sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

PACHECO E AS GUACHARACAS



video



Não, não se trata de um novo conjunto de Rock alternativo de Porto Alegre ou de Brasília, nem tão pouco de uma pornochanchada dos anos 70, produzida pela Embrafilme. Não. Tanto o Pacheco quanto as guacharacas são entidades absolutamente caraquenhas.

Para começar, o Pacheco não é uma pessoa, mas já foi. E as guacharacas... Bem, as guacharacas são guacharacas.

Quando eu ainda estava no Rio e Silvio já estava vivendo aqui na Venezuela, nós nos falávamos todos os dias por telefone. Aliás, esta prática vinha de muitos anos por morarmos em cidades diferentes, eu no Rio e ele em Salvador e depois em São Paulo.
Para quem já passou pela experiência, deve lembrar que é sempre a mesma conversa telefônica: E aí, tudo bem? Tudo bem. Como foi seu dia hoje? Ah, super puxado! Quê que você comeu hoje no almoço? Bla, bla, bla ....
É bem verdade que já vimos capítulos inteiros de novelas juntos, eu no Rio e ele na Bahia. A conversa era marcada por longos silêncios enquanto a trama se desenrolava. Mas, ironias à parte, até que também dá para namorar bastante via Embratel.

Bem, mas voltando as guacharacas... Quando eu ainda estava no Rio e Silvio já em Caracas, falávamos todos os dias por telefone e ele me dizia que era sempre acordado por marrecos, depois mudou para patos e chegou um dia que considerou a possibilidade de haver um bando de arapongas sobrevoando nosso apartamento.
Quando cheguei, confirmei que eram aves pontuais, bastante barulhentas e que tinham um prazer mórbido de sobrevoar nossa casa por volta das 6:30 da manhã. Comentando com Claudia, minha professora e especialista em assuntos aleatórios, ela não titubeou: Son las guacharacas. Esas aves despertan Caracas todos los días. Dado cultural e auditivo registrado. O que é mais estranho é que você é capaz de ouvi-las com perfeição, mas chegar a ver uma é obra do destino.
A primeira vez que me deparei com um espécime, experimentei um misto de sucesso e frustração. Uma guacharaca é uma galinha d’ângola voadora. Um bicho sem graça e desajeitado, mas com pulmões de fazer inveja a qualquer Maria Callas.
Silvio tem uma teoria de que nos finais de semana elas dão uma tregua e só chegam depois das 7 horas da manhã. Tendo a concordar com ele. Acho que toda guacharaca encara uma noitada às 6as feiras e aos sábados. Não sei se vão às discotecas dançar salsa e raggatone ou se passam as noites no bingo. O fato é que perdem a hora nos finais de semana, mas na 2ª feira, estão inteiras ... berrando ao amanhecer.
O que a principio era algo estranho e bastante irritante, foi, com o tempo, se tornando parte de nossa rotina e tenho que confessar que quando, por alguma razão, não ouvimos seu canto pela manhã, fica um certo vazio no ar por todo o dia, só preenchido, diga-se de passagem, ao final da tarde, quando elas novamente entoam sua serenata antes de irem dormir.



Não há uma estação especial para o show diário destas aves, já com o Pacheco a coisa é diferente.

A primeira vez que ouvi falar no Pacheco, foi em um almoço em que uma venezuelana, ao reclamar do frio, comentou: Este ano, o Pacheco está demorando a ir embora!
A declaração aguçou minha curiosidade. Pacheco? Que Pacheco? Ela sorriu e me contou a história.

Conta a lenda que, há muito tempo atrás, havia um agricultor chamado Pacheco que morava em Galipán, um pueblito que fica bem no alto do Ávila. Ele cultivava flores e, com freqüência, descia até a cidade trazendo sua produção no lombo de burricos.
Pacheco não gostava de Caracas e muito menos de La Guaira (região à beira mar, onde fica o porto), pois detestava o calor. E assim, só descia de Galipán quando, na montanha, fazia mais frio, o que indicava que abaixo a temperatura era mais aprazível. Pacheco adentrava a cidade pela porta de Caracas no bairro de La Pastora, onde ainda hoje está o Mercado de las Flores de San José. Era ali que fazia os seus negócios.
Pacheco subia e descia com seus burricos cobertos de flores três vezes por semana, até quase o final de janeiro quando regressava a Galipán e só voltava a Caracas quando a temperatura baixava, isto lá pelo inicio de novembro.
Desta forma, os caraquenhos começaram a associar a chegada do Pacheco, com sua produção de flores, à época mais fria, que vai de novembro a janeiro.
Um dia alguém notou que naquele ano o Pacheco não havia chegado, e ele nunca mais voltou, mas sua marca já estava gravada na cidade.
Até hoje, no inicio de novembro o povo começa a dizer: ya se siente el Pacheco, llego el Pacheco. E assim vai se passando o que eu chamaria de inverno por aqui, mas que eles chamam de época de seca. Às vezes reclamam: !Pacheco está fuerte este año! Ou como a venezuelana observou: Este año, Pacheco todavia no se fue.


Passei anos de minha vida, acordando sozinha e ligando para Silvio para lhe desejar um bom dia. Hoje, posso garantir, que acordar junto a ele, nestas manhãs de friozinho e começarmos o dia ao som de muitas guacharacas é um prazer simples e delicado.
A gente acorda bem cedo e vai até a varanda para ver como está o Ávila. Quando o Pacheco está por aqui, não abrimos as portas e vemos o amanhecer por trás das vidraças.
Hoje, pela primeira vez em muito tempo, ousamos sair.

Pienso que Pacheco ya se fue... Que faça uma boa viagem até Galipán, meu amigo. Nos vemos no próximo novembro. Traga seus burricos cobertos de flores. Flores mágicas, feitas de brisa e encantamento.

Nota: Fiz de tudo, mas as guacharacas se negaram a particpar do filme.

Nota 2: Soraya conseguiu registrar o canto lírico das guacharacas. Para checar, é só visitar o blog Caracas feliz.

(in à vista de ávila)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

HOW TO BE AN INTERNATIONAL VAGABOND


Em Salvador, costumava brincar que quando me aposentasse iria morar na Praia do Forte e passaria os dias sentada em um banco que fica bem em frente à igrejinha da vila. Quando desse vontade de trabalhar, eu mudava de posição até a vontade passar.



Comecei a trabalhar aos dezoito anos e, desde então, minha vida foi uma mistura de trabalho e estudo.
Para não abrir mão do trabalho, vivi mais de dez anos com Silvio, ele morando em uma cidade e eu noutra. Portanto, se há algum tempo atrás alguém me dissesse que eu iria parar de trabalhar aos quarenta e nove anos incompletos para ir morar em Caracas, seria algo tão insólito como me dizer que eu seria abduzida por uma nave espacial e levada a Marte. Mas foi exatamente isso que aconteceu, quero dizer, fui para a Venezuela, a principio quase um outro planeta para mim.
Lembro-me do susto das pessoas quando eu comecei a falar que ia sair do emprego para acompanhar Silvio. Trocadilhos à parte, muitos me respondiam com um prolongado “CA-RA-CA!!!!”. E as perguntas que se seguiam eram: “O que você vai fazer lá? Já tem trabalho em vista?”
Para as duas perguntas eu tinha uma única resposta: “Não”. Eu não tinha idéia do que eu ia fazer.
Confesso que eu tinha uma certa preocupação, bastante explorada em meus encontros com minha analista. Como seria? Morar, pela primeira vez, na mesma casa com Silvio. Parar de trabalhar. Viver em um país sobre o qual eu tinha muito poucas referencias. Como seria?
Por instinto, decidi me apoiar em coisas que eu conhecia. Iria fazer contato com as pessoas do Conselho Britânico em Caracas. Iria buscar fazer alguns cursos de língua inglesa ou metodologia de ensino. Quem sabe funcionaria.
E, um dia, chegou uma 2ª feira em que eu não mais precisava acordar cedo, engarrafar na ponte e começar um dia de trabalho. Eu era, finalmente, uma desempregada.
Lembro perfeitamente, eu tomando banho e pensando que não tinha que ir trabalhar. O que eu esperava que acontecesse, tipo entrar em depressão, pânico, sentir uma tristeza profunda, nem de longe se passou. Lembro de um profundo alívio. Enorme. Só naquele momento eu me dei conta do quão saturada eu estava. Eu estava em um “piloto automático” já há muito tempo. Não acreditava mais no que eu fazia. Não acreditava que eu ainda tivesse algo a contribuir. Estava cansada de dar murros em pontas de facas afiadíssimas. Estava cansada daquele mundo. O único que eu conhecia. Estava cansada.
Como eu vivia correndo, cheguei a minha nova vida e, inconscientemente, mantive o mesmo ritmo. Tinha urgência de ir ao British Council. Tinha urgência de organizar as coisas. Tinha urgência.
Até que chegou um dia, depois de algumas tentativas frustradas de resolver tudo, pois eu estava sem carro, em uma cidade que eu não conhecia e no meio de inúmeras manifestações estudantis pelo fechamento da Radio Caracas de Televisão, que eu entendi que o ritmo era outro. As coisas iriam acontecer, mas no tempo delas. Afinal, além de tudo, eu estava no Caribe, que tem um timing bem mais aprimorado que o da Bahia. Fui aprendendo a respirar mais devagar e ... respirei melhor.



Quando cheguei a Caracas, Silvio já havia arranjado uma faxineira e uma passadeira, mas cozinhar dependia da gente e, como eu não tinha idéia de como fazer comidinhas, era ele que, depois de chegar do trabalho, preparava o jantar que eu também comia no almoço do dia seguinte. A principio este arranjo me pareceu aceitável, mas depois comecei a achar exploração e assim começaram minhas aventuras culinárias. Queimei muita comida porque me envolvia com um livro ou um CD novo e quando ia ver, lá se tinha carbonizado o jantar. Mas fui aprendendo.
Minhas tentativas de manter e aprimorar meu inglês foram substituídas por deliciosas aulas de espanhol.
Quando chegou o carro, fui aprendendo a dirigir nesta cidade que parece caótica, e às vezes é mesmo.
Fui aprendendo a caminhar todas as manhãs, principalmente pelo prazer de caminhar.
E um dia, em um acidente estúpido, de uma tacada, perdi a faxineira e a passadeira. E fui aprendendo a dar um jeito na casa e a passar. As camisas sociais são um caso a parte. Passei dias de minha vida tentando entender como elas podem ser passadas de um lado, sem amarrotar o outro. É uma tarefa taoista. Uma aula avançada de Tai-chi. Um ser normal pode ficar um dia inteiro passando uma camisa, na busca da perfeição. (Inatingível!). Mas fui aprendendo a passá-las. No inicio, Silvio não podia tirar o paletó, porque bem passados só estavam mesmo a gola e os punhos. Atualmente Beatriz toma conta das coisas, mas de vez em quando passo uma camisa, só para não perder a mão.
Aos poucos, fui descobrindo a cidade e todas as nuances do Ávila. Fui descobrindo uma nova música, uma nova literatura. Descobri o prazer de ir ao Trasnocho Cultural para assistir a um bom filme.
Aos poucos, estou realizando meu projeto maior que é o de viajar muito, sempre que possível, para conhecer novos lugares ou rever outros.



No inicio do projeto éramos poucos casais e na revista da Odebrecht uma matéria intitulada “Os Pioneiros” começava assim: Um grupo de sete executivos brasileiros laçou-se este ano ao desafio de concretizar o primeiro projeto de construção internacional da Brasken. (...) A maioria desses executivos fez o caminho inverso ao dos pais com filhos adultos. Em vez de vê-los saindo de casa, foram eles que partiram rumo à maior investida de suas carreiras.” Com o passar do tempo, o grupo foi aumentando e as amizades se estreitando. Somos um grupo de mulheres adultas, experientes, inteligentes e curiosas. De diferentes regiões do Brasil, apesar da maior incidência de gaúchas e baianas. Donas de casa, psicólogas, médicas, professoras, empresárias. Cada uma com seu talento especial. Todas optaram por viver uns anos sabáticos. Temos uma solidariedade silenciosa. Sabemos que contamos umas com as outras. Nos apoiamos sempre que necessário. E como pode ser necessário! Quando a saudade bate as nossas portas, principalmente quando filhotes visitantes vão embora.

Antes, eu pensava que somente na Praia do Forte eu encontraria a pracinha perfeita para me deixar levar pela vida. Hoje, eu sei que há muitas praças por aí e as mais tranqüilas são as que são encontradas por acaso, sem premeditações. Praças invisíveis e aconchegantes, como um pôr de sol aqui em casa. Um amanhecer, bem cedinho, com o Ávila se mostrando por inteiro para mim e tudo envolto em um cheirinho de café fresco. Praças feitas de silêncio e descobertas. Praças dentro de mim.
Passei grande parte de minha vida sendo aluna e professora. Agora, acho que virei aprendiz.

Um dia, no Rio, Bob Lewis me perguntou o que eu andava fazendo na Venezuela. Eu dei uma risadinha e respondi: “I’m an International Vagabond!”.


(in à vista Del Ávila)


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

FRAGMENTOS


Tinha uma idéia já acertada para o texto desta semana, iria falar sobre international vagabonds, mas foram tantas coisas acontecendo ao longo dos últimos dias que decidi me entregar ao acaso e escrever ... fragmentos, estilhaços ...

Perambulando por Chacao

Meus primos chegaram de Cuba na 4ª feira. Como eles mesmos definiram, estavam tendo uma lua-de-mel bolivariana e decidiram fechar o passeio com uma visita rápida a Caracas. O que mostrar a visitantes nesta cidade em menos de dois dias???? Subir o Ávila é a principal opção, mas como montanha cheia de melindres há que permitir-nos a visita a seu topo. Às vezes se enfada e fecha suas alturas. Resultado, nada de teleférico. El Hatillo é opção certa, independente do clima, mas só este pueblito não preencheria os dois dias. Claudia matou a charada e deu a solução: perambular por Chacao, um bairro tradicional, aos pés do Ávila e com os pés na década de 50.
O tempo inclemente não dava trégua. Caminhando, fomos esbarrando em muita gente e episódios de chuva forte. Andar pela Francisco de Miranda é como passear pela Rio Branco, no Rio, em dia de semana. Carros, gente, vendedores, buzinas, e aqui com o adendo de passeatas contra e a favor à reeleição indefinida.
Carlos Eduardo fotografando tudo, até os saquinhos de tajadas, banana da terra frita, que são vendidos nas bancas de jornal.
Na Praça Bolívar, encontramos a mais bela estátua do herói. Igrejinha. Praça Francia, em Altamira. Até que de repente Claudia indicou, entrem aí, e caímos em um mundo paralelo: Centro de Arte La Estancia. Todo o tumulto ficou para trás. Jardins, recantinhos. Uma chuvinha fina ia caindo e fazia de tudo muito mais verde. Cheiro forte de flor. Silêncio. E uma deslumbrante exposição das pinturas de Espinoza, um pintor contemporâneo venezuelano.
Fomos à Torre Plaza em Altamira, lembrem, em cada urbanización de Caracas há um centro comercial. E foi lá que comprei El Genio Del Idioma, de Alex Grijelmo, um livro super interessante sobre a língua espanhola. Em uma tienda de CDs, encontramos um vendedor, já bem entrado em anos, que, com paixão, me apresentou a minha mais nova descoberta musical: Recoveco, um grupo que mistura música clássica com canções tradicionais venezuelanas. Mistura violino e cuatro. Lindo!
Almoço em Tarzilandia (isto mesmo, terra de Tarzan!!!). O restaurante é muito melhor que seu nome, bem no sopé da montanha, cercado de verdes, tucanos e papagaios. Comemos assados maravilhosos e tequeños de entrada.
Fechamos o dia conhecendo Sabas Nieves, uma das entradas para quem quer subir o Ávila a pé. Um túnel de mosaico, samambaiais e avencas, uma escada que leva ao infinito ...
Fiquei só na entrada, admirando os mosaicos.

Uma carta de Cuba

Os primos trouxeram de Cuba muitas fotos, experiências e reflexões político-existenciais, CDs de grupos cubanos, um ron añejo blanco maravilhoso de regalito para mim, charutos e... uma carta de uma mãe cubana para seu filho que mora aqui na Venezuela. A senhora era uma das cantoras de um grupo musical de Havana Vieja e quando soube que eles vinham a Caracas pediu o favor. A carta vinha em um envelope feito à mão, isto é, uma folha de papel branco embrulhava o texto, as pontas do suposto envelope grampeadas e em sua frente um endereço.
Tenho que explicar que esse negócio de correio e carta por aqui é complicado. Os endereços na Venezuela são, como posso dizer ... difusos. Não há números nas casas, há muitas ruas com o mesmo nome. Como não houve tempo de encontrarmos uma agência dos correios enquanto eles estavam aqui, fiquei com a missão de enviar a carta na 2ª feira.
Comprei o envelope, transcrevi o endereço que tinha uma indicação “Ocumare y Yare”. Minha impressão era a de que o rapaz morava em uma estrada entre estes dois lugares. O que parece óbvio e simples para nós no Brasil foi se transformando em uma experiência (uma odisséia?). O atendente começou o interrogatório: Ocumare de onde? Existem dois Ocumares, de Tuy e de la Costa. E não satisfeito com isto, complementou: Yare também. Tem o San Francisco de Yare e... confesso que eu já estava tão atordoada que não lembro o nome do outro Yare.
A minha primeira reação foi de desistir e esquecer a carta, mas aí comecei a pensar naquela mãe cubana, sem contato com seu filho há muito tempo. Sua ansiedade e angustia escrevendo a carta, contando de sua vida, querendo saber do seu menino. Quanto de saudade não estaria naquele envelope feito à mão e grampeado nas pontas?
Insisti com o atendente. Havia o nome de uma urbanización: “El Ave Maria”. Pesquisamos na Internet e, depois de algum tempo, decidimos que era em Ocumare de Tuy. Próxima pergunta: O telefone de contato da pessoa que vai receber a carta? Quando eu disse que não sabia, voltamos à estaca zero. A carta não poderia ir. Depois de muita conversa, consegui convencer ao atendente que eu me responsabilizaria pela não entrega do envelope.
E lá se foi a carta, para Ocumare de Tuy. A carta de uma mãe cubana a seu filho exilado aqui na Venezuela. Espero que o envelope chegue a seu destino na urbanización El Ave Maria... coincidência ou ironia do destino?

Olhos de câmera

Fui ver o filme do Brad Pitt, The Curious Case of Benjamin Button. Agora vou ao cinema às 2as feiras. Adoro ir ao cinema de tarde e sozinha. Sempre fui assim, desde a minha época de faculdade: matinés solitárias. Na verdade, acho que estou resgatando aqueles tempos maravilhosos em que eu ainda sonhava em escrever roteiros.
O filme é estranho, me pareceu um Forest Gump do realismo fantástico. Mas gostei de ter ido.
Saí do cinema meio atordoada. Ainda não me acostumei a terminar a sessão e ouvir aquele burburinho que se faz, gente se levantando, avaliando o filme, só que em espanhol.
Quando fui pegar o carro me deparei com um âgulo novo do Ávila. A montanha envolta em neblina e sol me comoveu por alguma razão.
Indo para a casa, levemente engarrafada e ouvindo o CD do Recoveco, vi uma imagem simples e delicada. Em um sobrado, uma mulher pendurava roupas no varal. No cair da tarde, era uma figura acinzentada em contraste com um céu grís. Parecia uma cena de curta experimental. A música, os gestos da mulher, lentos e ritmados, a roupa resfolegando ao vento. Tudo cinza sobre cinza.
Muitas vezes faço olho de câmera cinematográfica. Brinco que meu olho filma cenas ao comando de uma canção.
É tão bonito ...

Lua cheia

Cheguei em casa pensando no que ia fazer para o jantar. Silvio insiste em jantar, já que o almoço em Sabana Grande é sempre ruim e muito caro. Abri a porta da sala e lá estava ela, dependurada em minha varanda. Lua cheia, cheíssima. A foto saiu tremida, talvez por deslumbramento.




Cada vez mais gosto de estar por aqui...

(in à vista del ávila)




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

UMA CONVERSA EM CÔLÔNIA TOVAR

A Colônia Tovar é um pueblito que fica a umas duas horas e meia de Caracas. Fundada por imigrantes alemães no inicio do século 19, esta região é um pedacinho da Alemanha em plena Venezuela. É como um cinturão verde de Caracas. De lá, chegam as mais deliciosas comidinhas para alimentar os caraquenhos: legumes, verduras, embutidos. E é lá que se encontram os pêssegos e morangos mais perfeitos, que podem ser comidos como vieram ao mundo, mas que também podem ser transformados em sucos inesquecíveis. Como Petrópolis no Rio, aonde nenhum turista pode deixar de ir, uma visita à Colônia é um must para todos aqueles que nos visitam em terras venezuelanas.
A regra, portanto, não foi quebrada quando tio Mauro e tia Dorinha decidiram nos fazer uma visita e comemorar suas bodas de ouro. Grande emoção. Uma nova lua-de-mel.
Chegaram e foram se integrando à terra. Tia Dorinha sofrendo de um mal terrível. A impossibilidade de se comunicar com as pessoas. Se ela sai e não consegue encontrar alguém conhecido ou fazer um novo amigo, sofre de solidão e frustração profundas. (Silvio diz que eu estou ficando cada vez mais parecida com ela!) Entender, ela até que entendia um pouquinho o que as pessoas diziam, o problema era quando queria falar e contar mil coisas para suas possíveis novas amizades. Empacava. Gaguejava. Olhava para mim pedindo socorro. E fazia um gesto como se se desculpasse. Finalmente segredava a seu interlocutor: “Não sei falar espanhol!”
Enquanto Silvio trabalhava, visitamos tudo em Caracas. Eu estou me tornando uma brilhante guia turística da região. Mas quando foi a hora de irmos à Colônia Tovar, fiquei sem coragem de ir sozinha com os dois, e decidi contratar um motorista para nos levar. Sr. Jose Carlos foi indicação de Walter e me pareceu uma pessoa gentil e muito atenciosa. Mulato alto, colombiano, sofria de síndrome semelhante à de titia: compulsão de falar.
E lá fomos nós montanhas acima. O pueblo fica a mais de dois mil metros de altura. O motorista e tio Mauro na frente e tia Dorinha e eu no banco de trás.
Era comovente ver o diálogo que se desenrolava entre meu tio, levemente surdo e não falante de espanhol e o prolixo motorista. A uma certa hora, não sei se por cansaço ou desespero, tio Mauro caiu em sono profundo. Sr. Jose não desistiu e atacou a nós duas. Contava coisas que eu ia traduzindo para titia e ela expressava opiniões que eu informava ao motorista. Eu, entre dois falantes compulsivos. A cada minuto, ela se desculpava e maldizia sua incapacidade de se comunicar na língua de Cervantes, ou melhor de Gabo, que fica mais apropriado e sem os barulhentos fonemas de Espanha.
Chegamos à Colônia Tovar e meus tios se entregaram ao consumo de couros, camisetas, cerâmicas, biscoitinhos, mel, e tudo mais que o lugar oferece. Visitamos a igreja, que acho que é a única no mundo em forma de L. Tiramos fotos de flores e de plantações de morangos dependuradas nas encostas dos montes. Fomos à feirinha. A incapacidade lingüística foi um pouco esquecida, mas não de todo, pois em todas as tiendas titia conseguia mostrar as fotos de seus netos e listar todas as inumeráveis qualidades dos pimpolhos.

Aqui cabe uma parada e uma explicação. Muitas vezes, vivendo na Venezuela, me senti em um anúncio do CCAA. Essa coisa dos brasileiros de acharem que falam portunhol e ponto final é muito engraçada (esta palavra um falso cognato, um falso amigo. Engrasada significa coberta de gordura, de grasa!) Há um montão de palavras que soam e são iguais às palavras em português, mas que significam coisas completamente diferentes. Agora, por exemplo, depois de algum tempo vivendo aqui, já consigo dizer aos garçons, com alegria e naturalidade, que a comida está “muy exquisita!” E já tomo “una buseta”, sem nenhum escrúpulo, apesar de todas serem bastante desconfortáveis.
Quando meus tios chegaram, rimos muito falando dessas palavras iguais e tão diferentes. E eu os adverti que, em hipótese alguma, usassem os termos “pinga” e “cuca”, respectivamente a forma mais vulgar de se referir ao órgão genital masculino e ao feminino. Rimos muiiiito. Tudo estava chévere (legal, bacana, sinistro!!!). Palavra que faz parte de qualquer diálogo por aqui. E quando não é chévere, é cheverísimo. Eles adoram um superlativo.
Voltando à “pinga” e à “cuca”... Titia entendeu que eram palavras proibidas e passou um bom tempo repetindo as duas: “pinga e cuca”, “pinga e cuca”. Ria e dizia: “isto não se pode dizer.”

Voltando à Colônia Tovar ... Chegou a hora do almoço e decidimos convidar Sr. Jose Carlos a comer com a gente. Fomos ao Restock, um restaurante onde se come comida alemã maravilhosa e se toma um trago secreto, que ninguém sabe a receita.
A comida foi servida. Chegaram os tragos e a cerveja típica da região. Aos poucos, a conversa se fazia. Eu funcionava como tradutora. Tia Dorinha e Sr. Jose falavam pelos cotovelos, tio Mauro decidiu apenas comer. E foi aí que eu decidi explicar a Sr. Jose o porquê de meus tios estarem na Venezuela. Falei das bodas de ouro e brinquei sobre uma nova lua-de-mel. O colombiano, alegre e gentil, fez a pergunta que todo mundo faz quando se conversa com um casal que faz 50 anos de casado. Em bom espanhol, perguntou a titia como se consegue manter um casamento por tantos anos. A resposta veio rápida e instintiva, alegre e já quase intima. Titia bateu com o dedo na testa e pontificou em excelente portunhol: “tem que se ter buena ... cuca!!!”
O colombiano, ainda sem entender por que titia batia tanto com o dedo na cabeça, empalideceu, gaguejou. Quase caiu da cadeira. Eu tomei da palavra e comecei a falar do tempo em Caracas. Tio Mauro continuava comendo ...

Quando chegamos em casa, titia me perguntou o porquê de eu ter mudado de assunto tão rapidamente e eu fiz uma rápida revisão sobre falsos cognatos, palavrinhas iguais e perigosamente diferentes. Ela ficou roxa de vergonha.

Decididamente estava muito embaraçada ... ou, diante de uma nova lua-de-mel, seria embarazada(*)?


(*) embarazada = grávida

(in à vista del ávila)