sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DE SEQUESTROS, LIVROS E AMIZADE




Semaninha corrida, esta! Nos últimos tempos, estar no Rio significa ter feito uma longa viagem de avião e chegar para organizar e resolver muitas coisas. Não faz mal, no fundo gosto dessa correria. Reclamo, mas gosto.

Estava no carro. Sinal vermelho, ar ligado, janela fechada (por razões óbvias) e a moça com um punhado de tablóides na mão me sorriu. Me sorriu e me ofereceu o jornalzinho. O sinal abriu, mas os carros continuavam parados (coisas de Botafogo). Decidi aceitar a oferta, afinal, do jeito que o trânsito estava daria para ler, pelo menos, a primeira página. E foi lá que encontrei a noticia: Ingrid Betancourt lança livro no Shopping Leblon. Incrivel coincidencia. Como o mundo dá voltas!

Uns quinze dias antes, eu estava na Cidade do México e a vi na CNN falando sobre o livro. Era o livro que faltava. Tinha que comprá-lo!

No dia seguinte, por um acaso, enquanto visitava o Centro Comercial El Pabellon, esbarrei em uma livraria de uma livreira chilena (um dia vou escrever um texto sobre os livreiros chilenos), e lá estava o livro. Meu objeto de desejo. Como o mundo dá voltas!

Enquanto folheava o livro, fui voltando no tempo. Nós, na Venezuela, acompanhando o pesadelo dos reféns. Nós, em Cartagena de Las Indias, fotografando o imenso poster com a foto de Ingrid Betancourt presa na selva.



Folheava o livro e nos via, Soraya e eu, em uma tarde de chuva torrencial em Caracas, depois de um almoço no Mocambo, ouvindo no rádio sobre a liberação dos reféns. Acompanhamos tudo pela TV e, depois, quando começaram a sair vários livros sobre o cativeiro e a operação de resgate (Operación Jaque), lemos todos os relatos. Em todos, Ingrid tinha papel protagônico, às vezes, heroína, outras, quase uma vilã. Lemos tudo, mas faltava um livro. O dela. E agora o tinha em minhas mãos. Comprei o livro na véspera de minha volta ao Rio e tive material suficiente para driblar as muitas horas de viagem.

Quando cheguei ao Brasil, uma noite acordei com a televisão ligada e Ingrid sendo entrevistada pelo Jo. Por trás de uma cortina de sono, não sabia se era sonho ou realidade. Que pena que só vai lançar o livro em São Paulo.

E lá estava eu engarrafada em Botafogo sabendo sobre o lançamento no Rio. Imperdivel! Como o mundo dá voltas! E como pode ficar parado em plena Voluntários da Pátria!!!!

Cheguei cedo à livraria e comprei um livro para Soraya que agora está morando em São Paulo e que viria para o Rio no final da semana. Se ela não podia estar ali, pelo menos teria o autógrafo da Ingrid. Aos poucos fui encontrando outras pessoas que também esperavam a abertura dos trabalhos. Me sentia meio um peixe fora d'água, uma estrangeira em minha terra, mas eram pessoas tão legais... fui me enturmando.

De repente o celular toca. Alô, Patricia. Sou eu Soraya. Estou dentro avião. Tenho uma supresa para você... Soraya, desliga este celular. O avião vai cair!!!... Ainda não fechou a porta... Soraya, quando vc chegar, deixa as malas no hotel e vem para o Shopping Leblon. A Ingrid Betancourt está lançando o livro dela aqui. Soraya sorriu. Me espera por aí. 

Depois de uma longa espera, com o auditório repleto, com direito a telão na parte de baixo da livraria,  Ingrid Betancourt adentrou a sala. Se heroina ou se vilã, na verdade, não importava muito. Diante de nós estava uma sobrevivente. Sobrevivente da miséria de uma região, da ignorância. Sobrevivente da loucura humana que justifica com ideologias, filosofias e blablabla, o que há de mais animalesco em nós. Nossa viceral capacidade de ser cruel, imoral, aético, brutal. Acorrentamos o próximo com nossas idéias e entranhas. Aprisionamos o mais fraco pelo prazer de nos sentirmos mais fortes. E tudo, tudo mesmo, abençoados pelo deus-dinheiro que é entidade forte e que precisa de muitos cavalos.

Quando terminou a entrevista, enquanto estávamos na fila para os autógrafos, disse para Soraya que tinha comprado um livro para ela e ela riu muito, pois tinha comprado em São Paulo um livro para mim. Compartilhamos todas as etapas dessa história e dividimos a idéia de presentear uma a outra.

Grande emoção ao conversarmos com Ingrid e receber seu autógrafo. Fecho da noite com jantar. Soraya, Bragança e eu.

Muito bom reeencontrar amigos gaúchos, com quem vivemos tantas aventuras na Venezuela, em uma noite quente, nesta primavera carioca.

Semaninha corrida e... Como o mundo dá voltas! Agora, já novamente aqui na Cidade do México, enquanto Gloria arruma mi habitación, fico pensando no que acabo de escrever.

Penso em nós, seres humanos, protagonistas de nossas histórias. E porque protagonistas, tantas vezes heróis, tantas vezes vilões. Nós, perdidos em um panteismo de interesses e emoções. Será o homem essencialmente bom ou mau? Nós, santos ou feras? Não sei... Talvez nem importe saber... É, talvez.


(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

4 comentários:

Celina disse...

Para variar você transforma um fato em pura delicia de ler! Assim que passar a fase "obras" vou ler esse livro. Você em Caracas e eu em Paris, com o mesmo cartaz...Nunca consegui entender o que faz o ser humano protagonizar o desrespeito total ao outro. Quem sabe quando eu crescer?besitos cariño!

anaschwarc disse...

É, eu acho que o ser humano é assim mesmo. É a eterna busca da humanização. Acho até que nós já nos humanizamos, à beça!!!!A História está ai, mesmo, para comprovarmos esse fato . A condição humana é uma eterna dialética!!! Mas chega de blábláblá. Eu vi, tb, o Jó, naquele dia. E, o texto, tá muito bacaninha!!! bjsss

ayabrag disse...

Ir ao Rio foi um prazer triplo: rever a minha amiga amada, rever a cidade maravilhosa e ter a oportunidade de conhecer pessoalmente a Ingrid. Agora tive mais um grnade prazer, deleitarme em teu divino texto. Beijos já cheios de saudades...

Eulalia disse...

Uau, Patrícia!
O indecifrável ser humano.
Adorei.
beijos