sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

UMA ÁRVORE EM MAUI

Chegamos a Maui ao cair da tarde e fomos recepcionados no hotel com os famosos colares de flores. De flores mesmo, verdadeiras, repolhudas e muito cheirosas. (Por mais incrível que pareça, passamos oito dias na ilha e nossos colares permaneceram lindos, cheirosos e repolhudos).



Maui é bem diferente de Honolulu. É mais bicho-grilo. Mais zen. Mais alternativa. Uma parte da ilha é puro verde, a outra, separada por uma montanhazinha (acho que é um vulcão adormecido), é mais agreste. Entramos no hotel e nos debruçamos para o Pacifico, para um paraíso. Tudo era simples e perfeito, ou seria simplesmente perfeito? Tudo no lugar certo, mas sem fazer alvoroço pela perfeição. Céu, mar, jardins, sol nascente e poente, tudo envolvido por uma brisa constante e suave. O hotel dava para as piscinas e as piscinas davam para a costa... azul e irreverente. Mar tranqüilo o suficiente para que você tivesse uma vontade incontrolável de se atirar nele, mas com um movimento quase arrogante. Desafiador.



Enquanto Silvio participava do congresso, só me restava uma coisa... fazer nada. Ou inventar o que fazer. É claro que eu tinha que fazer um social com outras esposas que também estavam lá, mas o que eu queria mesmo era ficar sozinha, olhando, vendo, sentindo. Passava horas à beira da piscina lendo e perscrutando os outros hóspedes. Adoro observar gente. Muitos casais em uma gradação existencial: lua de mel, bodas de prata, bodas de ouro. Rapazes e moças sarados, bonitos. E uma família que parecia ter muita grana e que tinha como esporte favorito brigar. Discutiam o tempo todo, sobre qualquer coisa. Os dias iam passando e o grau das discussões se intensificava em uma relação diretamente proporcional à vermelhidão de seus corpos. E eu lá, só olhando, me distraindo com as rodadas de baiana.



Também fiz muito snorkel. O hotel alugava o equipamento e eu caia no mar e me entregava a um festival de peixinhos. Quanto mais junto às pedras, mais cardumes, de todas as cores. Havia também um baiacu (para quem não sabe, um peixe gorducho e que quando tocado fica todo espinhento), mas havia esse baiacu que me acompanhava em todos os passeios. Eu e ele perscrutando cavernas. Mergulhar talvez seja uma das coisas que eu mais goste de fazer.



Havia os passeios oficiais, oferecidos pelos organizadores do congresso. Foi em um deles que conheci a casa de Marilyn Monroe, hoje um clube de golfe super sofisticado. Em outro passeio fomos de catamarã até a região onde vivem muitas tartarugas e, a convite do capitão do barco, pude nadar com elas. Houve também jantares oficiais, mas o que eu mais gostava era de acordar e tomar café da manhã com Silvio em um dos balcões do hotel. Varandão largo com mobília de vime e almofadas coloridas. Todos os dias éramos acompanhados pelos mais diferentes passarinhos que dividiam conosco o American breakfast.



Antes do cair da tarde, antes de Silvio voltar das palestras, eu saia pelo pátio da piscina e ia caminhar na calçadinha. Se olharem com atenção a foto acima, poderão vê-la. Entre o hotel e o mar havia uma calçada que ligava todos os resorts. De um lado, a costa com o seu marulhar espumoso e, do outro, casas e jardins espraiados e inesquecíveis. Como a calçadinha ia costeando o mar, seguia ao sabor das pedras. Tinha curvas e subidas, pequenas áreas mais amplas como pracinhas, em outras o caminho se estreitava por causa de uma rocha ou uma árvore.



Árvores... que árvores! Grandes e com troncos retorcidos e gorduchos. Copas arredondadas ou então bem viradas para um lado, seguindo a direção do vento. E foi em uma das curvas do caminho que eu encontrei a minha árvore. Redonda e aconchegante com um banquinho de madeira junto às raízes. Era um colo esquecido em um cantinho de Maui. Dei uma parada e a fiquei admirando por um tempo. Não estava com a câmera e me prometi que no dia seguinte iria fotografá-la. Mas, no dia seguinte, saí com um grupo e novamente não fiz a foto. Não fazia mal, ainda tinha bastante tempo. Na outra tarde achei que já estava meio escuro e novamente não fotografei. As tardes foram passando e eu sempre adiando o registro de meu encontro com a árvore. E chegou o último dia. O jantar seria um luau. As palestras terminaram mais cedo e quando eu me preparava para fotografar a árvore, Silvio chegou e disse que teríamos de nos arrumar logo, pois íamos encontrar um casal amigo. Resultado: a foto não foi feita.



Eu poderia dizer que não fez mal, que afinal de contas o que importa é a lembrança daquele encontro, daquelas tardes na ilha, mas... seria uma enorme mentira. Sofro até hoje de um grande arrependimento pela perda da oportunidade, por ter adiado um prazer, por acreditar que no dia seguinte daria tempo... Não deu. Não fiz do registro daquele encontro uma prioridade para mim. Adiei-me e odiei-me por isso.



A árvore deve ainda estar lá e eu vou bem por aqui, mas a foto ... bem a foto virou uma das tantas coisas que a gente se promete fazer e que se perdem entre outras urgências. Como a gente se adia!



Bem, quem sabe um dia eu volte a Maui. Quem sabe?

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

7 comentários:

Lúcia Russo disse...

Ahh Patrícia, que postagem incrível! Sua frase "como a gente se adia" me tocou profundamente. De uma foto que deixamos de fazer a uma palavra que deixamos de dizer, a um gesto que não fazemos, a uma atitude que deixamos de tomar. Quanto adiamento!
Beijos querida e um lindo fim de semana,

Lúcia

Celina disse...

nossa, comecei a ler o post e achei que você tava em Maui, hoje! Nós duas estamos na mesma fase...reeditar e reviver viagens!!! E mesmo fazendo tudo, sempre fica faltando algo. Mas essa falta faz a gente querer voltar e sonhar de novo. Talvez a gente se adie muito. Euzinha, adiando tudo para depois desse calor indigno!

Bia Veiga disse...

Oi Patrícia, ando lembrando de você nesses dias. Fui visitar uns veleiros enormes no Pier Mauá e logo de cara estava o da Venezuela. Bonito como os outros, e claro você veio passear na minha mente. Como a gente se adia. Estou há tempos para vir ler os blogs que acompanhamos, mas sempre tem alguma coisa prá fazer e o tempo passa e deixamos às vezes passar as emoções, os encontros, as histórias...
Deixei de fotografar o veleiro da Venezuela na sexta, mas hoje, sem querer consegui fazer esse feito. Eles partiram, lindos enormes com suas velas ao vento, brancos e maravilhosos e eu lá no Forte de Copacabana. Claro, lembrei de você. Fotografei todos os que vi e o da Venezuela estava lá. Não quis adiar essa alegria, ver os gigantes do vento no mar. Foi lindo, e seu texto um presente.
Beijos
Bia

Anônimo disse...

Pat,lindo!Não devemos nunca deixar para depois o que queremos fazer,o importante é sempre o aqui e agora,depois, pode não existir.
E tu descreves tudo com tanto amor
que sofro junto contigo.
Beijoão
Vera

Eulalia disse...

Saudades da minha árvore também, mas ao norte da Alemanhã! A minha "árvore da vida". Bom saber que você tem a sua, querida, com a foto gravada em seu coração!

Eulalia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elza Martins disse...

Pat, na nossa família temos uma árvore, também, um abacateiro.Ele foi plantado pelo papai em frente a janela de nosso apartamento, em Brasília.
Desde que meu pai faleceu eu não havia voltado à cidade. Sei lá, não conseguia. Um congresso me levou lá, ano passado. No segundo dia, acordei bem cedo, peguei um taxi e fui fotografar a árvore do papai. Lá estava ela linda e frondosa, parecia aconchegante como um colo, também. Tirei muitas fotos e me senti reatando laços com os blocos, as quadras e com a cidade. A árvore do meu pai me ajudou. Fiz as pazes com Brasília.