Marcinha e Fátima chegaram lá pelas 8. Era mais um debut do apartamento. Apesar de estar ainda acampada, me esmerei nas comidinhas. Tinha até louça inglesa. Estou tendo um prazer enorme de poder usar minhas coisas novamente. As pobrezinhas ficaram por tantos anos escondidas em armários e depósitos... Agora não. Todas lavadinhas e prontas para o serviço.
Mas como eu ia dizendo, as meninas chegaram por volta das 8. Fátima me trouxe um tinto australiano de respeito e Márcia um vaso/presente. Uma bromélia amarelinha. Uma celebração nacionalista. Inconscientemente, ela me presenteava uma flor amarela em um vaso verdinho como se dissesse: Seja benvinda, amiga. Seja benvinda.
Silvio chegou logo depois e aí foi muito papo, pastinhas, risadas, margaritas (e suco de uva para Marcinha).
Uma história foi puxando a outra e também nós migramos para a mesa, onde nos esperava um espaguete ao pesto com salmão defumado. Vinho branco argentino, cerveja para Silvio... E... suco de uva.
É impressionante e encantador como amigos verdadeiros são capazes de produzir assunto... e muitas risadas.
Enquanto comíamos, de vez em quando eu olhava para a flor que tinha sido deixada junto a nós. Depois eu encontraria o lugar certo para ela. A gente falando e ela... Sei lá... Acho que era o ângulo em que eu estava... Mas era como se ela seguisse a conversa com sua loura cabecinha. Participava, em silêncio, mas atenta e solicita. Havia algo de humano naquela bromélia. Um corpo delgado e proporcional. E a leveza da juventude.
A noite terminou já passava da 1 e como todos, inclusive eu, tinham que levantar cedo, foi apagar as luzes e deitar.
De manhã, não ouvimos o despertador e quase perdemos a hora. Sai do quarto direto para a cozinha para fazer o café e quando passei pela sala, lá estava ela, loura. E havia uma alegria indizível naquela ... flor? Menina? Moça? Os braços para o alto... Bailava.
Era isso. A bromélia rodopiava em seu eixo. Uma passista! Uma baiana! Alegoria de si mesma. Uma das mãos erguida em ponta, como um leque. Seu mais lindo adereço. E o silêncio da manhã se encheu de música, batuque, um repique carioca.
Minha sala, a festa. Minha sala, a passarela. Minha sala, a avenida!!!!
Quando se apercebeu de minha presença, fingiu passividade. Mas aí já era tarde. Eu sabia de seu segredo. De seu canto/encanto. Súbito intui o seu nome e a batizei em cerimônia simples, mas não menos formal: Eu te batizo em nome da vida... Lourdinha... Lourdinha Carnaval!
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)