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sexta-feira, 2 de março de 2012

A FOTOGRAFIA


Se você tivesse que escolher uma única foto, entre as tantas que você fez ao longo de sua vida, para representar o que você realmente é, que foto você escolheria? Qual delas seria a foto síntese? Seu mapa de alma. Seu mais secreto código. Sua senha. Que foto você escolheria?

Tome um tempo para pensar. Vasculhe seus álbuns... Papel, slides, arquivos virtuais... Vasculhe sua alma e memória. Que fotografia seria a fotografia

Há alguns anos atrás, fiz esta pergunta para um auditório repleto de professores. (Houve um tempo em que eu falava para auditórios repletos de professores!) Dei um tempo para eles trocarem ideias. Rirem de suas lembranças. Abrirem empoeirados baús... Todos reagiram. Era impossível escolher apenas uma foto. Afinal, temos tantos perfis. Somos tantos rostos perdidos em diferentes personas. Como seria possível nos aprisionarmos em um único momento? A fotografia!

Foi uma brincadeira... Um exercício, talvez.  Talvez a maneira delicada e lúdica que eu havia encontrado para me despedir daquele grupo com quem trabalhei por tantos anos. Não sei. Era a minha última fala para aqueles professores. Depois dali... Venezuela... E eu sabia, o inicio de uma outra história...

Mas afinal? Dei um tempo, fiz um parêntesis. Afinal... Já escolheu sua foto?

Se me perguntarem, tenho a resposta na ponta da língua. Sei que foto escolher. (Talvez tenha feito a pergunta, porque eu tinha a resposta... A minha resposta. Coisa de professora, né?). 

Sempre que reviro meus baús, ela salta primeiro. Como mágica. Como essência. Eu estou sempre ali. Em preto e branco. Sem pudores, como cabe a uma menininha.


É bom estar numa praia... Vou deixando minhas marcas na areia fofa. Daí eu consigo saber por onde já andei.

A cabeça baixa perscruta caminhos. Sou pessoa cheia de cuidados. Meço meus passos, mas não deixo de dá-los.

Fujo das pedras, mas gosto de encontrar inesperadas conchinhas. Rosadas... (Naquela época eu ainda não sabia que os caramujos nos contam histórias do mar... Me dedicava apenas às conchas. Rechonchudas...)

As mãos sempre abertas... A um carinho, um afago. Presentes da vida.

As mãos sempre abertas... Preparadas, também, para o gesto brusco. Se precisar.

As mãos sempre abertas... Pro calor do sol e pra toda energia que vier. Que é com ela que se desenha o destino na  palma da nossa mão.

E assim vou caminhando... À espera de mares tranquilos e de brisa praieira no rosto.

Às vezes, busco um mergulho... Só pra ficar de olho aberto na imensidão azul do mar.

Às vezes, busco um mergulho... Só para poder saltar de volta e respirar. Forte. Como se fosse o último golpe de ar a sorver.

Às vezes, busco um mergulho... Aquele mergulho... Colo de mãe... Vou contar um, dois, três... E eu me deixada afundar com a plena confiança de que ela iria me salvar...

Às vezes, busco um mergulho... Só por mergulhar...

Estou sozinha na foto. Sempre sozinha. E é esta solidão, minha paisagem, que me faz mais companheira de quem quiser se chegar. Porque conheço silêncios... Sei rir e sei falar.

E assim é minha foto. A minha fotografia. Em preto e branco... Amarelada... Mas eu, em todos os tons e nuances. Sem retoques... Sem retoques...

E você? Se você tivesse que escolher uma única foto? Qual seria a sua fotografia?

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)