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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ROUPAS


A mudança chegou. E com ela, a alegria de rever pertences, a preocupação com livros e papéis e a (des)agradável surpresa de reencontrar as roupas de cama, mesa e banho.

As roupas... Aquilo que para mim não tinha sido objeto de preocupação ao longo da espera de mais de um ano até que a mudança chegasse, caiu no meu colo com o peso exato de dez caixas grandes. E quando digo grandes, digo retangulares e angulosas como caixões de primeira. Papelão reforçado. Rechonchudas, como se em cada uma delas um rinoceronte me espreitasse.

Ao abrir a primeira, confesso que quase rezei para que tudo estivesse mofado e apodrecido e aí eu teria uma boa razão para jogar tudo fora e começar do começo. Mas que nada. Apesar de lacrados há um ano, lençois e toalhas e conjuntinhos americanos estavam intactos, só com o cheiro característico da hibernação. Havia que lavá-los.

Diligente e próativa como sou, decidi levar edredons e colchas para o tintureiro. Seu Ricardo me sorriu deslumbrado com o aumento inesperado da receita. Enquanto o tintureiro celebrava o azul de seus números, eu entrava de cabeça no vermelho.

Refiz meus projetos e decidi lavar o resto da roupa em casa. Continuei abrindo as caixas  e para espanto e desespero descobri que também uma parte das roupas de Silvio era um dos rinocerontes embalsamados.

Comecei, então, um mutirão de lavagem. Foi-se criando uma espécie de compulsão em mim. Estou decididamente sofrendo de TOCRREL, sigla recentemente criada para casos graves de Transtorno Obsessivo Compulsivo Relativo a Roupas e Lavagens. Acordo e, antes de escovar os dentes, já tenho aquela vontade incontrolável de estar entre sabão e amaciante. Entro na área e a máquina quase se encolhe. Outra vez não!!! Gritaria ela, se pudesse gritar, mas antes de qualquer reação, eu já lhe enfiei goela adentro mais um cesto de roupa.

O pior não é a máquina, que desta cuido eu, mas minha vizinha. Ela pode me ver em meu vicio. Da primeira vez que me viu entre lençóis e toalhas me sorriu solidária quando expliquei que a mudança havia chegado. Nos dois primeiros dias, comentava... Que trabalheira!!! Agora, tem me olhado meio de banda. Desvia o olhar como se estivesse testemunhando um delito.

A passadeira já me disse que quer aumento e negociamos um reforço para este período. Vai passar, expliquei docemente... É o que eu tô fazendo sem parar, me respondeu. Tô passando! Foi dificil explicar para ela que o meu "Vai passar" dizia respeito ao tempo e não ao ato.  

E assim vão seguindo os meus dias... Entre bolhas de sabão, alvejantes e amaciantes de diferentes cores e perfumes. A compulsão não parece melhorar.

Sei não... Acho que vou gastar mais grana com o analista do que com o tintureiro. Isso sem falar na passadeira que quer porque quer um aumento.

Êta vida dura!, como diria minha querida amiga Mabel.

Ah, só como registro final. Ou a vizinha viajou no feriado ou está me evitando, talvez com medo de eu surtar de vez e atacá-la a golpes de ferro de passar. Com louco não se deve brincar, não é mesmo? Não se deve brincar...

(in pblower-vistadelvil.blogspot.com)