segunda-feira, 9 de março de 2009

SUBINDO O ÁVILA


O Ávila é como o Pão de Açúcar ou o Corcovado. Quem nasceu em Caracas um dia tomará o teleférico para ir a seu topo, mas, como a montanha está ali pertinho e à disposição, os nativos estão sempre adiando a visita. Já quem chega para morar na cidade tem como prioridade fazer tal passeio. E se a gente recebe visitas de fora, reza para o céu ficar bem limpinho para que possamos subir e vislumbrar lá de cima toda a cidade e também, do outro lado, Galipán e o mar do Caribe.
Ao contrário do Cristo, que está normalmente de braços abertos aos turistas, a montanha é fêmea cheia de melindres. Sofre de TPM. Nem sempre está disponível aos pobres mortais. Vai se enrolando em seus véus, fecha o cenho e desaparece.
Silvio sabe direitinho quando é hora de subir. Fica olhando a cordilheira, assuntando que nem caçador e de repente diz: Hoje vai dar para ter uma boa vista. Hoje dá. Foi assim quando Eulália nos visitou. Os dias estavam fechados, chuvosos e numa tarde de domingo, ele nos informou: Hoje dá para subir. E Eulália fez fotos fantásticas. Com o cair da tarde, o céu foi se abrindo, se abrindo ... até explodir em um emaranhado de vermelhos e azuis.
Não se deve esquecer de levar um abrigo. Caracas está a mil metros do nível do mar e o pico do Ávila a dois mil e cem. Em vinte minutos, de teleférico, são mais de mil metros vencidos. Dependendo da época do ano, lá encima é bem frio ou só fresquinho, mas há que se ter um abrigo.
Além do teleférico, há outras maneiras de subir. Há caminhos, trilhas mais radicais e tem até gente que faz uma espécie de maratona, uma corrida Ávila acima. Há caraquenhos muito esportivos e muito preocupados com o físico. Caminham, correm, vão a academias. Eu ... eu prefiro o teleférico.
São vinte minutos de encantamento. Muito verde e passarinhos. Na verdade, não se sobe uma montanha, e sim uma cordilheira. Então, o teleférico vai abrindo caminho entre montanhas e vales. Céu e mar brincam de esconder com a cidade. Olhou prum lado é mata, olhou pro outro é um cantinho de mar, uma nesga de cidade, uma nuvem que surpreende.
E lá encima ... bem lá encima tem comidinhas, uma pista de patinação, morangos com creme, o bandeirão enorme amarelo, vermelho e azul, flores, cheirinho de café, restaurante italiano, artezanías. Lá ao longe o hotel desativado, uma enorme torre de muitos andares que agora é usada, às vezes, para eventos. Tem dulces criollos também e as lunetas para se ver Caracas, tão distante e protegida de seus eternos engarrafamentos. É só se virar e ali está Galipán. Próximo ao pueblito há umas pousadinhas e restaurantes. O Le Galipanier, oferece fondues, uma boa carta de vinhos, um prato de carne com frutas vermelhas e uma vista incrível do mar. Eles buscam a gente de Jeep lá no alto e levam até o restaurante.
Tenho lembranças gostosas de visitas ao Ávila. Na primeira vez que fui, eu ainda estava tão impregnada do que eu fazia no Rio que fui com um terninho bege e sapato alto. Nada a ver!!!
(Aqui cabe uma observação, comentamos entre nós como as roupas que nos serviam no Brasil agora nos parecem estranhas ou desnecessárias. Esta semana mesmo, Vilma, que chegou há pouco para viver aqui, já reparava nisso. Claro que há espaço para tacones e roupas mais produzidas, mas, no dia a dia é muito jogging, muito jeans e tênis. Tudo que eu adoro, roupas informais.)
Mas, voltando ao Ávila... Lembro também quando pegamos o teleférico com um amigo que sofre de fobia de alturas e que passou toda a subida olhando fixamente para frente. Olho vidrado. Enrolava entre os dedos uma venda, dessas que se recebe em aviões, caso perde-se o controle, ia se vendar!!!
E a alegria de Eulália e sua super câmera. Ela já tinha fotografado o Ávila de minha casa e agora ela estava em seu coração (ou seria, ele estava em seu coração?).
E a enorme lua cheia que nos acompanhou até o Le Galipanier? O Jeep se esgueirando pela estradinha de terra, pendurado em sua tração quatro por quatro, e tudo meio prata: o mato, as árvores, os nossos rostos.
E a descida da montanha, normalmente com noite fechada e Caracas se aproximando. Caracas e seu caos já tão familiar.

Fico me perguntando o porquê deste texto agora, nesta semana. E a resposta é simples: saudades (assim mesmo, no plural).

Encontro-me em um vai e vem de saudades. Saudades do Rio, da família, dos amigos. Seis meses longe podem pesar enormemente. (Sábado está próximo e da janela verei o Corcovado, o Redentor, que lindo). Saudades de Caracas, de Silvio, dos meus amigos e da minha casa. (Sábado está próximo e minha montanha vai estar muy lejos, muy lejos...)

Que o tempo passe bem rápido! Que o tempo passe bem devagar! E que um desses dias, por magia dos deuses, eu possa abrir minha janela no Humaitá e, bem ao lado do Cristo, esteja o Ávila, esta montanha tão fêmea, adornada de brilhos e cristais.

(in à vista del ávila)


5 comentários:

Celina disse...

Saudades são assim mesmo. Venha rapidinho, pois as nossas saudades estão explodindo!!

monica disse...

Oi Patricia,

Acho que também fecharia os olhos quando fosse muito alto, sei lá. Ou não iria. Pela sua descrição deve ser lindo!
Mônica

ayabrag disse...

Te estamos echando mucho de menos...
¡¡¡¡Deseamos que vuelvas pronto!!!!!

besitos
Aya

Elza Martins disse...

O Cristo tem vairado de cor, em comemoração ao Mês da Mulher e ao aniversário da Cidade. Há noites em que abro a janela e ele se encontra azul claro como que a acmpanhar o entardecer. Em outras ele está vermelho como o sol de um final de tarde. Adicionam, assim, um "quê" a mais de beleza naquilo que já é tão belo. Pat, abra sua janela do Humaitá e você vai ouvir os pássaros cantando alegres pela sua chegada e, quem sabe, perceber que o Cristo se enfeita para festejá-la, também.

Muitos beijos e obrigada por mais um lindo texto.

Eulalia disse...

Hoje tirei o dia para rever os seus textos. Sim, porque eles não são para serem lidos apenas uma vez. É bom revisitá-los, de vez em quando. Mas esse, embora mais antigo, justamente esse, eu não tinha lido! Como me passou?

Me vi deslumbrada, mais uma vez, diante do encantamento do Ávila. Sim, minha amiga, ele está em meu coração... ou melhor, ele faz parte do meu coração!