terça-feira, 5 de maio de 2009

A NOITE EM QUE CARACAS TREMEU



Eu não sabia que grande parte da Venezuela, inclusive Caracas, sofre pequenos abalos sísmicos todos os dias. Só fui aprender isto com Silvio e suas pesquisas para a construção da planta de eteno. Ele me pediu ajuda e lá fui eu pesquisar sites que pudessem esclarecer suas dúvidas. Não seria nada interessante fazer um mega-projeto para depois vê-lo cair em alguma fenda entre vetustas placas tectônicas.
O que parecia apenas pesquisa teórica começou a tomar um ar de realidade fantástica há mais ou menos um mês atrás. Eu ainda estava no Rio quando, em um domingo, liguei para ele que me contou, depois de conversarmos sobre os mais variados assuntos, que tinha havido um tremor durante a tarde. Assim é Silvio, se fosse eu, seria a primeira coisa a contar, com tooooodos os detalhes. Mas ele é especial e as coisas para ele têm um peso diferente, ou talvez o que quisesse era simplesmente não me assustar.


Me assustou!


A idéia de enfrentar um abalo sísmico nunca esteve em meu cardápio de projetos de vida. Não tenho muitos medos, mas o de terremoto, não dá para disfarçar.

Quando cheguei, falamos pouco sobre o assunto. Ele me contou que pensou que estava ficando meio louco, pois tudo tremia, e que só se convenceu de que não era uma questão de sanidade mental e sim de estrutura geológica, quando os vizinhos abandonaram seus apartamentos e despingolaram escadas abaixo. Ele me confessou que chegou a sentir um certo alívio. Pelo menos maluco ele não estava.
Imagino que a coisa deva ter sido bem traumática, pois nossos vizinhos americanos que moravam na pent-house se mudaram do apartamento, talvez buscando solos mais sólidos nesta cidade cercada de montanhas.

Fiz questão de esquecer a história. Aconteceu e passou. Ponto final ...


Que ponto final que nada, quem sabe apenas um ponto e vírgula, pois na noite de domingo passado, exatamente às 4:40 da manhã, acordei com tudo tremendo. Acordei de um pulo já gritando É terremoto!!!! A sensação é estranhíssima. O que mais me apavorou não foi o tremor e sim o som que acontece junto. É uma coisa rouca. Mas pior do que isso foi que Silvio tinha ido dormir muito tarde e estava completamente sonado. O tremor, de magnitude 5.4 na escala Richter, durou aproximadamente 15 segundos e quando Silvio realmente acordou, tudo já tinha passado.
Ele acordou, se levantou para checar as coisas, olhou pela janela e eu atrás, grudada nele, só conseguia dizer tremeu, tremeu muito forte! Mas ele não viu nem ouviu nada. Tudo já tinha passado, era de madrugada e não havia nenhum movimento fora.

O que não fazem a alma e a psique humanas em situação de pânico absoluto! Fogem! E, então, determinei segura de mim, mas com as pernas ainda tremendo: Tive um pesadelo. Foi isso, um pesadelo. Foi só um pesadelo. Um sonho. Já passou. E ponto final...

Que ponto final que nada, quem sabe apenas um virgula, só para tomar fôlego. Nos deitamos e eu repetindo: Tive um pesadelo. Um pe-sa-de-lo. Um pe-sa...
Medo e sono e a repetição ininterrupta de meu mantra foram me entorpecendo a tal ponto que mesmo ouvindo os vizinhos descerem as escadas, já não senti o segundo tremor que se deu por volta das 5 horas, com magnitude de 4.3. Silvio sonado e eu hipnoticamente convencida de que tinha tido e continuava tendo um pe-sa-de-lo.

Foi só quando acordamos e ligamos a televisão que constatamos que tudo não havia passado de um ... fato real. O engenheiro sísmico ia falando na TV e eu me dessensibilizando: Não foi um pesadelo! Não foi um pesadelo!

O engenheiro sísmico explicando o ocorrido e eu pensando que estava de camiseta e calcinha durante o evento. Não seria uma roupa aconselhável para uma fuga. De agora em diante a que se ter camisolas mais comportadas para o caso de sair às pressas do apartamento. E talvez dormir com o passaporte na mesinha de cabeceira. Quem sabe uma mochilinha com víveres... A cabeça entrou em parafuso.

O que não fazem a alma e a psique humanas em situação de medo mal disfarçado! Brincam! E tentam minimizar o susto com muitas histórias. Cada uma de minhas amigas contou sua versão do momento exato do tremor, sendo que a mais criativa foi a de uma delas, que pensou que o marido estava tendo uma convulsão! Isto mesmo. A cama tremia muito e já que não era ela a causadora, só podia ser seu marido, talvez um epilético tardio.

Caracas vai continuar a tremer diariamente e segundo alguns especialistas isto é muito bom, na medida em que não se concentra muita energia entre as placas andinas e as da Cordilheira da Costa, o que, aí sim, poderia causar um sismo de proporções catastróficas. Na verdade, tecnicamente, nem foi um terremoto, pois segundo outros especialistas só se considera terremoto a partir de magnitude 6 na escala Richter. E também há um serviço permanente monitorando todos estes movimentos telúricos...

O que não fazem a alma e a psique humanas para se protegerem! Acreditam!

O mais irônico nesta história toda é que nós estávamos com passagens compradas e hotel marcado para passarmos o feriado de 1º. de maio em Bogotá e decidimos não ir para nos protegermos da gripe porcina. Com tal pandemia de nível 5 na escala da OMS, certamente estaríamos bem mais seguros em nosso apartamento, aqui, na cidade de Caracas.



(in à vista del ávila. A foto é de outro momento em que Caracas tremeu, mas aí de forma muito alegre - em um show de Huoscar Barradas)

4 comentários:

Lúcia Russo disse...

Olá Patrícia,

Menina, não consigo imaginar o susto que vc sentiu. Um dos primeiros itens da minha lista de "medos" (também tenho uma, rs) é algo assim: terremoto, tremores de terra, sei lá.
Ri muito com a sugestão da mochilinha de víveres. É preciso usar o humor para tentar enrolar a alma e psique humanas. Espero que esteja tudo mais tranquilo agora.
Grande abraço,
Lúcia

monica disse...

E a terra treme - sensação de ficar sem chão e sem teto. Fugir ou acreditar, acreditar e fugir?

Beijos,
Mônica

Bia Veiga disse...

Oi,

Que susto! E como vc consegue escrever com humor uma história um tanto dramática, rsrs... Fiquei rindo aqui sozinha.
Eu hoje tenho muito medo e de quase tudo, rs. Rio, mas de nervoso. Assim enrolo, como disse a Lúcia, um pouco esse medo que tanto me assusta.
Na mochilinha de víveres da minha irmã, quando ela morou por aí, tinha sempre um apito. Rs, sempre lembro disso, é mole.
Bom, espero que as terras tenham se acalmado.
Beijos
Bia

ayabrag disse...

Pois é. Abandonastes nosso programa em Bogotá, que foi maravilhoso, por sinal, e ficastes em Caracas para tremer de medo. Bom, pela segunda vez estava fora de Caracas qd a terra tremeu. Espero continuar acertando o meu calendário de vaigens corretamente, hahahah.