sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

ESCADAS


E depois de todas as orgias gastronômicas. E depois dos comes e bebes. E depois dos brindes e das uvas e das lentilhas. E, antes de a gente fazer mais pedidos comendo grãozinhos de romã... Há um texto. O primeiro texto do ano.

Olho a tela em branco... Olho as minhas mãos, que deram uma engordadinha, derreadas sobre o teclado do computador e penso: Sobre o que escrever?

2014... Este ano vai pegar fogo aqui no Brasil. Entre pompa e circunstância e feriados e pontos facultativos e dias enforcados e novas manifestações e os últimos preparativos para a Copa do Mundo e o depois da Copa e as campanhas eleitoreiras e as votações e a escolha cívica dos salvadores da pátria... Estaremos nós, tocando em frente. E, se Deus quiser, muito bem.

Todo o início de ano é assim. Uma grande expectativa. Uma escada. Uma escada? É. Uma escada.

A cada um de nós (com uma ajudinha dos deuses) cabe fazer a escolha de subir ou descer seus degraus. 

Descer é sempre mais fácil, que todos os santos ajudam, mas descer dá uma certa sensação de perda e fracasso. Descer, decair, afundar... Tem uns que descem tão rápido que dão com os joelhos no chão!

Subir já é outra coisa. Subir é ascensão. É ir em direção ao espaço. Para cima e para o alto. Progredir! Mas subir pressupõe esforço. Um pé depois do outro, não importa em que ritmo, elevando todo o peso do corpo.  Haja fôlego! Haja fôlego!

Mas, suponhamos, se eu desço para sair. Desço as escadas num salto, cumprimento o porteiro, abro a porta da frente e saio pra vida... Aí descer é fluir e se soltar e se deixar levar por uma manhã de sol. Ir à praia talvez.

E se eu subo uma escada qualquer. Daquelas que não se sabe aonde vai dar e chegando lá encima dou de cara com uma porta fechada... Um trinco, uma tranca e um truque. Aí subir é se prender... Além de perder muito fôlego.

E se a gente fica no meio da escada. Sentada num só degrau, só olhando o povo que vem e que vai. Te pedem licença em suas subidas e descidas, em suas idas e vindas. E você lá, só olhando. Os joelhos quase no queixo. O traseiro ardendo do degrau tão duro... E você lá, paradinha. Se afasta algumas vezes para deixar o fluxo de gente passar... Será que este é um bom lugar?

Portanto, neste primeiro texto do ano, texto espremido entre ceias e romãs, o que eu espero é que todos possamos encontrar nossas direções. Não importa se para cima ou para baixo. Que caminho certo é aquele traçado na palma do coração.

E que tenhamos fôlego, muito fôlego para seguir na escada... E, de vez em quando, poder dar uma paradinha para tomar um ar e ver os outros seguindo em seus próprios e intransferíveis caminhos.

Que tenhamos muito fôlego...

Ah, e algo muito importante! Que a gente nunca esqueça que as escadas trazem com elas, normalmente, algum tipo de corrimão onde podemos apoiar nossos pesos e nossas dúvidas. E por onde, às vezes, podemos escorregar como moleques só para experimentar, por um momento que seja, a sensação de fazer estripulias... A sensação de se soltar. Ainda que depois tenhamos de subir tudinho novamente.

As escadas são objetos muito misteriosos... Muito misteriosos. Há um quê de vida em seus degraus.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

Um comentário:

Simone Martins disse...

Um beijo de feliz ano novo. Seus textos tocam a alma.