terça-feira, 3 de março de 2009

UMA FREQUÊNCIA MÁGICA











Quando vivia no Brasil, a minha relação com as rádios era diretamente ligada à música. Ouvir notícias ou qualquer outra coisa falada no rádio era uma conseqüência e não uma opção. É bem verdade que houve uma época em que a ponte estava sempre tão engarrafada que decidi ouvir a CBN só para variar. Naquela época, eu também lia o jornal enquanto dirigia, tal a lentidão do trânsito. Mas isso foi pontual. Rádio para mim era sinônimo de canções.
Ainda hoje, quando chego ao Rio, sigo um ritual. Aterrisso, passo pela imigração, Duty Free, alfândega, depois direto para a Localiza para alugar um carro e, tendo o carro nas mãos, ponho logo na memória do rádio as estações básicas que vão da 90.3 de MPB até a Antena 1, passando claro pela JB e MEC, que um clássico de vez em quando não faz mal a ninguém.
Quando cheguei à Caracas, as minhas referências eram estas. Notícias e outros programas são vistos na televisão. Mas, em pouco tempo, descobri que os canais de TV aberta aqui ou são doentiamente a favor do governo ou violentamente contra. Há um canal que se lançou como sendo imparcial, mas em pouco tempo já deixava claro um certo colorido conhecido. A TV Vale é muito interessante, com inúmeros documentários científicos (Silvio adora a Vale), mas passar um tempão vendo o acasalamento de animais que eu jamais imaginara que existissem, de bactérias a dinossauros, pode ser um pouco cansativo.
É bem verdade que há as novelas. Colombianas, mexicanas, venezuelanas, como também as brasileiras. Já me acostumei a ver nossos atores falando espanhol. No momento estão apresentando Mujeres Apasionadas e, pasmem, Pantanal(!). Há novelas com títulos instigantes como La Dama de Troya, Bellezas Indomables e ... é verdade, eu juro, Estrambótica Anastásia (sic).
Temos TV a cabo e a Globo Internacional é uma opção que tem como efeito colateral suas propagandas. São as coisas mais amadoras que se pode imaginar. Todo o estudante de publicidade deveria fazer um estagio assistindo aos anúncios da Globo Internacional para aprender a como NÃO fazer propaganda. Um bom teste para se avaliar o quão expatriada uma pessoa está é perguntar-lhe se conhece Vionaldo Express ou as vantagens do curso Zenaric, ou ainda se sabe qual é a melhor oferta imobiliária em Ipatinga ou qual o melhor show sertanejo em Pompano Beach. Não se pode esquecer de todos os advogados especializados em imigração e acidentes de carro, bem como dos dentistas que são esteticistas também. Ou dos esteticistas que são clínicos gerais. Ou dos clínicos gerais que são cirurgiões plásticos e assim por diante. Todos profissionais que aceitam cartões de crédito e que falam português com os sotaques mais estranhos. Tem também a moça que não sabe como vai pagar o mortgage e teme ser levada “em corte”(sic). Ou as firmas de mudança para o Brasil que prometem rapidez e segurança.
TV a cabo, como uma partida de futebol, é uma caixinha de surpresas. Há programas para todos os gostos, em todas as línguas e em todos os horários, mas chega uma hora em que tudo é muito chato e dá câimbra no dedo do tanto que se muda de canal.
O rádio foi entrando em minha vida aqui na Venezuela aos poucos, meio que por acaso, quase como uma terceira via, ou melhor, uma tábua de salvação.
No inicio, os contatos eram tímidos e ainda muito impregnados de minha visão brasileira. Comecei com a 95.5 Jazz, a pronúncia é noventa y cinco punto cinco... jAAAAzzz. Só a ouvia no carro, na verdade nem tinha rádio em casa. Eventualmente ouvia outras estações e sempre ao final da tarde, pegava um programa em uma outra rádio onde uma apresentadora recebia convidados e conversava sobre vários assuntos. Eles comentavam tudo com muito humor, que a principio, eu só intuía, sem conseguir entender a maior parte.
Foi Soraya que me apresentou oficialmente a 99.1 Frecuencia Mágica. Aquele programa que eu escutava era um dos muitos da estação. A rádio tem uma estratégia super bem bolada. Há uma série de programas que são entremeados com noticias e muita música, inclusive clássicos internacionais das décadas de 80 e 90, do tipo Elton John, Phil Collins, e, às vezes, Barry Manilow (ninguém é perfeito). É uma geléia geral, com um pouquinho de tudo. Fico em sintonia com eles desde o programa de Marycarmen Sobrino (Qué ciudad), que, como indica seu título, trata de todos os problemas da cidade, em especial huecos (buracos) e basura (lixo). Passo pelas informações sobre casa e saúde com Marianela Lizardo (Qué pasa em Casa) e Shía Bertoni (Um café com Shia). Ouço as notícias com Elena Díaz Toledo (Lo más importante) e fecho a manhã ouvindo as entrevistas e debates políticos com Nito Pérez Osuna. A tarde tem Marianella Salazar em seu Hoy por Hoy, aquele programa que eu ouvia por acaso. Há também informações gastronômicas, rápidas inserções na programação, com Victor Moreno e sua Geografia Del Paladar.
Não é que eu tivesse ficado viciada na estação, mas comecei a sentir muita falta de ter um rádio em casa e o primeiro que comprei era em formato de headphone com uma antena pontuda em um dos lados. Adorei o modelo, pois filtrava os outros sons e eu podia ouvir com limpidez aquele espanhol caribenho, falado a toda velocidade. O problema é que eu ficava incomunicável, porque quando me sintonizava, eu não ouvia campainhas, telefones, nada a minha volta. As pessoas tinham que me ligar umas 10 vezes para fazer contato. Tinha também o problema de meu visual. Com o rádio pendurado em minhas orelhas, eu parecia um ET. Enquanto era só caminhar pela casa, fazer as coisas, tudo bem, mas um dia quase matei meu vizinho de susto quando fui jogar o lixo fora e ele deu de cara comigo com aquelas bolotas nas orelhas e uma antena pontuda. Não sei se foi intencionalmente, mas Silvio quebrou meu brinquedinho. Não perdi tempo e comprei um FRE DIGITAL IND MR-515, que não passa de um radinho de pilha bem vagaba, mas foi com ele que retomei minha sintonia.
E foi com ele que constatei algumas coisas e revi alguns conceitos sobre o ensino de línguas estrangeiras. Há muito acreditava que os alunos lucravam mais quando eram expostos ao inglês falado, através de vídeos. A situação parecia mais real. Afinal quantas vezes ouvimos uma pessoa sem a estar vendo? Dá mais confiança ao aluno, pois além da fala, tem a linguagem corporal, a leitura dos lábios. Poderia listar muitos outros argumentos a favor do vídeo, mas foi com o radinho vagaba que soltei meus ouvidos e passei a entender espanhol cada vez mais e melhor. Entendo agora quando as pessoas diziam que aprenderam inglês ouvindo a BBC. É justamente esta falta de apoio externo, este estar dependendo apenas de seus ouvidos, que faz com que os sentidos fiquem mais aguçados. O que antes para mim era um emaranhado de sons foi se transformando em reclamações, comentários ácidos, conselhos para a saúde, receitas culinárias, opiniões e críticas.
Às vezes me pego soltando uma enorme gargalhada e me surpreendendo porque não tive de me esforçar em nada para entender, simplesmente entendi o que se estava dizendo.
Não tenho a menor intenção de discorrer sobre os pros e contras de se trabalhar com viewing ou listening comprehension. O texto trata de prazeres. Pequenos e mágicos prazeres, como o de se descobrir novos divertimentos ou o de se sentir, a cada dia, um pouco mais competente em uma língua estrangeira, ou o de se sentir em sintonia com outras pessoas e culturas.
Em suma, é como diz o slogan da 99.1: ¡Que bien se siente cuando la frecuencia es mágica!



Nota:Se não conseguir ouvir direito o som do filmezinho, é só tocar uma segunda vez que aí funciona.



(in pblower-à vista del ávila)

5 comentários:

Lúcia Russo disse...

Olá Patricia,

Que notícia boa, hein?
Quando vc chega ao Rio? Vamos nos encontrar sim, já falei com a Bia, que está animadíssima. E também com a Elza. Envie mais detalhes, ok?
Beijos ansiosos, rsrsrsrs

Lúcia

O Sili disse...

Hago mi comentario:
Amiga, se você é mesmo capaz de entender essa pasta sonora a ponto de dar até gargalhada, é porque já está prontinha pra aprender qualquer língua estrambólica...
Vem cá na Cultura fazer uma palestra sobre listening comprehension pra gente!
Beijos
Ric

PS. Que coisa é essa de "contraseña"? Tem uma senha a favor também?

O Sili disse...

A propósito da contraseña:
Já entendi. É que, assim como os canais de televisão, é possível que também as senhas tenham que ser contra ou a favor!

A outro propósito:
Gostei demais dessa coisa de você postar os filminhos. Daí pensei que seria muito bom também ouvir a sua voz. Que tal postar um podcast de vez em quando?

Besos mágicos, indomables y estrambóticos de Troya

Ric

Celina disse...

Ticha querida,
gargalhada eu soltei quando visualizei a cena do headphone com a antena pontuda. Eu também sou viciada em rádio, e em Paris, foi o rádio( do meu celular), meu maior companheiro.Radio Chérie FM. E concordo pelnamente que só ouvir faz a gente focar mais. besitos...

monica disse...

Oi Patricia,

Mesmo concordando que teu post é muito mais que assuntar sobre compreensão oral,com ou sem ajuda visual, considero a questão de extrema importância para o ensino de língua estrangeira. O 'viewing' pode deixar a gente mais preguiçosa para ouvir.
Beijos,
Mônica