quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

JÁ QUE SOBREVIVEMOS...


Então está bem... Já que sobrevivemos ao fim do mundo, às intempéries, às hecatombes, aos Maias e a mídia... Bem que, como sobreviventes, a gente podia mesmo era festejar!

Vestir a roupa de gala e celebrar a vida e suas possibilidades. Celebrar o que há de possível em nossas impossibilidades. Renascer... Ser feto novo. Ser fato alvissareiro. Buscar o Melhor. Melhor assim mesmo, com letra maiúscula.

Um ano novinho vem chegando, com suas promessas... Com as nossas promessas que, espero,  não serão novamente adiadas.

Já que não dá mesmo para mudar o mundo, mudemos nós. Que há sempre algo para se mudar. Um hábito, uma teimosia, uma maneira de ser ou não ser (eis a questão!).

Mesmo descrentes de nós, de nossa força de vontade, de nossos sonhos, de nossa determinação, ano novo é para isso mesmo... Insistir... E prometer... E jurar que dessa vez vai ser diferente. Porque as coisas podem ser diferentes... E melhores.

Talvez não para o mundo, para os países, para as comunidades, para o social... Mas para cada um de nós... Até que dá... Uma melhoradinha que seja, já é algo a celebrar.

E, então, fazemos nossos planos e pulamos sete ondas e comemos sete uvas e abrimos o espumante e não esquecemos as lentilhas e brindamos ao novo que chega pendurado na meia noite. Tudo em nome da esperança. E não há nada melhor que se ter esperança.

É ela que nos faz seguir em frente. É ela que nos faz continuar. O que cabe a cada um é encontrar ou escolher o caminho.

Já que não dá mesmo para mudar o mundo, que cada um de nós, formiguinhas aladas e misteriosas, faça a sua parte. Quem sabe assim não melhore o formigueiro?

Um ano novinho vem chegando. Ufa! Sobrevivemos!

(Por que será que os homens teimam em ser oráculos do fim, quando cada novo dia sempre profetiza recomeços?)

Que 2013 chegue, assim,  de mansinho e se espalhe como um imenso e permanente amanhecer... Enorme... Por 365 dias!



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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O NATAL MAIS FELIZ DE TODOS


Não teria nem data nem local certo para acontecer. Um dia a gente acordava e era Natal. Seria uma manhã daquelas bem brancas... Manhã de outono carioca, com uma brisa levinha que dá vontade na gente de sair e andar.

As ruas não estariam repletas de gente indo e vindo de algum lugar, com aquele olhar perdido em listas de compras e últimos retoques para a festa, para a ceia. Não haveria jantar, mas seria dia de comemoração.

Não haveria presentes, nem mesmo as pequenas lembrancinhas. Haveria a presença daqueles que amamos e a intensa lembrança dos que já não estão mais.

Os amigos ocultos também não existiriam, porque estariam bem juntos de nós com a transparência de um abraço apertado.  E os desafetos permaneceriam o que são, sem a pegajosa obrigação de se confraternizar. Não haveria amigos secretos... E nem segredos.

As casas estariam ornamentadas de bem quereres, de afagos, de cafunés e de risos  e haveria um brilho intenso no olhar de cada um. Um brilho de mil pirilampos.

E quem entraria pela chaminé de nossas almas, pé ante pé, sem renas, sem anões, sem roupa de veludo colorido, seria a imensa alegria de se existir. O presente seria ser... Plenamente.

Haveria lugar para o silêncio e uma certa solidão. E a música, a verdadeira música, sairia da batuta daqueles que amam a arte de cantar.

Não cairíamos na armadilha do presente mais caro, da roupa mais bonita, da mesa mais bem enfeitada. Estaríamos livres para nos despojar, como em um longo bocejo. Íntimos da festa. Íntimos na festa.

Brindaríamos a data com gotas de orvalho e comeríamos rabanadas feitas com canela e carinho.

Não enviaríamos nem cartões nem emails desejando um Feliz Natal. A mensagem estaria explicita, solta no ar.

E por fim, seríamos felizes como as crianças, correndo em nosso mundo de faz-de-conta, entre brinquedos e adultos e a vida e muitas ilusões.

Em nossos sapatinhos... Somente os nossos pés... Para seguir viagem... Para continuar caminho. 

Um dia simples, como outro qualquer.

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

HÁ SEMPRE UM LUGAR...


Em toda a viagem, há sempre um lugar que chega como presente com laço de fita rosa. Um lugar que já podia estar nos planos, marcado em mapas e roteiros, mas que quando in loco, supera fotos, expectativas e sensações. Chamo a estes lugares de "por acasos" e quem me lê já há algum tempo sabe o quanto valorizo esses inesperados recantos.


Nesses lugares, a gente pisa mais forte e deixa um tantinho da alma perdido por lá. Como pegada feita de olhar. Como perfume que se sente na língua. Como um calor de aconchego ao som de um dia de frio. Esses lugares misturam os nossos sentidos.


Neles, não se precisa ser feliz por todo o tempo. Cabe até um viés de tristeza, de saudade. Um dedinho de solidão. Esses lugares misturam as nossas emoções.

São uma ponte sutil entre realidade e desejo. Entre o possível e o sonho.


Lá, a gente se senta num canto qualquer e fica só assuntando...


E se perde por vielas...

Toma aquele cafezinho...


Saboreia o sumo das tardes...


Perde o rumo para encontrar o caminho.


Em toda viagem, há sempre um lugar... Dessa vez foi Amboise, lá no Vale do Loire.

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

GOING HOME...

 
Última noite em Londres... Time to go home...
 
Será que é saudade o que sinto agora neste quarto de hotel?
 
Mala feita... Late check out confirmado... Será que é saudade?
 
Saudade da família que fica...
 
Saudade dos meninos, como os chamo...
 
Saudade da enorme alegria que senti quando vi Carol subir no palco do Barbican Centre para receber seu diploma... Está pós-graduada ... Amém!
 
Saudade da prima que me mostrou uma França cheia de sutilezas entre castelos e estradas vicinais...
 
Saudades...
 
Muitas saudades...
 
Lá fora, cai uma chuvinha suave que molha o chão e um canto qualquer de minha alma...
 
A temperatura não passa de dois  ou três graus...
 
Este ano, Londres me pareceu mais cansada... Uma senhora de estirpe que perdeu suas luvas em um acinzentado jardim...
 
Ainda assim, sorri fleumática e toma seu chá com scones enquanto a noite cai sobre o Tâmisa entre pontes e Saint Paul's...
 
Saudades...
 
Time to go home...
 
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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

UMA FOTO DE LONDRES

 
É ... Já não se fazem mais Londres como antigamente!
 
Depois de passar uma semana cercada de castelos no Vale do Loire, aqui estou eu em um dos cable cars da Emirates Airlines a olhar para esta Londres do século 21. E fico pensando enquanto vou descobrindo a paisagem e um comovente por de sol... Por onde andam o chá das cinco, Sherlock Holmes, Eliza Doolittle, Mr. Higgens e seus afins? Nem quero falar de Shakespeare, para não parecer muito arcaica...
 
Sumiram?
 
Que nada... Eles e muito mais continuam impregnando esta cidade mutante. Às vezes tão cinza, tão triste, tão úmida... Às vezes, feita de um róseo anoitecer...
 
Bem de perto, o Tâmisa a perscruta, decifrando na correnteza do tempo, seu enigma e sua beleza... Entre telhados de ardósia e mega arranha-céus.
 
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

TEM UMAS COISAS NA VIDA....



Não. Não, eu não vou filosofar. Não é o momento e nem a hora de filosofar. Já é tarde da noite e amanhã seguimos viagem... Vale do Loire. Mas, há uma semana, eu estava de pé para o alto, na cama, seguindo ordens do médico e infernizando Silvio com as minhas ordens. Não tinha idéia se poderia fazer a viagem tão esperada e planejada desde maio.

Não entendia o porquê do buraco na calçada. Estava furiosa com  as pedrinhas portuguesas. E me sentia desalentada...

Não mais que dez dias ao todo... E tive amiga Eulália indo à Policlínica me aplicar Reike enquanto o ortopedista me atendia. Tive Celina fazendo todas as promessas do mundo já por aqui, na Southwark Cathedral. Tive um monte de amigos me ligando, desejando melhoras. Tive minha querida amiga Soraya me dizendo, Você vai... E me entregando uma bengala, que eu tenho certeza que é mágica, porque, literalmente me fez voar.

Não... Não vou filosofar. Pelo menos por agora, não  quero tentar entender porque as coisas aconteceram desse jeito... Quando eu voltar para o Rio, tento entender a mensagem. Agora não...

Hoje estive na Chapelle de la Medaille Miraculouse e agradeci... Também pela viagem, mas principalmente pelo carinho de tanta gente que torceu por mim.

Ainda preciso da bengala para caminhar com segurança. Fiquei com medo de calçadas!


Não. Não vou filosofar... Não estou com tempo... Amanhã a viagem continua...

E se o pé ainda dói... Os olhos e o coração estão plenos para caminhar por bons momentos e novas e deliciosas recordações.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

PEDRINHAS PORTUGUESAS

 
A calçada portuguesa ou mosaico português (também conhecida como pedra portuguesa no Brasil) é o nome consagrado de um determinado tipo de revestimento de piso utilizado especialmente na pavimentação de passeios e dos espaços públicos de uma forma geral. Este tipo de passeios é muito utilizado em países lusófonos.
 
A calçada portuguesa resulta do calcetamento com pedras de formato irregular, geralmente de calcário e basalto, que podem ser usadas para formar padrões decorativos pelo contraste entre as pedras de distintas cores. As cores mais tradicionais são o preto e o branco, embora sejam populares também o castanho e o vermelho. Em certas regiões brasileiras, porém, é possível encontrar pedras em azul e verde. Em Portugal, os trabalhadores especializados na colocação deste tipo de calçada são denominados mestres calceteiros (!!!!!grifo e espanto nosso)
 
Em1986, foi criada uma escola para calceteiros (a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa) e em Dezembro de 2006, foi inaugurado também um monumento ao calceteiro, sito na Rua da Vitória na baixa Pombalina.
 
Sobre a técnica: Os calceteiros tiram partido do sistema de diaclases do calcário para, com o auxílio de um martelo, fazerem pequenos ajustes na forma da pedra, e utilizam moldes (!!!!!grifo e espano nosso) para marcar as zonas de diferentes cores, de forma a que repetem os motivos em sequência linear ou nas duas dimensões do plano (padrões).
 
Nota: ref. Wikipédia
 
Aqui, deitada em minha cama, com o pé para o alto e torcendo para que melhore para que eu possa fazer uma viagem que está planejada desde maio, posso me dedicar à leitura de amenidades, como este pequeno e singelo texto sobre as calçadas de pedra portuguesa.
 
Descubro, com admiração e certa surpresa, que, para a sua feitura, são necessários mestres calceteiros que são treinados em uma escola e que, pela importância de seu trabalho artístico, mereceram um monumento!
 
(Ai! Me virei na cama e o pé doeu!)
 
Desvanecida, aprendo sobre a cuidadosa técnica de colocação das pedrinhas, simétricas, seguindo um padrão predefinido por moldes, geometricamente planejados.
 
(Tô também com dor no nervo ciático por causa de minha posição na cama.)
 
Observo, entre atenta e deslumbrada, as fotos dos imensos e planos!!!! mosaicos que se espraiam por espaços de Lisboa. 
 
Volto ao texto... Pesquiso outras bibliografias, mas não encontro nada sobre o estilo despojado e irrequieto das calçadas cariocas. Mentira, algumas fotos das calçadas de Copacabana para marcar nossa presença. Nada mais.
 
Onde estarão as observações sobre a refinada técnica desenvolvida em solo tupiniquim de deixar, a espaços irregulares (fundamental para o estilo) pequenos ou mesmo grandes buracos nos quais a pedra basáltica foi retirada pela chuva, pelo vento ou por uma obra da Light? Também não encontro informações sobre as medidas milimétricas que devem ser tomadas para se fazer aqueles pequenos montículos, onde o desavisado pedestre deverá (por força de tradição) dar uma topada e quebrar pelo menos um dedo, ou ainda melhor, tropeçar e cair de boca no chão, quebrando alguns dentes.
 
Com tempo, que é o que não me falta agora, aprofundo minha pesquisa, mas não encontro nada sobre a simétrica irregularidade do calçamento e nenhuma observação (nem mesmo nas áreas da botânica) sobre o levantamento do piso e retirada das pedrinhas quando as raízes das árvores estouram nossas calçadas. Nada também sobre as pedrinhas soltas (de diferentes cores) que têm a nobre função de dar rasteiras nos transeuntes, provocando escorregões, quando normalmente se fratura uma perna, ou um braço ou apenas se tem uma luxação. Nada!
 
Porém, o que mais me fez falta na pesquisa, foram informações sobre alguma Escola para Calceteiros cariocas. Tentei de tudo. Sebrae. Sesc. Coppe. Telecurso 2° grau. Nada. Creio que não precisamos de treinamento já que somos um povo inventivo e empreendedor. Encontrei, no entanto, dados, ainda não confirmados por historiadores, que registram a necessidade de formação prévia para a feitura das calçadas (ou pelo menos para sua manutenção)...
 
(Ai! O meu pé tá um pouquinho dormente!)
 
Retomando o assunto. Para se fazer a manutenção adequada das calçadas tupiniquins, o profissional deve ter formação de zelador, ajudante de pedreiro ou amigo desempregado do síndico. As ferramentas para tão nobre ofício são de baixo custo, tais como: um pedaço do papel do saco de cimento (se possível o saco todo estiradinho no chão) onde se vira o concreto (com areia da praia?); uma pá de pedreiro e um punhado de pedrinhas portuguesas que estavam soltas na calçada do vizinho. Não é exigência para se fazer a tarefa, mas se for possível, óculos... de grau, caso o profissional tenha problemas oftalmológicos. Sem uma visão 20 por 20, a imprecisão da calçada não será a mesma.
 
Por sua importância histórica e, por que não dizer também, médica, já se pensa em fazer um monumento, não para os mestres calceteiros locais, mas para as vítimas destas armadilhas lusitanas. Soube, inclusive, que a Rede Globo já está preparando uma campanha para o próximo verão, campanha esta que substituirá a competição Menina do Fantástico. Vai se chamar The Fucking Victim (em inglês sempre fica melhor!) onde será escolhida a vítima ideal ou o tombo mais perfeito que será, então,  imortalizado em bronze, em mais um monumento para nossa maravilhosa cidade.
 
(A médica disse que eu vou poder viajar se ficar bem quietinha... Ainda bem!)
 
Nada como um tempinho livre para se aprender coisas novas! E, como nunca deixo de ser professora, divido com o meu leitor duas fotos com os diferentes estilos da arte de se desenhar com pedrinhas portuguesas: O estilo lusitano e o carioca. Será que dá para descobrir qual é qual?
 



Calçada estilo ................?

Calçada estilo .................?

 


 Será que deu pra adivinhar?
 
Nota final: Se você acha que tem alguma coisa a ver com este texto (alguma cicatriz antiga, ou mesmo nova), favor repassa-lo para alguns de seus amigos... Alguém é amigo do prefeito ou do secretário de obras?
 
 
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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

AQUI BEM PERTO

 
Ontem estive na casa de Ruy Barbosa (Rui Barbosa? As duas grafias se perdem pelos jardins da mansão). Aqui em Botafogo... Aqui, bem pertinho... Quanto tempo fazia desde a última vez que estive por lá?
 
Apesar de a tarde ter sido estranhamente tranquila para quem estava em plena Rua São Clemente, não é sobre a casa que quero falar.
 
Quero falar de pertinhos. De aquis.
 
Já não me lembro da última vez que subi ao Corcovado. Há muito tempo não vou ao MAM e faz anos desde que visitei o Museu de Belas Artes. Estou sempre me prometendo fazer os passeios, mas ai o tempo passa... E eles estão aqui tão pertinho... Deixa pra semana que vem.
 
Muitas vezes passo pelas praias de Ipanema e Copacabana, com um olhar blasé, reclamando do trânsito e, no Aterro, tem dias de pressa em que nem me apercebo que o Pão de Açúcar e o Cristo estão ao meu redor, em um abraço forte e azulado.
 
Engraçado, transgredindo todas as leis da física, tudo que está muito perto da gente fica menor. Às vezes, muito menor.
 
Se isso vale para uma montanha do tamanho do Pão de Açúcar, imaginem de que tamanho ficam essas coisinhas como... Deixa eu ver... Ah!... Um carinho de amigo. Um olhar rotineiramente apaixonado. Um sorriso solidário de uma pessoa que passa por você. Um silêncio, rápido e eventual, que vale por mil palavras. Essas coisas prosaicas, como um... Eu pensei em você.
 
é um lugar mágico, onde tudo é melhor (e maior!). E é o no espaço e no tempo também. Somos todos personagens do Meia Noite em Paris de Woody Allen. Ainda que a nossa Paris seja em Singapura ou na Basileia. Esteja no passado remoto ou em futuro distante. O bom está LÁ... E eu aqui comendo mosca!
 
Quantas vezes olho pela janela, sem olhar. Quantas vezes olho pela janela, por olhar. Quantas vezes... Nem vejo a janela!
 
E, então, o aqui vira buraco de fechadura, por onde se espreita, à espera de algo... Mas algo que seja ALGO... E que nunca chega. Que sempre se adia. Que se perde no tempo.
 
Talvez um dia a gente encontre umas lentes convexamente côncavas que permitam que todos possam ver o aqui (e por que não o agora também?) com um olhar de primeira vez. Como se  tudo fosse paisagem distante e estrangeira. Aqui de cartão postal.
 
Talvez desse pra se ser mais feliz... Ou não... Quem sabe a magia da vida esteja exatamente nessa nossa eterna e tola esperança de que lá, ou mesmo ali, é um lugar bem melhor. Talvez...
 
Mas que, pelo menos, apreciemos a viagem com calma e despojamento, sem angústias e ansiedades... E, principalmente, sem dar um overbooking nos tesouros rotineiros (grandes ou pequenos) que estão ao alcance de nossas mãos.
 
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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O ROSTO DO ROSTO

 
 
Cheguei sã e salva. Há um mês atrás estava em Nova York, depois Houston... Mas o Sandy não me pegou. Viajar para os Estados Unidos em época de furacão é sempre uma aventura... Mas cheguei sã e salva.
 
E na chegada, a surpresa. Cheguei na varanda e descobri que Lourdinha já era avó. Lourdinha Carnaval, a amiga bromélia, com quem dividi tantas tardes e emoções. Minha amiga que feneceu me deixando filhotes... Já é avó.
 
O broto ainda bebê me olhou desconfiado. Era a primeira vez que me via. Eu não. Reconheci em seu rosto, o rosto da amiga. Da amiga jovem, quando chegou aqui em casa, pronta para cair na farra. Cair no samba. Às vésperas do carnaval. As mesmas pontinhas ainda verdes. O mesmo amarelo solar. É um broto menina, disso tenho certeza, mas ainda não sei o seu nome. Acho que vai ser Nicholeta. Isso. Nicholeta com ch.
 
O rosto do rosto... Reflexo com alma e suas próprias paixões...
 
Não me pareço fisicamente com minha mãe. Às vezes, quando me olho no espelho, num de repente, num por acaso, consigo revê-la em meus pequenos gestos. Um olhar de soslaio, um riso de canto de boca, um revirar de cabeça. Tento abraçar esses momentos, rápidos, difusos, mas eles se diluem no ar.
 
Como não tive filhos, meu rosto não está destinado a mágicos mimetismos. Nunca vai se descobrir em outros rostos. Não tenho espelhos que me sirvam de par. Nem côncavos, nem convexos. Minha imagem, um dia, partirá comigo para algum lugar. Posso deixar algumas pegadas e alguma sombra, dessas que se alongam em por de sol praieiro, mas meu rosto seguirá comigo.
 
No futuro... Talvez seja algumas fotografias. Talvez.
 
Às vezes sofro de abstinência de continuidade.
 
Por isso fiquei feliz, muito feliz, quando cheguei na varanda e encontrei no rosto de Nicholeta, o rosto de minha amiga, refeita menina, com pontinhas ainda verdes e com seu amarelo solar.
 
Saboreei com cuidado esse bocadinho de eternidade e sorri com esperança... Será que Nicholeta, como sua avó, vai saber sambar?
 
 
 
 
(Lourdinha Carnaval ensaiando os seus passos para desfilar na Avenida)
 
Nota: Outros textos que podem interessar: LOURDINHA CARNAVAL , UMA FÁBULA e FILHOTES DE BROMÉLIAS

 
 
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

TRÊS LUGARES

Esta semana, fica o registro de uma terra que cada vez mais gosto de visitar. Terra de cowboys, golfinhos e muito chili! Texas!


San Antonio! Com seu Riverwalk e o Álamo...



Old Spring Town! E seus fried green tomatoes...




E Galvestone! Com o seu Historic District e seus furacões...

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O SEGUNDO DEBATE


Estar no Texas no dia do segundo e, talvez, mais importante debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos foi, como se diz em inglês, quite an experience!
Quando estive em Nova York no início de setembro, a vitória de Obama era quase indiscutível, aí houve o primeiro debate e tudo mudou. Empate técnico, crescimento do republicano, dúvidas sobre a competência democrática...
E, então, lá estava eu em Houston no dia do segundo embate e devo confessar que, mesmo antes do debate começar, já estava com indigestão do evento. A impressa passou os últimos dias explorando todos os possíveis (e impossíveis) ângulos da contenda.
O background familiar dos candidatos. Seu relacionamento com a figura paterna. A reação das esposas presidenciais a esse tipo de evento. As diferentes propostas sobre temas polêmicos. O voto das minorias. As questões econômicas. O problema da Líbia. Imigração... Ufa! Mas o que mais me chamou atenção foram as horas usadas com o profundo levantamento sobre todas as teorias sobre body language.  
Confesso que se eu fosse candidata e ouvisse tudo que foi dito sobre body language, nem subia no palco. Fugia, vestindo uma burca para ninguém me ver.  
Tenho que admitir que fiquei com alguns efeitos colaterais.Toda vez agora que passo por um espelho me observo para ver se estou mais virada para a esquerda ou para a direita, se meus olhos estão olhando para cima ou para baixo ou para lado (e que lado?), se meus dois pés estão firmes no chão ou se um deles está um pouco levantado, indicando alguma insegurança...
Outra coisa que me chamou atenção foi um certo frisson porque, pela primeira vez, uma mulher seria mediadora em um debate entre presidenciáveis. Não pude deixar de pensar em nossas tantas jornalistas que já mediaram tantos debates. Viva Marília Gabriela!
E chegou a noite e combinamos de ver o evento no restaurante do hotel.
O lugar não estava tão cheio quanto nas noites anteriores (acho que o campeonato de footbal americano dá mais ibope), mas havia algumas mesas bem animadas e mobilizadas. Lembremos, eu estou no Texas, terra de George Bush.
E o debate aconteceu entre alguns aplausos republicanos e uma deliciosa pizza supreme.

Do debate, me ficou a sensação de que o mundo mudou muito. E há muitas perguntas sem respostas. Pensei na Europa e seu terrivel impasse. 

Da noite, me ficou um comentário... Meu amigo César reivindicando nosso direito de voto também. Afinal, muitas das decisões tomadas por aqui, vão ter impacto... No mundo. "O voto americano deveria ser globalizado".
Até condordo com César... Mas... Acho que só ia ter um problema... Se o voto fosse globalizado. Se fosse globalizado como globarizaram tudo... Bem, aí não ia ter body language que desse jeito... Ganhava um chinês!
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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

E SE FOSSE POSSÍVEL...

 
E se desse para a gente voltar? Num abracadabra. Num estalar de dedos. Num passe de mágica. Varinha de condão. E se desse pra voltar?
 
Por um minuto que fosse... E a gente escalando cadeiras. Pernas soltas no ar.
 
Um colo morno... Cheiro de lavanda nos fins de tarde.
 
Uma voz mansa e rouquinha tecendo histórias de fadas, de piratas. Aventuras. Serpentes e Minotauros.
 
Se desse pra gente voltar... Mesmo com todas as bruxas. Mesmo com todo o medo do escuro...
 
Se desse pra gente jogar a pedrinha no céu de um jogo de amarelinha e num salto cair naquela antiga varanda, naquele quintal de terra batida, naquela copa cheirando a bolo quentinho.
 
Se desse pra gente voltar... Voltar pras cantigas de roda, pras brincadeiras de rua, pro pique-esconde, pro cabelo melado de suor...
 
Voltar pro cheiro de borracha cor de rosa,  pro estojo colorido, pra merenda, pro recreio, pros desenhos, pra massinha...
 
Se desse pra voltar... Mesmo com todos os números e tabuadas. Mesmo com todas as capitais...
 
Se desse pra voltar... Por um minuto... Pra sentir o perfume daquela flor.
 
Gosto de baunilha na boca...
 
Nadar com boia de pneu...
 
Andar nos muros...
 
Comer amora...
 
Correr muito... Até chegar a nenhum lugar.
 
E se desse pra voltar... Só pra sentir um cafuné daquela mão tão grande com cheiro de Aqua Velva...
 
Dar meia volta no tempo... Soltar cafifa no vento... Por um momento...
 
Poder regressar. Ser a gente de trás pra frente. De repente!
 
E saltar do balanço...
 
E construir casinhas...
 
E escrever o nome de carreirinha... Patrisia
 
E, em uma folha em branco, começar a se contar. Entre dias e pontos. Entre meses e virgulas... Entre lacunas e rasuras... Com um medo danado do ponto final.
 
Se desse pra gente voltar... Ah, se desse pra gente voltar...
 
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

PIER 17

 
Meus pais morreram muito cedo. Não tive filhos. Não tenho irmãos. Apesar disso, tenho a alegria de ter uma deliciosa família. Primos e tios... Sobrinhos emprestados... Amigos de tantas épocas... Os de Silvio... Silvio... Todos formam uma família múltipla e muito especial. A minha família. Costumo, por instinto, afraternar pessoas.
 
A tarde estava perfeita para o passeio. Comer qualquer coisa no Pier 17 e depois pegar um veleiro para chegar bem pertinho da Estátua da Liberdade.
 
 
 
Aos poucos, Nova York, com suas sirenes e escadas de incêndio,  foi ficando ao longe. Um vento gostoso já de outono se disfarçava em brisa de primavera. Uma temperatura perfeita e nossos dedos e câmeras apontando para diferentes cenários. Era muito bom estar ali. Uma tarde inesperada em meio a um setembro qualquer.
 
Marcia e eu, irmãs em tantos momentos, havíamos combinado viajar juntas fazia muito tempo, desde a época em que dividíamos a Cápsula. Entre MBAs e Mestrados, planejávamos ir a Roma, mas agora, anos depois, estávamos em Nova York.
 
Silvio sempre diz que não sabe como nós, mulheres, podemos achar tanto coisa para conversar. Pobres homens que não sabem a delicia de se ir emendando um assunto no outro até se tecer uma tarde. É uma arte. Um bailado. Ideias, risadas e palavras em rodopio no ar. E silêncios... Que também há silêncios... Para se respirar... Pensar no que foi dito... Olhar a paisagem... Preparar a câmera para fotografar. 
 
 
Fazia tempo que não conversávamos tanto. Assim, sem pressa. Sem que houvesse um único assunto como tema central. Passávamos de uma coisa para outra. Passado, presente e futuro se misturavam em nossas lembranças, planos e na alegria de estarmos ali, naquela tarde, ao acaso, levadas pelo veleiro. 
 
 
 
Chegamos de volta ao Pier num inicio de poente. E, como mulheres, não resistimos também a dar uma voltinha pelas lojas do lugar. Lojas deliciosas, cheias de coisinhas.
 
Quando nos demos conta, os pés doíam muito. Precisávamos sentar...
 
 
Vimos o banco do lado de fora do Pier e mais lá fora era o poente e a Ponte do Brookling... A cidade começando a se iluminar. 

 
Sentamos ali e ficamos... Seguindo o nosso grave oficio de jogar conversa fora... Não. Falamos de coisas sérias. De alegrias e de perdas. De lutos e  de celebrações. De sonhos e de planos.
 
 
E a noite foi caindo sem nos dar muita atenção. E agradecemos aos deuses por estarmos ali. Por estarmos bem. Pensamos em tantos que podiam estar conosco ali naquela hora e dividimos silêncios e saudades...
 
Meus pais morreram muito cedo. Não tive filhos. Não tenho irmãos. Apesar disso, tenho o privilegio de poder afraternar pessoas, mágicas pessoas com quem posso dividir silêncios, saudades e o enorme prazer de estar viva e com olhos de ver quando o acaso é presente... Envolto em papel de seda azul noite e com um laço de fita brilhante como as luzes de uma cidade qualquer.
 
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

GROUND ZERO

 
 
 
Desde que começamos a falar em ir a Nova York, a ideia não saiu mais da minha cabeça. Eu iria ao Ground Zero. Porquê? Por muitas razões. Curiosidade histórica. Onipresença de turista que quer estar lá, naquele lugar, para dizer... Eu estive lá.  Vontade de ver in loco o ponto geográfico onde a História se perdeu e se reinventou. Ali, onde o século XX terminou.
 



Havia uma outra razão que, confesso, tenho um certo pudor de mencionar. Medo de soar piegas... Queria estar lá para pensar naquelas pessoas que estiveram lá, naquele momento, presas do acaso. Desfeitas em um grito, em calor de mil graus, em um salto no infinito, em susto e silêncio.
 
 
Pessoas tão comuns e cotidianas quanto eu. Anônimas pessoas que acordam e tomam o café da manhã e vão trabalhar e esperam voltar para casa ao final do dia. Pessoas possíveis com seus sonhos, ódios e paixões. Pessoas, independente da nacionalidade, ideologia, credo, raça, orientação sexual... Pessoas, cotidianas e comuns. Pessoas entregues à vontade do destino e a decisões alheias. Assim somos nós... E alguns de nós estiveram ali, aprisionados por aquela manhã de setembro. Ícones de nossa precariedade.


 
 
A minha primeira visão do Ground Zero foi ainda de longe. As novas torres (estas bem mais baixas) sendo contruídas. O vendedor de livros sobre o lugar... Foi ele que nos indicou onde pegar os ingressos para entrar no local. E foi ele também, um rapaz equatoriano bem simpático, que nos informou que o Ground Zero estava a umas quatro quadras dali.
 
Mas era ali que dava para ver aquele ângulo tantas vezes repetido ao longo dos anos pelos programas de TV. O segundo avião atingindo a Torre e dois homens olhando para cima incrédulos. Repeti o gesto deles e olhei para um céu manchado de nuvens. 
 
Com os ingressos já nas mãos, fomos andando até a entrada. As ruas estreitas indicavam por onde a nuvem gigante de poeira passou.
 
 
 
Chegamos e entramos em uma longa fila com cinco paradas para checagem dos ingressos. O lugar ainda está em obras e nos tapumes algumas referencias ao evento...
 
 
 
Achei irônico e comovente ver a bandeira feita com os nomes daquelas pessoas comuns, cotidianas e anônimas que estavam lá naquela manhã feita de terror.
 
Seguimos... Até o parque. O marco. O ponto. Ground Zero. Estávamos lá.
 
 
 
 
Uma simplicidade em verde e cinza. Um burburinho quase silencioso.  Um lugar... Aquele lugar, onde tudo aconteceu tão rapidamente, nos convidava a ficar ali sem nenhuma pressa. O tempo suspenso na precariedade da vida se equilibrava em uma corda bamba no ar.
 
 
Passamos pela única árvore que testemunhou o evento. Prova bem frágil de que, às vezes e por acaso, se consegue sobreviver... 
 
 
 
 
E chegamos às Torres às avessas, feitas de um eloquente vazio. Não são fontes... Não são lagos... Não são cascatas... Não são.
 
 
 
E a minha frente, os nomes... Daquelas anônimas pessoas que estavam ali naquela manhã de terror.
 
Rezei... Acariciei alguns daqueles nomes sem rosto. Tão iguais a mim. Comuns, cotidianos e impotentes. A mercê do destino e de decisões alheias... Iguais a tantos outros que se vão a cada dia, todos os dias... Os filhos do desencontro.
 
Houve uma manhã em que dois aviões atingiram edíficios... Olhei para cima novamente e, desta vez, era o céu que invadia as janelas... Quem dera que fosse um indicio de utopias... Quem dera... Quem dera...
 
 
 
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)