quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

UM CASAL ARGENTINO

Nas últimas semanas Silvio chegava do trabalho cada vez mais verde. Foi esverdeando aos poucos, mas sua cor de Shrek se intensificava a olhos vistos. Quando eu tentava qualquer tipo de contato, sempre me respondia com um linguajar de ogro, em monossilábicos grunhidos, muitas vezes ininteligíveis. Eu, de minha parte, não assumi minha porção princezinha ogra, verde e feliz. Não. Estava muito mais para o burrinho da história. Sempre muito alegre e otimista, cantarolando, sapateando e repetindo: “Como posso te ajudar? Como posso te ajudar???” Nos raros momentos de lucidez, em que eu deixava de rodopiar a volta do ogro amado, ia lhe dizendo com muito cuidado: “Cê tá cansado. Tá precisando de férias. Ninguém é máquina.” Ao que ele respondia em fluente e exaltado ogrês: “Não dá para tirar férias agora! O projeto...”
Num sábado consegui tirá-lo de casa e fomos caminhar na redoma de Valle Arriba. Meu lugar de caminhada. Vista bonita, flores e um platô que me livra de subir e descer ladeiras. Entre um longo silêncio e outro, me disse que queria passar uma semana em Morrocoy. Leia-se, em um parque nacional no Caribe venezuelano. Um arquipélago com muitas ilhas pequenas e desertas, mangues e águas transparentes. Não pedi que repetisse a declaração. Cheguei em casa e ativei todos os meus contatos para organizar a viagem. Sonia havia me falado de uma pousada, La Ardileña, onde havia passado dias fantásticos.
Em uma semana estava tudo organizado. Contato feito com a pousada, reservas feitas e pagas. Só ainda as malas por fazer.
Uns dois dias antes da viagem, comecei a sentir dor de garganta, mas não fazia mal, nada que muito própolis contrabandeado do Brasil não pudesse curar. O importante era sair.
Na véspera da viagem, enquanto fazíamos as malas, discutimos por causa das datas de ida a Porto Alegre, onde sempre passamos as festas de fim de ano. Resultado: saímos no dia seguinte de Caracas, debaixo de muita chuva, eu muito gripada e ambos super emburrados.
O percurso, de mais ou menos quatro horas, foi feito em três etapas: a) chuva e silêncio sepulcral; b) tempo nublado e ainda sujeito a muitas intempéries e, finalmente c), com a chegada à pousada, muito sol e puro encantamento.
O lugar era lindo, as pessoas solícitas, nosso quarto aconchegante, águas tranqüilas. A tarde foi caindo e do cais, enquanto tomávamos um trago, podíamos ver o mar mudando de cor. De verdes e azuis, passou a vermelhos-por-de-sol, até chegar ao mais perfeito prata-luar.
O jantar foi servido também no cais e vimos que além dos hóspedes havia um casal que passeava entre as mesas, falava com todos. Com certeza eram os donos da pousada. Falaram com a gente também e pelo chiado forte do sotaque dava para ver que não eram venezuelanos. Conversa rápida, mas foi empatia à primeira vista.
Na noite seguinte, enquanto jantávamos, os dois foram se chegando e pediram permissão para sentar em nossa mesa. Em poucos minutos já estávamos íntimos. Andres e Clara eram argentinos, já muito entrados nos sessenta. Começamos falando da pousada e aos poucos a vida dos dois foi surgindo como um filme para nós. Trilha sonora de Piazzola. Andres falou de sua saída da Argentina na década de 70. Ele, professor universitário, fugindo de seu país e buscando exílio na Venezuela. Pobres professores, com o seu saber incômodo e inócuo. Nos contou de seus sonhos perdidos. Da angústia de estar longe de Clara e dos filhos pequenos que ficaram para trás até que ele conseguisse se firmar em Maracaibo. Falou de seus colegas professores venezuelanos que os ajudaram muito (coisa de venezuelano) e do medo que se sente quando se tem de começar do zero em terras estranhas. Clara foi se inserindo na narrativa e pontuava a fala do marido com seu olhar feminino. Contaram dos filhos que nasceram argentinos, mas que se criaram venezuelanos. Falaram da angústia da filha que, já adulta, teve de voltar a Buenos Aires para descobrir que já não pertencia àquela terra. E que hoje tem uma família e uma carreira de muito êxito na Espanha. Contaram do filho que vive entre a Venezuela e os Estados Unidos, excelente comerciante.
Andres, que tinha estado doente, pediu ao garçom para nos trazer um vinho tinto argentino e brindamos à vida. Clara comeu e bebeu pouco, não queria engordar.
Frases, sonhos, recordações iam se misturando. Ele começava uma história, ela a terminava. Às vezes, sorriam cúmplices. Saboreavam lembranças. O amor tem dessas estripulias.
Contaram que, quando ele se aposentou, tinham comprado aquele pedaço de terra para fazer a casa de encontro da família. Não tinham intenções comerciais. Era onde iriam ter os filhos e netos juntos. Clara nos disse do prazer de morar em um trailler por algum tempo, enquanto construíam a casa e Andres complementou, falando da noite de insônia do filho, quando surgiu a idéia de se fazer, ali, uma pousada.
De repente olhei para Silvio e percebi que o esverdeado da pele estava dando lugar a um bronzeado ainda tímido, mas com potencial.
Foi uma noite perfeita. Cheia de histórias e recordações. Contavam suas aventuras com a boca, mas a eloqüência estava no brilho em seus olhos. Vimos fotos, conhecemos os filhos e netos.
Os dias que se seguiram foram de muita praia, passeios de lancha, comidinhas maravilhosas. Andres e Clara estavam sempre ocupados. Estavam preparando a casa para o Natal, para os filhos e netos que logo chegariam. Silvio foi recuperando sua capacidade de articular palavras em português e espanhol e a cada dia ficava mais bronzeado.
Quando estávamos indo embora, Clara nos chamou para conhecer a parte da pousada que era a casa deles e me deu de presente velas aromatizadas. Para Silvio, Andres deu um vinho tinto, Malbec da região de Mendonça.(Bairrismo argentino?) Nos despedimos prometendo voltar logo.
Quando já estávamos saindo de carro, já no portão, ouvimos Andres gritar. “Voltem mesmo, mas lembrem, nada de falar de futebol!”

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

CAMINOS VERDES


Caracas tem um trânsito caótico. Em setembro de 2006, cheguei à cidade e, entre o final do MBA e o fechamento do ano na Cultura, tinha somente cinco dias para escolher onde morar. Como em uma maratona, vi mais de trinta apartamentos. A principio, para meu mais absoluto desespero, todos ENORMES! Depois de algumas negociações, apenas grandes!! E finalmente, o que eu queria, os más pequeños!!!!! A idéia de ficar sem empregada, em uma terra estranha e com uma casa muito grande me apavorava.
A logística era assim. A corretora me ligava e dizia que tinha X apartamentos para mostrar e saíamos pela cidade à caça da caverna ideal. Por uma coincidência que só depois pude entender, todos os apartamentos ficavam a mais ou menos vinte minutos do hotel. Ela também me dizia que chegaria em vinte minutos, o que nunca acontecia. Chegava atrasada e me pedia mil desculpas, mas la cola estaba muy fuerte! Ou, em bom português, tinha pegado um baita engarrafamento. Mas que eu não me preocupasse, pois em vinte minutos estaríamos no apartamento a visitar.
Só depois entendi que tudo em Caracas fica a mais ou menos vinte minutos de onde você está, o que não significa que você chegará neste tempo estipulado. Como em um texto típico da literatura latino-americana da década de 60, por puro realismo fantástico, esses vinte minutos vão se transformando em trinta, quarenta, uma hora, duas, às vezes. Tudo depende da cola!!!
Imaginem uma cidade de mais ou menos três milhões de habitantes com o litro de gasolina custando zero virgula zero nove de real (R$0,09). Todos têm carro. De todos os tipos. De SUVs das mais sofisticadas até umas coisas da década de 50, sem cor definida, com vidros de sacos plástico e portas amarradas com cordas. Sem falar nas busetas(!), os micro-ônibus que atendem a maior parte do transporte público. Além dos motorizados (os cachorros loucos da terra), e também os moto-taxis. Existem ônibus escolares, como os americanos, bem amarelinhos, e ambulâncias que reclamam aos berros, pedindo passagem- “Mantenga la derecha!!! Mantenga la derecha!!”. Acrescentem a isto poucos sinais de trânsito e muitas manifestações de estudantes, médicos, sem teto, com teto, professores, oposição, situação...
Uma coisa bonitinha que aprendi em minhas aulas de espanhol é como se diz “furar o sinal” em venezuelano - “Comer la luz”. Todos sofrem de indigestão!
As regras básicas de condução de autos também diferem um pouco das nossas. Por exemplo, sempre se deve falar ao celular enquanto se dirige!

Me perdi!!! Me perdi!!! Eu ia falar dos caminos verdes!

Agregue ao caos viário, o fato de que não há indicações de nome de ruas e buscar um retorno nas autopistas, caso você tenha errado o caminho, pode significar algumas horas de engarrafamento. Não conheço ninguém que tenha começado a dirigir na cidade e que não tenha se perdido, pelo menos, muitas vezes. E, juro, não é brincadeira, mas meu GPS queimou! Pode ter sido coincidência, mas queimou! Talvez de desespero!

Entram em cena, então, os caminos verdes. Atalhos perfeitos que se pode tomar pelas colinas. São um emaranhado de estradinhas que levam a todas as partes, sem que se precise cair nas autopistas. Estreitos, normalmente com uma linda vista do Ávila, vão bordeando os engarrafamentos. Ligam um bairro a outro. Uma necessidade a outra. Do supermercado ao dentista. Do escritório de Silvio à ginástica...

Atalhos perfeitos que tecem uma teia de desejos atendidos.

Que no próximo ano, todos possamos ter em mãos os nossos GPS (Gerenciador de Projetos e Sonhos) funcionando perfeitamente e que possamos encontrar, sempre, novos caminos verdes, com lindas paisagens que nos levem em segurança as nossas metas mais almejadas. Não custa nada também pendurar no retrovisor uma fitinha do Senhor do Bonfim... que é santo forte e poderoso para abrir caminhos!
FELIZ 2009!!!!!!!!

domingo, 14 de dezembro de 2008

FELIZ NAVIJAZZ!!!!!


É época de Natal, mas por aqui pouco se ouve de Jingle Bells. Os centros comerciais estão cheios. Há entre eles como que uma competição de presépios. Qual será o maior e o mais bonito? As pessoas, apesar da crise, continuam comprando os seus regalitos que, para as crianças daqui, são trazidos pelo Niño Jesus. Não há nada de White Christmas. Os venezuelanos têm canções de Natal próprias, os Aguinaldos (em toda a Venezuela) e também as Gaitas (um ritmo próprio, muito típico da cidade de Maracaibo).
É época de Natal e a cidade, depois de eleições tensas, depois de chuvas tão fortes que ainda mostram suas seqüelas, vai aos poucos se enfeitando para a celebração religiosa mais importante do país. Praças, ruas, centros comerciais, casas e apartamentos, dos mais simples aos mais sofisticados, vão recebendo novas luzes, novas cores. A cruz do Ávila já está acesa. ENORME!

Como já falei tantas vezes, quando cheguei a Caracas sabia muito pouco sobre a Venezuela. Fui aos poucos descobrindo suas nuanças, suas sutilezas. Sua música foi uma dessas surpresas. Comecei no Teatro Teresa Carreño, ouvindo a orquestra sinfônica juvenil da Venezuela. Depois disso, foram algumas indicações, novos CDs, shows com gente jovem fazendo música muito boa. C4Trio, Kapikua, e também, El Cuarteto, Luz Marina. Visitei as canções de Aldemaro Romero, um Tom Jobim daqui. O inventor da Onda Nueva, uma espécie de Bossa Nova caribenha. Tantos nomes, tantos ritmos. A nova música venezuelana é uma mistura de salsa, jazz, e até chorinho. Gostam de misturar. Gostam de resgatar tradições. Querem muito. Querem tudo.

Todo ano, no mês de dezembro, o Centro Cultural Corbanca oferece uma série de shows com músicos venezuelanos, muitos deles morando hoje nos Estados Unidos, chamada Navijazz. Foi em um desses shows, no Natal do ano passado, que conheci Huascar Barradas, um flautista maracucho (leia-se de Maracaibo), que sabe tudo de música clássica, tudo de jazz, tudo de música venezuelana, tudo de MÚSICA!

A sala estava lotada. Os músicos foram entrando no palco. Huascar e seus convidados tomando suas posições e aí, quando o show ia começar, ele se vira para a platéia e diz que aquela era uma festa de Natal e na casa dele em Maracaibo, festa de Natal tem criança à volta dos adultos fazendo... arte! (Maracuchos, como os baianos, não nascem, estréiam). E foi, sem nenhum pudor, chamando as crianças que estavam na platéia para que subissem ao palco. Em poucos minutos, o músico estava cercado de crianças de todas as idades, inclusive bebês de colo. Barradas tomou da flauta e começou a tocar e foi convidando a seus micro parceiros a tocar também. Teve de tudo, desde o básico do básico até gente muito bem preparada. Então, um menino de seus seis anos de idade puxou o casaco do flautista. Cochichou algo em seu ouvido. Queria cantar. Pára tudo! Pára tudo! Aos poucos foi se fazendo silêncio. As crianças, os músicos, a platéia, todos foram se calando e Huascar Barradas apresentou o pequeno anônimo cantor. E aí aquela figurinha começou a cantar, à capela. Voz pequena, bem rouquinha. Foi enchendo a sala com um aguinaldo tradicional de Caracas – El Niño Jesus Del Ávila. (Del Ávila viene / um niño chiquitico / bien arropadito / lleno de bondad / a los caraqueños / les trae de la sierra / la brisa serena / de la Navidad). Foi cantando, cantando e pouco a pouco a platéia começou também a cantar. A principio tímida, mas sua voz foi crescendo até que a sala era um canto único. Alto. Alegre e comovido.

Eu ainda não entendia as palavras. Não sabia o que era um aguinaldo. Não conhecia as muitas tradições da terra. Mas aquele canto inesperado, perdido naquela manhã de dezembro, estará para sempre comigo. Como um Natal particular. Uma celebração intima. Um Natal sem renas, sem neve de isopor, sem mil bons velhinhos clonados em plástico.
Apenas um menino anônimo, cantando uma canção antiga para embalar outro Niño.


FELIZ NAVIDAD!!!


domingo, 7 de dezembro de 2008

MINHA MONTANHA



video


El Ávila foi paixão a primeira vista. A principio, porém, eu pensava que era apenas uma paisagem muy hermoza que eu tinha tido a oportunidade de ver. Uma paisagem de que eu lembrava com saudades enquanto, no Rio, me preparava para viajar definitivamente para a Venezuela.
Logo que cheguei aqui, Rene me disse: “El Ávila es una montaña mágica!”. Aos poucos, fui descobrindo que aquelas palavras não eram apenas uma declaração de um caraquenho apaixonado por sua cidade. Elas tinham muito de verdade.


O que sempre me intrigou foi que, apesar de montanha, ela estava, está, constantemente em movimento. É mutante. Hipnotiza. Sou capaz de ficar horas olhando os seus verdes, suas sombras, suas nuances. Surpreendo-me com ângulos que surgem e desaparecem num estalar de dedos, em uma súbita mudança de luz. Ondula, respira, tem vida, está viva.

E não sou só eu que sofro desta atração. Quando Eulália esteve aqui, passou 10 dias acordando antes das 6 da manhã para ver, ter (?), os melhores ângulos da montanha. Tirou mais de 200 fotos só de amanheceres e, suspeito, que para tirar algumas, tenha levitado. Eulália é capaz dessas coisas. Outro dia também, recebi de Andréa uma foto em que ela registrou o momento exato em que a montanha se transformava em ilha. Solta nas nuvens. Pura magia!

El Ávila esconde o mar. Faz parte da cordilheira da costa. Depois do Ávila, é o Caribe. E no meio do caminho, ainda na montanha, há um pueblito chamado Galipán, onde se cultivam flores. Mas nada disso justificaria o encantamento da montanha. Nada disso explicaria sua constante obsessão por parir arcos-íris. A montanha está em todas as partes de Caracas. Observa e guarda a cidade. Está viva. Tem vida. Respira. Ondula.

Há mais ou menos um ano, em um resgate de valores históricos, em repúdio ao colonialismo espanhol, a montanha voltou a se chamar Warairarepano. Leia-se Guaraira-repano.

Na primeira parte da estada de Eulália por aqui, ela passava os dias me perguntando o que significava aquele nome indígena. Na segunda parte, como sua ex-aluna não encontrava a resposta e como boa professora que é, passou a se perguntar e não se cansou até que em uma noite deu um grito: “Achei!” Foi seu Eureka venezuelano. Warairepano – “la ola que vino de lejos” ou “la mar hecha tierra”. A onda que veio de longe ou o mar que se fez terra.

Conta a lenda que em tempos antigos não havia a montanha, tudo era plano e de longe se podia ver o mar. Um dia os indígenas da região ofenderam a Deusa do Mar e ela decidiu destruir completamente sua tribo. Então, fez surgir uma grande onda, a mais alta que já se tinha visto. Quando as pessoas viram aquela massa de água vindo em sua direção, ajoelharam-se e imploraram com fervor o perdão da Deusa. Imploraram muito, até que ela apiedou-se de suas almas, e, quando a onda estava preste a engolir a tudo e a todos, de súbito, fez com que ela se transformasse em uma montanha. Warairepano. El Ávila. Minha montanha.


E é nesse mar em suspenso onde deságuo os meus dias. Minhas alegrias. Minhas dúvidas. Meus desejos impossíveis. Navego meus sonhos tolos, nessa onda invisível. Cordilheira de espuma. Clorofila e maresia. Que a Deusa do Mar me proteja. Me proteja e me guie. Seja ela a minha bússola. Minha bússola e meu leme, nessa minha travessia. (Desculpem os que me lêem, mas isto cheira a poesia.)

sábado, 6 de dezembro de 2008

PROSA E POESIA


Uma coisa que me encanta em Caracas é que em cada Centro Comercial (não usam o termo Shopping), há pelo menos uma livraria. Era algo que, confesso, não esperava encontrar por aqui. Na verdade, descubro com muita vergonha que antes de vir para cá tinha alguns pré-conceitos sobre o lugar. “Poco a poco, paso a paso” (como diz uma antiga canção de Aldemar Romero... mas isso é outra história), fui descobrindo autores venezuelanos com textos lindíssimos. Uma narrativa sempre muito ágil e plástica. Especialmente os contistas. Claudia me tem apresentado muitos contistas. Talvez pela proximidade com a Colômbia e com seu expoente máximo, Gabo, o que se fez e se faz na Venezuela fique um tanto no desconhecido, pelo menos para nós brasileiros.

Foi numa tarde de chuva, bem caraquenha, enquanto Soraya e eu visitávamos uma livraria maravilhosa que existe no Trasnocho Cultural, no Paseo de Las Mercedes, que, entre ensaios, elucubrações, contos, trocas de idéias, livros antigos, fotos da cidade, encontrei La Noche Todavia. Um livro com poemas muito curtos, imagens enxutas, palavra seca e poderosa. Um livro de Ana Maria Del Re. Foi paixão a primeira vista. Fui me reencontrando com uma Poesia que eu sempre busquei escrever. Tirar da palavra o seu máximo em textos concisos e espaços em branco.

Alzira me escreveu um e-mail há pouco tempo e peço sua permissão para transcrever aqui uma parte dele.

Patrícia,
(...) Eu tenho seus livros de poesia e gosto muito. Eu amo poesia porque cresci ouvindo boa poesia. Aquela de Angra eu adoro! E vi logo o que ela tem em comum com a que você postou. Achei interessante fazer você recordá-la. Meu lazer e meu prazer é ler boas poesias.(...)

Beijo grande.

Alzira

Que enorme alegria eu tive em rever um antigo poema que eu havia escrito há mais de 15 anos. Obrigada, Alzira, pela delicadeza. Segue, portanto, para você, e para todos que gostem de boa Poesia, um pouco de Ana Maria Del Re. Textos no original em espanhol, acompanhados de precárias legendas em português.

Espacios
entre el silencio
y esta palavra incierta
que se fuga
(Espaços / entre o silêncio / e esta palavra incerta / que foge)


Un tiempo
de silencio
hiere
la memória
(Um tempo / de silêncio / fere / a memória)

A veces
parecen inmóviles
las nubes
aunque la errancia
es su destino
(Às vezes / parecem imóveis / as nuvens / ainda que a errância /seja seu destino)


En tiempos de escasez
aún nos queda
la abundancia
del verano
(Em tempos de escassez /ainda nos resta /a abundância / do verão)

E por fim este, que considero o mais lindo:

Quizás cuando pierde
sus hojas
el árbol
es más recio

(Talvez quando perca / suas folhas / a árvore / seja mais robusta)

Recebi, aqui em Caracas, um presente dos deuses. Eu, que não escrevia nada há quase 10 anos, voltei a escrever. Voltei a ter o prazer maior de enfrentar uma folha em branco e nela me inscrever. Para surpresa minha, nada de Poesia. Ela tem me rondado, mas não permite maiores intimidades. Que seja. Sou sua fiel e eterna seguidora. Por enquanto, continuo a contar minhas histórias, a me divertir e, espero, a divertir os que me lêem. No mais, como diz Ana Maria Del Re:

(...)
Entre deseos
y nostalgias
se nos pasa la vida
como el poema


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CAMBIE DE ESTACIÓN AHORA!!!

Toda a venezuelana é coquetta. Não conheço nenhuma que não tenha uma forte preocupação com sua aparência. Passear pelos shoppings de Caracas é esbarrar em uma sucessão de peluquerias, centros de estética, spas de mãos, unhas postiças, brilhos em jeans, bolsas, travessas para os cabelos, anéis, pulseiras. Muitos peitos de silicone, sandálias bem altas, maquiagem... Costumo dizer que elas são peruas, mas, na maioria das vezes, sabem quando parar. No limite máximo, mas sabem quando parar.
Dizem que aos quinze anos, ou a menina escolhe uma viagem para a Disney ou sua primeira cirurgia plástica. Não sei se é verdade, mas dizem.
É uma questão cultural. Querem ser bonitas, gostam de ser bonitas. Custe o que custar. Tanto em bolívares, quanto em esforço.

Minhas experiências estéticas nunca foram muito bem sucedidas. E com o avançar dos anos, vão se agravando cada vez mais. Por exemplo, hoje em dia só consigo me maquiar em Braille. Perdi 10 kilos depois da operação de vesícula e com o apoio de um endocrinologista de São Paulo maravilhoso... mas, já achei os kilos perdidos, depois de uma viagem ao Havaí. Tenho uma esteira em casa que, como toda esteira, é um excelente cabide.

Quando cheguei a Caracas, achei que ia mudar de hábitos. Tinha tempo para mim e logo encontrei um grupo de mulheres que adoravam caminhar. Elas, certamente, iriam me motivar. Eram alegres, vivazes, cheias de disposição. O máximo! Só que em pouco tempo descobri que todos os dias caminhavam uma média de 9 kilometros! Caminhavam é força de expressão, subiam e desciam colinas e mais colinas. Colinas é força de expressão. Pensem em uma mistura sádica de ladeiras de São Paulo e Barbacena e aí verão as colinas de Caracas.
Tenho amigas aqui que juram que não gostam de fazer exercícios, mas são chegadas a uma colininha. Uma delas um dia me convidou para irmos a um lugar chamado FIGURAS, uma espécie de ginásio onde se faz tudo em 30 minutos. Eu já conhecia o conceito do Brasil. Na verdade, este tipo de academia foi um de meus papers no MBA. Em teoria, eu sabia tudo do lugar.
A idéia é a seguinte: a) só mulheres podem entrar; b) busca-se além do exercício físico, a confraternização do grupo; c) a aluna passa por um circuito de 7 estações, entre máquinas e uns patamares pequenos, onde são feitos os exercícios mais aeróbicos. Tudo em 30 minutos e de 3 a 5 vezes por semana. O circuito é feito de forma sistemática e com uma música bem alta e de ritmo muito forte. De tempos em tempos, a aluna ouve uma voz que indica que ela deve mudar de aparelho. Decidi experimentar.

Minha amiga me disse que o melhor horário era por volta de 3 horas, quando não tinha ninguém e a instrutora ficaria como uma personal trainer da gente. Achei ótimo. Chegamos e realmente éramos só nós e uma instrutora, típica professora de ginástica: alegre, vivaz, cheia de disposição. Expliquei logo que sofria de pressão alta e que tudo devia ser bem devagar. Ela solidarizou-se. O primeiro dia foi moleza. A única coisa estranha era a voz, que robótica e levemente rouca, de tempos em tempos, como em um filme de ficção cientifica nos indicava: “Cambie de estación ahora”. Aquilo me fazia sentir como uma astronauta, saindo de uma estação lunar e indo para outra perto de Cripton.

Estar em uma academia me faz refletir muito sobre a vida... Cada experiência vivida lá é como uma viagem a uma nova estação interplanetária.


Estación 1:

Por que os espelhos das academias me lembram os da sala de espelhos de um circo? Côncavos ou convexos, grandes ou pequenos, sempre nos refletem de forma estranha, inesperada. Mexem definitivamente com a nossa auto-estima.

Estación 2:

Por alguma razão desconhecida, minha amiga nunca mais fez aulas, pelo menos não comigo. Teria ela sido abduzida? Ou a minha total falta de coordenação motora era por demais ridícula?

Estación 3:

Troquei de horário. Faço aulas agora de manhã. A instrutora da tarde era dócil e solidária. Agora, além da voz do robô, a instrutora também fala. Vai me dando ordens em espanhol. Rápidas e incisivas. Estala os dedos junto com as ordens. E eu não entendo nada. Fica uma mistura de descontrole motor com deficiência lingüística. Acho que a instrutora da manhã não gosta muito de mim.

Estación 4:

Voltei ao horário da tarde. Um dia cheguei e era eu e Deus fazendo o circuito. A instrutora dócil, estava bem dócil, tanto que nem ficou na sala. E lá estava eu, solta, entre aparelhos e tabladinhos (Não olho para os espelhos!) Até que chegou uma menina que não tinha mais que 17 anos. Chegou da escola. Não sei se era delírio meu, mas acho que ela ainda estava de uniforme. Começou a fazer o circuito. Não suava. E eu lá, roxa e me dissolvendo. Ela não olhava para mim. Eu fingia que não olhava para ela. Em um momento, ela me sorriu e eu resfoleguei: “Tengo 51 anos.” Ela me sorriu novamente. Nem todos os adolescentes são cruéis.

Estación 5:

De tarde tem sempre menos gente. Fico sozinha às vezes. Deus desistiu do circuito. Acho que a instrutora dócil desistiu de mim. Eu estava lá. Solita. O modelito era simples. Bermuda, uma camiseta grande e larga com o emblema do Liverpool, rabo de cavalo, roxa, suando. E elas chegaram. Sabem aqueles filmes de cowboy em que na rua vazia e poeirenta um grupo de renegados vem andando para enfrentar o xerife. Era assim. Como que em câmera lenta. Chegaram. Eram duas. Uma mais chique que a outra. Tinha uma com um top de oncinha! Ouvi ao longe aquela musiquinha assobiada do filme The Good, The Bad and The Ugly. E dava para ver perfeitamente quem era good, quem era bad e quem era ugly! Decidi mudar de horário. Voltei para o horário da manhã.

Estación 6:

A instrutora sorriu para mim. Acho que não tem nada a ver com a minha performance. Acho que tem a ver com o resultado das eleições. Ela me convidou para a confraternização natalina que vai haver no dia 29. Fico pensando como se pode confraternizar fazendo o circuito. Imagino que seja assim. A cada vez que o robô rouco diz “cambie de estación ahora” a gente troca presentes... come um tequeno ... saúda a companheira. Será que as renegadas vão participar?

Estación 7:

Apesar de tudo. Por incrível que pareça, adoro ir para a academia. Um dia, tenho certeza, chegarei à Enterprise e me encontrarei definitivamente com Doctor Spock!

(com carinho para Sonia e Elziane)


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O DIA EM QUE CARACAS DISSOLVEU!


A promessa de nos encontrarmos era antiga, mais de um ano. Três vizinhas: uma venezuelana, uma colombiana e uma brasileira. O encontro, no entanto, só rolou quando Yenny, a colombiana, avisou que estava voltando para Bogotá. O contrato do marido tinha acabado e, em dias, já estaria partindo com toda a família. Então não havia desculpas.

Eu tinha trazido umas camisetas da Aqualung de presente para eles e foi o gancho para marcamos um almoço na 5ª feira.

A saída demorou um pouco, pois venezuelanas e colombianas são chegadas a uma produção. Decidi me maquiar para não ficar muito fora de contexto. Depois de uma negociação, quase formal, acordamos que iríamos em meu carro e assim, com um atraso de uma hora devido às auto-produções, partimos.

A sugestão foi de Olga, nativa da terra, o Madeiros, um restaurante novo em Las Mercedes, a Vila Madalena de Caracas.

Quando chegamos, começou a chover. Havia uma cola para entrar. Há sempre colas. Olga explicou que era o último dia antes da lei seca devido às eleições e, como os venezuelanos são chegados a um teor alcoólico, era necessário aproveitar. Esperamos em um lobby super cheio e depois de uma breve negociação, bem diplomática, acordamos que iríamos tomar um whisky de espera.

Para nossa surpresa, a mesa foi logo liberada. E lá fomos nós, whisky em punho, escolher os pratos e a bebida. Neste momento o telefone tocou. Era Ricardo, marido de Yenny, avisando que ela teria de ir assinar um documento em um bairro próximo. O seu motorista chegou e ela saiu, prometendo voltar logo. Depois de uma negociação já bem mais informal, acordamos, Olga e eu, em almoçar, pois, em Caracas, chegar a um outro bairro, na hora do almoço, com chuva, pode de...mo...rarrrr.

Como iríamos comer salmão, acordamos, depois de uma negociação já quase íntima, que tomaríamos um vinho branco argentino. Durante o almoço, entre garfadas de um salmão perfeito e pequenos goles de um vinho ótimo, Olga foi me contando de sua vida, família, amores.

Detalhe: você nunca terá problemas de falta de assunto estando junto a um venezuelano.

Não sentimos o tempo passar, mas ele passou. Demorou mais de uma hora para Yenny voltar. Chegou faminta e encharcada. Neste momento chovia torrencialmente em toda a cidade.

Olga e eu ficamos mordiscando o final do almoço enquanto Yenny comia um prato maravilhoso de cochino e nos ia contando sobre sua vida, família e seu amor, que às vezes podia ser um pouco machista, como todos os maridos latino-americanos. (Claro, a exceção de Silvio que é um amorzinho.)

Detalhe: Confirmei que não é uma questão de nacionalidade. Mulheres gostam de falar.

Depois do whisky e de meia garrafa de vinho, a porção brasileira do grupo precisou ir ao banheiro. Ao voltar, a cena que me esperava deixaria Simon Bolívar profundamente emocionado. O tão desejado encontro de nações. As duas amigas, irmãs em idioma, choravam, já sentindo saudades mútuas. Lá fora, ruidosa, a chuva caia implacável.

Entre postres e gayoyos, foi mais uma hora e pouco e quando pedimos finalmente a conta, o garçom nos informou que o Guaire, o rio que corta a cidade e que estava a uma quadra de onde estávamos, havia transbordado. Depois de uma breve negociação, de amigas de infância, acordamos em pedir outra garrafa de vinho, desta vez tinto e italiano, e esperamos.

Como o tempo pode passar rápido quando se está em uma inundação!

Só vi que já passava das sete horas quando Silvio me ligou dizendo que já estava em casa e que estava chovendo muito. Ele não imaginava o quanto! Depois, foi Soraya que ligou, depois Márcia. Quando Bragança me ligou, já eram quase oito horas da noite. Ele estava preso em um gigantesco engarrafamento. Ele e a torcida do Grêmio, do Flamengo, dos Leones de Caracas ...

O vinho acabou e não houve jeito. Pedimos a conta. Olga, como nativa da terra, jurou que nos tiraria dali. Enquanto esperávamos o vallet trazer o carro, as pessoas diziam para que ninguém pegasse a autopista, pois estavam assaltando os motoristas. Tenho que confessar que me senti em casa, a um passo da Perimetral no Rio de Janeiro. Há coisas que são tão latino-americanas!!!

E assim, caímos no caos. Ainda chovia muito! Tudo parado, e não tive coragem de contar para minhas companheiras de infortúnio que não sabia se teria gasolina suficiente para chegar a qualquer parte.

Detalhe: Em Caracas, os postos de gasolina são muito poucos e eu estava a léguas do mais próximo.

Bragança ia se comunicando comigo, indicando caminhos. Eu ia falando com Silvio. Olga procurava os filhos adolescentes. Yenny procurava o marido para saber das filhas pequenas. E assim, as baterias dos celulares iam acabando, seguindo os passos da gasolina.

Los caminos verdes eram agora caminos negros, muito pouca luz, só os faróis. Neste momento reparei que Olga, a minha guia nativa, tinha adormecido!!!!! Yenny percebeu também e lá fomos nós, subindo pelo campo de golfe, fazendo e refazendo trajetos, subindo... subindo...

Quando cheguei à redoma de Valle Arriba me senti em casa. Terra conhecida. Mas... Tínhamos de subir muito mais e estava tudo parado. A gasolina, só no cheiro. A bateria do meu celular acabando. Avisei a Silvio que passaria a usar o celular do Brasil. Bragança me avisou que tinha conseguido chegar em casa. Foi neste momento que encontrei Paulo Sá com lama até as canelas. Estava indo a pé para casa. Tinha abandonado o carro.

Olga acordou! E eu abandonei toda e qualquer tentativa de ser diplomática. Como em um novo Tratado de Tordesilhas, informei a minhas parceiras hispano-americanas, em alto e bom portunhol, que eu ia dormir na casa de Soraya e que me seguissem os que fossem brasileiros. Como nenhuma das duas o são, ainda tive de levá-las até a casa da irmã de Olga.

Cheguei em casa de Soraya quase à meia-noite e fui recebida com um cafezinho especial. Coisa de amiga, muito amiga. Está se tornando uma tradição eu ser resgatada por Soraya.

No dia seguinte, fui acordada por Yenny às seis horas da manhã. Queria saber quando eu ia buscá-la. Acordei Soraya e Bragança que esperam que eu fique bastante tempo longe, talvez visitando a Patagônia. Abasteci o carro e fui buscar las muchachas.

Para quem conhece Caracas, só consegui chegar em casa por Colinas de Bello Monte, entre derrumbes e deslaves.

PS1: Previsão do tempo para hoje. Indícios de chuvas intensas ao cair da tarde!
PS2: Eleiçoes terminadas! Que vencidos e vencedores façam o seu trabalho!!!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

LA GORDA


Minha mãe era baixinha, magrinha, bem mignonzinha e por qualquer motivo, alegria, tristeza, ansiedade, zanga, fosse o que fosse, dizia peremptória: “Trancou. Não consigo comer nada!”. Puxei à família do meu pai.
Adoro comer, beber, visitar diferentes sabores, curiosidades culinárias. Sou o que se poderia chamar de uma turista gastronômica. Conhecer novos lugares para mim implica, necessariamente, em comer o que seu povo come. Beber o que ele bebe.
Meu primeiro contato com a comida criolla venezuelana foi no restaurante La Gorda que fica em um pueblito próximo a Caracas, chamado El Hatillo.
Uma aventura regada a muito papelón con limón.

EL HATILLO
(Caracas, novembro de 2008)

Eu continuava sem carro e saindo muito pouco. Os dias iam ficando cada vez mais longos e cada vez mais lindos. Estávamos no período de seca e cada amanhecer me reservava uma vista mais deslumbrante Del Ávila.

A vida seguia entre idas ao supermercado, assistir televisão e decifrar as notícias, conversar com Yanette e Lucy, ter aulas de espanhol e curtir o que eu não vivia há anos – o ócio absoluto.

Um dia, acordei decidida. Ia fazer uma aventura.

Já haviam me falado de El Hatillo, e me diziam que era como um mini Pelourinho. Decisão tomada. “É pra lá que eu vou. Vou almoçar por lá e conhecer o lugar.”

Durante a aula de espanhol, conversei com Claudia sobre meus planos e descobri coisas que poderia fazer por lá. As principais indicações: comer pabellón criollo e tomar papelón con limón no restaurante La Gorda e visitar uma loja de artesanato, chamada Hansi.

Aula terminada, começou o duro ofício de conseguir um táxi que me levasse ao pueblo.

O taxista era um rapazote caladão. Negociamos o preço da corrida (não há taxímetros na Venezuela) e os 30 mil bolívares acertados indicavam que o lugar não era muito distante.

Visitar um pueblito... Enquanto seguíamos para lá, minha imaginação fervilhava entre filmes de cowboy e as aventuras de O Zorro. Casas com pátios internos. Donzelas com mantilhas. Ruas empoeiradas onde bandidos e mocinhos duelavam. Mas quando voltava à realidade, continuava no perímetro urbano e, às vezes, engarrafada.

De repente o motorista falou: “Llegamos.” Parou o carro e olhou para mim. O diálogo que se seguiu foi uma mistura de portunhol e pânico. Eu estava em uma esquina de um subúrbio do Rio!?! Não podia ser ali. E o mini Pelourinho? E o Zorro? “Llegamos.”, repetiu o motorista.

Desci do carro. Não queria voltar para casa vencida. Tinha de haver pelo menos um restaurante onde eu comeria pabellón criollo e tomaria papelón con limón. Fosse isso o que fosse. Claudia não tinha me explicado o que eram as comidas, só disse os nomes. Tinha de haver uma loja de artesanato chamada Hansi. Fiz, então, o que qualquer pessoa de bom senso na Venezuela faria. Perguntei a um transeunte, talvez um primo distante do Sargento Garcia, onde ficava a praça Bolívar. Aqui, cada pueblo, pueblito, grande metrópole tem pelo menos uma praça Bolívar, ponto mais importante do local. A resposta veio rápida. “Arriba.” E me indicou uma ladeira. Subi.

Cheguei à praça Bolívar ao meio dia em ponto e a sol a pino. Encontrei o que procurava. Uma praça, com estátua ao centro, cercada de casas do século XIX. Coloridas, restauradas. A maioria transformada em lojas. Num lado da praça uma igrejinha linda. Pequena, mas imponente. Achei melhor procurar La Gorda, o que não foi tarefa difícil. Desci uma ladeira e lá estava o restaurante. Janelas abertas. Quase um botequim ... mas imponente.

Entrei e pedi com precária desenvoltura a bebida e a comida. E enquanto esperava os pratos me bateu o medo. Eu tinha acabado de retirar a vesícula, tinha pouco mais de um mês da operação. O calor era muito forte. E se a comida fosse muito condimentada como no México? E se a bebida tivesse um teor alcoólico maior que o da tequila? Vi a cena se concretizar. Eu saindo cambaleando do restaurante e caindo em decúbito dorsal aos pés da estátua de Bolívar. O herói em armas enfrentando os espanhóis e eu vencida por uma dose mais forte de pimenta. Só Claudia sabia que eu estava lá e até ligarem o nome da falecida ao desaparecimento de uma brasileira em Caracas poderia levar dias. Era a total indigência.

O mesonero me tirou do pesadelo. Trazia um copo grande com uma bebida bem gelada. “Buen provecho.” A sede superou o medo e eu bebi. Papelón con limón, ou suco de rapadura com muito gelo e limão. Não era alcoólico. Era doce e gelado. Logo depois, chegou o Pabellón criollo e me senti no jardim de infância. Carninha desfiada, arroz, feijão preto e bananinha frita. Só faltou o garçom me dar a comidinha na boca. Meu fígado em lágrimas agradecia.

Saí do restaurante me sentindo uma nativa. Criolla!!!!! Fui à loja Hansi. Visitei a Venezuela através de cerâmicas, palhas, frutas de madeira, santos, velas e presépios. Eles amam presépios, ou pesebres, como chamam por aqui. Ainda deu tempo de eu conversar com gente do lugar. Só não deu para eu tomar uma chicha perto da igreja. Um suco de arroz doce com leite condensado e canela. Eles adoram doces. O vendedor só chegaria às cinco horas da tarde.

Uma senhora me indicou onde tomar um táxi de volta a Caracas, e como havia ainda manifestações de estudantes em algumas das principais ruas e avenidas, o taxista pegou muitos caminos verdes até eu chegar em casa. Descobri um emaranhado de ruelas, caminhos, estradinhas que cortam as colinas da cidade. Atalhos perfeitos para se fugir dos engarrafamentos ... Bem, mas isto é uma outra história que fica para eu depois contar.



PS: Dia 23, eleições na Venezuela! Que seja um processo pacífico e que os resultados sejam muito bons para este povo que eu tanto amo!

domingo, 9 de novembro de 2008

ACONCHEGO




Passei os últimos dez dias entre o Rio, Niterói e São Paulo. Estava super preocupada de não conseguir escrever um texto novo para o blog. Afinal, é ponto de honra para mim. Toda 3ª feira há que se ter história nova pra contar.

Por incrível que pareça, depois de quase dois anos, ainda estou organizando coisas que ficaram no Brasil. Móveis, livros, louças, toda uma vida armazenada na Granero. E é um tal de arruma, vende, doa...

No meio da papelada, encontrei um poema que eu havia escrito há muito tempo atrás. Ainda não conhecia Silvio. Era um poema que falava de aconchego, estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. Tudo muito simples, mas pleno. Um lar.

Quando cheguei a Caracas, a casa ainda estava vazia. Silvio havia comprado uma mesa, a cama, mas quis me esperar para que pudéssemos juntos escolher as coisas. Arrumar a casa. E foi naquele espaço vazio, paredes brancas e sob o olhar Del Ávila que eu senti, em toda a sua intensidade, a plenitude de que falava o poema. Aquilo que eu buscava há tanto tempo. Um lar.


OLHO DE ÁGUA
(Niterói, 1993)

uma casa simples
como se feita de pólen
toda branca e amarela
uma casa simples
atrelada a um longe de estrada
uma casa

no quintal
um olho d’água
cajá-manga e ingazeiro

do lado de fora
cheiro de resedá

e no dentro
cheiro de café passado em saco de pano
um dedinho de chocolate
já adoçado no bule

uma casa repleta de sons de casa
tilintar de talheres
o quebrar de um copo
risos
crianças correndo ao redor da mesa
um galo ao amanhecer
pipoca estourando na panela
bica pingando
e o eloqüente silêncio que se faz
quando mãos se entrelaçam

uma casa
com cadeira de balanço
um livro muito grosso ao lado
cheio de histórias e mapas

pela janela
veria chegar os que me viessem
e no ilimitado da estrada
seguiria com os olhos
aqueles que me partissem

abria então a porta dos fundos
e lavava o salgado da boca
na água brotada da terra
translúcida flor
levantava os olhos
e via retalhos de sol se pondo
por trás da mangueira secular




PS: Decidi publicar este texto no domingo, pois como estou embarcando para Sampa, não sei se vou ter tempo de publica-lo enquanto estiver lá.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

AMIGO É CASA


Cida me deu o DVD quando estive no Rio. Depois, Carla e Elza me enviaram email com a entrevista de Simone e Zélia no Jô Soares. Tudo sobre o novo trabalho das duas cantoras. Algo tão distante e tendo tanto a ver com a vida aqui bem pertinho da cordilheira del Ávila.


Logo que cheguei a Caracas, recebi um email de Sueli em que ela falava da experiência de se viver fora de seu país de origem. Acho que ela não vai ficar zangada se eu transcrever parte do email:


"Oi Pat!Escrevo meio no impulso, depois de ler seu e-mail. Me lembrou mt o início da minha estada na Alemanha, mtas novidades, descobertas, sensações. Os cheiros são diferentes, os hábitos, as comidas, os mercados. É uma fase maravilhosa, não é? Às vezes é bom a gente se sentir um pouco como criança de novo, sabendo q há tanto a descobrir."


Sueli é sábia. Eu me sentia uma criança, com um brinquedo novo... MINHA VIDA!!! Mas e quando bate a saudade...


VIDRAÇAS

(Caracas/Rio de Janeiro, outubro de 2008)


Quando vim para a Venezuela, sabia que ficaria muito sozinha. Sabia que o trabalho de Silvio seria intenso, com poucas folgas, muito poucas férias. Era eu comigo mesma, e Deus, que não faz mal a companhia.

Cheguei, ainda sem carro, falando nada de espanhol e morando em uma região mais afastada. Para fazer qualquer coisa, de supermercado a ir ao cinema, de fazer as mãos a casos de emergência hospitalar, eu precisava encontrar estratégias.

Importante frisar que em Caracas não se toma táxi como se faz no Rio ou São Paulo, ou Porto Alegre, ou... Há táxis de cooperativas, mas não há endereços, números nas casas. Ligar para uma cooperativa e pedir um táxi dando apenas o endereço é algo quase risível, além do fato de que eles desligam antes de você terminar seu pedido de socorro. O que se deve fazer é dizer o nome do local onde você está. Por exemplo: ?Senor, puede buscarme en Torre Plaza? E se o motorista não souber onde fica o edifício, você começa um teste oral de espanhol de nível intermediário para cima. Só um dado, eu moro em um edifício chamado BEL-VE-DE-RE, e quem fala espanhol, não distingue os sons de B e V. Devo confessar que me babei várias vezes tentando dizer onde morava.

Cheguei também no momento em que a RCTV foi fechada e havia muitas manifestações nas ruas. Então, todos me aconselhavam a não sair de casa. !Era muy peligroso!

E assim fui ficando. Nunca pensei que pudesse desejar um carro com tanta intensidade. Qualquer carro. Ah... uma Romizeta...

Foi justamente neste momento em que começaram a surgir pessoas, venezuelanos, que passaram a me ajudar. Assim, sem mais nem menos. Inesperadamente.

Encontrei motoristas de táxi que, literalmente, me ajudavam a fazer as compras. Sugeriam temperos, questionavam o preço com os vendedores, reclamavam quando, por exemplo, eu não comprava tomates.

Encontrei Yanette e Lucy, minha conserje e minha passadeira que foram preenchendo minhas tardes e me ensinando coisas da cidade e muito espanhol. Yanette e Lucy, uma história à parte.

Encontrei Senhora Paulina, minha massagista, com quem eu conversava desde política a receitas típicas da Venezuela. Senhora Paulina, outra história à parte.

Encontrei Nancy e René, meus anjos da guarda.

Encontrei Senhor Nelson e Senhora Olga, meus vizinhos, que sempre me dão de aniversário, uma apresentação de mariachis, onde, somente, o Senhor Nelson canta, para grande frustração do cantor do grupo.

Encontrei um livreiro chileno que já havia morado no Brasil e com quem conversei por uma tarde inteira sobre literatura, história e que me apresentou uma biografia de Simon Bolívar maravilhosa.

Encontrei Claudia, nossa professora de espanhol, com quem aprendo muito mais do que falar a língua. Aprendo sobre a cultura, os lugares, as pessoas, os hábitos que fazem deste país, um lugar tão ... único.

Aos poucos, mais brasileiros foram chegando e novos encontros se deram. Muitos, especiais. Somos hoje uma confraria requintada... as IVs. Uma outra história à parte.

Novas casas. Novos amigos.

Para minha surpresa, tenho também sido procurada por amigos que não via há muitos anos. Reencontros, como presentes para uma criança. Miriam, que eu não encontrava desde o primário. Dora, minha querida amiga da faculdade.

Mas, muitas vezes, bate a saudade dos amigos (muitos parentes incluídos) que eu deixei no Brasil. A cada coisa nova que eu conheço, como, vivencio, faz com que me lembre de diferentes pessoas com quem gostaria muito de compartilhar minhas experiências. Ah, se fulano estivesse aqui!!!


Foi numa tarde de sábado que eu descobri que o Ávila, às vezes, me visitava. Invadia minha sala de estar. Sentava comigo nos sofás. Tudo dependendo da intensidade de luz, da hora do dia. A montanha e eu em um encontro mágico. Fusão, superposição de imagens. Eu no colo da montanha. Ela sentada em uma de minhas cadeiras. Profunda intimidade.

Se amigo é casa, amizade, para mim, é uma vidraça muito transparente. E é no silêncio do vidro que se dá o encontro. Íntimo. Pleno. Muitas vezes, raro. Amizade que nos surpreende, nos emociona. Cúmplice superposição de almas.

Vidraças... Tão fortes. Podem nos proteger das tempestades. Nos dias de calor, abrem-se de par em par para que possamos sentir o vento e a vida entrando casa adentro. Mas há que se ter cuidado, pois qualquer gesto brusco, inesperado, às vezes acidental, pode quebrá-las para sempre, irremediavelmente.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

JO HABLO PORTUNHOL!!!!!


Quando cheguei a Caracas, como boa brasileira, achava que falava um portunhol de altíssima qualidade. Afinal, espanhol e português, é uma questão de empatia ou de que time de futebol está jogando com a seleção brasileira.



Qual não foi minha surpresa e decepção quando descobri as agruras de se ser muda e surda. Apesar de todos os meus esforços, quando havia alguma comunicação, sempre muito precária, me perguntavam se eu era americana ou canadense. A resposta vinha rápida e angustiada: "No, No , no soy gringa!!! Soy Brasilena!!". Eles amam o Brasil, mas não conseguem entender nosso portunhol, pelo menos o meu era um fracasso.


Foi aí que conheci Jonathan... e também aprendi a prender la luz e a comprar enchufes!!!Depois de lerem o texto, tenho certeza, entenderão a foto.


JONATHAN, MÃOS SUJAS
(Caracas, Abril 2007)

Começar vida nova em um novo país. Chegar pela primeira vez à casa nova por volta da uma hora da manhã como oito malas, tendo começado a viagem doze horas antes. Niterói/Rio, passar pela ponte dizendo até logo para as duas cidades que me formaram, em que cresci e onde, ao longo dos anos, fui me descobrindo como pessoa. Depois São Paulo, Congonhas, Guarulhos, aeroporto Simon Bolivar, quase Caracas. Enfrentar uma grande cola por causa do feriado e de todos os caraquenhos que desceram para a praia. Chegar à cidade. Chegar ao apartamento. Ansiedade! Emoção! E um grande curto circuito no calentador que comprometeu parte da cozinha e todos os banheiros. Banho frio!
Por ser muito tarde, o banho foi mesmo frio, e a promessa de acordar e pedir apoio a Yanette, a conserje, era o que nos acalentava e aquecia. Mas o dia seguinte era Sábado de Aleluia, vacaciones! E ninguém trabalha. Menos ainda na Páscoa. Mesmo que a emergência seja grande. Um banho frio! Em todos os sentidos.
Como não há mal que sempre dure... a segunda-feira chegou, trazendo com ela Jonathan, el electricista. Era um rapaz franzino, mulato, de seus 22 anos. Apesar de ser da companhia de energia elétrica, não usava uniforme. Calças jeans, camiseta, tênis e um capacete como os usados pelos soldados nazistas na 2ª Guerra. "Buenos dias, senhora Patrícia. Soy Jonathan." "Buenos dias, Jonathan. Puede entrar", disse eu em bom portunhol.
Depositei nas mãos de Jonathan os meus futuros banhos quentes, relaxantes, revigorantes. As mãos de Jonathan...
Como não há bem que nunca se acabe ... as mãos de Jonathan eram as mãos mais sujas que eu já havia visto em toda a minha vida. Uma mistura complexa de graxa, muita fita isolante e o que mais se possa pensar que produza um tom negro absoluto, viscoso.
Tão logo Jonathan entrou na sala, percebi que tinha uma característica típica das pessoas que trabalham neste tipo de serviço. Uma característica universal, a meu ver. Encostava-se nas paredes. Minhas paredes brancas, novas, virgens.
Tive ímpetos de pedir para que parasse de se arrastar pelas paredes e fosse lavar as mãos, mas nem os meus dez anos de análise me possibilitaram tal gesto. Em que registro se pede para que o electricista, tão aguardado, pare tudo e vá lavar as mãos. Como se fala isso em bom espanhol, sem parecer uma criança de três anos, balbuciando pápá, mãmã, socuero! Jonathan, bá lavar sus manzitas, seu porquito!!!! E se fosse o registro errado? A pronúncia errada? E se ele, ofendido, partisse? Agüentei firme.
Ele, mãos sujas. Eu, mãos trêmulas.
O curto se mostrou mais grave do que parecia a principio, o que obrigou nosso especialista a passar por todos os cômodos da casa, deixando sua indelével marca por onde passava.
Eu começava quase a gostar das intervenções abstratas que iam surgindo nas paredes. Retas, sinuosas, obliquas... sempre negras. Pensava em Miró, em Kandinsky.
Jonathan me tirou de meu devaneio. Não dava para consertar. Tinha de sair e comprar novos enchufes, que descobri serem tomadas (e ainda por cima no masculino!), depois de muita mímica, de muita contorção das mãos imundas. Macho y hembra. Quanto devem custar tomadas macho e fêmea em Bolívares? Será que eu tenho dinheiro?
Depois de alguns cálculos, despediu-se deixando uma suave marca no hall de entrada... seu polegar esquerdo.
Voltou umas duas horas depois. Trazia todas as peças e a factura. Em menos de meia hora estava tudo resolvido.
Jonathan despediu-se com um aceno de cabeça. Ainda bem que não quis apertar minhas mãos! Deixou comigo o seu telefone, caso eu precisasse de algo.
Finalmente eu tinha água quente em casa. Nos banheiros e na cozinha. E foi com a água quente da cozinha e com MAS – Multiuso Limpia Todo- Espuma que rinde más! Que eu consegui limpar grande parte da sujeira das paredes.

Às vezes penso em Jonathan. Era jovem, solícito e tinha uma certa alegria ingênua no olhar. Podia ser meu filho. Mas se fosse ... Ah! Eu ia mandar ele lavar as mãos!






segunda-feira, 20 de outubro de 2008

ABRIL 2007 - ACABEI DE CHEGAR




Cheguei a Caracas em abril de 2007. Não tinha idéia do que ia me acontecer, mas já estava apaixonada pelo Ávila, a minha montanha mágica.

Tinha pensado em fazer um blog e o primeiro texto que fiz para abrir este blog, que só começa a funcionar quase 2 anos depois, foi justamente:


À VISTA DEL ÁVILA



(Caracas, abril de 2007)

O consultor era pálido e flácido, tinha o cabelo ralo e liso penteado para trás. Parecia um daqueles mágicos de circo de cidade do interior que sempre tira uma pomba encardida da cartola surrada. Vinha acompanhado por uma consultora Junior, baixote, mas com uma certa pose, e não fosse o terninho característico das consultoras, estivesse ela vestida em paetês verdes, certamente o consultor a teria serrado ao meio. Como um bom consultor, discorria longamente, com a segurança de quem não entende bem de nada, sobre a estrutura organizacional da empresa.
Foi nesta reunião em que pela primeira vez ansiei pela vista Del Ávilla.
Havia estado em Caracas alguns meses antes em preparativos para acompanhar Silvio em sua transferência para a Venezuela. Foi quando vi, plena, a silhueta da Cordilheira Del Ávilla, quase de relance, em uma rápida visita a um apartamento que estava para alugar. Em minutos me apaixonei por aquela paisagem.
Eu, nascida no Rio de Janeiro, criada em Niterói. Eu, que havia passado os meus quase cinqüenta anos de existência cercada pelo mar, estava enfeitiçada por aquele maciço de pedra que, em poucos minutos, era capaz de se metamorfosear em diferentes cores e texturas. Pedra, não pedra. Mimetismo com as nuvens. Meu impasse e meu desafio.
O consultor continuava a falar, de forma pausada e sem nenhuma paixão, como condiz aos sábios. E eu lá, vestida de Diretora, a pensar em minha vida. Por vinte e nove anos trabalhei no mesmo lugar. Sou de uma geração pré-revolução-japonesa-na-administração-das-empresas, pré-MBAs, pré-RHs estratégicos. Estava absolutamente exaurida. Cansada de fórmulas e de ler a vida e as realizações em planilhas de Excel. Um mundo feito de resultados e eu às voltas com dez anos de análise Lacaniana. Puro processo. Aquela sentada à mesa de reunião não era eu. Eu tinha outros sonhos, via a vida e o trabalho com outros olhos. Discordava. Pedra, não pedra. Mimetismo com as nuvens. Meu impasse, meu desafio.
Acredito que o consultor tenha continuado a falar ...


Cheguei a Caracas em uma 6ª feira da Paixão. Quase de madrugada. Trazia comigo oito malas. O que me foi possível trazer de avião. Ainda não sei se era meu espólio. Era o que dava para levar. Entramos pela porta dos fundos do apartamento. Silvio queria fazer suspense. Foi me mostrando cada peça: habitación principal, banhos, habitación de huespedes, sala de la família, cocina, até chegarmos à sala de estar e ao balcón. A minha frente, parte da cidade e a Cordilheira Del Ávilla. Negra, escondia-se na escuridão. Não se mostrou para mim naquela noite.
Sábado de Aleluia, bem cedo. Saí da cama pé ante pé para não acordar Silvio. Queria me encontrar com o Ávilla sozinha. Afinal, havia repetido tantas vezes, para tantas pessoas, que a vinda para Caracas não era por causa de Silvio, era uma viagem minha, própria, individual e intransferível. Era vencer meu impasse pessoal, enfrentar novos desafios. Encontrar comigo mesma e, se possível, retomar sonhos e projetos que haviam ficado trás, por trás de muito trabalho e de uma rotina insípida, cansativa e sem nenhuma perspectiva de mudança.
O céu fechado, cinza chumbo, não me deixava ver sequer a cidade, quanto mais a montanha. O Ávilla, tímido ou irreverente, não se mostrava. A paisagem era gris.
O sábado passou em se desfazer as malas, entender onde se estava, tentar comprar pequenas coisas para a casa, comer com amigos. Quando cheguei em casa, já passava das nove horas da noite e a paisagem do balcón era a mesma da noite anterior, uma parte da cidade iluminada e a Cordilheira envolta em silêncio. Escuridão.
Acordamos tarde no domingo de Páscoa. Tinha sido a viagem, o sábado corrido, a possibilidade de podermos dormir juntos, finalmente, de mãos dadas. Tudo fez com que a Páscoa começasse para nós quase na hora do almoço. E, então, não foi preciso sequer chegar ao balcón. Era dia de sol forte, céu azul, brisa como nas melhores tardes da Bahia. E lá estava, plena, como eu a havia visto de relance há tantos meses antes, a Cordilheira Del Ávilla. Diferentes cores. Ondulava. Ia se perdendo em um pouco de névoa até o infinito. Maciça. Minha finalmente. Não mais meu impasse. Meu desafio.



domingo, 19 de outubro de 2008

TO BE OR NOT TO BE A BLOGGER


Ainda estou aprendendo a lidar com este novo meio. Sou blogger de primeira viagem. Mas há um grande prazer em poder falar com as pessoas, antigos amigos, e, espero, muitos novos.

Ainda é cedo em Caracas e o Ávila está coberto por uma leve neblina.

sábado, 18 de outubro de 2008

À VISTA DEL ÁVILA




Aqui começa a narrativa de minhas experiências e impressões vivendo junto à Cordilheira Del Ávila ou Warararepano (El mar que se hizo tierra), a montanha mágica que abraça e observa a cidade de Caracas, Venezuela.


Será meu diário, algo que havia me prometido fazer há mais de um ano quando cheguei a Caracas. Só agora me disponho a fazê-lo. Espero que este registro possa ser para mim um bom companheiro de viagem!