sexta-feira, 6 de maio de 2011

A VIDA A CABO




Entre o casamento real e a morte de Bin Laden, fiquei super gripada.

Na verdade, já vinha meio resfriada há algum tempo. Aquela dor de garganta típica, nariz escorrendo e uma moleza que fazia tempo eu não sentia. Vontade de nada e febrezinha.

Nessas horas, além dos aconselháveis antigripais e muito líquido, só nos resta virar planta, encontrar um cantinho e ficar... Olho vidrado... Raizes entre um travesseiro e a coberta. Nada mais. 

Não, tem mais uma coisa. A TV ligada, para fazer o tempo passar. E foi aí que tive um efeito colateral da gripe. Algo inimaginável. Tive uma indigestão de TV a cabo.

Tal síndrome ainda não foi registrada pela ciência, pois não vi nada a seu respeito no Discovery Science ou no Home & Health e nem falaram nada dela no Fantástico. Seus efeitos, porém, são devastadores.

Além daquela esperança permanente de encontrar algum filme que valha a pena, o que resulta em uma angustiante frustração depois de duas horas zappeando por todas as HBOs possiveis, tem um outro sintoma ainda mais grave e que se torna crônico. Você passa a odiar filmes que foram um must  em sua vida. Um exemplo vale como explicação. Enfrentei filas para ver O Paciente Inglês na época em que o filme concorria ao Oscar e, esta semana, acamada e impaciente, esbarrava em Ralph Fiennes todo queimado a cada zappeada que eu dava para fugir de um infomercial ou de um desenho animado da Nichelodeon ou do Discovery Kids. Depois de algum tempo, comecei a desejar que ele tivesse ficado na caverna com seu grande amor e ambos tivessem sido comidos por hienas do deserto. 

Nickelodeon e Discovery Kids... Antigamente, eu gostava de desenhos animados, mas agora, talvez pela idade avançada, eles não me encantem mais. E não é porque não consiga compreender a rapidez com que a trama se desenrola (continuo esperta nisso), mas é porque as histórias são muito chaaaatas. Um mundo que tem como herói um Bob Esponja só pode estar em profunda crise. Econômica? Nada, de identidade. 

E o pior de tudo é que você vicia. Não consegue desligar a televisão. Talvez seja por influência dos canais religiosos que investem em sua fé. Vai melhorar, vai melhorar. Deus é pai, não é padrasto e não me abandona. Vou encontrar algo para ver... Cadê o controle remoto????? É, este é o efeito colateral do efeito colateral... A gente perde o controle entre os travesseiros e a coberta. E, aí, a gente perde o controle e a compostura de vez. Cadê a m... do controle remoto?

Os seriados poderiam ser uma opção, mas sei lá... É muito médico e enfermeira. É muito patologista e legista. É muito serial killer. É muito tiro. Eu queria ganhar 50 centavos a cada tiro dado nos canais da TV a cabo. Em um dia, eu estava rica. Ganhava mais em um dia do que em qualquer edição do BBB. E por falar em BBB, tem um canal que continua passando os melhores momentos. Pode?

E que tal os canais de esportes? Não dá... Eles só mostram o Fluminense perdendo nos pênaltis!

Está certo... Tem o History Channel, mas vocês sabem quantas vezes uma pobre pessoa acamada pode ver o MUNDO SEM HUMANOS  em apenas uma semana? Esta é fácil... Tantas quantas as vezes em que aparecem tubarões e dinossauros em todos os canais. Por que o pessoal gosta tanto de dinossauro? Deixem os mortos em paz!

Antigamente, eu gostava de ver o César e suas dicas de como adestrar os cães. Hoje, me peguei imaginando ele sendo comido por uma matilha de chiuauas! Não estou nada bem!!!!

E tem os caminhoneiros do gelo, a pesca mortal, as megaconstruções e ainda... E esta é realmente mortal... Os chefs e suas receitas mirabolantes. E o pior é que eu me pego com vontade de comer tudo aquilo... De ostras com mapple a comida molecular!! E quero beber todos os coquetéis e degustar todos os bichos estranhos e também os vermes que aqueles jornalistas aventureiros comem enquanto sobrevivem nas selvas tropicais. Não estou nada bem mesmo!!!!!

É, mas tem as notícias. A possibilidade de estar antenada com o mundo on time. (Na época do acidente no Japão, a NET abriu a NHK e eu, às vezes, ficava vendo as noticias em japonês. Uma experiência. É como tomar uma droga pesada. O desastre rolando e ao fundo tinha uma musiquinha japonesa, cheia de blim-blim-blins e a voz suave e zen de um locutor. Muitos ideogramas na tela e a imagem de Fukushima e aquela fumacinha saindo. Não conheço nada melhor para fazer meditação!). 

É, tem as notícias on time. E foi então que eu descobri que toda notícia é canibal. Uma noticia come a outra e é assim que a mídia sobrevive.  Não me acreditam? Senão vejamos... Desde o inicio do ano... Se não me engano, a catástrofe da serra fluminense foi comida por outras catastrofes climáticas e pelo incêndio na cidade do samba que, por sua vez, foi comido pelo próprio carnaval que, por sua vez, foi comido pela visita do presidente Obama ao Brasil que foi comida pelo tiroteio na escola em Realengo que foi comido pelo acidente no Japão. E este caso é ainda mais emblemático. Em horas, o terremoto no Japão foi comido pelo tissuname que foi comido pelo vazamento radioativo. Assim, numa zappeada. E o Japão foi comido pelas manisfestações árabes que foram comidas pelo casamento real que foi comido pelo Bin Laden. (Certamente errei na cronologia, na pontuação e na concordância, mas o parágrafo vale como argumentação.) 

Enfim, uma geléia muito geral que gera algumas perguntas que deixo para nossa profunda reflexão:

1) O vazamento em Fukushima acabou porque William & Kate se casaram?
2) Friburgo vai ser reconstruída com a mesma verba da reconstrução japonesa?
3) Delúbio ficará responsável por esta verba?
4) Obama virá ao Brasil no próximo carnaval?
5) Obama liberará as fotos de Bin Laden?
6) Bin Laden reaparecerá tal qual Yemanjá?
7) Como se enterra um cadáver no mar?
8) O dólar e a inflação estarão sobre controle... na China?
9) Papai Noel existe?

E last, but not least...

10) Cadê a p... do controle remoto!!!????

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

   

7 comentários:

Eulalia disse...

Patrícia!!!
Simplesmente fantástico!
E se ativarmos o botão de desligar NET, TV aberta, jornais e revistas vão nos considerar "alienados"!

Mas... será que não é com isso tudo ligado que nos tornamos, enfim, "alienados" da verdadeira essência?

Mas, com o mundo como está... quem "liga" para "ligar" esse outro botão interior?

Adorei a postagem! Encaro como efeito benéfico colateral da gripe.
beijinhos

Elza Martins disse...

AMEI!!! Fique boa da gripe mas não perca esta verve nunca.Beijos.

Anônimo disse...

Pobre Pat, q semana intensa... As vezes ficamos loucos por um dia enrolados no coberto de frente p/ TV, mas agora vou repensar meus conceitos. Fica boa logo, saúde e paciência.... Simone ah o controle deve estar caido na lateral do sofá. bjs

monica disse...

Mt bom!César sendo comido pelos chiuauas e a cobertura zen do acidente nuclear. O humor salva a gente.
Bjs

Alzira disse...

Sensacional. Identificação total, até porque estou vivendo a mesma situação. Uma gripe inconveniente, tosse, febrinha, coriza, mal estar geral. E o controle remoto. Só que quando me canso, eu me desligo. Deixo a tv ligada como companhia. Suas perguntas são geniais, adorei!!

Celina disse...

Por isso que eu adoro viajar! às vezes é tão bom não ter controle remoto e não saber de nada que a gente não possa mudar. Notícias canibais...adorei. É a mais pura verdade!

Rozenir disse...

Acho que Papai Noel existe e o casamento Real foi responsável por tudo que aconteceu no mundo nestes últimos meses! rsrs

Amei o texto! bjs