sexta-feira, 6 de novembro de 2009

ASSIM FALOU LEVÍ-STRAUSS



Silvio me avisou que teria de ir a Jose (onde vai ser construída a planta petroquímica) no dia seguinte. É um vôo curto, como uma ponte aérea, mas como moramos em Caracas, a mil metros de altura, e o aeroporto fica em Maiquetia (a beira do mar do Caribe) qualquer viagem de avião fica mais demorada, pela estrada e, dependendo do horário, pelos engarrafamentos. Silvio me disse que o carro viria buscá-lo por volta das quatro da manhã e, então, fiz o meu plano: que o carro chegasse, o apanhasse e fosse embora, que eu ia ficar dormindo.



Ouvi o despertador, o barulho de Silvio se arrumando, mas fiquei bem quietinha. Me negava a acordar àquela hora. Silvio começou a andar de um lado para o outro, com uma ansiedade absolutamente incomum nele. O celular tocou e ele começou um diálogo mais que conhecido para mim: ?Donde estás? ?Cerca de la Embajada? ?Conoces Unicasa? Entendi de imediato. Motorista novo e totalmente perdido. Para se chegar a nosso apartamento é preciso ser um experto em caminos verdes.


Decidiram, ele e o motorista, que deixariam o celular ligado e Silvio iria dando as orientações necessárias. O tempo passava, Silvio resfolegava e o motorista continuava perdido. Foi quando o sinal do celular caiu que eu decidi me levantar. Não tinha nada que fazer, mas pelo menos estaria solidária.


Quando conseguiram restabelecer contato, Silvio achou melhor descer e eu tive meus quinze segundos de fama. Fiquei na janela de vigia. Ao ver o carro chegando, fui eu que avisei ao motorista que ele estava no caminho certo e que Silvio já havia descido.


Depois deste acordar, diríamos... intempestivo, quem consegue voltar a dormir? Às quatro e meia da manhã, eu estava a toda.



Olhei a minha volta. Tudo em penumbra. Somente algumas luzes acesas na casa e o dia, que ainda era noite, iniciando timidamente o seu oficio de amanhecer. Silêncio.


Voltei para a cama e tentei terminar de ler o Trem Noturno para Lisboa. Um desafio para mim. Lento... Um livro estranhamente masculino. Isabel Allende disse que era bom, mas prefiro os livros dela. Decidi saltar algumas frases, depois parágrafos e quando saltei algumas páginas, achei melhor ir fazer um café.


A janela da cozinha estava entreaberta e entrava o friozinho da madrugada. O cheiro do café foi, aos poucos, aquecendo o ambiente.


De caneca em punho fui para a sala ver o amanhecer. A essa hora não dá para ficar no balcón. Silêncio.

E enquanto olhava a cidade ir aos poucos se acendendo (os caraquenhos acordam cedo para fugir das colas) e o céu se iluminando para mais um dia de seca (quem sabe hoje choveria?), pensei em Leví-Strauss...

Tristes Trópicos...

Quando cheguei a Caracas, achava que o Brasil ficava em outro continente e que estávamos a quilômetros e a séculos de distância. Essa América hispânica tão diferente de nós... Mas, enquanto o dia nascia, eu ia vendo que, no mapa de nossos destinos, compartilhamos os mesmos descaminhos. Ia entendendo que a nossa linha do equador fica bem abaixo do Texas.

Tristes Trópicos...

Essa África equivocada. Essa irônica Europa. Essa América feita de ouro, prata e sacrifícios. De todas as nossas pirâmides escorre sangue e sonho em onírica hemorragia.

Terra pecadoramente católica. Carnavalescamente caótica.

Vivemos um sincretismo de astúcias. Falamos demais. Prometemos demais. Esperamos demais. E trocamos por espelhos a nossa pedra mais preciosa...  a vida.




Tristes Trópicos...


E apesar disso dançamos e rimos e vamos a praia e fazemos amor e arte. Gingamos ao som de maracas, tambores, cuícas... Vamos ao sabor do vento... ou das tempestades. Mas vamos...

Talvez seja essa alegria descabida que nos faça possíveis.

Olhei a minha volta. Silêncio...

O café tinha acabado. O dia já havia amanhecido e eu, decididamente, devia estar dormindo.

Tristes Trópicos?

Talvez seja essa alegria descabida que nos faça possíveis... Talvez...



(in pblower-vistadelvila)

5 comentários:

Lúcia Russo disse...

Oi Patrícia, hoje passei em frente à Cobal e lembrei de quando nos encontramos lá, você, Elza, Bia e eu. Rimos, conversamos e ouvimos suas histórias. Pensei "que pena que não nos encontramos dessa vez", mas logo disse pra mim mesma "que bom que nos encontramos naquele dia". Adorei este post, gostei do texto, da emoção, da sua descrição, me senti ali com vc, de caneca em punho.
Um grande beijo pra você,

Lúcia

Alzira Willcox disse...

Uma análise bem real. Fiquei meio (não, muito) melancólica. Melancolia por essa nossa alegria que, às vezes, me soa falsa, meio como um desafio para enfrentar tantos percalços. Ou, talvez, uma bandeira para manter viva a imagem que fazem desse povo. Sei lá. Fiquei pensativa. Gostei, como sempre.
Bj

Eulalia disse...

Muito muito muito muito.
Caramba...

Celina disse...

Como um café pode ser tão inspirador?
Quero um desses pra escrever um texto lindo assim. Demais!!!

monica disse...

São tristes, às vezes alegres. Felizes..., acho que não.
Bjs,
Mônica