domingo, 7 de dezembro de 2008

MINHA MONTANHA



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El Ávila foi paixão a primeira vista. A principio, porém, eu pensava que era apenas uma paisagem muy hermoza que eu tinha tido a oportunidade de ver. Uma paisagem de que eu lembrava com saudades enquanto, no Rio, me preparava para viajar definitivamente para a Venezuela.
Logo que cheguei aqui, Rene me disse: “El Ávila es una montaña mágica!”. Aos poucos, fui descobrindo que aquelas palavras não eram apenas uma declaração de um caraquenho apaixonado por sua cidade. Elas tinham muito de verdade.


O que sempre me intrigou foi que, apesar de montanha, ela estava, está, constantemente em movimento. É mutante. Hipnotiza. Sou capaz de ficar horas olhando os seus verdes, suas sombras, suas nuances. Surpreendo-me com ângulos que surgem e desaparecem num estalar de dedos, em uma súbita mudança de luz. Ondula, respira, tem vida, está viva.

E não sou só eu que sofro desta atração. Quando Eulália esteve aqui, passou 10 dias acordando antes das 6 da manhã para ver, ter (?), os melhores ângulos da montanha. Tirou mais de 200 fotos só de amanheceres e, suspeito, que para tirar algumas, tenha levitado. Eulália é capaz dessas coisas. Outro dia também, recebi de Andréa uma foto em que ela registrou o momento exato em que a montanha se transformava em ilha. Solta nas nuvens. Pura magia!

El Ávila esconde o mar. Faz parte da cordilheira da costa. Depois do Ávila, é o Caribe. E no meio do caminho, ainda na montanha, há um pueblito chamado Galipán, onde se cultivam flores. Mas nada disso justificaria o encantamento da montanha. Nada disso explicaria sua constante obsessão por parir arcos-íris. A montanha está em todas as partes de Caracas. Observa e guarda a cidade. Está viva. Tem vida. Respira. Ondula.

Há mais ou menos um ano, em um resgate de valores históricos, em repúdio ao colonialismo espanhol, a montanha voltou a se chamar Warairarepano. Leia-se Guaraira-repano.

Na primeira parte da estada de Eulália por aqui, ela passava os dias me perguntando o que significava aquele nome indígena. Na segunda parte, como sua ex-aluna não encontrava a resposta e como boa professora que é, passou a se perguntar e não se cansou até que em uma noite deu um grito: “Achei!” Foi seu Eureka venezuelano. Warairepano – “la ola que vino de lejos” ou “la mar hecha tierra”. A onda que veio de longe ou o mar que se fez terra.

Conta a lenda que em tempos antigos não havia a montanha, tudo era plano e de longe se podia ver o mar. Um dia os indígenas da região ofenderam a Deusa do Mar e ela decidiu destruir completamente sua tribo. Então, fez surgir uma grande onda, a mais alta que já se tinha visto. Quando as pessoas viram aquela massa de água vindo em sua direção, ajoelharam-se e imploraram com fervor o perdão da Deusa. Imploraram muito, até que ela apiedou-se de suas almas, e, quando a onda estava preste a engolir a tudo e a todos, de súbito, fez com que ela se transformasse em uma montanha. Warairepano. El Ávila. Minha montanha.


E é nesse mar em suspenso onde deságuo os meus dias. Minhas alegrias. Minhas dúvidas. Meus desejos impossíveis. Navego meus sonhos tolos, nessa onda invisível. Cordilheira de espuma. Clorofila e maresia. Que a Deusa do Mar me proteja. Me proteja e me guie. Seja ela a minha bússola. Minha bússola e meu leme, nessa minha travessia. (Desculpem os que me lêem, mas isto cheira a poesia.)

4 comentários:

Celina disse...

Então a poesia, que rondava, meio assim disfarçada, subiu a montanha, abriu seus braços e desaguou no seu texto. Lindo!!!!

Alzira Willcox disse...

Tudo em seus textos transpira poesia.Nesse texto ela está presente, viva, envolvente. O último parágrafo então é pura poesia. Lindo!
Senti-me compartilhando essa paisagem encantadora, essa 'montanha mágica'.

Eulalia disse...

Fotos da montanha e tai chi chuan feito sob a energia da montanha são duas sensações que jamais esquecerei.
Não é uma montanha... é mesmo uma personificação de uma divindade... quem a viu com os olhos da alma e do coração sabe disso.

Bia Veiga disse...

Já estava com saudades de história da montanha. Cheguei a pensar no início que as histórias seriam só do Del Ávila, rsrs... E agora ele veio cheio de surpresas, com mágica e até trazendo poesia linda ao final. Isso é mágica, deixar tranbordar de você tão lindas palavras?
Adorei tanto!!!
bjs