sexta-feira, 21 de maio de 2010

A HORA TORTA


Fui acordada pela voz do comandante diretamente da cabine informando que em poucos minutos chegaríamos ao Aeroporto Internacional Simon Bolívar. A voz metálica e as luzes brancas que foram se acendendo aos poucos confirmavam que estávamos prestes a aterrissar.

Boca seca, olhos secos. Uma sensação desagradável de que o corpo ficou no local de origem e que só a alma e os músculos doidos chegavam ao destino final. Vôos noturnos...

O comandante voltou a falar, enquanto eu procurava meu IPod perdido entre a manta e aquela coisa que chamam de travesseiro de bordo. A fala era a mesma ladainha de todas as chegadas: permissão para aterrissar, temperatura e horário do pouso ... Estávamos chegando às 6 horas (hora /Brasil) e, portanto, acertem seus relógios, 4:30 (hora/local).

Para quem não sabe, a Venezuela é o único pais no mundo em que há um fuso de meia hora. A decisão foi tomada há uns dois anos trás e ainda me lembro das críticas à mudança e das relevantes razões para um procedimento, digamos assim, pouco ortodoxo.

Meia hora... Nunca tinha me preocupado com esta meia hora. Afinal, depois da mudança do fuso, a vida continuou a mesma, pelo menos para mim. Na verdade não, porque ainda me atrapalho muito quando tenho que acertar os relógios. É mortal quando se tem horas quebradas. 4:20, por exemplo, vira 5:50, se chegamos ao Brasil, e 2:50 se chegamos à Venezuela. É quase um Sodoku.

Meia hora ... Nunca mesmo tinha pensado nela. Mas desta vez, quando o comandante terminou de falar, aquela meia hora começou a me acompanhar. Retirou as bagagens comigo, saiu do avião ao meu lado e passou pela imigração e alfândega como fiel escudeira.

Meia hora... um viés de tempo. Que tanto de coisas se pode fazer em meia hora? Um bom punhado de minutos em pleno limbo. Será que eu envelheço mais por conta desta meia hora? Ou será que é o contrário e tenho ganhado alguns meses a meu favor? Não tenho percebido rugas acentuadas em mim nos últimos tempos... Essa meia hora está me parecendo melhor que botox!



Em meia hora se ganha o jogo, um amor, uma batalha.

Em meia hora se ganha a guerra inteira com tempo pra se receber medalha.

Em meia hora pode se dar o encontro de uma vida!

Pode-se assinar o contrato esperado.

Em meia hora, dá até pra arranjar namorado.

Em meia hora se diz o que era pra ser dito.

E se desmenti o que não passava de mito.

Dá para se ler o destino nas cartas do tarô...

Dá para se falar de amor...

Meia hora e um tantinho, dá pra se fazer muuuuito carinho.

Com meia hora e nada mais, dá pra se ter um momento de paz.

Dá para se regar as plantas,

Tomar um café bem quentinho!

Meia hora e um cajado e dá pra se percorrer um caminho.

Meia hora de espera dá pra cansar qualquer um.

Meia hora no cinema é só o inicio da história.

Meia hora no dentista, já é tempo de ir embora.

E de meia em meia hora vai-se levando a vida.

Entre praia, vento e lida.

Entre desejos e esperas.

Vai-se tecendo o enredo com a linha grossa do tempo.



Meia hora é muita coisa...

Um mundaréu de segundos...



Em meia hora dá até pra se fazer um poema vagabundo.

Moleque, proscrito, safado.

Um poeminha de pé quebrado!


Foto by Eulália Fernades. Tirada de meu balcón em um amanhecer de outono.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com) 

4 comentários:

Celina disse...

TICHA,
Esses amanheceres a bordo,são um despertar de um sono que a gente na verdade não teve. Mas em meia hora, você faz um poema delicioso.
Carol deve estar amargando aquela jetlag! chegou hoje ao nosso ensolarado país

Alzira Willcox disse...

Meia hora é tempo de sobra pra tantas coisas e tão pouco paraos momentos prazerosos. Em muito menos de meia hora eu me deleito com seus textos. E adorei os versinhos despretensiosos e tão carregados de verdade.

monica disse...

Lindo!
Mônica

Eulalia disse...

Nostalgia dos seus poemas, querida, que presente!