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sexta-feira, 26 de abril de 2013

SÓ SOLIDÃO

 
E não é que tem dias em que a gente se sente sozinha
e experimenta esta forma estranha de solidão:
Nada escuro, sombrio, maligno.
Só solidão.
 
À volta, o silêncio de um oco de concha
(que, eloquente, sussurra histórias do mar).
 
À volta, uma brisa sem rodopio de pipas
(que, eloquente, segreda antigas canções).
 
À volta, uma névoa de início de outono
(que, eloquente, anuncia bom tempo).
 
Só solidão é só isso:
Ficar, ainda que perto, bem longe.
E poder olhar à distancia
as voltas que a vida dá.
 
Sem parceiros na brincadeira de roda,
sozinha se dar as mãos.
 
Meia volta, volta e meia...
 
Sem parcimônia no piquenique,
se deitar na toalha xadrez e
dividir com formigas os farelos do bolo
 
E sorrir...
 
Sem meio termos, acordar bem cedinho e
descobrir
 que tem dias em que a gente se sente sozinha.
 
Feito concha.
Feito pipa.
Feito um farelo de bolo.
 
E, feito uma formiguinha, só
 
rir...
 
 
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 2 de março de 2012

A FOTOGRAFIA


Se você tivesse que escolher uma única foto, entre as tantas que você fez ao longo de sua vida, para representar o que você realmente é, que foto você escolheria? Qual delas seria a foto síntese? Seu mapa de alma. Seu mais secreto código. Sua senha. Que foto você escolheria?

Tome um tempo para pensar. Vasculhe seus álbuns... Papel, slides, arquivos virtuais... Vasculhe sua alma e memória. Que fotografia seria a fotografia

Há alguns anos atrás, fiz esta pergunta para um auditório repleto de professores. (Houve um tempo em que eu falava para auditórios repletos de professores!) Dei um tempo para eles trocarem ideias. Rirem de suas lembranças. Abrirem empoeirados baús... Todos reagiram. Era impossível escolher apenas uma foto. Afinal, temos tantos perfis. Somos tantos rostos perdidos em diferentes personas. Como seria possível nos aprisionarmos em um único momento? A fotografia!

Foi uma brincadeira... Um exercício, talvez.  Talvez a maneira delicada e lúdica que eu havia encontrado para me despedir daquele grupo com quem trabalhei por tantos anos. Não sei. Era a minha última fala para aqueles professores. Depois dali... Venezuela... E eu sabia, o inicio de uma outra história...

Mas afinal? Dei um tempo, fiz um parêntesis. Afinal... Já escolheu sua foto?

Se me perguntarem, tenho a resposta na ponta da língua. Sei que foto escolher. (Talvez tenha feito a pergunta, porque eu tinha a resposta... A minha resposta. Coisa de professora, né?). 

Sempre que reviro meus baús, ela salta primeiro. Como mágica. Como essência. Eu estou sempre ali. Em preto e branco. Sem pudores, como cabe a uma menininha.


É bom estar numa praia... Vou deixando minhas marcas na areia fofa. Daí eu consigo saber por onde já andei.

A cabeça baixa perscruta caminhos. Sou pessoa cheia de cuidados. Meço meus passos, mas não deixo de dá-los.

Fujo das pedras, mas gosto de encontrar inesperadas conchinhas. Rosadas... (Naquela época eu ainda não sabia que os caramujos nos contam histórias do mar... Me dedicava apenas às conchas. Rechonchudas...)

As mãos sempre abertas... A um carinho, um afago. Presentes da vida.

As mãos sempre abertas... Preparadas, também, para o gesto brusco. Se precisar.

As mãos sempre abertas... Pro calor do sol e pra toda energia que vier. Que é com ela que se desenha o destino na  palma da nossa mão.

E assim vou caminhando... À espera de mares tranquilos e de brisa praieira no rosto.

Às vezes, busco um mergulho... Só pra ficar de olho aberto na imensidão azul do mar.

Às vezes, busco um mergulho... Só para poder saltar de volta e respirar. Forte. Como se fosse o último golpe de ar a sorver.

Às vezes, busco um mergulho... Aquele mergulho... Colo de mãe... Vou contar um, dois, três... E eu me deixada afundar com a plena confiança de que ela iria me salvar...

Às vezes, busco um mergulho... Só por mergulhar...

Estou sozinha na foto. Sempre sozinha. E é esta solidão, minha paisagem, que me faz mais companheira de quem quiser se chegar. Porque conheço silêncios... Sei rir e sei falar.

E assim é minha foto. A minha fotografia. Em preto e branco... Amarelada... Mas eu, em todos os tons e nuances. Sem retoques... Sem retoques...

E você? Se você tivesse que escolher uma única foto? Qual seria a sua fotografia?

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ROJÃO


E foi justamente quando pisei nas areias de Copacabana e os fogos iluminaram a praia, a cidade e as almas... que lembrei de um antigo poema, escrito lá pelos idos dos 80. (Como o tempo passa!!!)

ROJÃO

é deixar a vida
a espera
na soleira da porta

é pendurar as mágoas no varal
- alvas camisas de punho em riste -

é tomar da linha
desfazer o laço
e soltar a alegria
(gigantesca pandorga)
a sobrevagar
um impossivel céu lilás

é fazer-se verão e maresia
ser fruto e ser mar
camarão
frenético peixe
cavalo marinho
a galopar profundezas
a profanar mariscos e conchas
a se embriagar de verde e sal

alvas camisas de punho em riste
silenciosas
indecifráveis
com abotoaduras de cristal

o sol nunca se põe
em meu império
vagalume
vagabundo
vaga e mar

prima véspera
de ano novo
com direito a fogos...
sem artifícios

ser feliz é acender o pavio
explodir inteira
(em lua cheia)
e neste céu poente...
amanhcer

(in Sintaxe do Espanto, Ed. Cátedra, 1986)



(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

BONS VENTOS


Era final de julho. Era o meu último passeio antes de sairmos da Venezuela: Los Roques.

No catamarã, muito céu, muito mar, muito azul. E tinha uma brisa...

De repente, olhei para o alto e lá estavam elas... grandes, estufadas. Com a determinação dos santos e dos heróis. À força do vento, venciam distancias. Ao sabor das correntes de ar, as velas dançavam uma valsa salgada e sensual.

Hipnotizada, levantei a câmera e tirei a foto. E intuí. E determinei. Esta será a foto do último texto deste ano.

Brancas velas, guiadas pela brisa caribenha. Brancas velas, a nos levarem para diferentes cayos, aquelas pequenas ilhas que fazem do arquipelago de Los Roques uma jóia guardada em caixinha de veludo verde azulado.

Ao longo do dia, paramos em diferentes ilhas de areia branca de ferir a vista. Mergulhamos, comemos peixinhos e camarões. Ficamos um tempão relaxando na beira da água, só vendo o tempo e as gaivotas passarem.

Ao lado, nosso barco e suas velas diligentes. Sempre prontas para novas e deliciosas aventuras.

Que em 2011, tenhamos sempre a nosso dispor velas bem branquinhas e uma brisa leve e um mar tranquilo e muito azul.

2011... Que bons ventos nos levem a nossas metas mais desejadas, a nossos sonhos mais impossíveis, ao carinho dos amigos, a boas surpresas ... a novas e ma-ra-vi-lho-sas aventuras!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)