sexta-feira, 20 de novembro de 2009

QUE CAMINHOS TOMAR?



Se olharmos bem a foto, podemos ver que há outros picos além do Ávila na Cordilheira da Costa e, também, há muitos caminhos para se chegar ao topo. Os caraquenhos, muitos deles, curtem caminhar e até mesmo correr montanha acima pelas várias trilhas que há na região.



Tudo começa na Cota Mil, uma larga e longa avenida que fica a exatamente mil metros do nível do mar e que costeia uma boa parte da montanha. É na Cota Mil que se pode pegar aguaceiros inesquecíveis. As nuvens batem na Cordilheira e se derramam em água pesada. Un palo de agua, como dizem por aqui.


À noite, aqui de casa, posso ver um cordão de luz no sopé da montanha, parece uma praia, mas na verdade é a Cota Mil iluminada.

Pois é de lá que se escolhe o caminho a trilhar. Há o teleférico e também os jeeps que saem de San Bernardino e que levam turistas até Galipan. E há os caminhos, as estradinhas, as trilhas que vão serpenteando a montanha em um intrincado labirinto de possibilidades.


Além disso, há uma variedade de picos a escolher: o Ávila, o Ocidental, o Oriental, passando pela Silla (que de longe parece uma cela de cavalo), até se chegar ao Naigatá.


De lá de cima há a promessa de se ver o mar. Até se chegar lá em cima, há a possibilidade de se fazer paradas em cachoeiras ou laguinhos ou grutas. E por todo o caminho, muito esforço, que é sempre recompensado pela paisagem e pela sensação de vitória por um desafio cumprido: Chegar!


(Parei agora de escrever e fui até a varanda olhar a montanha. A tarde está caindo e há uma brisa suave. Um helicóptero passou bem perto da Cota Mil, deve ser de alguma rádio dando informações sobre o trânsito. Em breve vai ser noite e a avenida vai se iluminar.)

Há muitos caminhos para se chegar ao topo. E ... há muitos picos se a visitar. Cabe a cada um de nós escolher que paradas queremos fazer, que paisagens queremos fotografar e com que esforço vamos fazer a subida. Alguns querem caminhar. Outros só aceitam se for na corrida, pra chegar logo, pra chegar primeiro, porque o que importa é chegar.


Esses não param pra fotos. Não descobrem recantos. E se há um riacho, dão um salto e num pulo se livram daquele obstáculo, que é a possibilidade de molhar os pés na água gelada, mexer os dedos, molhar o rosto, descansar. Não. Um pulo e já se foram pra próxima etapa, porque o que importa é chegar.


O que me surpreende é o quanto de paisagem que eles deixam de ver em seu passo apertado, em sua corrida pro topo, não importa que pico... o que importa é chegar.


O que me intriga é que nessa corrida, não há espaço pro outro, pro parceiro de trilha. Que gente faz a gente perder tempo e... o que importa é chegar.


O que mais me entristece nessa escalada infinita é que estamos treinando os nossos meninos para a trilha mais curta, para o atalho mais fácil, para o pico mais baixo, porque... o que importa... é chegar.


(Voltei à varanda. Já é noite e decidi fotografar a Cota Mil para registrar esta praia às avessas. A cordilheira está bem nítida neste outono caribenho. Silvio chegou e foi para a varanda também. Me contou do seu dia... Olhamos a paisagem ...)


Há muitos caminhos para se chegar ao topo. Há muitos picos a se visitar. E é dever de cada um escolher... Ou será um direito? E será mesmo que o importante é chegar?




(in pblower-vistadelvila)

6 comentários:

Alzira Willcox disse...

"O que me intriga é que nessa corrida, não há espaço pro outro, pro parceiro de trilha. Que gente faz a gente perder tempo e... o que importa é chegar."
Ah, amiga, quanta verdade em suas palavras! Você fala de trilhas, mas certamente, claramente, a alusão é ao mundo que cada vez exige (?) mais correria desenfreada, mais competição, mais individualismo, menos paciência com GENTE. Que caminhos tomar não importa tanto quanto CHEGAR. Aonde?
Muito bom!Isso me deprime um pouco...

Lúcia Russo disse...

Ola Patricia,
Que texto! De tirar o fôlego (a foto também)! Parecia que eu é que estava a subir, a correr. Mas parei, molhei o rosto, olhei a paisagem... lindo texto.
Vou imprimir e deixar na cabeceira.
Ótimo domingo pra você,
Besos,

Lúcia

monica disse...

Oi Patricia,
'and miles to go before I sleep'
Bjs,
Mônica

Eulalia disse...

Acho que me perdi nas grutas e riachos...

Celina disse...

Lindo!!! Inveja da brisa...
bjs

Elza Martins disse...

Querida Patrícia, estou em viagem e e atodo tempo faço escolhas de cidades e de trilhas a seguir. Assim como nunca se deve perder a ternura, perder a chance de molhar as mãos e o rosto no riacho de água limpa e fresca é uma tolice. Aquele riacho , e nem você, nunca mais será o mesmo. Quanto aos companheiros de trilha acredito que o que ninguém quer, como diz a Zélia Duncan: é aquela coisa estranha, companheira que não acompanha". Muitos beijos.