente diz: Nossa! Não tinha lugar nem para eu colocar meu pé na areia! Pois é, a única diferença era que ao invés de barracas, o que se via era uma sucessão de sombrinhas, jornais, bandeirinhas, ursinhos e tudo mais que os guias usam para se identificarem e não se perderem do grupo. Nossa! Não tinha lugar para eu botar o meu pé na praça, no museu, na rua, na igreja ... Não tinha lugar. Mas deu para a gente ver as coisas. Eu aguardava a reação de Silvio com relação à Catedral. Ele a olhou, olhou e me disse: Podiam lavar o mármore, né? Eu quis morrer. Mas gostou da porta do batistério, e do Davi, e da igreja de São Francisco. (Estavam todos bem limpinhos!)



Na hora da saída, a guia descobriu que faltava um espanhol. Todos se modilizaram, mas como é que se acha um espanhol no meio daquele caos? A esposa teve uma idéia. Ligar para o celular dele. Todos achamos que era a saída. E qual não foi a nossa frustração quando, logo depois de ela ligar, um tilintar em sua bolsa indicou que o celular do marido estava com ela. E nós lá, às margens do rio Arno, esperando. Silvio decidiu dissertar sobre a poluição do rio. Não sei o que está acontecendo com ele e essa fixação por limpeza. E foi então que alguém gritou que o espanhol tinha sido encontrado. Estávamos prontos para partir. Me lembrei das hondurenhas. Eu me negava a repetir a odisseia da ida. Como o casal libanes ia ficar em Florença, sobrou um lugar a nossa frente e eu decidi ocupá-lo. Não entendi por que Silvio preferiu ficar no banco de trás, bem a frente de nuestras hermanas. O ônibus saiu, a conversa começou, Silvio começou a roncar, e todos pareciam bem felizes. O idílio só foi interrompido quando ele decidiu abaixar o banco e espremeu a hondurenha mais velhinha. A senhora gritava:!Estoy apretada! !Apretada! Não sei se foi por vingança ou por sono mesmo, mas ele nem deu bola. Continuou a roncar.


E aos poucos, elas pararam de falar, Silvio parou de roncar e o sol foi se pondo nos campos. E eu, que tinha dado a viagem por perdida, fui desvendando o entardecer. Finalmente, como no filme, eu me sentia sob o sol da Toscana.







Chegamos a Roma a tempo de jantarmos no La Fontana, um restaurante que fica em uma das transversais da Via Venetto. No dia seguinte, um pouco de Roma, um tanto de descanso porque já era hora de voltar.


O carro veio nos buscar às quatro da manhã. O voo para Frankfurt saiu no horário e o de Frankfurt para Caracas também. Atravessamos o Atlântico e andamos seis horas e meia para trás. Chegamos em casa ainda dia, mas, para nós, já passava da meia noite.


E foi por causa do jetleg e da loucura do fuso horário que acordei no dia seguinte de madrugada. Amanhecia em Caracas e a minha frente, como a me saudar, lá estava o Ávila, se espreguiçando entre núvens e o nascer do sol.

(in pblower-vistadelvila)