sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A HORA TORTA



Tenho um mal fadado hábito de acordar às três horas da manhã. Mais precisamente, às três e dezesseis. Acordo e o relógio da TV me saúda com seu olhar neon... Bem vinda ao mundo dos vivos! São três e dezesseis!

Esta é a minha hora torta. Se tudo vai bem, vasculho em minhas entranhas algo que possa me preocupar e começo a pensar naquilo. Mas, se realmente há algum problema, ah... Aí é a festa. É a hora de, como dizia minha mãe, caraminholar.

Nesta hora torta, ao longo de minha vida, fui várias vezes demitida e muitas vezes pedi demissão. Perdi prazos. Não cumpri compromissos. Deixei de entregar trabalhos. Não consegui planejar aulas... Ai, esta hora torta. A hora de minhas angústias!

Enquanto o mundo dorme, eu me embato com meus fantasmas e minhas aflições. 

Para mim é a hora do dinossauro, quando eu, mulher neandertal, estou diante da besta. Adrenalina a todo vapor. Corro ou enfrento a fera? E, normalmente, nesta hora, corro e enfrento a fera! 

É a hora do E se... E se acontecer isto? E se acontecer aquilo? E se não acontecer o que eu espero? E se as coisas derem errado? E se eu não tiver saída? E se... E se... E se...

Na hora torta, travo diálogos os mais tensos com meus oponentes. A imaginação voa e começa a réplica, tréplica, sem direito a pausa para respiração. Se ele falar isso, eu respondo aquilo e aí ele vai me olhar e fazer silêncio e eu vou encará-lo e, então, digo aquilo que estava há tempo guardado no bolso do colete. E ele vai me responder assim e eu, rápida, digo logo assado. Ele vai ver. Nem vou falar alto. A postura é muito importante... Mas, e se ele falar aquilo? Então, só vai me restar falar mais alto e responder daquele jeito que eu sei fazer... Ufa! Longas, infindáveis discussões, onde, entre mortos e feridos, não se salva ninguém. 

A hora torta é a hora dos medos. Minha hora celacanto dos filmes de Nacional Kid. É também nela que tento me acalmar de maneira maternal... Calma, Patricia. Calma. Isso não vai acontecer. Relaxa. Pensa só em coisas boas. Mas quem pode relaxar, quando se tem de resolver tanta coisa? Não tenho tempo para relaxar. Tenho de pensar o que vou fazer amanhã, bem cedinho.

A hora torta é a hora das listas. Amanhã tenho de fazer isto e isto e mais isto e mais aquilo. E não posso me esquecer daquilo outro que é essencial para minha sobrevivência. Sem esse aquilo, não vai dar para fazer aquele outro negócio que é fundamental... 

A hora torta é a hora do looping, da repetição. A mesma cena, normalmente desagradável, vai se repetindo ad nauseum, em maquiavélico mantra.

É a hora em que me atrapalho em orações. Misturo Pais Nossos com Aves Marias e fecho tudo com um Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...

Meu acupunturista diz que três horas da manhã é a hora do fígado. Pelos sintomas que tenho, preciso parar de beber e não posso mais comer comidas pesadas. Meu fígado se virou contra mim!

A hora torta é a hora de fritar na cama. Ir ao banheiro. Tomar um leitinho morno. Tomar um meio tarja preta, se a situação assim o exigir. Mas...

Mas o bom é que ela passa. Às vezes, demora um pouco mais... Mas passa. E, de repente, já tem passarinho cantando e você se aconchega na cama de um jeito diferente que dá um soninho... E ainda dá tempo de se dormir um pouquinho... Às vezes dá até pra sonhar.

A manhã seguinte, de vez em quando, é pesada... Quando os fantasmas e duendes estão mais hiperativos. Às vezes não. Você acorda e tem um dia novinho pela frente. E tudo volta a seu ritmo. E você faz o que tem de fazer. O que dá pra fazer. E entrega a vida ao destino. E vive. Que é o que se pode fazer...

E jura de pé junto que na próxima noite, quando acordar às três e dezesseis, nem vai ligar... Até que o relógio da TV te saúda em alto e bom neon... Bem vinda ao mundo dos vivos! São três e dezesseis!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)  

Um comentário:

monica disse...

Texto maravilhoso, escrito com maestria!
Bjs