quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

UM CASAL ARGENTINO

Nas últimas semanas Silvio chegava do trabalho cada vez mais verde. Foi esverdeando aos poucos, mas sua cor de Shrek se intensificava a olhos vistos. Quando eu tentava qualquer tipo de contato, sempre me respondia com um linguajar de ogro, em monossilábicos grunhidos, muitas vezes ininteligíveis. Eu, de minha parte, não assumi minha porção princezinha ogra, verde e feliz. Não. Estava muito mais para o burrinho da história. Sempre muito alegre e otimista, cantarolando, sapateando e repetindo: “Como posso te ajudar? Como posso te ajudar???” Nos raros momentos de lucidez, em que eu deixava de rodopiar a volta do ogro amado, ia lhe dizendo com muito cuidado: “Cê tá cansado. Tá precisando de férias. Ninguém é máquina.” Ao que ele respondia em fluente e exaltado ogrês: “Não dá para tirar férias agora! O projeto...”
Num sábado consegui tirá-lo de casa e fomos caminhar na redoma de Valle Arriba. Meu lugar de caminhada. Vista bonita, flores e um platô que me livra de subir e descer ladeiras. Entre um longo silêncio e outro, me disse que queria passar uma semana em Morrocoy. Leia-se, em um parque nacional no Caribe venezuelano. Um arquipélago com muitas ilhas pequenas e desertas, mangues e águas transparentes. Não pedi que repetisse a declaração. Cheguei em casa e ativei todos os meus contatos para organizar a viagem. Sonia havia me falado de uma pousada, La Ardileña, onde havia passado dias fantásticos.
Em uma semana estava tudo organizado. Contato feito com a pousada, reservas feitas e pagas. Só ainda as malas por fazer.
Uns dois dias antes da viagem, comecei a sentir dor de garganta, mas não fazia mal, nada que muito própolis contrabandeado do Brasil não pudesse curar. O importante era sair.
Na véspera da viagem, enquanto fazíamos as malas, discutimos por causa das datas de ida a Porto Alegre, onde sempre passamos as festas de fim de ano. Resultado: saímos no dia seguinte de Caracas, debaixo de muita chuva, eu muito gripada e ambos super emburrados.
O percurso, de mais ou menos quatro horas, foi feito em três etapas: a) chuva e silêncio sepulcral; b) tempo nublado e ainda sujeito a muitas intempéries e, finalmente c), com a chegada à pousada, muito sol e puro encantamento.
O lugar era lindo, as pessoas solícitas, nosso quarto aconchegante, águas tranqüilas. A tarde foi caindo e do cais, enquanto tomávamos um trago, podíamos ver o mar mudando de cor. De verdes e azuis, passou a vermelhos-por-de-sol, até chegar ao mais perfeito prata-luar.
O jantar foi servido também no cais e vimos que além dos hóspedes havia um casal que passeava entre as mesas, falava com todos. Com certeza eram os donos da pousada. Falaram com a gente também e pelo chiado forte do sotaque dava para ver que não eram venezuelanos. Conversa rápida, mas foi empatia à primeira vista.
Na noite seguinte, enquanto jantávamos, os dois foram se chegando e pediram permissão para sentar em nossa mesa. Em poucos minutos já estávamos íntimos. Andres e Clara eram argentinos, já muito entrados nos sessenta. Começamos falando da pousada e aos poucos a vida dos dois foi surgindo como um filme para nós. Trilha sonora de Piazzola. Andres falou de sua saída da Argentina na década de 70. Ele, professor universitário, fugindo de seu país e buscando exílio na Venezuela. Pobres professores, com o seu saber incômodo e inócuo. Nos contou de seus sonhos perdidos. Da angústia de estar longe de Clara e dos filhos pequenos que ficaram para trás até que ele conseguisse se firmar em Maracaibo. Falou de seus colegas professores venezuelanos que os ajudaram muito (coisa de venezuelano) e do medo que se sente quando se tem de começar do zero em terras estranhas. Clara foi se inserindo na narrativa e pontuava a fala do marido com seu olhar feminino. Contaram dos filhos que nasceram argentinos, mas que se criaram venezuelanos. Falaram da angústia da filha que, já adulta, teve de voltar a Buenos Aires para descobrir que já não pertencia àquela terra. E que hoje tem uma família e uma carreira de muito êxito na Espanha. Contaram do filho que vive entre a Venezuela e os Estados Unidos, excelente comerciante.
Andres, que tinha estado doente, pediu ao garçom para nos trazer um vinho tinto argentino e brindamos à vida. Clara comeu e bebeu pouco, não queria engordar.
Frases, sonhos, recordações iam se misturando. Ele começava uma história, ela a terminava. Às vezes, sorriam cúmplices. Saboreavam lembranças. O amor tem dessas estripulias.
Contaram que, quando ele se aposentou, tinham comprado aquele pedaço de terra para fazer a casa de encontro da família. Não tinham intenções comerciais. Era onde iriam ter os filhos e netos juntos. Clara nos disse do prazer de morar em um trailler por algum tempo, enquanto construíam a casa e Andres complementou, falando da noite de insônia do filho, quando surgiu a idéia de se fazer, ali, uma pousada.
De repente olhei para Silvio e percebi que o esverdeado da pele estava dando lugar a um bronzeado ainda tímido, mas com potencial.
Foi uma noite perfeita. Cheia de histórias e recordações. Contavam suas aventuras com a boca, mas a eloqüência estava no brilho em seus olhos. Vimos fotos, conhecemos os filhos e netos.
Os dias que se seguiram foram de muita praia, passeios de lancha, comidinhas maravilhosas. Andres e Clara estavam sempre ocupados. Estavam preparando a casa para o Natal, para os filhos e netos que logo chegariam. Silvio foi recuperando sua capacidade de articular palavras em português e espanhol e a cada dia ficava mais bronzeado.
Quando estávamos indo embora, Clara nos chamou para conhecer a parte da pousada que era a casa deles e me deu de presente velas aromatizadas. Para Silvio, Andres deu um vinho tinto, Malbec da região de Mendonça.(Bairrismo argentino?) Nos despedimos prometendo voltar logo.
Quando já estávamos saindo de carro, já no portão, ouvimos Andres gritar. “Voltem mesmo, mas lembrem, nada de falar de futebol!”

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

CAMINOS VERDES


Caracas tem um trânsito caótico. Em setembro de 2006, cheguei à cidade e, entre o final do MBA e o fechamento do ano na Cultura, tinha somente cinco dias para escolher onde morar. Como em uma maratona, vi mais de trinta apartamentos. A principio, para meu mais absoluto desespero, todos ENORMES! Depois de algumas negociações, apenas grandes!! E finalmente, o que eu queria, os más pequeños!!!!! A idéia de ficar sem empregada, em uma terra estranha e com uma casa muito grande me apavorava.
A logística era assim. A corretora me ligava e dizia que tinha X apartamentos para mostrar e saíamos pela cidade à caça da caverna ideal. Por uma coincidência que só depois pude entender, todos os apartamentos ficavam a mais ou menos vinte minutos do hotel. Ela também me dizia que chegaria em vinte minutos, o que nunca acontecia. Chegava atrasada e me pedia mil desculpas, mas la cola estaba muy fuerte! Ou, em bom português, tinha pegado um baita engarrafamento. Mas que eu não me preocupasse, pois em vinte minutos estaríamos no apartamento a visitar.
Só depois entendi que tudo em Caracas fica a mais ou menos vinte minutos de onde você está, o que não significa que você chegará neste tempo estipulado. Como em um texto típico da literatura latino-americana da década de 60, por puro realismo fantástico, esses vinte minutos vão se transformando em trinta, quarenta, uma hora, duas, às vezes. Tudo depende da cola!!!
Imaginem uma cidade de mais ou menos três milhões de habitantes com o litro de gasolina custando zero virgula zero nove de real (R$0,09). Todos têm carro. De todos os tipos. De SUVs das mais sofisticadas até umas coisas da década de 50, sem cor definida, com vidros de sacos plástico e portas amarradas com cordas. Sem falar nas busetas(!), os micro-ônibus que atendem a maior parte do transporte público. Além dos motorizados (os cachorros loucos da terra), e também os moto-taxis. Existem ônibus escolares, como os americanos, bem amarelinhos, e ambulâncias que reclamam aos berros, pedindo passagem- “Mantenga la derecha!!! Mantenga la derecha!!”. Acrescentem a isto poucos sinais de trânsito e muitas manifestações de estudantes, médicos, sem teto, com teto, professores, oposição, situação...
Uma coisa bonitinha que aprendi em minhas aulas de espanhol é como se diz “furar o sinal” em venezuelano - “Comer la luz”. Todos sofrem de indigestão!
As regras básicas de condução de autos também diferem um pouco das nossas. Por exemplo, sempre se deve falar ao celular enquanto se dirige!

Me perdi!!! Me perdi!!! Eu ia falar dos caminos verdes!

Agregue ao caos viário, o fato de que não há indicações de nome de ruas e buscar um retorno nas autopistas, caso você tenha errado o caminho, pode significar algumas horas de engarrafamento. Não conheço ninguém que tenha começado a dirigir na cidade e que não tenha se perdido, pelo menos, muitas vezes. E, juro, não é brincadeira, mas meu GPS queimou! Pode ter sido coincidência, mas queimou! Talvez de desespero!

Entram em cena, então, os caminos verdes. Atalhos perfeitos que se pode tomar pelas colinas. São um emaranhado de estradinhas que levam a todas as partes, sem que se precise cair nas autopistas. Estreitos, normalmente com uma linda vista do Ávila, vão bordeando os engarrafamentos. Ligam um bairro a outro. Uma necessidade a outra. Do supermercado ao dentista. Do escritório de Silvio à ginástica...

Atalhos perfeitos que tecem uma teia de desejos atendidos.

Que no próximo ano, todos possamos ter em mãos os nossos GPS (Gerenciador de Projetos e Sonhos) funcionando perfeitamente e que possamos encontrar, sempre, novos caminos verdes, com lindas paisagens que nos levem em segurança as nossas metas mais almejadas. Não custa nada também pendurar no retrovisor uma fitinha do Senhor do Bonfim... que é santo forte e poderoso para abrir caminhos!
FELIZ 2009!!!!!!!!

domingo, 14 de dezembro de 2008

FELIZ NAVIJAZZ!!!!!


É época de Natal, mas por aqui pouco se ouve de Jingle Bells. Os centros comerciais estão cheios. Há entre eles como que uma competição de presépios. Qual será o maior e o mais bonito? As pessoas, apesar da crise, continuam comprando os seus regalitos que, para as crianças daqui, são trazidos pelo Niño Jesus. Não há nada de White Christmas. Os venezuelanos têm canções de Natal próprias, os Aguinaldos (em toda a Venezuela) e também as Gaitas (um ritmo próprio, muito típico da cidade de Maracaibo).
É época de Natal e a cidade, depois de eleições tensas, depois de chuvas tão fortes que ainda mostram suas seqüelas, vai aos poucos se enfeitando para a celebração religiosa mais importante do país. Praças, ruas, centros comerciais, casas e apartamentos, dos mais simples aos mais sofisticados, vão recebendo novas luzes, novas cores. A cruz do Ávila já está acesa. ENORME!

Como já falei tantas vezes, quando cheguei a Caracas sabia muito pouco sobre a Venezuela. Fui aos poucos descobrindo suas nuanças, suas sutilezas. Sua música foi uma dessas surpresas. Comecei no Teatro Teresa Carreño, ouvindo a orquestra sinfônica juvenil da Venezuela. Depois disso, foram algumas indicações, novos CDs, shows com gente jovem fazendo música muito boa. C4Trio, Kapikua, e também, El Cuarteto, Luz Marina. Visitei as canções de Aldemaro Romero, um Tom Jobim daqui. O inventor da Onda Nueva, uma espécie de Bossa Nova caribenha. Tantos nomes, tantos ritmos. A nova música venezuelana é uma mistura de salsa, jazz, e até chorinho. Gostam de misturar. Gostam de resgatar tradições. Querem muito. Querem tudo.

Todo ano, no mês de dezembro, o Centro Cultural Corbanca oferece uma série de shows com músicos venezuelanos, muitos deles morando hoje nos Estados Unidos, chamada Navijazz. Foi em um desses shows, no Natal do ano passado, que conheci Huascar Barradas, um flautista maracucho (leia-se de Maracaibo), que sabe tudo de música clássica, tudo de jazz, tudo de música venezuelana, tudo de MÚSICA!

A sala estava lotada. Os músicos foram entrando no palco. Huascar e seus convidados tomando suas posições e aí, quando o show ia começar, ele se vira para a platéia e diz que aquela era uma festa de Natal e na casa dele em Maracaibo, festa de Natal tem criança à volta dos adultos fazendo... arte! (Maracuchos, como os baianos, não nascem, estréiam). E foi, sem nenhum pudor, chamando as crianças que estavam na platéia para que subissem ao palco. Em poucos minutos, o músico estava cercado de crianças de todas as idades, inclusive bebês de colo. Barradas tomou da flauta e começou a tocar e foi convidando a seus micro parceiros a tocar também. Teve de tudo, desde o básico do básico até gente muito bem preparada. Então, um menino de seus seis anos de idade puxou o casaco do flautista. Cochichou algo em seu ouvido. Queria cantar. Pára tudo! Pára tudo! Aos poucos foi se fazendo silêncio. As crianças, os músicos, a platéia, todos foram se calando e Huascar Barradas apresentou o pequeno anônimo cantor. E aí aquela figurinha começou a cantar, à capela. Voz pequena, bem rouquinha. Foi enchendo a sala com um aguinaldo tradicional de Caracas – El Niño Jesus Del Ávila. (Del Ávila viene / um niño chiquitico / bien arropadito / lleno de bondad / a los caraqueños / les trae de la sierra / la brisa serena / de la Navidad). Foi cantando, cantando e pouco a pouco a platéia começou também a cantar. A principio tímida, mas sua voz foi crescendo até que a sala era um canto único. Alto. Alegre e comovido.

Eu ainda não entendia as palavras. Não sabia o que era um aguinaldo. Não conhecia as muitas tradições da terra. Mas aquele canto inesperado, perdido naquela manhã de dezembro, estará para sempre comigo. Como um Natal particular. Uma celebração intima. Um Natal sem renas, sem neve de isopor, sem mil bons velhinhos clonados em plástico.
Apenas um menino anônimo, cantando uma canção antiga para embalar outro Niño.


FELIZ NAVIDAD!!!


domingo, 7 de dezembro de 2008

MINHA MONTANHA



video


El Ávila foi paixão a primeira vista. A principio, porém, eu pensava que era apenas uma paisagem muy hermoza que eu tinha tido a oportunidade de ver. Uma paisagem de que eu lembrava com saudades enquanto, no Rio, me preparava para viajar definitivamente para a Venezuela.
Logo que cheguei aqui, Rene me disse: “El Ávila es una montaña mágica!”. Aos poucos, fui descobrindo que aquelas palavras não eram apenas uma declaração de um caraquenho apaixonado por sua cidade. Elas tinham muito de verdade.


O que sempre me intrigou foi que, apesar de montanha, ela estava, está, constantemente em movimento. É mutante. Hipnotiza. Sou capaz de ficar horas olhando os seus verdes, suas sombras, suas nuances. Surpreendo-me com ângulos que surgem e desaparecem num estalar de dedos, em uma súbita mudança de luz. Ondula, respira, tem vida, está viva.

E não sou só eu que sofro desta atração. Quando Eulália esteve aqui, passou 10 dias acordando antes das 6 da manhã para ver, ter (?), os melhores ângulos da montanha. Tirou mais de 200 fotos só de amanheceres e, suspeito, que para tirar algumas, tenha levitado. Eulália é capaz dessas coisas. Outro dia também, recebi de Andréa uma foto em que ela registrou o momento exato em que a montanha se transformava em ilha. Solta nas nuvens. Pura magia!

El Ávila esconde o mar. Faz parte da cordilheira da costa. Depois do Ávila, é o Caribe. E no meio do caminho, ainda na montanha, há um pueblito chamado Galipán, onde se cultivam flores. Mas nada disso justificaria o encantamento da montanha. Nada disso explicaria sua constante obsessão por parir arcos-íris. A montanha está em todas as partes de Caracas. Observa e guarda a cidade. Está viva. Tem vida. Respira. Ondula.

Há mais ou menos um ano, em um resgate de valores históricos, em repúdio ao colonialismo espanhol, a montanha voltou a se chamar Warairarepano. Leia-se Guaraira-repano.

Na primeira parte da estada de Eulália por aqui, ela passava os dias me perguntando o que significava aquele nome indígena. Na segunda parte, como sua ex-aluna não encontrava a resposta e como boa professora que é, passou a se perguntar e não se cansou até que em uma noite deu um grito: “Achei!” Foi seu Eureka venezuelano. Warairepano – “la ola que vino de lejos” ou “la mar hecha tierra”. A onda que veio de longe ou o mar que se fez terra.

Conta a lenda que em tempos antigos não havia a montanha, tudo era plano e de longe se podia ver o mar. Um dia os indígenas da região ofenderam a Deusa do Mar e ela decidiu destruir completamente sua tribo. Então, fez surgir uma grande onda, a mais alta que já se tinha visto. Quando as pessoas viram aquela massa de água vindo em sua direção, ajoelharam-se e imploraram com fervor o perdão da Deusa. Imploraram muito, até que ela apiedou-se de suas almas, e, quando a onda estava preste a engolir a tudo e a todos, de súbito, fez com que ela se transformasse em uma montanha. Warairepano. El Ávila. Minha montanha.


E é nesse mar em suspenso onde deságuo os meus dias. Minhas alegrias. Minhas dúvidas. Meus desejos impossíveis. Navego meus sonhos tolos, nessa onda invisível. Cordilheira de espuma. Clorofila e maresia. Que a Deusa do Mar me proteja. Me proteja e me guie. Seja ela a minha bússola. Minha bússola e meu leme, nessa minha travessia. (Desculpem os que me lêem, mas isto cheira a poesia.)

sábado, 6 de dezembro de 2008

PROSA E POESIA


Uma coisa que me encanta em Caracas é que em cada Centro Comercial (não usam o termo Shopping), há pelo menos uma livraria. Era algo que, confesso, não esperava encontrar por aqui. Na verdade, descubro com muita vergonha que antes de vir para cá tinha alguns pré-conceitos sobre o lugar. “Poco a poco, paso a paso” (como diz uma antiga canção de Aldemar Romero... mas isso é outra história), fui descobrindo autores venezuelanos com textos lindíssimos. Uma narrativa sempre muito ágil e plástica. Especialmente os contistas. Claudia me tem apresentado muitos contistas. Talvez pela proximidade com a Colômbia e com seu expoente máximo, Gabo, o que se fez e se faz na Venezuela fique um tanto no desconhecido, pelo menos para nós brasileiros.

Foi numa tarde de chuva, bem caraquenha, enquanto Soraya e eu visitávamos uma livraria maravilhosa que existe no Trasnocho Cultural, no Paseo de Las Mercedes, que, entre ensaios, elucubrações, contos, trocas de idéias, livros antigos, fotos da cidade, encontrei La Noche Todavia. Um livro com poemas muito curtos, imagens enxutas, palavra seca e poderosa. Um livro de Ana Maria Del Re. Foi paixão a primeira vista. Fui me reencontrando com uma Poesia que eu sempre busquei escrever. Tirar da palavra o seu máximo em textos concisos e espaços em branco.

Alzira me escreveu um e-mail há pouco tempo e peço sua permissão para transcrever aqui uma parte dele.

Patrícia,
(...) Eu tenho seus livros de poesia e gosto muito. Eu amo poesia porque cresci ouvindo boa poesia. Aquela de Angra eu adoro! E vi logo o que ela tem em comum com a que você postou. Achei interessante fazer você recordá-la. Meu lazer e meu prazer é ler boas poesias.(...)

Beijo grande.

Alzira

Que enorme alegria eu tive em rever um antigo poema que eu havia escrito há mais de 15 anos. Obrigada, Alzira, pela delicadeza. Segue, portanto, para você, e para todos que gostem de boa Poesia, um pouco de Ana Maria Del Re. Textos no original em espanhol, acompanhados de precárias legendas em português.

Espacios
entre el silencio
y esta palavra incierta
que se fuga
(Espaços / entre o silêncio / e esta palavra incerta / que foge)


Un tiempo
de silencio
hiere
la memória
(Um tempo / de silêncio / fere / a memória)

A veces
parecen inmóviles
las nubes
aunque la errancia
es su destino
(Às vezes / parecem imóveis / as nuvens / ainda que a errância /seja seu destino)


En tiempos de escasez
aún nos queda
la abundancia
del verano
(Em tempos de escassez /ainda nos resta /a abundância / do verão)

E por fim este, que considero o mais lindo:

Quizás cuando pierde
sus hojas
el árbol
es más recio

(Talvez quando perca / suas folhas / a árvore / seja mais robusta)

Recebi, aqui em Caracas, um presente dos deuses. Eu, que não escrevia nada há quase 10 anos, voltei a escrever. Voltei a ter o prazer maior de enfrentar uma folha em branco e nela me inscrever. Para surpresa minha, nada de Poesia. Ela tem me rondado, mas não permite maiores intimidades. Que seja. Sou sua fiel e eterna seguidora. Por enquanto, continuo a contar minhas histórias, a me divertir e, espero, a divertir os que me lêem. No mais, como diz Ana Maria Del Re:

(...)
Entre deseos
y nostalgias
se nos pasa la vida
como el poema


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CAMBIE DE ESTACIÓN AHORA!!!

Toda a venezuelana é coquetta. Não conheço nenhuma que não tenha uma forte preocupação com sua aparência. Passear pelos shoppings de Caracas é esbarrar em uma sucessão de peluquerias, centros de estética, spas de mãos, unhas postiças, brilhos em jeans, bolsas, travessas para os cabelos, anéis, pulseiras. Muitos peitos de silicone, sandálias bem altas, maquiagem... Costumo dizer que elas são peruas, mas, na maioria das vezes, sabem quando parar. No limite máximo, mas sabem quando parar.
Dizem que aos quinze anos, ou a menina escolhe uma viagem para a Disney ou sua primeira cirurgia plástica. Não sei se é verdade, mas dizem.
É uma questão cultural. Querem ser bonitas, gostam de ser bonitas. Custe o que custar. Tanto em bolívares, quanto em esforço.

Minhas experiências estéticas nunca foram muito bem sucedidas. E com o avançar dos anos, vão se agravando cada vez mais. Por exemplo, hoje em dia só consigo me maquiar em Braille. Perdi 10 kilos depois da operação de vesícula e com o apoio de um endocrinologista de São Paulo maravilhoso... mas, já achei os kilos perdidos, depois de uma viagem ao Havaí. Tenho uma esteira em casa que, como toda esteira, é um excelente cabide.

Quando cheguei a Caracas, achei que ia mudar de hábitos. Tinha tempo para mim e logo encontrei um grupo de mulheres que adoravam caminhar. Elas, certamente, iriam me motivar. Eram alegres, vivazes, cheias de disposição. O máximo! Só que em pouco tempo descobri que todos os dias caminhavam uma média de 9 kilometros! Caminhavam é força de expressão, subiam e desciam colinas e mais colinas. Colinas é força de expressão. Pensem em uma mistura sádica de ladeiras de São Paulo e Barbacena e aí verão as colinas de Caracas.
Tenho amigas aqui que juram que não gostam de fazer exercícios, mas são chegadas a uma colininha. Uma delas um dia me convidou para irmos a um lugar chamado FIGURAS, uma espécie de ginásio onde se faz tudo em 30 minutos. Eu já conhecia o conceito do Brasil. Na verdade, este tipo de academia foi um de meus papers no MBA. Em teoria, eu sabia tudo do lugar.
A idéia é a seguinte: a) só mulheres podem entrar; b) busca-se além do exercício físico, a confraternização do grupo; c) a aluna passa por um circuito de 7 estações, entre máquinas e uns patamares pequenos, onde são feitos os exercícios mais aeróbicos. Tudo em 30 minutos e de 3 a 5 vezes por semana. O circuito é feito de forma sistemática e com uma música bem alta e de ritmo muito forte. De tempos em tempos, a aluna ouve uma voz que indica que ela deve mudar de aparelho. Decidi experimentar.

Minha amiga me disse que o melhor horário era por volta de 3 horas, quando não tinha ninguém e a instrutora ficaria como uma personal trainer da gente. Achei ótimo. Chegamos e realmente éramos só nós e uma instrutora, típica professora de ginástica: alegre, vivaz, cheia de disposição. Expliquei logo que sofria de pressão alta e que tudo devia ser bem devagar. Ela solidarizou-se. O primeiro dia foi moleza. A única coisa estranha era a voz, que robótica e levemente rouca, de tempos em tempos, como em um filme de ficção cientifica nos indicava: “Cambie de estación ahora”. Aquilo me fazia sentir como uma astronauta, saindo de uma estação lunar e indo para outra perto de Cripton.

Estar em uma academia me faz refletir muito sobre a vida... Cada experiência vivida lá é como uma viagem a uma nova estação interplanetária.


Estación 1:

Por que os espelhos das academias me lembram os da sala de espelhos de um circo? Côncavos ou convexos, grandes ou pequenos, sempre nos refletem de forma estranha, inesperada. Mexem definitivamente com a nossa auto-estima.

Estación 2:

Por alguma razão desconhecida, minha amiga nunca mais fez aulas, pelo menos não comigo. Teria ela sido abduzida? Ou a minha total falta de coordenação motora era por demais ridícula?

Estación 3:

Troquei de horário. Faço aulas agora de manhã. A instrutora da tarde era dócil e solidária. Agora, além da voz do robô, a instrutora também fala. Vai me dando ordens em espanhol. Rápidas e incisivas. Estala os dedos junto com as ordens. E eu não entendo nada. Fica uma mistura de descontrole motor com deficiência lingüística. Acho que a instrutora da manhã não gosta muito de mim.

Estación 4:

Voltei ao horário da tarde. Um dia cheguei e era eu e Deus fazendo o circuito. A instrutora dócil, estava bem dócil, tanto que nem ficou na sala. E lá estava eu, solta, entre aparelhos e tabladinhos (Não olho para os espelhos!) Até que chegou uma menina que não tinha mais que 17 anos. Chegou da escola. Não sei se era delírio meu, mas acho que ela ainda estava de uniforme. Começou a fazer o circuito. Não suava. E eu lá, roxa e me dissolvendo. Ela não olhava para mim. Eu fingia que não olhava para ela. Em um momento, ela me sorriu e eu resfoleguei: “Tengo 51 anos.” Ela me sorriu novamente. Nem todos os adolescentes são cruéis.

Estación 5:

De tarde tem sempre menos gente. Fico sozinha às vezes. Deus desistiu do circuito. Acho que a instrutora dócil desistiu de mim. Eu estava lá. Solita. O modelito era simples. Bermuda, uma camiseta grande e larga com o emblema do Liverpool, rabo de cavalo, roxa, suando. E elas chegaram. Sabem aqueles filmes de cowboy em que na rua vazia e poeirenta um grupo de renegados vem andando para enfrentar o xerife. Era assim. Como que em câmera lenta. Chegaram. Eram duas. Uma mais chique que a outra. Tinha uma com um top de oncinha! Ouvi ao longe aquela musiquinha assobiada do filme The Good, The Bad and The Ugly. E dava para ver perfeitamente quem era good, quem era bad e quem era ugly! Decidi mudar de horário. Voltei para o horário da manhã.

Estación 6:

A instrutora sorriu para mim. Acho que não tem nada a ver com a minha performance. Acho que tem a ver com o resultado das eleições. Ela me convidou para a confraternização natalina que vai haver no dia 29. Fico pensando como se pode confraternizar fazendo o circuito. Imagino que seja assim. A cada vez que o robô rouco diz “cambie de estación ahora” a gente troca presentes... come um tequeno ... saúda a companheira. Será que as renegadas vão participar?

Estación 7:

Apesar de tudo. Por incrível que pareça, adoro ir para a academia. Um dia, tenho certeza, chegarei à Enterprise e me encontrarei definitivamente com Doctor Spock!

(com carinho para Sonia e Elziane)