sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

QUE TODAS AS PORTAS ESTEJAM ABERTAS



2014!

O ano novo!

Novamente um novo ano!

Com sua chegada, vem trazendo desejos e sonhos...

Inúmeras vontades...

Pois que todas as portas estejam abertas para que alegrias e realizações invadam nossas vidas...

Em turbilhão!

Que assim seja! Que assim seja! Que assim seja!

E que de cada porta e janela possamos ver, a cada dia, a luz maior de um novo e próspero amanhecer...

Que assim seja! Que assim seja! Que assim seja!

Amém...

Feliz 2014!


sábado, 14 de dezembro de 2013

NATAL


Não é que eu não goste de Natal. Até que gosto. O que eu não gosto é deste Natal que a gente tem de cumprir. 

Este Natal polvo, com mil tentáculos feitos de guirlandas de plástico e neves e obrigações artificiais. Este Natal polvo, com seus tentáculos cheios de luzinhas coloridas que vai assim... Aos poucos... Me asfixiando.

Às vezes me penitencio muito por não compartilhar esta alegria  compulsiva e compulsória que permeia esta época do ano. Para começar, Natal não deveria ter data... Nem data, nem hora marcada de chegar. Para mim, o Natal não está inserido no tempo e sim no espaço. Há cantinhos de Natal em todos os lugares. E quando, por acaso, alguém se aconchega em um desses cantinhos, enquanto estiver por lá, a vida faz mais sentido.

Gosto de canções de Natal. Não porque sejam de Natal, mas porque são canções. E são bonitas... Alegres... Às vezes tristes... Tantas vezes tristemente alegres. Mas Natal para mim é silêncio. Um silêncio repleto de bem estar. Ou de sons ocasionais. Como um órgão tocando em algum lugar por perto. Um sino eventual. Ou uma gargalhada gostosa de uma criança. Dessas que saem em cascata e enchem a casa de luz.

Não é que eu não goste de Natal... Até que eu gosto. Mas o que eu busco no Natal é aquela placidez de manjedoura e o som suave de uma canção de ninar. E Nossa Senhora fazendo cara feia para os reis magos porque estão fazendo barulho e podem acordar o menino. Logo agora que ele dormiu, depois de tanto chorar. Gosto de um Natal de sussurros, como se São José agradecesse pelos presentes (Que nem precisava!), mas pedisse desculpas porque agora é hora de descansar.

No Natal, gostaria de ser o camelo mais esmirrado, aquele que fica no canto mais esquecido do presépio, mas que tem olhos de ver a estrela guia (Não importa se cadente...). 

Nunca consegui explicar o que sinto no Natal e aí fico por aí parecendo um Scrooge, mesquinho e azedo, a reclamar.

Pois este ano não vou reclamar do Natal. Que o façam como quiserem. Uma foto me aplacou. Essa foto aí acima, tirada em Chartres, em uma tarde fria e com a igreja praticamente vazia. Dava para se ouvir o murmúrio de passos e o som de um órgão vindo de algum lugar. E, de repente, aquele homem. Tão quieto. Tão só. Tão compungido. Tão pungente. Tão distante de mim naquela catedral gótica. Rezando. De joelhos, rezando. O que estaria pedindo? Estaria pedindo alguma coisa? Ou só agradecendo por estar lá? Estaria chorando saudades? Celebrando vitórias? Estaria pedindo por alguém? Por saúde? Por sucesso? Por felicidade? Sei lá... Ele estava lá. E me aplacou em sua simplicidade e seu silêncio. 

Engraçado... Aquele homem, ao lado da cruz e desse menino Cristo já morto me aplacou o Natal. Pelo encontro que se deu. Ele lá em seu silêncio de oração e eu ali, diante de vitrais e de mim, em meu silêncio que sussurrava esperança. Estávamos sós e plenos em uma celebração particular.

E quando alguém, por descuido, levantou um pouco a voz, ouvi um choro de bebezinho e, ao longe, uma doce canção de ninar.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com) 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

CAMINHOS


Em menos de dois meses, foram mais de dez cidades e seus arredores, sem contar com o Rio de Janeiro. Rio/ Houston/ San Francisco/ Los Angeles/ Rio/ Londres/ Paris/ Rennes/ Monte Saint Michel/ Bordeaux/ Saint Emilion/ Carcassone/ Mointpellier/ Sete/ Chartres... E aí Paris, Londres, Rio. 

Ufa! Um périplo! Diferentes fusos horários. Temperaturas diversas. Paisagens distintas. Diferentes nuances de cores. Luminosidades variadas. Múltiplos sentimentos.

Foram duas viagens em uma... A minha viagem. Aquela a que Drummond chamaria de a dangerosíssima viagem de si para si... Enquanto percorria caminhos, ia me visitando. A mim, esta paisagem que tantas vezes me surpreende, me emociona, me decepciona, mas sempre me convida (ou instiga) a seguir.

Se a viagem exterior foi encantadora e prazerosa, a interior teve os seus percalços e surpresas. Mas, nestes dias, descobri em mim pequenos atalhos, trilhas escondidas em bosques, pontes (ainda que frágeis) onde só havia a espera por balsas que sempre estavam do outro lado do rio.

A cada passo à frente, olhava para trás um pouquinho para ver se havia deixado pegadas ou algum vestígio de minha passagem. E foi a trilha já feita que me ajudou a seguir o caminho. A escolher direções quando encruzilhadas surgiram. (Um dia, há muito tempo, escrevi: Por que caminhos, estradas e becos? Por onde chegar?) Naquele dia, eu era uma quase menina. Tinha por mapa e bússola meus sonhos. Hoje, a pergunta é a mesma. E tenho como bússola e mapa minha história de vida e o desejo de continuar. Chegar, deixa para mais tarde, que o que encanta é a própria viagem. 

Perambulei por dois continentes e por minhas angústias e alegrias. Me dei tempo ao tempo. Tropecei em arcoíris (assim mesmo, tudo junto, compactos e sem plural) e em pequenos milagres. O silêncio de uma abadia... Um concerto de Vivaldi... Vitrais... Uma missa inesperada... Uma ponte dourada... Conchas de Santiago... Um amanhecer... A beira de um rio... Um vento forte... Frio... As mãos se aquecendo no calor de uma xícara de café... Silêncio... Uma taça de vinho (Em Sonoma ou em Bordeaux. Que importa?)... Um pier e um castelo... Um templo hinduísta na zona 3... Silêncio... Eu.

Eu... Esfinge... Anônimo monumento... Árvore perdida em um parque enferrujado de outono... Ruína de outros tempos...  A me contar por vestígios... Minhas pequenas pedras... Meus cacos de cristal... E um candeeiro ainda com algum azeite... Pronto para iluminar. 

Foi longa a caminhada. Quase uma peregrinação. E quando me vi diante de direções, às vezes tão opostas, busquei escolher o melhor caminho.

E foi em um parque, na terra de meu avô, em uma placa azul e pequena que entendi o que busquei por toda a minha vida: Please ride considerately. 

Mais do que a direção escolhida, o que sempre contou para mim foi o respeito e o cuidado comigo e com o outro. O outro... Seja ele um mero transeunte. Ou um parceiro de viagem. Ou o meu reverso perdido em espelhos.  Ou o que vem intencionalmente na direção oposta. Ou aquele que só passa por mim. E nem me vê... 

Entre todas as placas, aquela placa, azul e pequena, é o que indica o meu norte e não me deixa, nunca, me perder. 


(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM ARCOIRIS



Às vezes, na vida, como diria Drummond, há uma pedra no meio do caminho...

E a gente reclama, tropeça, acha que não vai conseguir ultrapaçá-la...

A gente se vê diante do impossivel fugir à dura realidade... Pois que há uma pedra no meio do caminho...

Outras vezes, ainda que mais raras, há uma torre e um arcoiris e uma manhã de inverno ...

E a gente agradece a Deus por estar ali e poder ver ... E poder respirar...

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

E FUI...

Me perdi por Bordeaux e seus arredores. 

Bordeaux, esta cidade massissa, medieva e generosa.

Visitei St Emilion. Me perdi por vinhedos. Tive aulas com enólogos. 

Não bebi vinhos, provei sutilezas.

Agora... Nesta madrugada fria e insone, relembro sabores...

Bordeaux é um abraço apertado.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

DE NOVO...


Está certo. Podem dizer que estou deixando a desejar. Uma nova 6a-feira sem um texto, ainda que bem curtinho. Mas prometo, estou colecionando histórias. Me aguardem só um pouquinho...

No mais, mais fotos. Agora de Londres e Paris e Rennes e Le Mont St Michel...













quinta-feira, 14 de novembro de 2013

PARA CARLINHA


E cá estou eu de volta. Na hora certa de chegar e já partir. Desfazer as malas para refazê-las em menos de três dias. Agora, quem me espera são outras terras... Do outro lado do Atlântico. Uma viagem atropelou a outra e eu só tive um tempinho pelo Rio para desfrutar do dia mais quente do ano (até agora!). 40 graus e sensação térmica de 50. Difícil até de respirar...

E eu fazendo a malinha... Suéter, cachecol, luvas e outros adereços. Nunca acredito que vou usá-los dali a poucos dias. 

Uma amiga me sugeriu que eu fizesse a mala trancada em um quarto com o ar condicionado no máximo. Fez sentido. Quase acreditei que na Europa já está fazendo um friozinho. 

Mas o texto de hoje é sobre outra coisa. Uma despedida. Não... Despedida que nada... É sobre o fechamento de um ciclo. Hoje, justamente no horário de meu embarque, vai haver um happy hour em homenagem a uma das mais brilhantes profissionais da Cultura Inglesa/Learning Factory: Carla Chaves.

Brilhante professora!
Brilhante coordenadora!
Brilhante editora!
Brilhante criadora!
Maravilhosa criatura!

Dessas raras pessoas que são feitas de engenho e arte.

Grande e querida amiga, com quem, por anos, tive o prazer de trabalhar, aprender, dividir desafios, sonhar. Sonhar despudoradamente, acreditando que educar é ato de amor. É arte de armar... E construir... E fazer e refazer... Quebrar a cabeça até que se possa chegar a corações e mentes.

Carla é uma pessoa que sabe muito sobre crianças... Talvez porque nunca tenha aberto mão de ser uma delas. Gosta de brincar. De se perder por histórias. Acredita em fadas e (infelizmente) em bruxas também. Gosta de brincar de bonecas (com a sua Jana em especial!). Gosta de voar em tapetes mágicos tecidos com o fio de sua invejável imaginação. Às vezes faz pirraça e chora também. Mas, como boa criança, esquece logo... Engole o choro e abre o mais saboroso sorriso... Prenúncio de deliciosas gargalhadas.

Não vou poder estar com ela em seu happy hour, mas... Amiga, tome uma caipirinha por mim. E brinde como se fosse eu... Com direito a discurso. Porque você merece.

Brilhante educadora!

Que você continue ensinando e aprendendo por muitos anos ainda. Cumprindo seu oficio maior que é o de ser Carla Chaves. 

Brilhante...

Não, você não é joia... 

Você é dessas raras pessoas que são o tesouro e o mapa da mina!


Nota: A foto com Ricardo Sili é intencional. Chamemos de sincronicidade. Dois queridos amigos que começam a seguir novos caminhos. Muito sucesso para os dois! 

(in pblower-vestadelvila.blogspot.com)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

1 POKIM +

Como ainda estou na California, vamos chamar este período de férias do blog. Mas, como blogs não tiram férias, aí vão algumas fotos como prévia de prometidos textos.








quinta-feira, 31 de outubro de 2013

GAROTA, EU TÔ...

Esta semana, não tem história, reflexão ou poema. Esta semana tem aviso. Oportunidade de viagem não se perde... E a chance surgiu!

Garota! Meninos e meninas! Estou na California... Em San Francisco! E, quando voltar, prometo, levo um monte de histórias para contar.

Por enquanto, venham comigo, surfar nos dias... Com olhos de ver!






(In pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O QUE SERÁ QUE ELES TÊM?


Em uma dessas noites em que o sono veio, mas depois sumiu. Numa hora torta como costumo chamar, liguei a televisão e peguei por acaso a reprise de uma entrevista com um filósofo rabino de quem não guardei o nome, pois essas minhas súbitas insônias me provocam eventuais amnésias.

Mas nada disso tem verdadeiramente importância. O que valeu mesmo foi que a certa altura da entrevista, quando perguntado sobre a crise mundial e sobre as mazelas humanas, o filósofo rabino, do alto de seus mil anos e por de trás de suas brancas barbas deu um sorrisinho maroto e me segredou: Há que se ser otimista.

Pensei que tivesse caído no sono e estivesse sonhando, porque alguém, não só filósofo como também rabino, falando de otimismo me pareceu ficção.

O programa terminou e eu fiquei remoendo...De onde se pode tirar otimismo neste inicio de século, em meio ao mundo com suas mazelas e crises?


Márcia veio jantar com a gente ontem. Quando tocou a campainha, Marie correu pressurosa em direção à porta,  saltitante e latindo. (Ela salta quando late). Porta aberta e saudações de ambas as partes. Latidos entrecortados por habituais comentários: Como você está minha pequenininha? Tenho medo de te pisar! Você está lindinha!

Fomos, as três, eu, Márcia e Marie em direção à sala. Marcinha se jogou na poltrona, exaurida e encalorada, e fechou a série de cumprimentos: Vem cá, pequenininha. Você quer carinho?

E, então, olhou para mim e sentenciou: Uma coisinha assim enche a casa, né?

Enquanto a cena acontecia, Carol chegou na sala também e ficamos todas ali, rindo muito. Tudo uma grande brincadeira. Um recreio. Descompromisso.

Uma coisinha pequenininha, como diz Márcia. Não chega a ter dois palmos de corpo e não pesa mais que um quilo e meio. E, a sua volta, a festa se faz. Sempre.

O que será que esses bichinhos têm? Que nos fazem sorrir. Que nos fazem esquecer. Que nos fazem falar com voz de criança. E ser criança... E criançar.

O que será que eles têm?


Marie não é minha, é de Celina e Carol, mas tem ficado aqui em casa numa espécie de guarda compartilhada. 

Divide comigo os meus dias. Me exige carinhos e colinho. Além de comidinha na boca. (Acho que a estou mimando demais!). 

Mas quando ela deita num canto e me olha com seus olhinhos de bola de gude, redondos e bem pretos, e fica assim por um tempo, quietinha, me olhando, a vida fica mais leve. Ah, isso fica. E dá até pra se ter um certo otimismo.

Cachorrinhos deveriam ser vendidos em drágeas, como antidepressivos contra as mazelas do mundo. E, como medicamentos de última geração, teriam uma grande vantagem... Ao invés da tarja preta, trariam uma coleira de strass.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

POR PURA TEIMOSIA


Não vou dourar pílulas. Não. Tenho andado muito triste. É... Tenho andado. Esta semana, pela primeira vez, desde que criei o blog, não senti vontade de escrever. Não é que eu não tenha sobre o que escrever, que assunto não falta, mas não tive vontade.

Não tenho visto as coisas com bons olhos e a chegada da primavera pouco ajudou. (Primavera chuvosa... Esmirradiiinha...). Primavera que me lembra outras primaveras que chegaram cheias de boas intensões. Primaveras que se desfizeram em praças... Primaveras que silenciaram a grito... Primaveras que floresceram  desencontros... Primaveras sem flor.

Talvez eu esteja, irremediavelmente, ficando velhinha. Daquelas velhas chatas que, quando todo mundo está vibrando com algo, ela chega e diz com sua voz de falsete, Já vi este filme e ele não acaba bem! 

Já vi este filme... E ele não acaba bem.

Quando se cobre o rosto... Quando se quebra a praça... Quando se queima livros (Outro dia andaram queimando a constituição)... A História vai mal.

Não sei quem são eles... Eles que degradam as ruas... Infiltrados, delinquentes, rebeloides, paus mandados... Não sei...

Só sei que estamos pagando a conta de anos de descaso com o futuro. E o futuro está querendo cobrar a dívida... A marteladas.

A única coisa que ainda me anima é que vejo uma certa organização na balburdia.

Nos emprestam a praça para que se faça a História até às 20 horas de cada dia e depois... 

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Não devia ter tentado escrever este texto. Não tenho vontade. Estou muito cética. Perdi a força até para dizer que já vi este filme e que não há nada de novo neste happy hour pirotécnico. Coquetel molotov existe desde outros carnavais...

Na altura do campeonato, estou com muito medo de que a luz no fim do túnel que ainda teima em brilhar algumas vezes não seja o fulgor da esperança, mas sim,  um baita incêndio no canavial.

Esta semana, escrevo por pura teimosia...

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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

FOTOS DE BICICLETAS SÃO SEMPRE...




Semana passada, Miriam Jordão nos propôs no Facebook o desafio de completar a seguinte frase: Fotos de bicicletas são sempre...  

Aquela frase partida, ansiando por um final, logo me remeteu a uma antiga foto. Uma foto que fiz em 2010, lá pelos lados de Roma. A lembrança não foi apenas da foto, mas também, e principalmente, de um momento.

Tarde fria de fevereiro na Cidade Eterna e eu experimentava já há algumas semanas o prazer de perambular por suas ruas e monumentos e vielas e praças e fontes...

Perto de meu hotel, Trinità dei Monti. A igreja, os pintores de ocasião, o pequeno mirador, os balcões, as escadarias até a Piazza di Spagna. O frio de fevereiro avermelhava e adormecia minhas bochechas. Um sol morno e o céu azul. 

Gostava de passear pelas redondezas.  Ficar olhando o ir e vir dos turistas. As câmeras de última geração e os casais de namorados refestelados nos degraus depois da longa subida. Aquele balcão florido que me  despertava curiosidade. Que sortudo moraria naquele apartamento?

Um dia, decidi ir um pouco mais à frente, depois da igreja, e esbarrei em um palácio. Villa Medici. O poster na entrada me convidava a visitar uma exposição de uma escultora, acho que americana. Arte contemporânea. Entrei, visitei partes do palácio, me perdi por instalações... Mas algo me chamava para fora. Então, aceitei o convite e me entreguei aos jardins da Vila. Me entreguei à tarde levemente enevoada. Me entreguei ao friozinho que me adormecia as bochechas, cercada de muito silêncio e uma deliciosa solitude. Comigo ali, ninguém!


Pedrinhas no chão. Uma pequena escadaria, leões de pedra e,  ao longe, perdida no horizonte e no entardecer, a Catedral de São Pedro, o Vaticano.


Passeei entre árvores e fontes. 




O prazer de estar lá. O prazer de estar livre. O prazer de estar viva e poder perambular!

Até que, de repente, meu olhar distraído e encantado esbarrou em uma bicicleta amarela. Olhei a minha volta, procurando a sua dona. Sem dúvida era uma bicicleta de mulher. Olhei à volta, procurando a criança que a acompanhava com seu carrinho de brinquedo. Ninguém. Voltei a olhar para a cena...

A bicicleta amarela e novinha encostada em uma muralha de séculos. O chão de pedrinhas... Quem sabe a matéria prima das brincadeiras da criança... Por que será que achei que era um menino? Um pneu cortado pela metade se reinventando em jardim. A simplicidade e a delicada beleza daquela ervinha sem nome brotando ao acaso...

Não sei quanto tempo fiquei por ali. Ali, olhando aquela cena, aquela imagem. Decidi fotografá-la para, talvez, um dia escrever sobre ela. Sabia que ali morava Poesia. Que Poesia vive ao acaso em cantos e recantos, em quinas e esquinas, a espera que de um olhar. Fotografei.

E o tempo passou... Mais de três anos...

Às vezes me pergunto o porquê de aquele momento ter me envolvido e me emocionado tanto. Às vezes acho que foi porque desejei, ainda que por um segundo, ser aquela mulher que não conheci e ter o menino invisível como meu filho. E, depois da brincadeira no jardim do palácio,  poder levá-lo para casa e banhá-lo e fazer um jantar bem gostoso... Uma sopa, talvez, para aquela noite de frio. E embalá-lo cantando uma antiga canção de ninar... Até ele dormir.

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Agora já posso responder ao desafio proposto por Miriam na semana passada. 

Fotos de bicicletas são sempre... encantadas e nos remetem a outras fotos de bicicletas que nos remetem a jardins e a tardes frias e enevoadas quando nossas bochechas ficam vermelhas e levemente adormecidas.

Nota: Este texto é dedicado a Cassandra Melo Guimarães e Francisca Nóbrega. Duas professoras que me ajudaram a entender o prazer da leitura, o desafio da escrita e o oficio de olhar e ver.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

EM QUE POSSO TE AJUDAR?



Tenho que confessar. Às vezes sinto muita peninha de Deus. Sim. Desse Deus de catecismo. Deus com letra maiúscula.

Imagino Sua onipresente solidão. Imensurável.  Deus deve se sentir muito sozinho! Dessa solidão que dói. Solidão daquelas que se sente em certas festas, quando, à sua volta, todo mundo se diverte e você lá, em sua redoma de vidro. E, quando vêm falar com você, as palavras soam longe... Têm eco. Solidão de não encontrar Sua turma. De não encontrar parceria.

Em Sua infinita onisciência, Deus deve saber que fez a tudo e a todos em seis dias só para bater Sua meta. Devia ter negociado, pelo menos, mais um pouco. Certamente, teria atingido melhores resultados. Deus devia ter jogado o domingo no banco de horas, só para ter mais um tempinho. Devia ter negociado... Mas com quem? 

Penso nesse Deus onipotente. Como não deve se sentir frágil?  De mãos atadas, diante de tanto desacerto e ignomínia. Quantas vezes não deve se prostrar em Sua disfarçada e dolorosa onimpotência.

Tenho peninha de Deus.

Deus nunca teve o aconchego de um colinho de mãe e, muito menos, ouviu histórias de avó. Deus nunca se apaixonou!

Pra quem será que Deus reza quando sente aquela angústia forte no peito? Quando tem medo? Quando não vê saída? Será que Deus é ateu?

Deus não teve para quem apelar, quando Seu filho pediu por socorro. Não teve a sorte de Abraão que, na hora H, quando ia apunhalar seu rebento, teve Deus para desviar sua mão. Nada disso. Nenhum ser supremo afastou o cálice de Seu menino. Acho que Deus é ateu.

Tenho, sim, peninha de Deus.

Deus nunca teve recreio. Nunca andou de bicicleta. Nunca ficou de mal com um amigo. Deus nunca comeu jujuba!

Imagino que Deus, em noites de céu minguante, noites de escuridão, deva chorar baixinho. Choro que não deixa rastros, só um tantinho de orvalho espargido nas manhãs.

Deus deve fazer muito esforço para ser mal, injusto, ambicioso, egoísta, perverso, interesseiro e sovina, para manter viva a crença de que somos feitos a Sua imagem e semelhança. Criador imitando a criatura!

E toda a Sua crise de identidade? Ele com tantos nomes! Ele que não pode ser nomeado! Ele difuso e monolítico. Uno e sem direito a mitologias... Deus lá... Sozinho... Sem direito a terapia.

É por isso que às vezes, em tardes de céu azul, mas com aquelas nuvens bem brancas e gorduchas, eu olho lá para cima e fico só na espreita. De vez em quando, vejo um pedaço de Sua barba, um cacho de Seu cabelo, um pouco de Seu perfil. Vejo um mindinho ou a alça de Sua sandália...

Aí eu pergunto assim, sem pudor: Ei, Senhor. Pode me ouvir? Eu aqui, nesse cantinho de terra juntinho ao mar. Pode me ouvir? Em que posso Te ajudar?

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

TEMPO, DÁ UM TEMPO!


E setembro já quase se foi. Escorreu pelos meus dedos como areia de ampulheta com a rapidez de quem tripudia sobre um oponente mais fraco. Setembro me venceu. Quando vi, era já final do mês. 

Setembro se vai entre iniquidades e incertezas. Chegou cheio de boas intenções, pleitos, eventos, manifestos... Mas não resistiu à pressão da história. Essa história assim, sem grandes agás.

Veio e se livrou do inverno em um tórrido dia de verão para dar passagem a uma primavera que chegou chuvosa e que, só agora, começa a ensaiar seus azuis. Primavera com um vento friozinho, indício de inesperada neve no sul.

O mês teve seus bons momentos. Lua bem cheia. Noites claras e alguns dias memoráveis. De resto, se deixou levar pelo mundo e seus acontecimentos. 

Nada mudou. Que nada muda em um mundo boquiaberto e mudo, perplexo diante de mutantes fatos e fardos. Somos o planeta das expectativas. Um imenso tabuleiro de xadrez que nos oferece apenas um grande xeque mate. 

Setembro se esgueirou por entre discussões: espionagens, armas químicas, controle nuclear, dólar alto, impunidade, queda da inflação, Angela Merkel, tornados sertanejos, novos partidos, corrupção, outros novos partidos e as sempre mesmas velhas e gastas propostas. E tudo ao som de muito Rock´n´Roll!

Foi setembro que mudou ou terá sido eu? A primavera é estação de renovadas esperanças! Mas aqui, pelo meu jardim, ainda nada floresceu. É bem verdade que tem uns pezinhos de Maria-sapeca com uns brotinhos de nada, mas tudo ainda muito esmirrado.

Ontem, depois de muito tempo,  decidi fazer minhas sobrancelhas. Eu mesma, diante do espelho. Pinça em punho e a luz cruel de uma lâmpada de LED a me denunciar. Com a dedicação de uma monja, consegui retirar todos os fios brancos...

Tempo... Tempo... Dá um tempo! Com que rapidez você conseguiu virar as páginas dessa minha história! 

Setembro não mudou em nada... O que mudou, percebi ontem diante do espelho, foi o meu olhar... 

Parece que foi ontem que, em setembro, as primaveras floriam!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

CONVITE





Às vezes
Olho de lado para a vida
Cabreira
Desconfiada

Às vezes
A vida me retribui o olhar
Com um sorriso

Outras
Passa batida
Passa tão rápido 
 Nem liga pros meus medos

De vez em quando
Passa
Nem me olha
Mas depois
Depois
Quando já está virando a esquina
Volta seu rosto
Olha para trás
Olha para mim
Olha pro bem dentro do não sei de mim
Me dá um sorrisinho malicioso
Me pisca um olho 
E me diz
Vem

Nunca pude resistir a seu convite
Dispo meus paraquedas

Salto no abismo 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

AO SOM DO MAR E A LUZ DO CÉU PROFUNDO



_ "Alô!"

_ "Alô! Com quem deseja falar?"

_ "O Gigante está?"

_ "Está sim senhora, mas não pode atender. Ele está descansando." 

_ "Desculpe, mas será que você poderia acordá-lo? É importante. Nós tínhamos um encontro e ele não apareceu. Estou esperando por ele há algum tempo."

_ "Iiiiihh... Não vai dar não senhora. Quando a gente tenta acordar ele é um problema. Fica com um mal humor. Tem uns dois meses atrás, ele teve um tipo de insônia e ninguém aguentou com ele aqui em casa. A senhora sabe. Eu sou a faxineira. Venho aqui só uma vez por mês. É uma sujeirada de matar e eu prefiro que ele fique dormindo, que aí não me atrapalha. A senhora não pode imaginar o que tem de sujeira aqui. Só debaixo dos tapetes, eu gasto um tempão pra tentar limpar. E nunca fica limpo. Um horror!"

_ "Me desculpe, mas é importante. Tem tanta gente dependendo dele acordar..." 

_" Olha, liga mais tarde. Vou ver se ele acorda."

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_"Alô! Sou eu de novo. Será que o Gigante pode atender agora?"

_"Iiiihhh... Foi por pouco. Ele deu uma acordadinha, mas já tá dormindo de novo. A senhora sabe, eu acho que ele tem aquela doença que parece zumbi. Parece que tá acordado, mas tá dormindo."

_"Desculpe novamente, mas é importante..."

_" A senhora sabe, eu acho que ele tá virando mesmo zumbi. Acorda, olha pra mim e diz que, de agora em diante, quer tudo bem limpinho. Até parece... Nunca ligou pra sujeirada toda da casa... Peraí... Tô ouvindo um barulho no quarto. É ele. Acho que ele acordou. Vou chamar..."

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_"Alô! Gigante? É você?"

_"Sou eu sim. Quem é?"

_"Sou eu. Tô te esperando há um tempão!"

_"Mas eu já não fiz minha parte? Dei uma acordadinha...Lancei meu heroico brado pra todo mundo ouvir..."

_"Pois é, mas não foi suficiente. Na verdade, deu só um gostinho..."

_"Gostinho? Foi o sol da liberdade em raios fúlgidos, isso sim!"

_ "Foi só gostinho sim,  Gigante. Tem muito mais pra se fazer."

_"Muito mais como? Há dois meses atrás eu estava ótimo! Estava mesmo um impávido colosso! Foi só eu aparecer que as passagens dos ônibus abaixaram. Acabaram com a tal da cura gay. Foi PEC pra tudo quanto é lado. E teve muito deputado e senador pulando num pé só! Conquistei tudo com meu braço forte! Assustei até à presidente!"

_"É presidentA, Gigante."

_"Pois é. E agora você quer que eu erga novamente da justiça a clava forte? Tô fora. Tô cansado!

_"Mas Gigante, se não for você, quem vai? É você que faz as coisas acontecerem."

_"Comigo o pessoal não foge à luta, né?"

_"Isso..."

_"Mas o que é que você quer mais? Os royalties do petróleo vão resolver todos os problemas da educação e da saúde. Tem um monte de médico cubano em todos os rincões do país. Quase fizeram um plebiscito...  O que é que você quer mais? A pátria é amada, idolatrada, salve! salve!"

_"Gigante, ainda tem muito problema. Muito a fazer..."

_"Roooooooooooooo.... Zuuuuuummmm......"

_"Alô, Gigante! Gigante! Cê tá dormindo?"

_"Oi? Dei uma cochiladinha. Você é muito chata. Você vê tudo pelo lado negativo, pô! Nossos campos têm mais flores e nossos bosques têm mais vida!"

-"Gigante, eu nem falei dos problemas da ecologia! Nossos campos e bosques estão mal!!!"

_"Desiste. Eu não vou pra rua novamente. Tem esses caras mascarados que quebram tudo e da outra vez me jogaram gás de pimenta no olho. Um horror! E ainda ficam me chamando de mãe gentil... É dose! Não vou não."

_"Mas... Alô! Alô!?..."

_"Roooooooooooooo.... Zuuuuuummmm......"

_"Alô!!!!!!!!"

_"Alô. Aqui é a faxineira. Ele dormiu  bem aqui no sofá. A senhora me desculpa, mas eu vou ter de desligar. Sabe, eu tenho que ir embora pra casa. Desde que abaixaram o preço de meu ônibus, tá difícil de pegar um. Dizem que os homi diminuíram a frota. Sei lá, mas tá difícil. Até logo. Liga outro dia. Mês que vem tô aqui de volta pra limpar a sujeirada. A senhora sabe, quando não dá tempo, também jogo o lixo pra debaixo dos tapetes... Até logo."

_"Até..."


Nota: Foto by Eulália Fernades

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A HORA TORTA



Tenho um mal fadado hábito de acordar às três horas da manhã. Mais precisamente, às três e dezesseis. Acordo e o relógio da TV me saúda com seu olhar neon... Bem vinda ao mundo dos vivos! São três e dezesseis!

Esta é a minha hora torta. Se tudo vai bem, vasculho em minhas entranhas algo que possa me preocupar e começo a pensar naquilo. Mas, se realmente há algum problema, ah... Aí é a festa. É a hora de, como dizia minha mãe, caraminholar.

Nesta hora torta, ao longo de minha vida, fui várias vezes demitida e muitas vezes pedi demissão. Perdi prazos. Não cumpri compromissos. Deixei de entregar trabalhos. Não consegui planejar aulas... Ai, esta hora torta. A hora de minhas angústias!

Enquanto o mundo dorme, eu me embato com meus fantasmas e minhas aflições. 

Para mim é a hora do dinossauro, quando eu, mulher neandertal, estou diante da besta. Adrenalina a todo vapor. Corro ou enfrento a fera? E, normalmente, nesta hora, corro e enfrento a fera! 

É a hora do E se... E se acontecer isto? E se acontecer aquilo? E se não acontecer o que eu espero? E se as coisas derem errado? E se eu não tiver saída? E se... E se... E se...

Na hora torta, travo diálogos os mais tensos com meus oponentes. A imaginação voa e começa a réplica, tréplica, sem direito a pausa para respiração. Se ele falar isso, eu respondo aquilo e aí ele vai me olhar e fazer silêncio e eu vou encará-lo e, então, digo aquilo que estava há tempo guardado no bolso do colete. E ele vai me responder assim e eu, rápida, digo logo assado. Ele vai ver. Nem vou falar alto. A postura é muito importante... Mas, e se ele falar aquilo? Então, só vai me restar falar mais alto e responder daquele jeito que eu sei fazer... Ufa! Longas, infindáveis discussões, onde, entre mortos e feridos, não se salva ninguém. 

A hora torta é a hora dos medos. Minha hora celacanto dos filmes de Nacional Kid. É também nela que tento me acalmar de maneira maternal... Calma, Patricia. Calma. Isso não vai acontecer. Relaxa. Pensa só em coisas boas. Mas quem pode relaxar, quando se tem de resolver tanta coisa? Não tenho tempo para relaxar. Tenho de pensar o que vou fazer amanhã, bem cedinho.

A hora torta é a hora das listas. Amanhã tenho de fazer isto e isto e mais isto e mais aquilo. E não posso me esquecer daquilo outro que é essencial para minha sobrevivência. Sem esse aquilo, não vai dar para fazer aquele outro negócio que é fundamental... 

A hora torta é a hora do looping, da repetição. A mesma cena, normalmente desagradável, vai se repetindo ad nauseum, em maquiavélico mantra.

É a hora em que me atrapalho em orações. Misturo Pais Nossos com Aves Marias e fecho tudo com um Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...

Meu acupunturista diz que três horas da manhã é a hora do fígado. Pelos sintomas que tenho, preciso parar de beber e não posso mais comer comidas pesadas. Meu fígado se virou contra mim!

A hora torta é a hora de fritar na cama. Ir ao banheiro. Tomar um leitinho morno. Tomar um meio tarja preta, se a situação assim o exigir. Mas...

Mas o bom é que ela passa. Às vezes, demora um pouco mais... Mas passa. E, de repente, já tem passarinho cantando e você se aconchega na cama de um jeito diferente que dá um soninho... E ainda dá tempo de se dormir um pouquinho... Às vezes dá até pra sonhar.

A manhã seguinte, de vez em quando, é pesada... Quando os fantasmas e duendes estão mais hiperativos. Às vezes não. Você acorda e tem um dia novinho pela frente. E tudo volta a seu ritmo. E você faz o que tem de fazer. O que dá pra fazer. E entrega a vida ao destino. E vive. Que é o que se pode fazer...

E jura de pé junto que na próxima noite, quando acordar às três e dezesseis, nem vai ligar... Até que o relógio da TV te saúda em alto e bom neon... Bem vinda ao mundo dos vivos! São três e dezesseis!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)