terça-feira, 9 de junho de 2009

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

Os sogros chegaram no final de maio e, além de conhecerem a cidade, decidimos desenvolver um projeto botânico-agrícola-ornamental. Perambulamos pelos muitos viveros (pequenos hortinhos, lojas de plantas) daqui de Caracas a procura de sementes, vasos, mudas ... e o que mais aparecer. Como sempre, qualquer experiência por aqui me vale uma aula de espanhol. É difícil imaginar o tempo que levamos para explicar ao vendedor que queríamos húmus e, só depois de muita mímica (imaginem a gente se fingindo de minhoca!), descobrimos “lombrifertil” (minhoca = lombriz), a melhor terra adubada da região.
Com o poderoso húmus e sementes de perejil (salsa) e albahaca (manjericão), além de uma floreirinha que parece de anãozinho de tão pequena, partimos para casa para começar os trabalhos. Na verdade, eles começaram a atividade, pois eu sou responsável apenas pela logística, isto é, deslocamento de carro e identificação de lojas que possam oferecer mais itens ao nosso projeto.
Antes do plantio, foi necessária a poda da única árvore de meu diminuto jardim. Meu jardinzinho suspenso da Babilônia. Enquanto um podava, o outro ajeitava as pedrinhas brancas e roliças que servem de base para o canteiro. Dona Leda é a responsável pelo lado estético-ornamental. Depois foi a preparação do solo e, por fim, a semeadura. E aí eu fui convocada para aprender como se faz. E aprendi, pois com a minha ansiedade e desconhecimento decidi fazer furinhos na terra e colocar uma semente em cada buraquinho. O sogro não se agüentou e começou a rir. Não, não, nada disso! Aplainou novamente o solo e, com delicadeza, foi passando os dedos, como um aradinho, bem por cima da terra. Foi abrindo pequeninos sulcos e foi despejando as sementinhas. Depois com mais cuidado ainda foi jogando terra por cima. Com orgulho, me senti participando de um nano-empreendimento agrícola. Cabe ressaltar que só pudemos fazer tudo isto porque estamos em período de lua crescente e cheia, que é tempo bom para se plantar hortaliças. Para flores é lua nova e para coisas que cresçam para dentro da terra é lua minguante.
Com isto, criou-se uma nova rotina na casa. Acordamos todos os dias ansiosos para ver como andam as sementinhas. Devo dizer que a albahaca apresenta uma performance cem vezes melhor que as sementes de salsa. Suspeitamos, com pesar, que estas últimas tenham encruado.
Compramos também uma bunganvilla rosa e branca. A arvorezinha foi trazida para a casa e está em lugar de destaque na sala. Dona Leda a limpou e colocou em seus galhos uns passarinhos de madeira que estavam esquecidos no jardim. Ficou linda! Tenho pegado Dona Leda em filosóficas conversações com a árvore. Não sei, mas acredito que quando eles forem embora vou ter que pagar um bom analista para a plantinha para retirá-la do estado de carência e depressão.

Há muitos anos atrás escrevi um poema curtinho chamado Senha II:

ainda não é tempo de colher as flores
mas sei
(e como é bom saber)
que elas florescem no jardim

Tenho pensado muito nele nestes últimos dias. Talvez tenha chegado o meu tempo de colher flores e resultados. Já arei muita terra. Terra de todo tipo. Em algumas épocas, era solo fértil, macio, todo irrigado. Em outras, arei foi pedra e, de noite, rezava que chovesse, nem que fosse um pouquinho, para que as sementes vingassem. Trabalhei em trator, de enxada e, às vezes, só à unha. Plantei semente de tudo. Teve semente que eu achei que ia encruar e que vingou e outras, que eu queria tanto que germinassem, e que se perderam na terra. Não serviram nem de adubo. Teve semente que eu achava que era de flor e que só deu erva daninha. O que sempre me encantou foram as sementes trazidas “em lombo” de passarinho. As sementes do acaso, que viram um tanto de flor cheirosa.

Talvez tenha chegado o meu tempo de colher flores e resultados ... Não sei. Mas, neste tempo, descobri que se é bom colher, melhor ainda é poder continuar semeando. Descobri que há diferentes solos, novos fertilizantes e outros espaços, mesmo que seja só uma pequena floreirinha. Terra pronta para virar árvore, fruta e flor.

Pego um punhado de sementes com minhas mãos, as acaricio. E vou envolvendo tudo com muita saliva e energia. Quando viram palavra, revolvo a terra e meus pensamentos e dou um sopro bem forte. Vapt... então, semeio o ar.

Que cada um que me lê possa sorver o doce da fruta colhida no pé e sentir o perfume da flor que lhe traga lembranças da infância. Se isso acontecer, vou ter certeza que ainda posso semear poesia.


(in à vista del ávila. Nota: A foto não faz juz à buganvilla.)

4 comentários:

Celina disse...

que delícica!!! um texto com cheiro e tempero! vento no rosto e aroma de manjeiricão!
em tempo, nunca consegui salsinha nas minhas hortas lá na cobertura. Mas sempre tinha manjericão fresquinho, exalando um perfume maravilhoso. Crescem sozinhos, aos montes, e fazem a salada ou a pizza nossa de cada dia, muito melhores!bjs

Alzira Willcox disse...

Fique certa de que você pode e deve continuar semeando poesia. Poesia-poesia e prosa-poesia porque suas narrativas têm sempre um ritmo de poesia. Continue semeando e nós, seus leitores, continuaremos vivendo as alegrias da colheita.
O texto de hoje me levou a um quintal longínquo no tempo (não no espaço)onde eu colhia mangas e carambolas. Foi bom, muito bom.
Bjs

Fábio L. Rockenbach disse...

Olá pessoal! Então a minha dupla da terceira idade anda aprontando bastante por aí é? Tia, achei linda aquela planta da foto, e estou muito feliz pelo vô e a vó, pois eles estão fazendo duas coisas que gostam muito: curtindo pessoas que amam e cuidando de plantas. Um caminhão de bjos para vcs e saibam que estou com muita saudade de todos, até mais, Carla.

Eulalia disse...

pode, querida, com certeza, pode!