sexta-feira, 1 de abril de 2011

TORRADINHAS


31 de março de 2011. Como o tempo pôde passar tão rápido?!

Fui passando devagar a geléia na torrada. Era cedinho. Sou chegada a acordar bem cedo e, como meu pai, adoro preparar o café da manhã. Neste ponto, sou Blower até a raíz do cabelo. Madrugadora e comilona.

De repente a cena se fez por inteiro, sem retoques. Em cheio, cai na copa da casa de vovó. Espaço grande, como em toda casa antiga. Paredes claras, mesa de madeira escura. Era de tarde. Era sempre de tarde.

Um certo burburinho na cozinha indicava que vinha para a mesa café fresquinho. Café de lanche, bem ralinho. Desses que a gente toma em xícara grande e com bolo de fubá.

Enquanto, naquelas tardes, eu adolescia, vovó, à minha frente, preparava torradinhas e me falava de vida.

Tem ciência para fazer as torradinhas. Tá vendo? Pra tudo tem ciência... Tem que cortar bem fininha.

A faca de pão tão antiga fatiava o pão dormido. Sobras de bisnagas fumegantes e branquinhas. O pão fatiado ia caindo sobre uma táboa de madeira pequenina, arranhada e gasta pelo tempo. Entre farelo de pão, a voz de vovó sentenciava...

O corte não é o mais importante. A ciência está na temperatura do forno. A torrada não pode ficar queimada. Tem que ficar crocante, mas branquinha. É isso que dá o gosto especial. 

Deixa eu fazer... Eu implorava com meu jeito sempre ansioso de ser. Deixa eu fazer!

Não, não... Viu? Foi rápida demais e cortou muito grossa. Tem que ter ritmo e paciência... É como a vida.

Entre histórias e farelos e alguma crítica fui adolescendo.

Você tem que se arrumar melhor. Está uma mocinha agora. Tem que ser mais vaidosa.

(Mas o que ela não entendia, era que eu não queria ser mais mocinha... Queria ser poeta e mudar o mundo. Queria viajar.)

Vó? Como você conheceu vovô Daddy? (Acho que já expliquei em um texto chamado UMA FOTO ANTIGA porque todos os netos o chamavam de vovô papai.)

Então, em frases entrecortadas pela lembrança, ela me contava. Era meu vizinho... Era quatorze anos mais velho que eu... Muito compenetrado... Todo dia passava e me comprimentava... Henry era muito bonito... Eu ficava paquerando... Até que começamos a namorar... Depois ele ficou muito impetuoso...

E eu ficava imaginando como é que um avô pode ser impetuoso. Avô é avô, né?

E falava das festas, dos bailes e dos olhos azúis de vovô. 

(Aqui entre nós, ele devia ser mesmo muito impetuoso... Sete filhos... Uma escadinha... Mas vovó não ficava pra trás também não...)

Sabe, se eu fosse jovem agora eu queria era dar muito beijo de novela... (E com as mãos nos lábios simulava um chupão desavergonhado.) Na minha época era tudo muito comportado. Uma chatura. Muito sem graça.

Pegava com cuidado uma torradinha saida do forno e me advertia... Cuidado pra não se queimar.

Era prazeroso ver a manteiga derretendo e sumindo nos poros do pão. Cheirava bom. Pra complementar, um golinho de café. 

E, aos poucos, as tardes iam virando noite e era hora de ir embora. Até que um dia, as tardes deixaram de existir. Um dia, virei gente grande e vovó não estava mais lá. Nem a casa existia mais.

Só sobraram as torradinhas... Bem, nem elas, porque nunca consegui fazê-las tão crocantes e nem tão branquinhas. Só ficou, perdido na língua, como coisa que ficou por dizer, aquele sabor... 

Fui passando devagar a geléia na torrada... Como o tempo pôde passar tão rápido!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

5 comentários:

Celina disse...

Tava com saudade desses textos que a gente lê de um suspiro só! Deu água na boca e saudade das aulas de inglês lá no quintal com Tia Dorinha...
saudaaaaaaaaaaaaaaaaade!

Eulalia disse...

Impecável, querida, impecável!!!
Até eu senti saudades do que nem vivi!

Fazemos de Conta disse...

Lá em casa tb fazíamos torradinhas, branquinhas, finas, crocantes e cheirosas. Lendo o texto delicioso, voltei à varanda da minha casa, onde lanchávamos. O tempo passa rápido, ainda bem que as torradas o fazem parar um pouco.
Beijos e bom domingo.
Lúcia

Alzira disse...

O tempo passa rápido! Rápido demais e lá se vai a nossa história na morte dos pais, do irmão, na demolição da velha casa.
Recuperamos a memória lendo textos delicados como esse que nos transporta para velhos tempos, velhas casas e torradas fresquinhas...

Elza Martins disse...

Incrível, Patrícia, pelo depoimento da minha irmã você já sabe que lá em casa, também tínhamos as mesmas torradinhas. Que tempo tão bom! Ficaram as lembranças, o gosto, o cheiro e as conversas engraçadas que até hoje acontecem quando estamos juntos.
Valeu a lembrança!