sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

BONS VENTOS


Era final de julho. Era o meu último passeio antes de sairmos da Venezuela: Los Roques.

No catamarã, muito céu, muito mar, muito azul. E tinha uma brisa...

De repente, olhei para o alto e lá estavam elas... grandes, estufadas. Com a determinação dos santos e dos heróis. À força do vento, venciam distancias. Ao sabor das correntes de ar, as velas dançavam uma valsa salgada e sensual.

Hipnotizada, levantei a câmera e tirei a foto. E intuí. E determinei. Esta será a foto do último texto deste ano.

Brancas velas, guiadas pela brisa caribenha. Brancas velas, a nos levarem para diferentes cayos, aquelas pequenas ilhas que fazem do arquipelago de Los Roques uma jóia guardada em caixinha de veludo verde azulado.

Ao longo do dia, paramos em diferentes ilhas de areia branca de ferir a vista. Mergulhamos, comemos peixinhos e camarões. Ficamos um tempão relaxando na beira da água, só vendo o tempo e as gaivotas passarem.

Ao lado, nosso barco e suas velas diligentes. Sempre prontas para novas e deliciosas aventuras.

Que em 2011, tenhamos sempre a nosso dispor velas bem branquinhas e uma brisa leve e um mar tranquilo e muito azul.

2011... Que bons ventos nos levem a nossas metas mais desejadas, a nossos sonhos mais impossíveis, ao carinho dos amigos, a boas surpresas ... a novas e ma-ra-vi-lho-sas aventuras!

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

PRESENTES


ENGRAÇADO...

NATAL É UMA ÉPOCA
EM QUE
OS AUSENTES SÃO MAIS PRESENTES

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O FINAL DA VIAGEM


Aqui, agora, na Ciudad de México, às vésperas do Natal, a viagem termina. Não aquela que comecei no mês passado, em um longo vôo Rio/México, com uma escala em Miami. Não. Falo de outra viagem. Ainda mais longa. Uma viagem que começou há quase cinco anos e que teve várias escalas, físicas, psicológicas, trancendentais.

Uma viagem feita de surpresas, novos amigos, novas paisagens, novas experiencias e necessidades. Outras línguas, outros rumos. 

No mapa, um emaranhado de linhas. Idas e vindas. Sobressaltos. ALEGRIAS! Muitas.

Entre subidas, descidas, encruzilhadas, aprendi. Sobre a vida. Sobre os outros. Sobre mim. 

Vi novas paragens e me dei tempo para parar e conhecer. Tive tempo para esperar... Um ônibus em Roma. Muitos vôos. Tive tempo para ver... Uma pedra sobre a outra em Aruba. Muitos nascentes e poentes.

Cresci... sendo novamente criança. Uma International Vagabond. Despudoradamente responsável por minha irresponsabilidade. Aprendi muito. 



A viagem começou ali. Em uma manhã de um setembro, quando diante do Ávila (a minha montanha mágica) determinei: Quero viver aqui.

E vivi. Muito. Caminhei entre manifestações, camisas vermelhas, equivocos, caçarolaços. !Gloria al bravo pueblo...! Bravo pueblo...

Estudantes, discursos, muitos caminos verdes. Ali, aprendi que sempre há atalhos ... Há sempre saída. Depois de uma curva, lá do alto, poder divisar uma nova paisagem. Há sempre novas paisagens. Há que se ter olhos de ver.

Minha montanha mágica... Feita de arcoiris e amanheceres.

Aconchegada em seu silêncio, voltei a escrever, aprendi a cozinhar, me deixei levar por luas cheias e estrelas.

Acolhida em sua imensidão, tomei muito guayoyo, enquanto as tardes se faziam noite.

Eu, a montanha e meu balcón. De ali, eu podia ver muito além da cidade de Caracas. Vislumbrava possibilidades.

De lá, parti para viagens, aventuras, descobertas, encontros e reencontros. E quando voltava, lá estava ela sempre a me esperar. Mesmo quando ferida por incendios em tempos de seca. 

Aqui termina a viagem. Talvez. Ou será que foi só mais uma nova escala desta dangerosissima viagem de que um dia nos falou Drummond? Sei lá... 

Só sei que meu balcón virou varanda e, de lá, posso ver outra montanha. No primeiro dia em que juntos, Silvio e eu, descobrimos a vista, Silvio riu e me disse: Viu, agora você tem um Ávila de açucar.  

Que seja assim ... Que assim seja. E que de lá, eu possa partir para novas e doces aventuras.


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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

CANCÚN OFF BROADWAY


Tenho que admitir: fui para Cancún com um certo preconceito. Eu achava que não iria gostar. Achava que seria uma coisa artificial, com muitos resortes de plástico. Decidi ir porque era como ir a Roma e não ver o Papa. Mas, tenho que admitir: gostei muito do lugar.

É claro que dois dias não foram suficientes para visitar tudo, mas o que vi... valeu!

Fomos recepcionados por um sol de inverno caribenho. Nascentes e poentes impecáveis. Hotel bom, comida boa, muitas Margaritas (bebi todas em homenagem a minha amiga Cida!) e um tempo para Silvio descansar. Cheganos na 6a feira de tarde e ficamos por Cancún, mas, no dia seguinte, nos entregamos a descobertas.

Alugamos um carro com motorista (queriamos mordomia!) e minha encomenda era que ele nos levasse a uma Cancún diferente. O homem me olhou como se eu tivesse pedido para ir a Marte e voltar para o almoço!!! Expliquei. Não queria ir aos parques, não queria nadar com golfinhos, não queria fazer snorkel. Não achava que daria tempo de ir a Chinchen-Itza ... Quanto mais eu explicava, mais o homem me olhava como uma ET e era clara a vontade dele de me perguntar: Então, por que diabos vieste a Cancún, caramba?? Mas, tentou uma sugestão: A senhorita quer ver os pueblos mais pobres que ficam perto daqui? Não era bem isso que eu queria, mas diante do impasse, achei melhor topar e sair do hotel. Eu comentei... Queria conhecer Playa del Carmen, uma amiga me disse que é muito bonita. E Silvio complementou... Vamos a Tulum!  O motorista viu luz no fim do túnel.

Acompanhados por um aparato militar de fazer inveja ao Morro do Alemão (Cancún estava em plena reunião sobre as mudanças climáticas no mundo), fomos seguindo por uma autopista moderna e entrando por pequenos pueblitos onde, segundo o motorista, mora o pessoal de serviço dos hotéis. De um lado da estrada estes pueblos, parte de uma mata baixinha a que o motorista chamava de selva e entradas de alguns parques. Do outro lado, imponentes portais de resortes. Estávamos na Riviera Maia.

Sr. Rodrigo, então, nos explicou que seguiriamos por aquela estrada até o pueblo de Tulum. Depois iriamos à zona arqueológica. Depois podiamos conhecer Akumal (uma baiazinha onde ele sempre levava uma cliente) e, por fim, Playa del Carmen. Sim... Enquanto dirigia, tinha feito nosso roteiro. Por intuição, Silvio quis almoçar em Akumal. 



Depois de passarmos por Tulum, el pueblo, com suas casinhas coloridas, restaurantes típicos, mercados de artesanias e muitos turistas europeus, felizes e super bronzeados, chegamos à zona arqueológica com suas pirâmides, iguanas, gramados, céu e mar. Dificil descrever o prazer e a leveza do lugar. Entre as pirâmides, ao descer por uma escadinha de madeira, você se perde em uma sucessão de prainhas. O mar caribenho, convidativo e manso. Resistir quem a de? 

Próxima parada: Akumal.


Lugar simples. Muito simples. O motorista estacionou o carro e nos indicou um caminhozinho para o resturante. Um caminho para o restaurante, para a praia, para um cantinho do planeta onde se pode ficar. E nos deixamos ficar. Senti a água, a areia fina. O restaurante era simples. Ficamos ali um tempo, jogando conversa fora. Tomando Margaritas (todas em homenagem a Cida!). Comendo camarões. A nossa volta, gente de diferentes lugares do mundo, fazendo o mesmo que nós... se deixando ficar. Ao sabor da brisa desse inverno caribenho.

Me lembrei de um outro momento de nossa vida. Tão diferente e tão igual. Silvio e eu em uma tarde de chuva em Kew Gardens. Nos conheciamos há pouco tempo e passamos a tarde falando da vida, de nossos sonhos... contando nossas histórias. 

Nestes momentos, apesar dos outros, é como se a gente fosse dona do tempo e do espaço. Há um burburinho e um silêncio... Momentos mágicos.


Playa del Carmen confirmou com sobra o que minha amiga tinha dito. Mar imenso e hoteis baixnhos e chiques à beira do mar. Restaurantes e gente bonita caminhando. Um lugar movimentadamente aconchegante. Ao longe, o Ferry que vai para Cozumel.

.........................................

Tivemos um trailler da região. Mas valeu! No dia seguinte, não quis passear. Ficamos no hotel, de pernas para o ar, curtindo a vista, o mar, a piscina e, é claro, tomando algumas Margaritas em homenagem a Cida.

A fuga da cidade do México nos proporcinou ainda, na volta, a muitos metros de altura, a visão mais bonita dos Popocatepetl e Iztaccihuatl, os vulcões que ficam próximos ao DF e que normalmente estão cobertos pela neblina. 

Conta a lenda que são um casal de indigenas apaixonados. Que do alto de seu mais alto nos abençoem. Amém! 



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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

GRUTAS DE CACAHUAMILPA


Semana passada fui visitar as Grutas de Cacahuamilpa que ficam em um Parque Nacional a umas três horas da Cidade do México. O que senti foi uma mistura de impacto e surpresa. Surpresa, porque em todas as vezes que visitei o país tenho buscado novas regiões para conhecer e nunca, nenhum guia turistico tinha me indicado este lugar. E ele é imperdível! Impacto, porque as grutas são deslumbrantes. Por dois quilometros, imersos na terra, experimentamos uma mistura de silêncio, luzes, grandiosidade ... beleza!

Enquanto caminhava entre salões de mais de 60 metros de altura, fui me lembrando de um poema que escrevi há muito tempo atrás. Um poema que fala de uma teimosa e infindável busca.


A PEDRA

Garimpar palavras
Fazer Poesia
Dessedentar-me

Ser cascalho... cristal...  água marinha

Na batéia
Pôr a girar os meus cacos
Quem sabe eu encontre
Ao final da espiral
Um diamante bruto e puro
A minha essência mais dura


Pôr a girar os meus cacos...
Ritmos e músicas e choros
Entrechocam-se
Rostos e nomes
Entrechamam-se
E gestos
E cheiros

Réstia de infância
Sonhos sem senhas
Saudades-segredos

Entrelaçam-se
(em nó)
Todos os medos



No emaranhado de esperas
Perder-me entre ruas
 ... e rumos
 ... e feras



Infinita espiral
Em volúpia de dança
Roda a ciranda da vida

Meus cacos
São seixos opacos

Meus passos
Não sabem do mapa da mina



Na batéia
Sob água turva
Permanece intacto e bruto
O diamante mais puro
De mim...
A essência mais dura



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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

NASCENTES E POENTES


Final de semana passado, estivemos em Valle de Bravo. Este pueblo fica a umas duas horas da Cidade do México. Uma represa linda e, à volta do lago, casas de tirar o fôlego. Tudo de bom para andar de barco, perambular pelas ruelas antigas, ver e comprar artesanias, descansar muito e experimentar um deslumbrante pôr de sol.

Ao cair da tarde, Silvio e eu nos sentamos na varanda de nosso quarto e ficamos ali, só olhando o sol performar.

Há muitos anos atrás, fui a Salvador com papai e mamãe. Íamos com frequencia à Bahia de carro, pois Dona Thereza sempre teve pavor de avião. Viagem longa, de três dias. Íamos parando e descobrindo a região. Aprendi com meus pais a viajar e a aproveitar cada momento dos passeios.

Daquela vez, estávamos em Porto Seguro. Não a cidade de agora, mas uma Porto Seguro de mais de trinta anos atrás. Poucas pousadas, um ou dois hotéis. Ficamos no Vela Branca , um hotel que ficava no alto de uma colina e que tinha como uma de suas principais atrações o seu amanhecer. Quando fomos levados ao chalé onde ficaríamos, o rapaz nos apontou um canto do gramado que dava para o mar e nos informou que era ali que devíamos ficar para ver o sol nascer.

Mamãe empolgou-se, Não vou perder o espetáculo! (Dona Thereza era assim. Ariana passional! Vibrava com as coisas e se enfurecia na mesma medida, mas nunca guardava rancores. Ariana... Muito ariana).




Silvio e eu, ali, quietinhos. De vez em quando, nos levantávamos e faziamos uma foto. Ele queria que eu filmasse tudo. Eu só queria fotografar. Ao longe, uma música vinda do restaurante Los Pericos que fica no embacadero ia emoldurando a cena.

Mamãe acordou cedinho. Quando vi, ela estava enrolada em um cobertor e pronta para ver o amanhacer. Era julho e fazia frio. Era muito cedo. Lá fora, o dia começava a amanhecer.

Vamos! Está na hora. O sol está nascendo! Joe, acorda! Tá na hora! E papai nada. Thereeeeza... é cedo... Patricia, vem comigo. o sol está nascendo. O moço disse que é lindo! E eu nada. Mãããe... tá frio...

Ela tentou de tudo, mas não ousou sair sozinha. Teve medo. (Tinha medo de fantasmas... Ainda estava escuro). Se encarapitou na cama e passou o resto do dia sem falar com a gente. Perdeu o amanhecer.

Desde aquela manhã, já tive o privilégio de ver muitos nascentes e muitos poentes em diferetes lugares deste planeta Terra. (O Ávila, por exemplo, sempre me presenteou com espetáculos inesquecíveis). E todas as vezes em que estou, assim, diante do sol, me lembro de Dona Thereza e daquela manhã em Porto Seguro. Aquele amanhecer para mim é uma eterna dívida. Não me custava nada ter me levantado e ido com ela ver o sol chegar. Ela queria tanto... Não me custava aquele carinho. Mas não fui. Não fiz. (Filhos, melhor não tê-los!) Não dá para me redimir. Então, a cada nascente e poente que vejo, penso muito nela, tentando trazê-la para junto de mim. Tentando...

Minha mãe me ensinou muito pelo oposto. Acho que ela deixou de fazer muitas coisas por medo... (Ela e seus fantasmas!) Então, quando quero fazer algo, faço um esforço enorme para vencer os meus. Se ninguém quiser ir comigo, tento abrir o caminho sozinha. (Às vezes, me amedronto, mas, pelo menos tento.) Faço isso por mim e também por ela. Como uma homenagem. E, diante de meus nascentes e poentes (reais e metafóricos), sempre dou uma paradinha e digo, como se entrelaçasse as suas mãos com as minhas: E aí Dona Thereza? Tá gostando?


  video


Nota inesperada: Quando tinha acabado de publicar este texto, algo bateu no vidro da varanda. Fui olhar e encontrei no chão do balcón um passarinho meu tonto. Tinha voado de encontro ao vidro. Tentei pegá-lo, mas ele me olhou assustado e se foi... Coincidencia?

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

VISITANDO THE WORLD TRADE CENTER


Se me dissessem, há algum tempo, que eu iria almoçar em breve no The World Trade Center, eu acharia que era brincadeira, mas  que nada, ontem mesmo, lá estava eu em busca de uma vista especial da cidade.

Está certo que estou falando do WTC da Cidade do México e é também certo que escolhi o pior dia para ter uma vista panorâmica. Em todas as vezes que já estive por aqui, ontem foi o dia mais feio e cinzento. Não faz mal, enfiei na cabeça que iria e fui.

Sabia que existia, mas não tinha muita idéia de onde ficava. Saí do hotel e fui ao sitio de taxi mais próximo. (Nota linguistico-cultural1: aqui, sitio de taxi é o ponto e há muitos, todos numerados. É o lugar mais seguro para se conseguir um taxi). Negociei a tarifa (Nota 2: nem todos os taxis têm taximetro) e parti para minha aventura.

De imediato puxei conversa com o motorista. Este é um dos hábitos mais arraigados em mim e confesso que aprendo muito com eles em todos os lugares onde vou. Diferentes línguas, diferentes sotaques. Começo sempre com considerações sobre o tempo ou o trânsito e o papo deslancha para o que der e vier. Desta vez não foi diferente, mas confesso que me afligiu um pouco. 

Estávamos em um viaduto e tudo me parecia muito cinza e feio ao redor. Um tráfego pesado e, de repente, eu não tinha a menor idéia de onde estávamos. O assunto descambou para a questão da violência. Perguntei se aquela zona era perigosa. No viaduto não, mas nas pistas de baixo, em qualquer sinal, podem assaltar. Senti uma certa semelhança com um lugar que conheço bem. Não tive coragem de perguntar se conhecia a palavra "arrastão"... Seguimos entre cinza e trânsito.

Perguntei, então, se era problema de falta de trabalho. Ele me disse que as coisas tinham mudado muito no México. Ele tinha sido policial e, no passado, os delinquentes tinham normalmente mais de trinta anos. Agora não, a maioria era de adolescentes, jovens, muito jovens. Me senti em casa. Como o engarrafamento cinzento continuava, investi novamente. Então é porque não há empregos suficientes para todos?... Não, me retrucou científico, o que passa é que os salários por aqui são muito baixos, 60 pesos por dia é o mínimo. Qualquer muchachito con un cuchillo ganha, em um minuto de assalto, o que ganharia em um dia de trabalho pesado. Então, vem a droga, os assaltos, tudo... Já vi este filme, pensei (Já tem até versão 2!!!)... E as escolas por aqui? As do governo... São boas?... Que nada, a senhorita sabe... (Nota3: Somos sempre senhoritas, independente da idade.)... Nenhum governo vai querer dar boa educação para o povo. Sem educação, podem manipular as pessoas. Se as crianças são bem educadas, no futuro, não vão votar em político corrupto. E tem também outra coisa...Fez uma pausa longa para o gran finale. Os professores... São muito mal pagos. Quem, hoje em dia, quer ser professor? Antes, eles eram respeitados... Agora... Não valem de nada! É melhor fazer qualquer outra coisa...  Éééé..., balbuciei.

Pobre América Latina!! Tão absolutamente igual em seus contrastes. Hispanicamente luzitana. Afro-indigena descendente. Perdida entre imagens e pastores. A mercê de políticas e políticos. Pobre América Latina!! 

Chegamos. Paguei o taxi e me despedi. Saí e olhei para cima. Lá em cima, faraônico, o restaurante giratório me esperava. Me perdi entre escadas rolantes, seguranças e elevadores. Passei por detectores de metal e, finalmente, pisei os tapetes de veludo vermelho.

Sentada em minha mesa, aguardando a comida, via a cidade ir rodando a minha frente. O horizonte mudava a cada momento. Os vulcões, sempre encobertos, o parque Chapultepec, casas, prédios altos e modernos. Minha vista foi se afastando... se afastando... Foi se perdendo para além... Além da cidade... Além do país... Para além...

Pobre América Latina!... Talvez não tenha sido por acaso que o dia estivesse tão cinzento.


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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DE SEQUESTROS, LIVROS E AMIZADE




Semaninha corrida, esta! Nos últimos tempos, estar no Rio significa ter feito uma longa viagem de avião e chegar para organizar e resolver muitas coisas. Não faz mal, no fundo gosto dessa correria. Reclamo, mas gosto.

Estava no carro. Sinal vermelho, ar ligado, janela fechada (por razões óbvias) e a moça com um punhado de tablóides na mão me sorriu. Me sorriu e me ofereceu o jornalzinho. O sinal abriu, mas os carros continuavam parados (coisas de Botafogo). Decidi aceitar a oferta, afinal, do jeito que o trânsito estava daria para ler, pelo menos, a primeira página. E foi lá que encontrei a noticia: Ingrid Betancourt lança livro no Shopping Leblon. Incrivel coincidencia. Como o mundo dá voltas!

Uns quinze dias antes, eu estava na Cidade do México e a vi na CNN falando sobre o livro. Era o livro que faltava. Tinha que comprá-lo!

No dia seguinte, por um acaso, enquanto visitava o Centro Comercial El Pabellon, esbarrei em uma livraria de uma livreira chilena (um dia vou escrever um texto sobre os livreiros chilenos), e lá estava o livro. Meu objeto de desejo. Como o mundo dá voltas!

Enquanto folheava o livro, fui voltando no tempo. Nós, na Venezuela, acompanhando o pesadelo dos reféns. Nós, em Cartagena de Las Indias, fotografando o imenso poster com a foto de Ingrid Betancourt presa na selva.



Folheava o livro e nos via, Soraya e eu, em uma tarde de chuva torrencial em Caracas, depois de um almoço no Mocambo, ouvindo no rádio sobre a liberação dos reféns. Acompanhamos tudo pela TV e, depois, quando começaram a sair vários livros sobre o cativeiro e a operação de resgate (Operación Jaque), lemos todos os relatos. Em todos, Ingrid tinha papel protagônico, às vezes, heroína, outras, quase uma vilã. Lemos tudo, mas faltava um livro. O dela. E agora o tinha em minhas mãos. Comprei o livro na véspera de minha volta ao Rio e tive material suficiente para driblar as muitas horas de viagem.

Quando cheguei ao Brasil, uma noite acordei com a televisão ligada e Ingrid sendo entrevistada pelo Jo. Por trás de uma cortina de sono, não sabia se era sonho ou realidade. Que pena que só vai lançar o livro em São Paulo.

E lá estava eu engarrafada em Botafogo sabendo sobre o lançamento no Rio. Imperdivel! Como o mundo dá voltas! E como pode ficar parado em plena Voluntários da Pátria!!!!

Cheguei cedo à livraria e comprei um livro para Soraya que agora está morando em São Paulo e que viria para o Rio no final da semana. Se ela não podia estar ali, pelo menos teria o autógrafo da Ingrid. Aos poucos fui encontrando outras pessoas que também esperavam a abertura dos trabalhos. Me sentia meio um peixe fora d'água, uma estrangeira em minha terra, mas eram pessoas tão legais... fui me enturmando.

De repente o celular toca. Alô, Patricia. Sou eu Soraya. Estou dentro avião. Tenho uma supresa para você... Soraya, desliga este celular. O avião vai cair!!!... Ainda não fechou a porta... Soraya, quando vc chegar, deixa as malas no hotel e vem para o Shopping Leblon. A Ingrid Betancourt está lançando o livro dela aqui. Soraya sorriu. Me espera por aí. 

Depois de uma longa espera, com o auditório repleto, com direito a telão na parte de baixo da livraria,  Ingrid Betancourt adentrou a sala. Se heroina ou se vilã, na verdade, não importava muito. Diante de nós estava uma sobrevivente. Sobrevivente da miséria de uma região, da ignorância. Sobrevivente da loucura humana que justifica com ideologias, filosofias e blablabla, o que há de mais animalesco em nós. Nossa viceral capacidade de ser cruel, imoral, aético, brutal. Acorrentamos o próximo com nossas idéias e entranhas. Aprisionamos o mais fraco pelo prazer de nos sentirmos mais fortes. E tudo, tudo mesmo, abençoados pelo deus-dinheiro que é entidade forte e que precisa de muitos cavalos.

Quando terminou a entrevista, enquanto estávamos na fila para os autógrafos, disse para Soraya que tinha comprado um livro para ela e ela riu muito, pois tinha comprado em São Paulo um livro para mim. Compartilhamos todas as etapas dessa história e dividimos a idéia de presentear uma a outra.

Grande emoção ao conversarmos com Ingrid e receber seu autógrafo. Fecho da noite com jantar. Soraya, Bragança e eu.

Muito bom reeencontrar amigos gaúchos, com quem vivemos tantas aventuras na Venezuela, em uma noite quente, nesta primavera carioca.

Semaninha corrida e... Como o mundo dá voltas! Agora, já novamente aqui na Cidade do México, enquanto Gloria arruma mi habitación, fico pensando no que acabo de escrever.

Penso em nós, seres humanos, protagonistas de nossas histórias. E porque protagonistas, tantas vezes heróis, tantas vezes vilões. Nós, perdidos em um panteismo de interesses e emoções. Será o homem essencialmente bom ou mau? Nós, santos ou feras? Não sei... Talvez nem importe saber... É, talvez.


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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

UMA TARDE


Fazia muito tempo que eu planejava passar uma tarde por lá. Talvez o nome da rua e a cor do muro não indiquem muito, mas, para mim, é como um espaço encantado. Lá o tempo corre em outra direção e há sempre uma certa brisa. Calle Londres, 247. La Casa Azul.

Já havia estado lá outras vezes, em visitas com amigos e também sozinha, mas passar uma tarde inteirinha no jardim da casa era aventura que eu nunca tinha vivido.

Não é que o jardim seja enorme, porque não é. E nem há plantas de tal ordem exóticas ou belas que possam nos proporcionar uma aula de botânica avançada. Não. O jardim é pequeno e se divide em pequenos canteiros com plaquinhas onde não está escrito o nome das flores, mas sim pequenas citações... frases ditas pelos donos da casa... Diego e Frida.


Cheguei no inicio da tarde. Tinha tomado o Turibus em frente ao Auditorio. Fiz baldeação em La Condesa e, depois de passar por San Angel e pela cidade universitária, cheguei a Coyoacan

Parei na praça principal, a do coreto, com seus bancos de ferro, sua igreja e  realejos. Queria ir caminhando até à casa azul. Queria meio que me perder naquela colonia. E não é que me perdi mesmo! Quando vi, estava no mercado popular, entre frutas, comidas, artezanato e muita roupa de monstro. Afinal, era quase véspera del día de los muertos, mas para a criançada pode chamar mesmo é de Halloween.

Fui tentando intuir o caminho certo e perguntando aos vendedores. Para se chegar à Calle Londres, tinha que passar pela Calle Paris. (Claro! Como não tinha pensado nisso?!)

O calor da tarde era forte e eu ia ficando cada vez mais com cara de gringa. Bochechas vermelhas. Mas, finalmente, cheguei.

Primeiro revisitei a casa e algumas lembranças de amigos que estiveram ali comigo. Havia um burburinho de muitas linguas ao meu redor. Francês, inglês e espanhol iam se misturando a sorrisos e comentários de tempos já passados. Reencontrei a cama, o fogão, os espelhos, a escada. Era bom estar ali.

Entrei por uma porta, sai pela outra e, de repente, o jardim. Árvores altas, sombra, muito verde se misturando ao azul forte das paredes. Um fresquiiinho... Queria ficar por ali. Bem quietinha. Mas onde? Como já disse, o jardim é pequeno e as únicas cadeiras estão em uma pequena cafeteria, mas eu não queria tomar nada. Só queria ficar ali ... por um tempo. Por muito tempo.


Acompanhei com o olhar um casal de americanos bem jovens. Típicos. Bermuda cáqui, sandália de couro e camiseta. Ela, com o cabelo amarrado num coque despenteado (coque que se faz para espantar o calor da nuca)  e ele de cabelo bem curtinho. Subiram uma escadinha de pedra. Eles e os meus olhos. E foi então que encontrei a desculpa perfeita para ficar por ali por mais tempo e também onde me sentar. Uma televisão, dessas de muitas polegadas, ia contando, em documentário, coisas da vida de Frida e de sua casa.

Subi e me sentei ao lado dos dois. Era bom estar ali. Fresquiiinho... Fui me perdendo nas imagens e na voz morna do narrador. E nem me encomodei com a tradução simultânea que a moça ia fazendo para o rapaz. Só queria ficar ali. Quietinha.

Depois de algum tempo o documentário acabou, eles foram embora e eu continuei sentada. Respirando. Olhava para um lado, para o outro. Me espreguicei. O documentário começou novamente. Outras pessoas se sentaram ao meu lado e eu lá... respirando... quietinha. Era exatamente isso que eu tinha planejado fazer. Passar uma tarde por ali. Naquele lugar fora do tempo e do espaço. Cercada de verde, árvores altas e um barulhinho de água caindo na fonte.

Acho que o documentário tinha começado novamente e na tela de muitas polegadas uma imagem me tirou de meu torpor...


Me tomei pela mão... Era hora de partir...


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

AINDA DÁ TEMPO... AINDA É SEXTA-FEIRA



quase fiquei devendo
por pouco
por pouco mesmo
mas ainda é sexta-feira

Em noite sem lua cheia
o céu se enluarou
e eu fiquei aluada
perdida
perdida mesmo
é sério...descaminhei

um torvelinho de histórias
(como dedos de avó)
trançaram meus pensamentos
lembranças e reencontros
queridos amigos queridos

e depois
da imigração
do avião
da turbulencia
depois
do desayuno
a dez mil pés de altura
pousei o corpo e os olhos
no olhar da minha tribo
meus índios e carapálidas
queridos amigos queridos

ainda é noite
ainda é sexta
cumpri a promessa
de um texto prometido

é bom chegar
muito bom
é bom voltar
muito bom

e enquanto laço e entrelaço palavras
na busca da poesia
a noite se enluarou
aluada noite morna
perdida
descaminhada
neste quase fim de dia





(Foto [perfeita] retirada do Google images. Foto do jornal O Povo)


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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

MORIDO (PALAVRA INVENTADA)


Dizem que uma foto vale por mil palavras, imaginem nove fotos!
Mais do que uma simples conta de multiplicar, neste caso, estas nove fotos têm uma eloquencia infinita e, no infinito silêncio da sala de exposição, se contaram e nos contaram palavra a palavra, idéia a idéia, conceito a conceito.
Arte!

Viajar tem dessas coisas... O convívio com as surpresas, com o inesperado. Quando vim para o México desta vez, não imaginava que iria passar uma deliciosa manhã visitando a XIV Bienal de Fotografía, no Centro de la Imagen del Centro Nacional de las Artes que fica na Plaza de la Ciudadela 2, Centro Histórico 2, Mexico DF (metro Balderas).

Tão logo cheguei ao México desta vez, entrei em contato com Vilma, amiga que fiz na Venezuela e que agora está morando por aqui. Foi bom encontrá-la, porque a dona de casa venezuelana, deu lugar novamente à professora de fotografia da universidade gaúcha. E com que prazer ela me falou de suas aulas, de suas idéias, do que andava fazendo. Vilma, professora e fotógrafa... artista. Foi ela que me falou da exposição. Como adoro fotografia, sem nenhum pudor, me inclui na visita que ela iria fazer à Bienal com duas de suas alunas.

Como chegamos cedo, ainda deu tempo de perambularmos um pouco pelo mercado La Ciudadela que fica ao lado de onde estava a exposição. Conversávamos entre corredores repletos de artesanías, cerâmicas, couro, comidas e espelhos. Depois, foi só dar uma corridinha e já estávamos na Bienal.

Só o prédio do Centro de la Imagen, já é uma experiência estética. É como ir ver arte na Pinacoteca de São Paulo, a arte começa na arquitetura do lugar.

Fomos nos perdendo por corredores e fotos. Instalações visuais, experiências. Paredes antigas, tetos de madeira gasta e muito vidro e metal serviam de cenário. Caminhamos ... Às vezes parávamos para Vilma nos explicar uma coisa ou simplesmente para olhar. Cor, luz, sombra, contrastes e muita violência. Chama a atenção como a violência que o pais está vivendo impregnava o trabalho dos artistas. (E como mexicano não tem pudor com a morte... lá estava ela, nas fotos, sem nenhum pudor.)

Até que diante de nós estava um conjunto com nove fotos em preto e branco. Fotos de crianças. Tudo bem equibrado, meninos e meninas, contraste na cor das roupas, uma aura ao redor de cada uma delas. Mas afinal do que se tratava? Em um pequeno texto, a artista, Claudia Hans, nos contava sua idéia - Morido, uma palavra inventada. A principio me assustei... Que maldade fazer isso com as criancinhas! Depois fui entendendo ... entendendo... e me vi nas tantas vezes que estive diante da precariedade da vida. E, diante de mim, nas fotos, estava a nossa eterna e etérea precariedade diante do irreversivel. E como cada um de nós reage ... Nós, pobres mortais.

(Querem um tempo para observar as fotos? Então voltem a elas. Ampliem a foto.)

Isso mesmo, cada criança foi colocada diante de um pássaro morto. Isso mesmo. E só. Arte.

No mais, não quero falar mais nada. Não preciso. Afinal... uma foto vale por mil palavras. Imaginem nove, flagradas pelo silencioso olhar da artista.

Nota: Não sei se há implicações de direitos autorais pela reprodução das fotos, de qualquer forma anexo a página da artista http://www.claudiahans.com onde está apresentado o trabalho.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

MUITOS RESGATES


Quando viajei para o México, tinha muitos planos de passeios. Afinal, já é quase uma tradição de há séculos, enquanto Silvio trabalha, eu tiro os dias para descobrir lugares. Desta vez não seria diferente.

Por causa das outras vindas à Cidade do México, já conheço bastante de suas colonias, calles, plazas y parques. Já conheço muito de seus pueblos vizinhos, mas, com imaginação, sempre dá para ver novas coisas. Ou rever outras que sempre serão bem vindas ao olhar. 

Mas... como se diz por aí, "o homem põe e Deus dispõe". E foi isso que aconteceu.

Até domingo de manhã as coisas estavam bem, mas de tarde, Silvio começou a sentir dores fortes nas pernas. Tivemos uma noite, daquelas que a gente quer por tudo esquecer, mas, na segunda feira, ele, todo engravatado, me avisou que iria trabalhar. Nem discuti, também já tive meus dias de workaholic, e sei que quando a gente cisma com uma coisa, não há Cristo que nos faça mudar de idéia. Mas...'" o homem põe e Deus dispõe."

De tarde, ele me ligou dizendo que ia ao médico, não estava aguentando a dor. (Esta é a única coisa ruim de se estar fora de nosso país, ficar doente. Dá uma angustiante sensação de abandono...)

Quando chegou em "casa", trazia muitos remédios e um diagnóstico: inflamação do nervo ciático. (Pode????)

Os remédios lhe deram uma noite mais tranquila, mas de manhã, não houve vicio que o fizesse se engravatar novamente e ir trabalhar. Podia ficar de pé, podia se deitar, mas sentar... bem, nem com almofadinha ergométrica.

O que lhe restava era ficar deitado (e eu ao lado dele, por amor e solidariedade) e ver televisão.

Na CNN, o assunto do dia era o resgate dos 33 mineros chilenos previsto para durar em torno de dois dias. Portanto, tinhamos programação para as muitas próximas horas.

No anseio de desmentir Chico Buarque ("a dor da gente não sai no jornal"), a CNN e outros canais de televisão, esmiuçavam o passado de cada mineiro e de seus familiares, descreviam em detalhes (ainda que os mais sórdidos) o seu presente e especulavam, como mágicos oráculos, o seu futuro.

Nada passava desapercebido, ainda que os câmeras tivessem que se engalfinhar pelo ângulo mais preciso. Da progressiva exaustão do presidente, às lágrimas e sorrisos angustiados dos familiares. 

E começou o resgate. O primeiro resgatista desceu, lentamente, até o refúgio. Com sua chegada, apresentada ao vivo e a cores, graças ao advento das fibras óticas,  os mineiros choraram, eu chorei e o mundo se comoveu em edição extraordinária.

E subiu o primeiro mineiro, lentamente. A tensão era grande. Por quase vinte minutos, esperamos até que a sirene tocasse, indicando a chegada à superficie do primeiro herói. E ele chegou, trazendo palmas, cânticos, abraços e beijos e também enevitáveis comentários dos jornalistas. É um novo nascimento!!!! A mãe terra parindo seus filhos/heróis. O drama épico ao vivo e a cores.

E assim foi se passando o tempo. Às vezes, já era novamente hora de Silvio tomar remédio.

Um a um, os mineiros iam chegando com seus óculos escuros e sua força  e coragem. Sem dúvida, foram, são heróis. Sobreviveram a dezessete dias perdidos e sem comunicação. Sobreviveram à espera de que uma sonda chegasse a seu refúgio. Sobreviveram à escuridão e a fome. Sobreviveram às promessas de que jamais outro acidente como este acontecerá. Sobreviveram às mazelas da pele e dos dentes. Sobreviveram à claustrofóbica subida pelas entranhas da terra. Sobreviveram.

Enquanto Silvio dormia e eu assistia ao resgate, terceiro evento mais visto em toda a história da televisão, eu ficava pensando no Day After. Temi pela sobrevivencia dos trinta e três ao assédio enlouquecido da mídia, à barganha pelo melhor contrato para a filmagem do evento, para o best-seller, para a propaganda dos óculos escuros, dos macacões térmicos. E tudo tendo que ser feito com a maior rapidez, porque o ser humano está ficando com a memória cada vez mais fraca e, se já passou uma semana, já é página virada. Quem? Mineiros? Chile? Onde?

Quem, agora, poderá resgatá-los de seu destino inexorável? Serão eles capazes de sobreviver a essa nova mina? ... Que dizem ser de ouro?

É... continuo concordando com Chico Buarque... "a dor da gente não sai no jornal". (E nem na CNN, apesar de todos os esforços de reportagem).

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

UM CANTINHO EM POLANCO




A foto é a entrada do Obelisk Residencal, que fica na Calle Julio Verne 28. Um apart hotel em Polanco, uma das colonias, bairros da Cidade do México. Desde ontem, meu cantinho. (Agora mesmo, escrevendo este texto, estou por detrás das cortinas do segundo balcón).  

A vida é cheia de atalhos e surpresas que ninguém pode explicar. Êta vida engraçada! A primeira vez que estive na Cidade do México, em 2003, conheci o lugar nos intervalos de um Congresso sobre ensino de inglês e me encantei com uns cantinhos que se escondem por trás de seu caos urbano. Coyoacán (onde fica a Casa Azul de Frida Kallo) e Polanco.

O que me encantou em Polanco, mais que sua proximidade com o Parque Chapultepec, com seus Museus e Palácios, foi o seu ambiente. Casas antigas ou edificios mais baixos, quase todos de dois ou tres andares e ruas arborizadas, todas com nomes de escritores, filósofos e pensadores. A gente sai da Calderon de la Barca e, se vira para a direita, cai na La Fontaine, se vira para a esquerda, se encontra na Edgar Allan Poe. A Tolstoi faz cruzamento com a Dante, que por sua vez vai dar na Vitor Hugo.

É bom caminhar por aqui. Ir vendo as coisas do bairro. Na Av. Moliere estão as lojas das grandes grífes e o Plaza Moliere, um centro comercial pequeno mas bem charmozinho. Porém, se se quer consumir pesado, é só seguir em frente e ao final da avenida encontramos o Antara Polanco, um shopping para ninguém botar defeito. 



Mas o que realmente me encanta na região é o verde, de praças, parques, de muitas árvores, que, diariamente, têm um embate feroz com os milhares de carros que invadem as ruas estreitas de Polanco nas horas de rush

É esse contraste, um dos muitos que existem por aqui, que faz com que eu  sempre me encante com a cidade. Uma cidade enorme. Nascida de um lago. Parida por crenças e lendas. Vizinha a pirâmides e templos. Uma cidade com suas igrejas, deuses, realejos e problemas. Uma cidade encrustada na América Latina. Esta América que não consegue lapidar sua riquesa bruta. Ainda hoje, tão bruta.

Esperem!.... Não vou cair nesta armadilha. Me nego a tecer comentários histórico-sociológicos. O texto é só para marcar o segundo ano do blog. O segundo aniversário deste espaço virtual onde vou registrando meus tantos encontros, reencontros e desencontros com as coisas da vida.

Quando sai de Caracas, pensei muito em acabar com o blog, ou talvez criar outro. Não via sentido em continuar.  Quase me neguei a ouvir as palavras de estímulo e convencimento da montanha.

Mas agora, diante deste outro balcón, olhando este verde cosmopolita e urbano que não tem nada a ver com o da Cordilheira da Costa, mas que também me acalma e me instiga, acendo as velinhas e celebro, com quem quiser participar desta festa, o segundo aniversário do À Vista del Ávila... !!!Feliz cumpleaños amigo!!!  


É... A vida é mesmo cheia de atalhos ... Êta vida engraçada!

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ANTIGOS PAPÉIS


Casa nova, vida nova. Assim diz o ditado. E casa muito nova... novinha, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, significa uma casa, como direi, compacta. Há piscina, sauna, espaço gourmet, brinquedoteca, área zen e muito mais... Mas espaço que é bom para colocar tudo que a gente tem... Bem, aí são outros 500 metros quadrados.

Então, cá estou eu em plena cápsula, mais uma vez tentando abrir espaços... e caminhos para uma mudança que já saiu da Venezuela e que ameaça chegar em meu moderno e compacto "3 quartos" sem que eu tenha tido tempo de me desfazer de tudo que ainda preciso descartar. (O que me apavora mais são as coisas de Silvio. Uma papelada amorfa e caótica que deve ser preservada por razões metafísicas.)

De minha parte, estou fazendo o melhor que posso. Enquanto lidava com louças e móveis, a coisa foi fluindo bem, mas agora entrei em território delicado e perigoso... meus livros e meus papéis... meus escritos. Tudo no original. Muita folha paltata coberta por uma letra corrida, às vezes tímida, às vezes arrogante. Letra de menina que começa a contar sua história, letra de jovem que vai mudar o mundo no grito. A maioria das coisas escrita a lápis, que foi assim que eu sempre gostei de me escrever. Tres, quatro versões de um mesmo texto. A busca pela palavra exata. Risco, rabiscos, imprecisões.

Em uma folha de fichario encontro o original de Oráculo, meu primeiro great hit. O título original era "Nostradamus no Fantástico", a data 1974. Eu tinha dezesseis anos e, apocalíptica, anunciava: Somos os dos últimos tempos...

Fiquei olhando o papel e me revisitando. O meu rosto e minha alma iam mudando em frações de segundos. Da menina que naquela noite escreveu o poema até aquela mulher, que há uns sete anos atrás, disse pela última vez o mesmo texto para uma platéia de adolescentes como ela um dia havia sido. No final da palestra, uma menina de seus dezesseis anos foi falar comigo e me disse: Gostei muito daquele poema... Aquele... Somos os dos últimos tempos... E eu sorri e agradeci orgulhosa. O texto continuava vivo.

E agora aquele original em minha mão... Rasgo ou não rasgo? Quem vai se interessar por este papel amarelado? O poema já foi publicado. O registro já foi feito e afinal... outras gerações vieram. Não éramos os dos últimos tempos, mesmo que não se pueda volver a los diesisiete. Sempre haverá outras meninas e outros textos apocalipticos.

Virava e revirava o texto em minhas mãos. Vai Patricia, pára com isso. Rasga e pronto. Há que abrir espaços para outras coisas. Rasga.

Rasguei outros originais. E cópias feitas a mimiógrafo e xerox. Papéis antigos, amarguradamente amarelos. Outros textos. Outras histórias. Outros momentos de mim. Às vezes, eu era capaz de me lembrar do momento exato em que havia escrito um determinado poema, outras... ficava olhando para a folha, as letras rabiscadas e não lembrava mais. Tinha ficado só o texto como que descolado de mim.

Esbarrei novamente com a folha de fichario... Somos os dos últimos tempos...

Vai, Patricia. Rasga. O mundo não vai parar se você rasgar esta folha de papel. Não há para quem legar garatujas e folhas amareladas... Rasga.

Não importa se rasguei ou não o papel, mas o que sei é que há pastas que devem ser queimadas sem serem abertas... Queimadas vivas... Como se fazia com as bruxas medievais.

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