sexta-feira, 17 de julho de 2009

WELCOME TO TRINIDAD (III)

Depois de algum tempo serpenteando entre mar e quase-florestas com árvores de flores brancas, chegamos a um aglomerado de pessoas, barraquinhas, carros estacionados por todas as partes, mais pessoas, mais barraquinhas e mais carros estacionados. Tudo se misturava. Havia um lento tumulto como em um sonho. Cheiro de cerveja. Um burburinho. Mais barraquinhas de comida. Ao longe, o mar. Cinza. De onde estávamos não dava para ver as línguas barrentas... ainda.


O indiano parou o carro e, sorridente e solicito, nos indicou que era para sairmos e foi aí que a libanesa explicou que preferia continuar até chegarmos a Maracas Bay. Temi pela resposta. O indiano sorriu submisso e anunciou: Aqui é Maracas Bay.

É interessante a diferença que faz se ter trinta e cinqüenta anos. A libanesa tinha ido ao passeio para nadar e bronzear-se e decidiu encarar a praia. Silvio e eu fomos até perto da água e voltamos para o carro. Informamos a nossa companheira de viagem que poderia se demorar quanto quisesse, afinal, a parada fazia parte do tour. Silvio se deitou no banco de trás do carro e começou a cochilar, o indiano saiu à procura das pilhas e eu decidi comer o tão famoso bake&shark.
Perambulei pelas barraquinhas. Todas vendiam o tal do “bikanchá”. Era como ir a uma praia em Salvador e só ter para comer acarajé. O prato era assim: uns pães redondos como para hambúrguer, um peixe (diziam que era tubarão) empanado e frito e todos os tipos de molhos e pimentas que se possa imaginar. Era como o nosso cachorro-quente atual em que se põem as coisas mais inusitadas. A limpeza do lugar não me motivava a grandes estripulias gastronômicas, mas me expus a alguns molhos bastante picantes. Imaginei que pimenta devia matar micróbios.

Quando cheguei ao carro, Silvio continuava cochilando. Perguntei a ele se queria meu almoço. Olhou-me incrédulo, como eu podia ter coragem de comer aquilo?, e optou por um saco grande de batatas Ruffles. Foi então que o indiano chegou com um olhar desolado. Intuí, não havia encontrado minhas pilhas e, portanto, nada de fotografias. O que foi uma pena, pois havia muito a ser fotografado. O lugar era exótico. As pessoas eram exóticas. A atmosfera era muito exótica. Eu poderia, por exemplo, ter feito uma foto daquela jovem de seus dezoito anos, com o seu namorado rastafari, e uma jibóia albina enrolada no corpo. Exótico, não?
O som de fundo era muito reggae e steel orchestras, aqueles tambores de aço que parecem uma panela. Havia um burburinho, mas nada de gritos, só uma espécie de zumbido que eu tentava decifrar. Deveria ser inglês, mas por mais que eu me esforçasse não conseguia entender muita coisa. Perguntei ao indiano que língua estavam falando e ele, como sempre atencioso, me informou que era broken English, uma mistura de inglês e dialetos afro e indianos. (E a gente fala de geléia geral no Brasil. Se nós somos geléia, eu estava diante do mais apimentado chutney que eu já havia visto e ouvido em toda a minha vida.)


A libanesa se juntou ao grupo. Com a esperança dos jovens, considerou que talvez em Blanchisseuse Bay a praia estaria melhor. Aquiescemos e seguimos caminho.

Havia menos gente em Blanchisseuse Bay, só algumas barracas de acampamento e dentro delas alguns casais. Acho que se pedíssemos qualquer tipo de droga, de maconha a haxixe, nos teriam servido com solicitude e em grande quantidade. O fato de o céu, o mar e o riozinho que no folder turístico desaguava diretamente na praia estarem totalmente acinzentados não afetava em nada o grupo do camping, certamente porque deveriam estar vendo o céu cor de rosa, o mar, fúcsia e o riozinho totalmente pink. Tudo com bolinhas verdes.


A libanesa lembrou-se nostálgica dos golfinhos de Noronha. E foi aí que começou a cair uma chuvinha fina. Perfeita para se ir a praia no Caribe. Decidimos regressar ao hotel. E a viagem de volta não nos trouxe maiores surpresas. Afinal, nada mais nos poderia surpreender.

À noite, decidimos que iríamos encontrar um lugar bem gostoso para jantar e tomar champanhe. Afinal, era nossa última noite em Trinidad. E que jantar! Inesquecível. Em um restaurante indonésio. Casa antiga, decorada como as casas das colônias inglesas do inicio do século XX, mas com uma pitada de asiático. Paredes vermelhas. Música oriental ao fundo, na altura certa, e os pratos mais perfeitos, desde a sopa de frutos do mar, passando pelo peixe e as saladas e a sobremesa e o champanhe. Tudo no lugar certo.

Voltamos para o hotel. Desta vez não ouvimos tambores, mas não deixou ser mágica a nossa noite. Talvez o champanhe...

No dia seguinte, acordamos tarde, ajeitamos nossas coisas e seguimos para o aeroporto. Chegamos com tempo para ainda dar uma olhada no duty free. Vôo no horário certo. Tudo correndo às mil maravilhas, até que na telinha do aeroporto surgiu a informação de que todos os vôos estavam atrasados. Como assim todos os vôos? Turistas aflitos correram para seus respectivos balcões. A informação, pelo menos, era consistente. Todas as companhias de aviação respondiam que tinha surgido um buraco na pista e a manutenção estava fazendo o conserto. Não havia previsão para abertura do aeroporto. Eram umas onze horas da manhã. Criou-se uma corrente solidária entre os passageiros e, de quando em quando, alguém ia a nosso balcão em busca de informação. Mas, ao invés do buraco ser consertado, nos diziam que tinha aumentado de tamanho! Por volta de uma hora, o aeroporto foi liberado para os demais vôos, mas como nossa companhia só tinha dois aviões e como um não pode parar em Trinidad, o outro estava em Cartagena (Colômbia) e só poderia nos buscar por volta das dez horas da noite. Os venezuelanos ensandeceram. Todos falavam ao mesmo tempo. Todos reclamavam. Todos protestavam, mas... tivemos de esperar. Não havia jeito.


O que poderia ter sido muito entediante, foi uma das experiências mais gostosas que tive. O movimento do aeroporto, as mais diferentes pessoas. A música. O burburinho. Tudo era como uma grande peça de teatro e nós, os espectadores.
Vimos um portão onde, de meia em meia hora, hordas de pessoas entravam e descobrimos que aquele era o portão de embarque para ... Tobago. Foi como ver a cena final de Contatos Imediatos de 3º. Grau, apenas alguns eram os escolhidos. Nós, infelizmente, não tínhamos ouvido a musiquinha... Tam-tam-tam-tam-tam. (Nota: não há trocadilho aqui, o vôo era da Aeropostal.)

Às dez e meia da noite, finalmente embarcamos. Terminava assim, minha primeira experiência em mares caribenhos. Outras viriam, bem menos tumultuadas e com mares bem mais azuis.

Nota final para Alzira: Nunca soube porque os tambores tocaram durante toda a primeira noite. Deixo para a imaginação de cada leitor esta resposta.

Outra nota final: Não conheço ninguém de meu grupo que tenha conseguido chegar a Tobago. Será que isto tem a ver com os tambores?

(in pblower-a vista del avila)


4 comentários:

Eulalia disse...

Você põe luz nas intempéries.

Ah... aquelas árvores de Mérida... vou te contar... minhas retinas agradecem!

ayabrag disse...

Realmente Tobago está reservada somente para os iniciados. Nós já fomos a Trinidad sabendo que ñ iriamos conseguir chegar a Tobago. O acesso por água ou ar estava caótico. Os jornais locias confirmaram essa verdade. Nós optamos por conhecer a cidade e seus arredores. Foi uma experiência bem positiva. A cidade tem lugares muito lindos, de construções antigas e pomposas. Fomos tb ao passeio de barco até o santuário dos pássaros. Foi lindo. Acho que Tobago só estará disponível qd juntarmos nossas forças após muita meditação, ñ achas?

Bia Veiga disse...

Como é bom ler suas histórias. Adoro passear por aí, por esses mares caribenhos com você, rsrs... Dá para sentir o gosto apimentado, ouvir os tambores de aço,rsrs...
Beijinhos e tenha uma boa estada em São Paulo.
Bia

Alzira Willcox disse...

Estive fora da internet por uns tempos. Li com interesse crescente as deliciosas narrativas.
Sua análise sobre o ofício de ensinar me tocou profundamente. Aposentada, afastada das lides docentes tenho uma certeza - sou professora. Rsrs.
Quanto aos tambores, fico com a magia. Gosto da ideia de algum ritual regulando o ir e vir na região...
Só você mesmo para achar interessante passar o dia num aeroporto. Olhar de escritora, decerto. Rsrs.
Bj