quinta-feira, 28 de maio de 2009

REGALOS


Há muitos anos atrás Cida foi ao Canadá e me trouxe de lembrança uma foto tirada por ela mesma. Talvez ela ainda se lembre da foto, do presente e em que igreja estava meu querido amigo Santo Antonio. Meu amor por ele é coisa antiga. Data do final dos anos 70, quando pela primeira vez fui à Europa e lá pude visitar Pádua, com todo o seu misticismo e encantamento. Lembro que eu tinha passado mal em Roma, talvez pela comida muito condimentada ou talvez por uma crise intensa e súbita de saudades. A verdade é que fiquei alguns dias sem comer nada e foi em Pádova que, pela primeira vez, consegui comer algo com um certo prazer. Lembro que quando Cida me deu o presente, disse que tinha pensado em mim na igreja e que tinha pedido que o santinho me protegesse.
O regalito foi de tal ordem poderoso que, desde que o recebi, ele está sempre na minha mesa de cabeceira, esteja eu onde estiver. De Niterói a Salvador, de São Paulo a Caracas. E, nem mesmo Cida, amiga de tantos momentos, pode imaginar quantas vezes eu conversei com o santo, lhe pedi ajuda, luz e o que mais ele pudesse me enviar.

Na próxima 3ª feira Silvio faz anos. Ele não quer nada de festa (coisas de Silvio), mas a data não vai passar em brancas nuvens, já que os pais dele acabam de chegar direto de Porto Alegre para curtir o filhão e espero que a nora também. Deram a ele de presente a sua presença (valha quanto valha a ambiguidade da frase).

Presentes ... Sempre que me refiro a Silvio, digo que ele foi um presente que a vida me deu. Ele não é nem de longe perfeito, mas não troco o regalo por nada neste mundo. Num dia de julho em 1996, na cidade de Salvador, bati um papo sério com o Senhor do Bonfim e com a Conceição da Praia e de noite lá estava Silvio no Vileta (um bar da moda naquela época). Nos encontramos por acaso e o acaso selou o encontro. Um presente da vida. Um presente dos deuses.

E como ponho tudo isso junto em um texto só e ainda mais ciceroniando meus sogros pela cidade de Caracas? Simples, lançando mão de uma coincidência. Em 1993, eu nem podia imaginar que conheceria Silvio. Se alguém me dissesse que eu iría passar quatro dias na Bahia que significariam anos de vôos semanais até Salvador, depois muita ponte aérea para São Paulo e em seguida minha expatriação para a Venezuela, eu diria que a pessoa estava delirando. Em 1993, lancei um livro, aceitei trabalhar em horário integral na Cultura, participei de um Congresso em Buenos Aires e passei um tempo em Londres fazendo um curso. Em 1993, eu trabalhava muito. Pois foi neste ano que escrevi um texto que hoje eu chamaria de ... premonitório. Um presente das musas inspiradoras. E é este texto que deixo como regalo para quem me lê agora. Espero que gostem.

COISAS DA VIDA

justo hoje
logo agora
neste enviesado de tempo
foi chegando porta a dentro
com bagagem de ficar

e me sorri tal qual menino
e me beija
e me desanca
e eu não tenho mais lembrança
tinha perdido a esperança
nem ousava mais pensar

justo agora
nesta hora
sem pedir um com-licença
vai tomando liberdades
abrindo minhas gavetas
cheirando minhas panelas
se botando mais um prato

justo hoje
logo agora
que eu era só afazer
labuta trabalho lida
e ele entra em minha vida
um pé de vento zumbindo
(e 'inda veio perfumado!)

'brigada Santo Antoninho!
'brigada!
muito obrigada!


PS: O próximo dia 13 é dia dele. Façam os seus pedidos, dancem muita quadrilha e ... take risks... pulem muitas fogueiras.


(in à vista del ávila. Cida, a foto é uma lembrança para você.)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

PALAVRAS


Depois de mais de dois anos vivendo em Caracas, ainda não atingi a fluência desejada em espanhol. É claro que posso me comunicar e, principalmente, leio e entendo o que me dizem muito bem (para quem é do ramo, os meus receptive skills são o máximo!!!), mas na hora de produzir, os meus verbos e, em especial, meus pronomes são bastante questionáveis. Em uma avaliação bem imparcial estou em um nivel intermedio. Neste estágio, enfrento uma luta diária com coisas como “!Cómpremelo!” ou “Él me lo dió.”. Fala sério, “me lo dió” para mim é nome de bolero.
Como (ex?) professora de inglês me observo agora como a aluna esforçada que encara com destemor as armadilhas lingüísticas de uma língua estrangeira e tendo a confirmar que Michael Lewis estava certo em muitas de suas idéias. Calma! Explico quem é este tal de Mr. Lewis e que idéias são estas. Lewis é um lingüista que no inicio da década de 90 lançou uma abordagem para o ensino de línguas em que o léxico, isto é, as palavras são mais importantes para a comunicação do que aspectos gramaticais. Ufa!!! Isto está ficando muito enrolado. Vamos resumir, segundo Lewis, se você for para um país estrangeiro, para se comunicar, é melhor levar um dicionário que uma gramática. Apesar de polêmica, esta abordagem está funcionando comigo em meu aprendizado em espanhol. Por exemplo, se penso no que vou dizer, se penso na ordem certinha que me informa a gramática, me perco totalmente em um emaranhado de pronomes, mas se lembro do menino chorando no supermercado com o monstrinho nas mãos, implorando que sua mãe o comprasse, tudo vira uma palavra, um grito de súplica: “cómpremelo”. Não esqueci nunca mais. Foi como aprender um novo vocábulo. E é assim que estou lidando com os pronomes. Fico prestando atenção aos falantes nativos, no rádio, na TV, em todos os lugares. Fico buscando estes blocos de língua, estas palavras mágicas, que a gramática organiza em padrões e tabelinhas.

Palavras! A introdução saiu longa demais!

A intenção do texto é contar a Venezuela através de suas palavras. Me explico novamente. Se perguntarmos a qualquer turista que tenha visitado o Rio de Janeiro o que ele lembra da cidade, nove entre dez gringos vão listar: O Corcovado, as praias (com tudo que nelas há!), caipirinha e ... “Obrigado” e “Tudo bem!” Estes são (lanço agora a teoria!!!!) os nossos pontos turísticos lingüísticos. Palavras ou blocos de palavras que estão intrinsecamente ligados ao lugar.

E para a Venezuela? Que palavras devemos percorrer em nosso sightseeing lingüístico?

Para mim, a primeira, que é como um Cristo Redentor, é chévere. (Chévere adj Andes, CAm, Carib, Méx fam ótimo (ma)). A definição do Larouse deixa muito a desejar, pois chévere é muito mais que ótimo. Chévere é legal, tudo de bom, OK, maravilha!, combinado, tudo bem, e muito mais. Sempre acho que quando eles não têm nada que dizer, dizem chévere. E como são hiperbólicos, latinos, hispânicos e dramáticos, usam com freqüência !!!cheveríssimo!!!, para apimentar mais as emoções. Esta surgindo agora uma corruptela da palavra criada pelos engenheiros gaúchos do projeto: tri-chevere, mas ainda não foi registrada em dicionário. Chévere... Foi minha primeira palavra por aqui. Eu não sabia falar nada, mas me achava um luxo quando usava como resposta a tudo que me diziam: “Chévere”.

A segunda é vaina, que se pronuncia bâina e que sempre está em um bloco de língua, um daqueles do Michael Lewis. “!Qué vaina!”ou “!Esa vaina no se hace!” ou “Esta vaina no me gusta.” (Vaina f-1.[funda] bainha f-2. BOT[envoltura] vagem f-3. fam Col, Peru, Ven [contratiempo]: ! qué ~! que saco!). Novamente o Larouse deixou a desejar, pois vaina serve para substituir qualquer palavra. É como coisa para a gente. Só que mais forte. Sinto inclusive conotações sexuais. Ainda não me apropriei desta palavra. Nunca a uso, o que reforça que tenho um longo caminho a percorrer se quero soar como nativa. E aí me frustro, me irrito: !!!Qué vaina!!!!

E chegamos então ao terceiro ponto turístico lingüístico. Aquele que talvez seja o marco mais importante, a pedra de toque. Se ouvi-lo em algum lugar, tenha certeza de que há um venezuelano por perto. E, antes de apresentá-lo, não resisto citar Isabel Allende em seu magistral La Suma de los Dias, quando descreve sua nora venezuelana e relembra seus tempos felizes em Caracas. (Tenho, pelo menos, algo em comum com esta escritora que é um de meus ídolos: Buenos recuerdos).

“... pero esta misma noche nos hizo reír con esos chistes subidos de tono que no oíamos desde los tiempos relajados de Venezuela donde, menos mal, no existe el concepto de lo ‘politicamente correcto’ y uno puede burlarse de lo que le dé na gana ...”

Sim. Às vezes eles podem ser arrogantes e grosseiros e é então que entra em cena... !!!Coño!!! Tive dúvidas se incluiria no texto a definição do Larouse por ser por demais chula, mas para manter o padrão de referencia aí vai: (Coño vulg <> m -1. [genital] buceta f-2. [para enfatizar] porra f.<> interj [enfado] caralho!; [asombro] merda!) E o Larouse desta vez acertou. É tudo isso mesmo. É forte. É rude. É grosseira. E como se ouve! E há que se ver com que entonação é dita. Mastigam cada letra e cospem a palavra com ódio, indignação ou mesmo alegria e entusiasmo. Tive uma passadeira que para cada três palavras, uma delas era ... !!!!coño!!!!, principalmente quando falava de política. Por sorte não me apropriei da palavra. Desde o inicio tinha uma suspeita de que era algo pesado. Mas é parte intrínseca da topografia lingüística do lugar, como o Ávila.
Usam muito a palavra, mas, como nós que tendemos a amenizar alguns termos com palavras como PÔ! ou SIFU! ou CARACA!, eles também têm suas estratégias e nos levam ao último ponto turístico lingüístico de nosso passeio: !!!Cónchale!!! , o !!!Coño!!! que se pode usar em família. A palavra é tão venezuelana que não a encontrei no Larouse. !!!Cónchale!!!, mais leve, quase feminina. Ela se pode usar.

Espero que o passeio tenha sido bom. É sempre gostoso visitar novas paragens. Se gostaram do texto ... !Chévere! Caso contrario, !!!cónchale!!!, só espero que não gritem enfurecidos: “Que perda de tempo!! ??Qué vaina es esta?? !!!Coño!!”


(in à vista del ávila.Todas as referências retiradas do Dicionário Larousse – Espanhol / Português . Português / Espanhol – Avançado, São Paulo, 2006)


quarta-feira, 13 de maio de 2009

SENSAÇÕES





video



A primavera chegou a Caracas, mas ninguém dá conta disto. Uma cidade que fica quase na linha do Equador e a mil metros de altura, próxima do mar, mas protegida, ou separada, dele por uma enorme cordilheira, sofre de múltiplas personalidades climáticas.



Se perguntarmos a qualquer caraquenho em que estação estamos, ele nos dirá, a das chuvas. Embora também seja algo questionável, pois ainda podemos ficar muitos dias sem nenhum temporal. A terra continua seca e faz calor, mas de manhã sempre acordamos com um friozinho e uma certa nebulosidade que logo se dissipam. E aí pode ventar e/ou chover e/ou tudo se transformar em um lindo dia de sol.



A primavera chegou a Caracas e o primeiro sinal disto é que muitas árvores perdem suas folhas (!!!???!!!!). A estação vem chegando e tecendo um tapete amarelecido pelas calçadas. Mas há flores também. Muitas. De inúmeras cores. Há ipês amarelos, umas árvores rosadas e buganvílias de infinitas tonalidades. De meu balcón, ao longe, consigo ver alguns episódios floridos na imensidão verde do Ávila.

A primavera chegou trazendo com ela uma temperatura difícil de ser definida. É calor, mas tem um momento, coisa meio mágica, em que vira um calorzinho morno. E aí tudo parece estar no lugar certo. Confesso que não sei se esta temperatura é algo de fora para dentro ou de dentro para fora. Me explico:



A primeira vez que senti esta sensação foi em um domingo de tarde em minha casa em Santa Rosa. Eu tinha dezoito anos e tinha terminado a última prova do vestibular. Cheguei exausta, comi qualquer coisa e armei uma Dragoflex (quem lembra delas?) no quintal da casa. Fiquei ali deitada na caminha de campanha por algum tempo. Deitada. Só deitada. E aí começou o calorzinho morno. É uma coisa que vai entrando na gente e relaxando o corpo. Vai dando um torpor, mas a gente não dorme. Só fica ali. Quieta. Que nem um bichinho, fazendo parte de alguma coisa maior, mas que você não sabe ... não tem consciência do que é.



Realmente não sei se é uma questão de temperatura, ou se tem a ver com uma certeza de dever cumprido, de não precisar fazer nada, provar nada para ninguém. É só você e os seus botões. Modorra de vida. Um espreguiçar afazeres. Um se deixar.

Depois senti esse calorzinho morno em outros momentos de minha vida. É engraçado, tendo a relacionar essa sensação às tardes. Lembro das tardes em Salvador, com um burburinho de vozes e passarinhos cantando e ainda mais ao longe um rádio narrando um BAVI. (Para os não iniciados, uma partida entre o Bahia e o Vitória). Naquela época também sentia um gosto forte de maresia na boca.

Em Londres foi diferente, mas era uma outra forma do calorzinho se expressar. Eu ia a Inglaterra a trabalho, normalmente em abril, e ficava no Regency em South Kensington. Entre o hotel e a estação de metrô, há uma rua com uma subidinha onde há uns cafés. Algumas vezes fiquei sozinha por lá e, então, sentava em uma das mesas postas na calçada, pedia uma taça de vinho e ficava olhando. A rua, as pessoas, os carros, o céu, as casas, as lojas, uma nuvem qualquer, um passarinho... Dava um gole na bebida e olhava mais. E respirava. Aí o calorzinho morno chegava e ia se embrenhando por meus casacos. Arrancava meu cachecol. E eu ali bem quietinha, sorvendo o momento. Gosto de vinho e de vida na boca. Calor, naquela primavera ainda tão fria.



A primavera chegou a Caracas. Ás vezes, de tarde, a gente se encontra no Havana para tomar um café e jogar conversa fora.

Semana passada, estávamos lá tecendo elucubrações sobre a vida, filosofando e também trocando experiências culinárias. O dia estava muito quente e, de repente, o céu ficou negro e a chuva caiu. Forte. Protegidas estávamos e protegidas continuamos o papo. Acho que ninguém mais sentiu, mas o vento começou a borrifar um pouco de água em nossa mesa. E o que era calor foi virando poeira de chuva. O morninho ao reverso. (Caracas e suas inesperadas contradições!) Parei. Fiquei quieta por um momento. Ninguém reparou. Olhei a volta e constatei: tudo estava no lugar certo.

Próximo a nossa mesa, descuidado, um passarinho pousou em uma poça qualquer.



(in à vista del ávila. No video se pode ver um cair de tarde nesta primavera caraquenha. Também se ouve o vento e algumas cigarras)

terça-feira, 5 de maio de 2009

A NOITE EM QUE CARACAS TREMEU



Eu não sabia que grande parte da Venezuela, inclusive Caracas, sofre pequenos abalos sísmicos todos os dias. Só fui aprender isto com Silvio e suas pesquisas para a construção da planta de eteno. Ele me pediu ajuda e lá fui eu pesquisar sites que pudessem esclarecer suas dúvidas. Não seria nada interessante fazer um mega-projeto para depois vê-lo cair em alguma fenda entre vetustas placas tectônicas.
O que parecia apenas pesquisa teórica começou a tomar um ar de realidade fantástica há mais ou menos um mês atrás. Eu ainda estava no Rio quando, em um domingo, liguei para ele que me contou, depois de conversarmos sobre os mais variados assuntos, que tinha havido um tremor durante a tarde. Assim é Silvio, se fosse eu, seria a primeira coisa a contar, com tooooodos os detalhes. Mas ele é especial e as coisas para ele têm um peso diferente, ou talvez o que quisesse era simplesmente não me assustar.


Me assustou!


A idéia de enfrentar um abalo sísmico nunca esteve em meu cardápio de projetos de vida. Não tenho muitos medos, mas o de terremoto, não dá para disfarçar.

Quando cheguei, falamos pouco sobre o assunto. Ele me contou que pensou que estava ficando meio louco, pois tudo tremia, e que só se convenceu de que não era uma questão de sanidade mental e sim de estrutura geológica, quando os vizinhos abandonaram seus apartamentos e despingolaram escadas abaixo. Ele me confessou que chegou a sentir um certo alívio. Pelo menos maluco ele não estava.
Imagino que a coisa deva ter sido bem traumática, pois nossos vizinhos americanos que moravam na pent-house se mudaram do apartamento, talvez buscando solos mais sólidos nesta cidade cercada de montanhas.

Fiz questão de esquecer a história. Aconteceu e passou. Ponto final ...


Que ponto final que nada, quem sabe apenas um ponto e vírgula, pois na noite de domingo passado, exatamente às 4:40 da manhã, acordei com tudo tremendo. Acordei de um pulo já gritando É terremoto!!!! A sensação é estranhíssima. O que mais me apavorou não foi o tremor e sim o som que acontece junto. É uma coisa rouca. Mas pior do que isso foi que Silvio tinha ido dormir muito tarde e estava completamente sonado. O tremor, de magnitude 5.4 na escala Richter, durou aproximadamente 15 segundos e quando Silvio realmente acordou, tudo já tinha passado.
Ele acordou, se levantou para checar as coisas, olhou pela janela e eu atrás, grudada nele, só conseguia dizer tremeu, tremeu muito forte! Mas ele não viu nem ouviu nada. Tudo já tinha passado, era de madrugada e não havia nenhum movimento fora.

O que não fazem a alma e a psique humanas em situação de pânico absoluto! Fogem! E, então, determinei segura de mim, mas com as pernas ainda tremendo: Tive um pesadelo. Foi isso, um pesadelo. Foi só um pesadelo. Um sonho. Já passou. E ponto final...

Que ponto final que nada, quem sabe apenas um virgula, só para tomar fôlego. Nos deitamos e eu repetindo: Tive um pesadelo. Um pe-sa-de-lo. Um pe-sa...
Medo e sono e a repetição ininterrupta de meu mantra foram me entorpecendo a tal ponto que mesmo ouvindo os vizinhos descerem as escadas, já não senti o segundo tremor que se deu por volta das 5 horas, com magnitude de 4.3. Silvio sonado e eu hipnoticamente convencida de que tinha tido e continuava tendo um pe-sa-de-lo.

Foi só quando acordamos e ligamos a televisão que constatamos que tudo não havia passado de um ... fato real. O engenheiro sísmico ia falando na TV e eu me dessensibilizando: Não foi um pesadelo! Não foi um pesadelo!

O engenheiro sísmico explicando o ocorrido e eu pensando que estava de camiseta e calcinha durante o evento. Não seria uma roupa aconselhável para uma fuga. De agora em diante a que se ter camisolas mais comportadas para o caso de sair às pressas do apartamento. E talvez dormir com o passaporte na mesinha de cabeceira. Quem sabe uma mochilinha com víveres... A cabeça entrou em parafuso.

O que não fazem a alma e a psique humanas em situação de medo mal disfarçado! Brincam! E tentam minimizar o susto com muitas histórias. Cada uma de minhas amigas contou sua versão do momento exato do tremor, sendo que a mais criativa foi a de uma delas, que pensou que o marido estava tendo uma convulsão! Isto mesmo. A cama tremia muito e já que não era ela a causadora, só podia ser seu marido, talvez um epilético tardio.

Caracas vai continuar a tremer diariamente e segundo alguns especialistas isto é muito bom, na medida em que não se concentra muita energia entre as placas andinas e as da Cordilheira da Costa, o que, aí sim, poderia causar um sismo de proporções catastróficas. Na verdade, tecnicamente, nem foi um terremoto, pois segundo outros especialistas só se considera terremoto a partir de magnitude 6 na escala Richter. E também há um serviço permanente monitorando todos estes movimentos telúricos...

O que não fazem a alma e a psique humanas para se protegerem! Acreditam!

O mais irônico nesta história toda é que nós estávamos com passagens compradas e hotel marcado para passarmos o feriado de 1º. de maio em Bogotá e decidimos não ir para nos protegermos da gripe porcina. Com tal pandemia de nível 5 na escala da OMS, certamente estaríamos bem mais seguros em nosso apartamento, aqui, na cidade de Caracas.



(in à vista del ávila. A foto é de outro momento em que Caracas tremeu, mas aí de forma muito alegre - em um show de Huoscar Barradas)