quarta-feira, 13 de maio de 2009

SENSAÇÕES







A primavera chegou a Caracas, mas ninguém dá conta disto. Uma cidade que fica quase na linha do Equador e a mil metros de altura, próxima do mar, mas protegida, ou separada, dele por uma enorme cordilheira, sofre de múltiplas personalidades climáticas.



Se perguntarmos a qualquer caraquenho em que estação estamos, ele nos dirá, a das chuvas. Embora também seja algo questionável, pois ainda podemos ficar muitos dias sem nenhum temporal. A terra continua seca e faz calor, mas de manhã sempre acordamos com um friozinho e uma certa nebulosidade que logo se dissipam. E aí pode ventar e/ou chover e/ou tudo se transformar em um lindo dia de sol.



A primavera chegou a Caracas e o primeiro sinal disto é que muitas árvores perdem suas folhas (!!!???!!!!). A estação vem chegando e tecendo um tapete amarelecido pelas calçadas. Mas há flores também. Muitas. De inúmeras cores. Há ipês amarelos, umas árvores rosadas e buganvílias de infinitas tonalidades. De meu balcón, ao longe, consigo ver alguns episódios floridos na imensidão verde do Ávila.

A primavera chegou trazendo com ela uma temperatura difícil de ser definida. É calor, mas tem um momento, coisa meio mágica, em que vira um calorzinho morno. E aí tudo parece estar no lugar certo. Confesso que não sei se esta temperatura é algo de fora para dentro ou de dentro para fora. Me explico:



A primeira vez que senti esta sensação foi em um domingo de tarde em minha casa em Santa Rosa. Eu tinha dezoito anos e tinha terminado a última prova do vestibular. Cheguei exausta, comi qualquer coisa e armei uma Dragoflex (quem lembra delas?) no quintal da casa. Fiquei ali deitada na caminha de campanha por algum tempo. Deitada. Só deitada. E aí começou o calorzinho morno. É uma coisa que vai entrando na gente e relaxando o corpo. Vai dando um torpor, mas a gente não dorme. Só fica ali. Quieta. Que nem um bichinho, fazendo parte de alguma coisa maior, mas que você não sabe ... não tem consciência do que é.



Realmente não sei se é uma questão de temperatura, ou se tem a ver com uma certeza de dever cumprido, de não precisar fazer nada, provar nada para ninguém. É só você e os seus botões. Modorra de vida. Um espreguiçar afazeres. Um se deixar.

Depois senti esse calorzinho morno em outros momentos de minha vida. É engraçado, tendo a relacionar essa sensação às tardes. Lembro das tardes em Salvador, com um burburinho de vozes e passarinhos cantando e ainda mais ao longe um rádio narrando um BAVI. (Para os não iniciados, uma partida entre o Bahia e o Vitória). Naquela época também sentia um gosto forte de maresia na boca.

Em Londres foi diferente, mas era uma outra forma do calorzinho se expressar. Eu ia a Inglaterra a trabalho, normalmente em abril, e ficava no Regency em South Kensington. Entre o hotel e a estação de metrô, há uma rua com uma subidinha onde há uns cafés. Algumas vezes fiquei sozinha por lá e, então, sentava em uma das mesas postas na calçada, pedia uma taça de vinho e ficava olhando. A rua, as pessoas, os carros, o céu, as casas, as lojas, uma nuvem qualquer, um passarinho... Dava um gole na bebida e olhava mais. E respirava. Aí o calorzinho morno chegava e ia se embrenhando por meus casacos. Arrancava meu cachecol. E eu ali bem quietinha, sorvendo o momento. Gosto de vinho e de vida na boca. Calor, naquela primavera ainda tão fria.



A primavera chegou a Caracas. Ás vezes, de tarde, a gente se encontra no Havana para tomar um café e jogar conversa fora.

Semana passada, estávamos lá tecendo elucubrações sobre a vida, filosofando e também trocando experiências culinárias. O dia estava muito quente e, de repente, o céu ficou negro e a chuva caiu. Forte. Protegidas estávamos e protegidas continuamos o papo. Acho que ninguém mais sentiu, mas o vento começou a borrifar um pouco de água em nossa mesa. E o que era calor foi virando poeira de chuva. O morninho ao reverso. (Caracas e suas inesperadas contradições!) Parei. Fiquei quieta por um momento. Ninguém reparou. Olhei a volta e constatei: tudo estava no lugar certo.

Próximo a nossa mesa, descuidado, um passarinho pousou em uma poça qualquer.



(in à vista del ávila. No video se pode ver um cair de tarde nesta primavera caraquenha. Também se ouve o vento e algumas cigarras)

5 comentários:

Celina disse...

Ando um pouco atrasada nos blogs. Mas os dois textos estão ótimos. Tenho saudades da casa de Santa Rosa...boa parte de nossa adolescência. Já do terremoto, não quero passar por essa experiência. Só você para descrever com bom humor.
beijos

Bia Veiga disse...

Patrícia,
como você bem sabe, aqui estamos no outono e também temos essa sensação do calorzinho gostoso. Costumo pensar que tem um calorzinho abraçando a gente. Lembrei disso na hora, rsrs... Como deve ser gostosa a primavera por aí. Mansa, branda e confortável. Adorei ouvir as cigarras.
bjs
Bia

Elza Martins disse...

Querida Pat, como sempre você vem nos adoçar e acarinhar com seus textos. Eles chegam devagarzinho como calor que você tão bem descreve e que Bia chama de calor que dá "abraço".
Você faz parte daquele grupo de pessoas ( poucas mas poderosas) que passam pela nossa vida e nos fazem sentir abraçadas. Eu tenho uma lista linda que tem gente incrível que me abraça sempre que penso neles. É muito bom ter isso na vida.

ayabrag disse...

o maior calor que pode existir é o embalado pela amizade, pela sintonia entre almas, pelo desejo de dividir experiências e emoções. Aqui em Caracas, temos mais que o calor da primavera, e o do verão de POA, Rio e Salvador todos juntos. Qd vamos ao Havanna?

besitos calurosos

Eulalia disse...

O calorzinho veio quando li o seu texto...