sábado, 17 de janeiro de 2009

UM DIA EM SINAMAICA

Bragança me telefonou no inicio da semana. Ele e Silvio iriam a Maracaibo a trabalho na quarta-feira e, como Soraya havia acabado de chegar à Venezuela, ele pensou que seria uma boa oportunidade para nós duas conhecermos uma outra região do país. Achei a idéia ótima. Quando saí do Brasil, já tinha o plano em mente. Silvio viajaria a trabalho e eu sempre iria com ele. Afinal, alguém tem que se divertir.
A primeira vez que encontrei Soraya, foi em um jantar em Porto Alegre. Conversa super interessante. Ela, professora de literatura. Esperta. Atenta. Um papo maravilhoso. Em Maracaibo, nós ficaríamos a maior parte do tempo juntas e sem os maridos, mas pela mostra do sul, faríamos uma boa parceria. Era claro que tínhamos uma coisa forte em comum: uma curiosidade patológica.
Convite aceito, era hora dos preparativos, que em caso de viagem por terras venezuelanas, sempre implica em se ter uma reunião informativa com Claudia, minha professora, que abrange o que ver, comer, beber, ouvir, experimentar no local a ser visitado.
Uma das coisas que aprendi com ela, e com todas as demais pessoas a quem contei que ia a Maracaibo, era que a cidade “es muy calurosa!!!”. O que para mim, carioca, habituada ao Rio 40 graus, não chegava a assustar. Além disso, eu já sabia que há uma rixa entre caraquenhos e maracuchos, tipo Rio X São Paulo, e achei que tinha um tanto de exagero nos comentários. Tão logo chegamos, na quarta-feira à tarde, eu entendi perfeitamente a expressão ledo engano. Maracaibo é uma cidade plana, limpa, mais moderna que Caracas, com um lago cheio de poços de petróleo, uma ponte deslumbrante e tudo isso vem embrulhado em uma temperatura... INFERNAL! Para quem conhece, imaginem a São Clemente, em pleno janeiro, ao meio-dia. É assim, só que é meio-dia o tempo todo.
Como há sempre um lado positivo em tudo, o calor me levou a conhecer uma das guloseimas da cidade: o sepillado, uma espécie de sorvete que acho que no Brasil a gente chama de raspadinho. Tomei muitos sabores, sendo minha preferência, por razões óbvias, o de limón. Como mata a sede!
Quinta-feira de manhã, os maridos e nós acordamos cedo. Eles vestidos a caráter: terno, gravata e pasta executiva. Nós também: bermuda, camiseta e máquina fotográfica. Maracaibo, aí vamos nós!
Na recepção do hotel fomos informadas que podíamos conhecer a cidade com um taxista de confiança, Sr. Richard (há muitos Jonathans, Richards, Jarolds no país). Eu, com minha lista de coisas a fazer, perguntei se podíamos ir a Sinamaica, que para mim era como conhecer os arredores da cidade. Novamente o profundo entendimento da expressão... ledo engano. Os recepcionistas se entreolharam. De imediato fizeram algumas observações sobre os brilhos que Soraya trazia: colar, pulseira, anel. Era melhor retirá-los. Poder, a gente podia ir, mas era melhor falar com o motorista para organizar a coisa, afinal Sinamaica ficava a quase duas horas do centro da cidade, em território dos índios guajiros.
Cabe explicar o nosso interesse no lugar. Sinamaica deu origem ao nome Venezuela. É uma região de mangues e canais, uma pequena Veneza. Os índios vivem em palafitas nesses canais. Um lugar exótico o suficiente para alimentar nossa curiosidade. Tínhamos que visitá-lo.
Encontramos Sr. Richard na entrada do hotel. Ele, um mulato alto e forte. O seu carro, um rabo-de-peixe, branco por fora e vermelho por dentro, modelo década de 60. Acho que não há táxis novos em Maracaibo. Há os velhos e decadentes e os antigos e bem cuidados. O dele era do segundo tipo.
Sr. Richard nos ofereceu fazer um recorrido. Dar um rolê pela cidade e depois irmos a Sinamaica. E assim o fizemos. Conhecemos o bairro de casas coloniais recuperadas, praças, o teatro, o mercado e a catedral, onde está La Chinita. Uma imagem milagrosa. Lugar de muita energia. E tome sepillado! Lá pelas 11, seguimos para nossa aventura.
À medida que nos afastávamos do centro da cidade, entrávamos em subúrbios de casas simples e pequenas e começamos a ver mulheres com vestidos coloridos, largos e longos, como aquelas mortalhas do carnaval baiano na década de 70. Estávamos entrando na região dos guajiros. Tudo ao longo da estrada. Não era propriamente uma tribo, era como estar no interior do Brasil. Nordeste talvez. Tudo muito colorido e simples. A partir de um momento, começamos a ver carros com galões de gasolina e fomos informadas por Sr. Richard que, como estávamos próximos à fronteira com a Colômbia, havia muito contrabando de gasolina na região. Continuamos indo.
De repente, começamos a ver patrulhas do exército venezuelano. Parecia que a cada kilômetro havia uma nova patrulha. Sr. Richard nos explicou que, como aquela era a estrada para a Colômbia, era uma carretera muito usada pelo narcotráfico e por isso as barricadas. Continuamos indo.
De repente, a estrada estava ladeada apenas por mangues. Era uma visão bonita, mas aí Soraya disse o que eu não queria ouvir. “Se acontece algo com a gente aqui, ninguém sabe onde estamos.” O celular já não pegava. Sr.Richard pouco falava. No rádio, aos berros, gaitas, ritmo típico de Maracaibo. Continuamos indo.
De repente, chegamos a um lugar arborizado. Dava para ver uma casinha, tipo quiosque e um pouco além, as margens de um rio. Sr. Richard nos explicou que íamos almoçar e depois tomaríamos um barco para visitar as palafitas. O carro parou em frente ao “restaurante”. E foi ali que comi tajadas,banana da terra frita e um delicioso morrito de pescado, peixe feito com coco.
De repente, una culebra!!!! “Sr. Richard, aquilo ali é uma cobra?”; “Sim, mas não se preocupe. Não há problema”. Um grupo brincava com uma cobra verde de mais de um metro. Brincaram até matá-la. Continuei comendo, que sou bom garfo, mas em posição de lótus. Também entoava um mantra: “Cadê a cobra? Cadê a cobra?”
O taxista negociou o preço com o barqueiro. E na hora de entrarmos no barco, pequeno e de madeira, nós duas convidamos, de forma enfática, o bravo Sr. Richard a nos acompanhar. Naquele momento, ele era o ser mais próximo e intimo que tínhamos a nosso dispor.
Começamos, então um passeio inesquecível. A região é muito extensa. Muitas casinhas em palafitas espalhadas pelos canais. Casas mais cuidadas, casas pobres, choupanas. Muitas crianças barrigudas brincavam nas águas. Muitas mulheres, com suas mortalhas, trabalhavam em suas casas. Muitos homens jogavam conversa fora ao redor de mesinhas cheias de garrafas de cerveja. Tinha palafita escola, palafita igreja, palafita posto do governo, palafita pousada. Tinha pássaros e céu azul. O barco foi se embrenhando cada vez mais pelos canais. Em um momento, Soraya pediu ao barqueiro para parar o barco. Pensei: “Ficou maluca!!!” O barqueiro parou o tuc-tuc do motor e nós pudemos ouvir, entre as águas e a sombra de muitas árvores ... o silêncio. Enorme!!
A tarde foi caindo aos poucos. Tempo de voltar.
O caminho de volta, como em um filme passado ao reverso, foi rápido e sem surpresas. Chegamos ao hotel para recepcionar os meninos trabalhadores e bem na hora de assistir a um deslumbrante pôr de sol no lago. Tínhamos tantas fotos e tanto para contar! A noite chegou enquanto contávamos nossa aventura e pudemos ainda ver, ao longe, os misteriosos relâmpagos no lago que ninguém sabe explicar como surgem no céu.
Sempre que falamos para as pessoas aqui em Caracas e mesmo para o pessoal de Maracaibo o que fizemos, há um certo espanto, quase horror, nos olhares. Soraya jura que faria tudo de novo. Quanto a mim, especialmente depois de imaginar que as FARC podiam estar próximas daquela região, prefiro agradecer a oportunidade que tive, mas, como dizem os venezuelanos: “!Vamos hacer borrón y cuenta nueva!” Isto é, prefiro partir pra outra.

(in à vista del ávila/ blog)

6 comentários:

Bia Veiga disse...

Oi...
Estou prá te dizer há alguns posts, que fotos lindas!!! Só falo dos escritos e sempre ficam para trás as fotos. Como são encantadoras. Você também é muito boa com a máquina de fotografar, rsrs... Que linda parece ser Maracaibo. Sempre gostei desse nome. Nas aulas de espanhol que tive, volta e meia algum texto falava de Maracaibo. Talvez nem tanto assim, mas gostei do nome, me caiu muito bem nos ouvidos, rsrs...
Bom, que gostosa sua história! Que aventura!!!
bjs e mais uma vez, que bom poder ler histórias suas, porque as escreve e porque são suas mesmo, vividas.

Alzira Willcox disse...

Ler suas narrativas é sempre um prazer renovado. Transportei-me para Maracaibo e senti até um certo arrepio...Não sei se teria tanta coragem! Mas, pelo narrado, valeu a pena!

Sonia disse...

Meninas,

Vocês são loucas!!!
Bjs. Sonia.

Bebel disse...

Já estou esperando as terças feiras com ansiedade para ler seus textos. É um enorme prazer; uma curtição mesmo. Adorei a aventura. Amaria estar com vocês lá. Um beijo.
Vilma

Elza Martins disse...

Olá, Pat. Como sempre tudo parece mais colorido quando visto e vivido através do seu olhar especial. Talvez, eu tivesse ido com vocês a Maracaibo mas, certamente, teria dado como visto depois da primeira visita. Obrigada por voltar a trazer prazer para minha vida com seus escritos e sua presença virtual.
Beijos horrivelmente saudosos.

ayabrag disse...

Pat

foi muito bom recordar da nossa aventura através da tua cativante narrativa. Me diverte muito e curti, pela segunda vez, a nossa viagem aventureira. Pobre dos nossos guris que não puderam nos acompanhar, mas como dizes, alguém tem que trabalhar.

mil beijos
Soraya