sexta-feira, 9 de março de 2012

SEÑORA PAULINA


Ontem à tarde, encontrei, por acaso, na academia, uma amiga dos tempos de Caracas. Na verdade, Cristina era amiga de uma querida amiga minha e nos encontramos algumas vezes no Centro Comercial Santa Fé.

Foi um encontro gostoso em que ela expressou o mesmo carinho e a mesma saudade que tenho da Venezuela. Ela repetiu varias vezes: Fui muito feliz por lá.  (Eu também! Eu também!).

Conversamos, rimos, botamos recordações em dia e quando nos despedimos, fui invadida por uma saudade específica... Explico: Saudades da Señora Paulina.

Foi minha primeira amiga venezuelana.

Cheguei a Caracas em plena época do fechamento da cadeia de televisão RCTV e havia muitas manifestações nas ruas. Além disso, eu morava no alto de uma colina em Mirador de los Campitos e demorou mais de seis meses para eu ter carro por lá. A fila de espera era enorme! Para piorar as coisas,  Yanette,  minha faxineira, me proibia de sair de casa por causa de las protestas e eu falava um portunhol tão vagabundo que mal dava para eu me virar. Resultado: tivesse eu cabelos longos, seria a própria Rapunzel presa em minha torre particular!

Um dia me decidi. Tenho que sair. Tenho que chegar pelo menos ao Centro Comercial Santa Fé. De meu balcón dava para avistá-lo à distancia.



Consegui chamar um taxi e depois de uma negociação financeira (os taxis não têm taxímetro por lá) e linguística (o motorista me perguntou umas dez vezes se eu era canadense), consegui chegar ao shopping.

Depois de perambular por lojas e cafés, encontrei uma academia e lá descobri que havia sessões de massagem. (Adoro massagem!).

Houve, então, uma nova rodada de negociações e consegui marcar um horário para aquela tarde com a Señora Paulina.

Na hora do evento, entrei num cubiculozinho em um dos cantos da academia e esperei. Decidi já ir tirando o vestido, enquanto esperava a massagista.

Quando a porta se abriu, trouxe uma figurinha miudinha de, certamente, mais de setenta anos. Imaginei que fosse a gerente ou sei lá... Mas era a Señora Paulina.

Meu olhar deve ter sido denunciador. Um misto de espanto e incredulidade. Avaliava meu corpo, digamos assim, robusto e a massagista sendo engolida por ele!!

Ela entendeu e me apontou seu diploma na parede. Em um espanhol caraquenho fez um breve resumo de sua carreira. Mensagem: Entregue-se a mim. Como eu estava sem carro, morando no alto de uma colina, no meio de manifestações contra o governo e falando um portunhol deplorável... Não resisti. Entreguei-me a ela sem pudor.

Depois de uma hora de massagem, eu estava convencida de que tinha feito a coisa certa e que a Señora Paulina era a melhor massagista do mundo. Se ela já tinha passado dos setenta, seus dedos tinham o vigor de jovens e intrépidos torniquetes.

Passei a ter sessões de massagem duas vezes por semana. E foi nessas sessões que comecei a ter minhas primeiras aulas de espanhol e cultura venezuelana, especialmente, aspectos culinários.

Com o passar do tempo, falávamos de nossas vidas, histórias e experiências. Ela queria saber do Brasil e, nostálgica, dizia que a Venezuela já tinha sido melhor. Reclamava dos preços das coisas... Fomos nos conhecendo cada vez mais. Ela foi virando meio como uma tia querida. Me dava conselhos. Se preocupava comigo.

Quando eu queria que a massagem fosse bem forte, eu puxava assunto de política e, aí, ela se empolgava e me cobria... como direi... de porrada. Perto das eleições, eu ficava coberta de manchas rochas!

Ela sofria de problemas de estomago. Quase não comia e sentia dores fortíssimas. Morava sozinha e tinha uma amiga, Carmen, com quem passeava aos domingos. Parque del Leste e, às vezes, iam ao cemitério visitar o marido da amiga.

Tinha uma filha com quem não se dava e dois netos que com o passar do tempo foram crescendo e se afastando também. Era forte e só. Às vezes, me parecia muito só.

Um dia, depois da massagem, abriu uma bolsa e me mostrou um colar de pérolas. Me disse que era dela e que queria vender. Não tinha ninguém para deixá-lo e estava precisando de dinheiro. Tinha que comprar remédios. As dores estavam cada vez pior. Me jurou que as pérolas eram boas e que me faria um bom preço.

Decidi comprar o colar, não pelo preço, mas no fundo, para ter algo dela quando eu voltasse ao Brasil.

Fechamos o negócio na semana seguinte e, um tempo depois, ela começou a faltar às sessões. A recepcionista pedia desculpas e dizia que iriam repor a massagem. Mas as sessões foram rareando cada vez mais, talvez porque as dores tenham se intensificado.

Quando voltei ao Brasil, tentei me despedir dela, mas a recepcionista me disse que ela não estava bem. Pensei em visitá-la, mas depois desisti. Talvez devesse ter ido.

Há pessoas que se tatuam em nós. Como um bom momento, um prazer. Señora Paulina é uma de minhas mais queridas tatuagens.

Dela, me ficaram o colar e a lembrança de sua voz rouquinha me dizendo ao chegar... !Buenos días, mi niña! !Buenos días!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

5 comentários:

Celina disse...

Colocando as leituras em dia, e já completamente emocionada com seu texto. E a foto de um colar, um simples colar, com tanto significado.
Ando muito "emotiva" para ler À vista del Avila...

Eulalia disse...

Doce e delicado. Nem por isso menos apaixonante.
Adorei!

ayabrag disse...

Patricia, ao ler teu texto me bateu a mais forte das saudades de Caracas dos últimos tempos. Que fim terá tido Señora Paulina? E a nossa academia? Será que resistiu ao Chavez? e as nossas amigas do yoga? por onde estarão... Mexeste fundo nas minhas lembranças e na minha saudade. Caracas realmente é uma linda tatuagem em nossa alma...

Elza Martins disse...

Que lindo, Pat. As pessoas tatuagens são muito importantes porque nos fazem quem somos.

Alzira Willcox disse...

Como sempre, seus textos são vívidos e expressam rara sensibilidade. Há pessoas que ficam tatuadas. Verdadeiro.Vc guardou o melhor de Señora Paulina, sua energia e vivacidade.