
Em uma das aulas de meditação, Irma, a professora, nos explicou que iríamos à praia. Como moradora de Caracas, uma cidade que fica a mil metros do nível do mar e a muitos kilômetros cordilheira abaixo da praia mais próxima, estranhei a declaração. Iríamos fazer uma aula especial em alguma praia caribenha? Nada disso. Tudo aconteceu em nossa conhecida salinha de aula, em nosso cubículo transcendental.
A aula começou com o de sempre, relaxamento, respiração, um lento contar de trás para adiante e um convite ao cosmos. Neste dia, um convite à praia.
Irma ia descrevendo nossos caminhos, gestos, a cor do mar, o sabor do sal. Que cada uma de nós criasse a sua praia, própria, intransferível. E quanto mais eu tentava visitar mares caribenhos, mais me afundava em águas distantes no espaço, mas principalmente, distantes no tempo e mergulhava de cabeça na Itacoatiara de minha infância. Caia, sem salva-vidas, numa Patricia pequena, menininha, que adorava andar em sua bicicleta azul e ir a praia de tarde, quando a água é mais morna e tudo fica meio amarelado pelo pôr do sol.
A mestra falando e eu indo cada vez mais longe, mais fundo ... E de repente não era nem mais a praia, era nossa casa e os lanches de de tarde, com a mesa da varanda coberta com a toalha de linholene, café com leite e bolo PlusVita. E era a praia novamente e meus mergulhos na água clarinha. Era eu furando ondas. E era mamãe deitada debaixo do flamboyant, sempre fumando seu cigarrinho, e me contando histórias de pigmeus. E era eu na Prainha, brincando de Aventuras Submarinas e enfiando em cheio o pé num ouriço. Eu e sessenta e dois espinhos no calcanhar. Era papai varrendo as folhas da amendoeira para depois fazer uma enorme fogueira para se livrar dos mosquitos no cair da tarde. Eram os sapos e os morcegos em noites estreladas. Era a Pedra Paula, uma pedra pequena que tínhamos no jardim e que via imaginação de mamãe podia se transformar em navio de pirata, montanha, entrada para as Minas do Rei Salomão. Era a praia e era a lambreta e a Rural. Era a praia e o gosto de chupetinha, um pirulito super doce que vendia no armazém de seu Felício. Era o mar e os banhos de mangueira na volta da praia quando sempre dava um arrepio por causa da água morninha e da brisa do fim do dia. Era eu com meus sonhos de contar histórias e de viajar. Um dia eu ia fazer isto. Ahhh, eu ia.
Irma me propunha gaivotas e quem entrava em cena, em cheio, eram as tias que se diziam bruxas e soltavam uma grande gargalhada em uníssono: tia Gugú, Tia Babá, Tia Yeda, Titia de São Paulo e mamãe, todas bruxas! Eram os churrascos que papai fazia, quando eu sempre roubava um golinho da Cuba Libre dele. Eram os primos, as visitas. Tomavam cafezinho e se iam e a gente guardava as coisas e também partia porque já era domingo de tarde.
E novamente a professora interferia e me propunha boiar, logo eu, que naquele momento fazia bolinhas de sabão com água e um tantinho de detergente roubado da cozinha, mistura que eu soprava por um talinho tirado do mamoeiro. Como boiar em momento de tamanha concentração?
A praia tinha areia fofa e vizinhas mais velhas, que já até namoravam. Um dia eu ia ter dezoito anos. Ahhh, eu ia.
Irma começou a contar de frente para trás. Desfazia-se o encanto. Era o final da aula. E eu lá, com medo de ficar perdida no limbo, mas desesperada por ter de regressar. Voltei me agarrando às pitangueiras da beira da praia, aos galhos da amoreira. Não pude trazer comigo a minha bicicleta azul... E papai e mamãe ficaram por lá. Num cair de tarde. Talvez fosse domingo... Mas eles não guardavam as coisas e não vinham comigo... Não vinham.
Há lugares a que não se pode voltar. Não porque tenham saído do mapa, mas porque as pessoas deixaram de existir. Lugares que ficam no limbo. Lá.
E o resto é lembrança. Uma garrafa jogada no mar com uma mensagem escrita a lápis num pedaço de papel qualquer: “Um dia estivemos aqui e fomos felizes”.
(in à vista del ávila)