sexta-feira, 24 de maio de 2013

ALGUMAS PERGUNTAS


De repente, não mais que de repente, o Brasil precisa de mais médicos. Muitos! Tantos que precisamos importá-los. Médicos de além-mares, além-fronteiras. Médicos do além! 

O Brasil, esta nossa potencia há tanto tempo adormecida, finalmente despertou e, pelo visto, bastante enferma, pois precisamos de médicos. Médicos de todas as especialidades. Médicos de todas as partes. Médicos à mancheia!

A grande prova da enorme carência de médicos brasileiros é o caso de uma cidade do interior do estado (ou seria feudo?) do Maranhão que, apesar de oferecer um salário de trinta mil reais por mês (eu disse trinta mil reais, isto é, em torno de quinze mil dólares ou algo como dez mil euros ou ainda umas oito mil libras por mês) para que qualquer bom discípulo de Hipócrates fosse trabalhar por lá, não teve nenhuma alma que se apresentasse para a tarefa. A prova viva de que neste país precisamos importar médicos. Como todos os médicos brasileiros já estão muito bem empregados, nenhum se interessou por assumir o cargo.
 
Aqui já cabe uma ou outra pergunta. Por exemplo: Que cidade do interior é esta que oferece um salário desses para um médico? Se é proibido a qualquer funcionário público ter um salário maior que o dos principais governantes, me pergunto: Quanto ganha o prefeito dessa cidade? E ainda, como foi feita a convocação para este emprego? E que condições de trabalho foram oferecidas a esse profissional?
 
Um caso isolado. Não devemos nos perder em casos isolados. Sigamos, pois, em nossas dúvidas e questionamentos.
 
Caso importemos médicos, como, por exemplo, de Cuba...(Já vivi em uma terra cheia de médicos cubanos.)... Serão eles realmente a solução de nossos males e mazelas?
 
Um médico importado terá melhores resultados trabalhando em hospitais sucateados?
 
Um médico importado será melhor trabalhando em hospitais superlotados?
 
Um médico importado será mais eficiente operando em corredores de emergências, sem bisturi, linha, agulha e higiene? 
 
Um médico importado será mais eficaz ao diagnosticar doenças para as quais o remédio está em falta e deve chegar lá pelo mês que vem?
 
Um médico importado poderá suturar os vazamentos de água e esgoto  das enfermarias nacionais?
 
Um médico importado poderá prescrever menos desmando e politicagem e jogo de empurra empurra?
 
Um médico importado será capaz de gritar bem alto, ainda que com sotaque: Não! Não posso transferir este paciente em ambulância doada para outra cidade porque aqui, nesta, o governo se omitiu e não construiu sequer um pronto socorro!?
 
Um médico importado saberá botar para funcionar os inúmeros aparelhos caros e essenciais que estão esquecidos, ainda em suas caixas, pelos confins desta terra?
 
Não sei... Se alguém tiver as respostas que me responda.
 
Nos últimos tempos temos falado tanto de importar profissionais... Como se o Brasil não tivesse gente para... Como se diz, dar conta do recado.
 
Acho que o problema foi que, ao longo de muitas gerações,  não demos importância a professores, ainda que nativos, com condições de formar gente para construir, gerir e reinventar o país. Acho que foi isso.
 
Agora... Bem, agora só nos resta importar... Mas... E aqui vai a última pergunta:
 
Se o caso é importar, não seria melhor, ao invés de importar médicos, começar pelos políticos? Tanto aqueles que executam quanto os que legislam. Quem sabe importar alguns da Suécia ou Noruega? Quem sabe até um partidinho inteiro da Finlândia? Talvez, começar por um politico japonês que se erra, chora, pede perdão e faz seu harakiri?
 
Se a moda pega, não ia sobrar faca no mercado... Ou, então, que há coisas que estão no DNA... Ou, então, a gente ia começar a importar faca, com direito a uma baita CPMF (Contribuição Provisória sobre o Mercado das Facas). 
 
Eu não sei... Não sei... Quem tiver a resposta que respire fundo e diga 33.
 
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

2 comentários:

ayabrag disse...

Adorei teu texto,Patricia. Mas tenho que admitir que fiquei com aquele gosto amargo da sensação: não tem saída. ultimamente tenho me sentido assim. Sempre fui otimista, mas agora tá difícil continuar com ânimo, com disposição de ver o copo meio cheio. Já vimos esse filme de médicos cubanos. Já vimos o sofrimento de uma jovem que depois de um acidente ficou totalmente sem condições de trabalhar e de uma mãe que perde seu filho de sete anos por total despreparo dos médicos cubanos que os atenderam. Acho, na minha humilde opinião que a resposta é importar e substituir todos os políticos.

Eulalia disse...

Querida,
Texto impecável!!! Muito lindo, triste, mas, sobretudo... impecável!!!

Só acho que nas suas perguntas, você mesma já respondeu à larga: importar políticos!

E poderíamos começar por um pequenino partido de um dos países citados.

Quanto às facas, acho que não adianta... elas apenas serviriam como mais uma fonte de corrupção, por meios atravessados.

beijos, querida, bravo!!!
Isso deveria ser publicado em jornal, em revistas de peso, em murais!!!