terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

FRAGMENTOS


Tinha uma idéia já acertada para o texto desta semana, iria falar sobre international vagabonds, mas foram tantas coisas acontecendo ao longo dos últimos dias que decidi me entregar ao acaso e escrever ... fragmentos, estilhaços ...

Perambulando por Chacao

Meus primos chegaram de Cuba na 4ª feira. Como eles mesmos definiram, estavam tendo uma lua-de-mel bolivariana e decidiram fechar o passeio com uma visita rápida a Caracas. O que mostrar a visitantes nesta cidade em menos de dois dias???? Subir o Ávila é a principal opção, mas como montanha cheia de melindres há que permitir-nos a visita a seu topo. Às vezes se enfada e fecha suas alturas. Resultado, nada de teleférico. El Hatillo é opção certa, independente do clima, mas só este pueblito não preencheria os dois dias. Claudia matou a charada e deu a solução: perambular por Chacao, um bairro tradicional, aos pés do Ávila e com os pés na década de 50.
O tempo inclemente não dava trégua. Caminhando, fomos esbarrando em muita gente e episódios de chuva forte. Andar pela Francisco de Miranda é como passear pela Rio Branco, no Rio, em dia de semana. Carros, gente, vendedores, buzinas, e aqui com o adendo de passeatas contra e a favor à reeleição indefinida.
Carlos Eduardo fotografando tudo, até os saquinhos de tajadas, banana da terra frita, que são vendidos nas bancas de jornal.
Na Praça Bolívar, encontramos a mais bela estátua do herói. Igrejinha. Praça Francia, em Altamira. Até que de repente Claudia indicou, entrem aí, e caímos em um mundo paralelo: Centro de Arte La Estancia. Todo o tumulto ficou para trás. Jardins, recantinhos. Uma chuvinha fina ia caindo e fazia de tudo muito mais verde. Cheiro forte de flor. Silêncio. E uma deslumbrante exposição das pinturas de Espinoza, um pintor contemporâneo venezuelano.
Fomos à Torre Plaza em Altamira, lembrem, em cada urbanización de Caracas há um centro comercial. E foi lá que comprei El Genio Del Idioma, de Alex Grijelmo, um livro super interessante sobre a língua espanhola. Em uma tienda de CDs, encontramos um vendedor, já bem entrado em anos, que, com paixão, me apresentou a minha mais nova descoberta musical: Recoveco, um grupo que mistura música clássica com canções tradicionais venezuelanas. Mistura violino e cuatro. Lindo!
Almoço em Tarzilandia (isto mesmo, terra de Tarzan!!!). O restaurante é muito melhor que seu nome, bem no sopé da montanha, cercado de verdes, tucanos e papagaios. Comemos assados maravilhosos e tequeños de entrada.
Fechamos o dia conhecendo Sabas Nieves, uma das entradas para quem quer subir o Ávila a pé. Um túnel de mosaico, samambaiais e avencas, uma escada que leva ao infinito ...
Fiquei só na entrada, admirando os mosaicos.

Uma carta de Cuba

Os primos trouxeram de Cuba muitas fotos, experiências e reflexões político-existenciais, CDs de grupos cubanos, um ron añejo blanco maravilhoso de regalito para mim, charutos e... uma carta de uma mãe cubana para seu filho que mora aqui na Venezuela. A senhora era uma das cantoras de um grupo musical de Havana Vieja e quando soube que eles vinham a Caracas pediu o favor. A carta vinha em um envelope feito à mão, isto é, uma folha de papel branco embrulhava o texto, as pontas do suposto envelope grampeadas e em sua frente um endereço.
Tenho que explicar que esse negócio de correio e carta por aqui é complicado. Os endereços na Venezuela são, como posso dizer ... difusos. Não há números nas casas, há muitas ruas com o mesmo nome. Como não houve tempo de encontrarmos uma agência dos correios enquanto eles estavam aqui, fiquei com a missão de enviar a carta na 2ª feira.
Comprei o envelope, transcrevi o endereço que tinha uma indicação “Ocumare y Yare”. Minha impressão era a de que o rapaz morava em uma estrada entre estes dois lugares. O que parece óbvio e simples para nós no Brasil foi se transformando em uma experiência (uma odisséia?). O atendente começou o interrogatório: Ocumare de onde? Existem dois Ocumares, de Tuy e de la Costa. E não satisfeito com isto, complementou: Yare também. Tem o San Francisco de Yare e... confesso que eu já estava tão atordoada que não lembro o nome do outro Yare.
A minha primeira reação foi de desistir e esquecer a carta, mas aí comecei a pensar naquela mãe cubana, sem contato com seu filho há muito tempo. Sua ansiedade e angustia escrevendo a carta, contando de sua vida, querendo saber do seu menino. Quanto de saudade não estaria naquele envelope feito à mão e grampeado nas pontas?
Insisti com o atendente. Havia o nome de uma urbanización: “El Ave Maria”. Pesquisamos na Internet e, depois de algum tempo, decidimos que era em Ocumare de Tuy. Próxima pergunta: O telefone de contato da pessoa que vai receber a carta? Quando eu disse que não sabia, voltamos à estaca zero. A carta não poderia ir. Depois de muita conversa, consegui convencer ao atendente que eu me responsabilizaria pela não entrega do envelope.
E lá se foi a carta, para Ocumare de Tuy. A carta de uma mãe cubana a seu filho exilado aqui na Venezuela. Espero que o envelope chegue a seu destino na urbanización El Ave Maria... coincidência ou ironia do destino?

Olhos de câmera

Fui ver o filme do Brad Pitt, The Curious Case of Benjamin Button. Agora vou ao cinema às 2as feiras. Adoro ir ao cinema de tarde e sozinha. Sempre fui assim, desde a minha época de faculdade: matinés solitárias. Na verdade, acho que estou resgatando aqueles tempos maravilhosos em que eu ainda sonhava em escrever roteiros.
O filme é estranho, me pareceu um Forest Gump do realismo fantástico. Mas gostei de ter ido.
Saí do cinema meio atordoada. Ainda não me acostumei a terminar a sessão e ouvir aquele burburinho que se faz, gente se levantando, avaliando o filme, só que em espanhol.
Quando fui pegar o carro me deparei com um âgulo novo do Ávila. A montanha envolta em neblina e sol me comoveu por alguma razão.
Indo para a casa, levemente engarrafada e ouvindo o CD do Recoveco, vi uma imagem simples e delicada. Em um sobrado, uma mulher pendurava roupas no varal. No cair da tarde, era uma figura acinzentada em contraste com um céu grís. Parecia uma cena de curta experimental. A música, os gestos da mulher, lentos e ritmados, a roupa resfolegando ao vento. Tudo cinza sobre cinza.
Muitas vezes faço olho de câmera cinematográfica. Brinco que meu olho filma cenas ao comando de uma canção.
É tão bonito ...

Lua cheia

Cheguei em casa pensando no que ia fazer para o jantar. Silvio insiste em jantar, já que o almoço em Sabana Grande é sempre ruim e muito caro. Abri a porta da sala e lá estava ela, dependurada em minha varanda. Lua cheia, cheíssima. A foto saiu tremida, talvez por deslumbramento.




Cada vez mais gosto de estar por aqui...

(in à vista del ávila)




5 comentários:

Alzira Willcox disse...

Nunca espero até terça-feira. Não gosto de adiar prazeres.
"Brinco que meu olho filma cenas ao comando de uma canção.
É tão bonito ..." - fui capturada por esta frase.
Eu também costumo observar à minha volta e, como digo a mim mesma, "fazer filminhos". Nem sempre ao comando de uma canção...Achei lindo!

Lúcia Russo disse...

Patricia,

A foto registrou sua emoção e sensibilidade. A lua foi mera coadjuvante.
Outro texto muito gostoso de ler. Você descreve as situações e os passeios de forma tão envolvente que acompanho você em cada um deles.
Grande abraço,

Lúcia

ps: já visitou meu blog de pinturas?
http://luciamrusso.blogspot.com

Fábio L. Rockenbach disse...

Patrícia
Leia a obra original do Fitzgerald, que vem livre da sanha moderna dos cineastas de inserirem realidade em suas tramas, e o realismo fantástico de Benjamin Button se torna gostos, retrato irônico de sua época e até ousado em alguns pontos, como o retrato da escravidão. É um comentário mais mordaz à época em que o Fitzgerald escreveu. Tudo isso se perdeu no filme, em nome do "racionalismo" científico. É um bom filmes, poderia ser inesquecível.

Abraço
Fábio e Carla

Elza Martins disse...

Hoje,terça de madrugada, ainda cansada de um dia duro de trabalho, cada vez mais raros nos dias de hoje, resolvi que antes de dormir iria me encontrar com você e seus relatos. Foi bom demais. O cansaço passou e a leitura me agradou muito. Amanhã tenho outro dia desses ( Graças a Deus) mas, estarei mais plena de idéias e de sentimentos, graças à minha visita ao seu blog. Beijos.

Celina disse...

Primoca querida,
Amei o texo. Viajar na vida, é a melhor forma de viver. A frase que mais amei? "Cada vez mais gosto de estar por aqui." Isso é estar feliz.