sexta-feira, 10 de agosto de 2012

RECEITAS


Acordei com o barulho da televisão. Sempre me esqueço de colocar o timer. No jornal da manhã, a jornalista me informava que está na moda novamente o bolo, só bolo. Como ela mesma o definiu, "bolo sem sobrenome". Aquele bolo que a gente comia antigamente na hora do lanche. Bolo de mãe e de avó. Saidinho do forno. Bolo com furo no meio e no máximo um açuquinha salpicado por cima.

Bolo que, quando solava, deixava a cozinheira em profunda depressão e a criançada da casa exultante. Eu comia bolo solado escondido, porque me diziam que era ruim. Dava dor de barriga. Coisas de antigamente. Também não se podia comer o bolo ainda quente que fazia mal. Pois eu já comi muito bolo solado e quente e estou aí vivinha para contar minhas histórias.

Saudades... Saudades de bolos e de receitas que só minha mãe sabia fazer. Minha mãe cozinhava muito bem.

Quando ela se foi, me desfiz de quase tudo, menos de seus livros de receitas. Tudo escrito à mão e testado por ela. As receitas numeradas e avaliadas e, em uma ou outra página, uma planta de casa que ela iria construir. Minha mãe adorava obras.

Saudades... Saudades de tardes mormacentas. Ela, já aposentada, recostada no sofá, fumando, lendo ou vendo televisão. De repente dizia... Vou bater um bolo. Aquele rapidinho. E, em um passe de mágica, a casa se enchia de um perfume morno e doce. Mesa posta e café passado na hora. A gente sentava e ficava jogando conversa fora. Mordiscando fatias de bolo e conversas infindáveis. Muitos risos...

E tinha os dias de chuva e a casa cheia de primos. Às vezes era Itacoatiara, outras vezes, já era Teresópolis e ela dizia... Vou fazer biscoito de Ézinho. Quem quer me ajudar? E a tropa ia para a cozinha, enrolar a massa, comer da vasilha, implicar um com o outro, jogar conversa fora. Muitos risos...

Mas nada se comparava ao sabor dos pãezinhos de minuto que ela inventava de fazer porque eram fáceis e rápidos. Havia um ritual. Nunca enrolou a massa com as mãos para fazer os pãezinhos. Nada disso. Salpicava bastante farinha no mármore da pia. Por um tempo ficava aquela nuvem de pó. Quando eu era bem pequena, gostava de ver a luz passar entre a poeira da farinha. Era como mágica. Era quase um sonho. Salpicava a pia com farinha e depois abria a massa com rolo de madeira e, com a boca de um copo, fazia os pãezinhos. Uniformes, fofinhos.

Saudades...

Há sabores que se perdem no tempo e na língua. Já tentei eu fazer estas receitas e nada tem o mesmo gosto. Fica tudo faltando algo... Insípido... O bolo cresce, cresce... E eu uso o mesmo prato... E tento passar aquele café ralinho... Mas tudo fica insípido.

Talvez a farinha não seja mais a mesma. Talvez eu não dê pra cozinha. Talvez falte o burburinho das crianças ou aquela mistura mágica de fumaças... A do bolo e a do cigarro se mesclando no tempo. Na tarde. Talvez falte uma certa risada. E as invencionices. E aquele... Tem que deixar um pedaço pra Joe.

Saudades... Talvez seja o açúcar que não é mais o mesmo...

Talvez.

Mas, como sou uma eterna otimista, deixo a receita do bolo para quem quiser experimentar. Quem sabe, em alguma cozinha e em uma tarde qualquer, o sabor, aquele sabor, retorne a outras línguas e haja muita risada entre fatias e golinhos de café. Aí vai a receita. Ela o chamava de

 BOLO 1,2,3,4.

4 ovos (claras em neve)
3 xícaras de farinha
2 xícaras de açúcar
1 xicara de leite
200 gramas de manteiga
2 colheres de sobremesa de fermento

Bater o açúcar, a manteiga e as gemas até esbranquiçar. Ir colocando alternadamente a farinha e o leite misturado com o fermento. Finaliza misturando as claras em neve, sem bater muito para aerar a massa.

Forma untada e polvilhada e forno 180 graus.







Espero que o bolo fique bem gostoso e que se transforme em uma boa recordação. Ah... E não se esqueçam do café passadinho na hora. 

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

5 comentários:

VERA disse...

Pat querida como Mãe é importante!!!!Nunca mais o bolo terá aquele gosto,mas mesmo assim serão momentos que ela estará de volta,nos sonhos e no coração.
Beijão

VERA disse...

Pat querida como Mãe é importante!!!!Nunca mais o bolo terá aquele gosto,mas mesmo assim serão momentos que ela estará de volta,nos sonhos e no coração.
Beijão

Eulalia disse...

Eu comi desse bolo!!!

Celina disse...

"gostava de ver a luz passar entre a poeira da farinha"
-Eu também!!! E juro, posso testemunhar em tribunal, não existe pão de minuto igual ao de tia Thereza. Mas a irmã dela (minha mamãe) fazia deliciosos crutons (pão cortadinho e frito na manteiga) para comer com sopa, quando eu ficava gripada!
Saudades... O que falta nessas receitas, primoca, são elas! Nossas deliciosas e pra lá de especiais - mamães!

Simone Martins disse...

Pat, quero deixar registrado q amei seu post e fiquei com agua na boca. Fiz o bolo 1, 2,3, 4, ficou maravilhoso e fez lembrar de qdo aprendi a fazer bolos na casa da minha madrinha. Sao lembrancas maravilhosas. Bjks e obrigada por momentos bons todas as 6as feiras.