sexta-feira, 15 de abril de 2011

UM LUGAR NO CANADÁ


Eu ainda trabalhava na filial Santa Rosa. Meus dias eram sempre corridos e os finais de semana ainda mais. De segunda a sexta, a rotina das aulas e da coordenação e, nos finais de semana, ida para Salvador. Aí, eu virava dona de casa, turista, cuidava das plantas e do apartamento, dançava até tarde, caminhava do Jardim de Alá até o clube Bahia, ia a praia do Flamengo, tomava sorvete de tapioca na Ribeira e passava muitas tardes com Silvio, os dois de papo pro ar, ouvindo ao longe uma mistura de música e a narração de um BAVI.

Foi no final de maio que Silvio me falou da viagem. Dava para eu ir também. Eu tinha férias e era só por quinze dias.

Canadá... Canadá!!!

Era um sonho antigo meu. Um de meus objetos de desejo.

Silvio teria um congresso em Calgary e, com um bom plano de viagem, daria para a gente visitar a costa leste, Montreal e Quebec e depois da parada obrigatória em Calgary, ainda teriamos tempo de ir a Vancouver. (Tudo de bom!).

Não fazia muito tempo que Cida tinha visitado o país e suas dicas foram fundamentais. Entre elas... Não deixe de ir a Lake Louise, em Banff, perto de Calgary.

Depois de nos deliciarmos com o lado francês do país, chegamos a Calgary em meio a um grande aparato policial. A principio, não sabiamos o que estava acontecendo, e só aos poucos fomos entendendo que toda a confusão era por nossa causa. Ou melhor, a força policial estava de prontidão por causa do congresso. Coisa referente a petróleo sempre envolve manifestantes do Green Peace, altos executivos internacionais, gente de diferentes governos, mais manifestantes, alguns xeiques árabes e ... nós.

A programação era dividida entre palestras, mesas redondas e workshops para os que iriam trabalhar. E passeios, almoços e diversão leve para os acompanhantes. (Ufa! Alguém tem que fazer o trabalho pesado!). Ambos os grupos, no entanto, cercados de muita segurança. Confesso que consegui fugir duas vezes do cerco policial. Na primeira, visitei algumas ruas perto do hotel, onde encontrei pela primeira vez aquelas vacas coloridas que ficam em exposição em diferentes cidades e, na segunda, quase congelei em pleno verão canadense.

Na programação que nos deram estava incluída uma visita a Lake Louise. (Lembrei das palavras de Cida... Imperdivel!)

Saímos cedo. Só a estrada já valia o passeio. E, quase na hora do almoço, chegamos ao lugar. Na verdade, me desculpem o gerundismo, mas fomos chegando ao lago. Aos poucos, a estrada foi se estreitando, o ônibus diminuindo a velocidade, a vegetação se adensando... De repente uma curva... E lá estava o hotel, o lago, o parque ... A vista!

Saí do ônibus. Respirei fundo. À minha frente, o lago era de um verde intenso. Havia um silêncio... Uma brisa... Ainda um pouco de neve no chão... Um sol morno acariciava minhas costas. E, então, entreguei meu olhar à paisagem.

Respirei fundo... O verde do lago ia virando um verde escuro nas montanhas que, de repente, num susto, virava um branco glacial. Eram dois mundos. Uma superposição de beleza. Havia um silêncio... E eu. E aquela imagem. Dois mundos.

Meus pais tinham morrido havia pouco tempo e a sensação que eu tive era como se eles estivessem lá, naquele outro lado. No lado branco da cena. Era como se, com esforço, esticando os braços o mais que eu pudesse... Muito... Talvez dobrando um pouco a coluna, eu tivesse condição de abraçá-los, por um segundo que fosse.

Fiquei ali parada. Não sei por quanto tempo. Me peguei rezando baixinho. Aquela reza que a gente aprende no catecismo... Ave Maria! Cheia de graça...

Um Patricia! me tirou daquele torpor. Quer que eu tire uma foto sua junto ao lago? Era uma gaúcha, esposa de um executivo da Petrobrás, que também estava na excursão. Quer? Eu tiro uma foto.

Como em um reflexo condicionado, sorri e lhe entreguei a câmera. E sorri para a foto.

Ficou ótima! Ela me disse, empolgada. E, baixinho, respondi... Amém!



(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

3 comentários:

CrisTinoco disse...

vc escreve muito gostoso!
gostei de ler!

Eulalia disse...

Emoções fortes, querida, de suas lembranças refletindo-se na minhas, me deixam sem palavras que possam dizer o que senti.
Deixo, então, o registro do meu sentimento intenso, na leitura do final do texto.
Senti-o tão vivo quanto o dom da cor e da forma que suas palavras concretizam.
beijinhos

Alzira disse...

Há momentos mágicos na vida da gente. Uma paisagem que, de repente, nos invade, aquela música que nos emociona às lágrimas, a visão de um bebê dormindo...
Você viveu um desses momentos em comunhão com a natureza e ENCONTRO com o mais puro amor. Lindo!
E a foto ficou ótima!