sábado, 10 de janeiro de 2009

UM CASAL INGLÊS E OS PIRATAS DO CARIBE

Antes de tudo, quero registrar que não farei a minha reforma ortográfica até que me expliquem por que se grafa paraquedas sem hífen e pára-brisa com hífen. Acabo de chegar de Porto Alegre onde comprei meu primeiro livrinho sobre as mudanças. Fui bem na leitura até chegar ao hífen, aí a coisa se complicou. Resisti, mesmo quando heróico e idéia perderam seus acentos. Entendi que era uma questão histórica, mais do que gramatical. Afinal, os pobres heróis (acho que também sem acento) dos povos de língua luso-afro-americana carecem de tantas coisas que a perda de um acento aqui outro acolá não lhes trará maiores problemas. Quanto a idéias, a retirada do acento só reforça o quão empobrecidas elas têm andado em nossos países. Mas, até que me elucidem todas as implicações com referência ao hífen, permaneço na ortografia antiga, o que me faz sentir um tanto fora de moda.

Agora, imaginem um casal inglês. Ele em seus early-fifties e ela confessadamente seis anos mais velha. Imaginem um casal inglês, do interior da Inglaterra, que teve como viagem mais distante e emocionante, uma ida à Escócia. Ele recém-aposentado, depois de gerir, por toda a sua vida, a fábrica de móveis que foi o negócio da família por mais de um século. Decidiu vendê-la, quando descobriu que as pessoas “não estão mais interessadas em qualidade. O que interessa agora é preço baixo e rapidez na entrega”. Ela não me disse o que fazia, mas me segredou que ele era seu terceiro casamento. Ambos altos, ele já bem calvo, ela com cabelo grisalho e cortado à inglesa. Ambos com lindos olhos azuis... Agora imaginem este casal em pleno Caribe venezuelano.

Uns dois dias depois da nossa chegada a Morrocoy, quando íamos tomar o café da manhã, Oscar, o gerente da pousada, nos apresentou a Richard e Sandy. Simpáticos, nos convidaram para desayunar em sua mesa. Bem junto a Sandy, como um amuleto de sorte e sobrevivência, pude ver um daqueles famosos livros de viagem que têm títulos de grande impacto, como Speak Spanish in 5 minutes! Na primeira interação de Sandy com a garçonete, pude ver que ela ainda estava no primeiro minuto de seu aprendizado. O resultado imediato dessa carência lingüística foi que me transformei em tradutora oficial. Ela dizia, “Buenos dias” e eu completava com o seu pedido de huevos revueltos con jamón y queso.
O papo foi ótimo. Silvio diz que eu tenho um talento especial para bater papo com pessoas absolutamente desconhecidas. Eles tinham vindo à Venezuela para assistir ao casamento de um sobrinho de Sandy. Iam tomar café e depois sairiam com uns parentes da noiva, donos de um dos hotéis em Morrocoy. Mas quando fomos pegar a lancha para ir a praia, eles também estavam no cais e nos perguntaram se podiam ficar com a gente, pois a saída com os amigos venezuelanos tinha sido cancelada. Sandy me disse que não iriam atrapalhar e que ficariam a uma certa distancia na praia (!).
Breve pausa para fotos. Richard usava uma bermuda caqui e camisa verde. Tinha um daqueles chapeuzinhos de lona, de aba curta, que ficam meio disformes quando se põe na cabeça. Sandy, com bermuda caqui e blusa branca. Ambos tinham em mãos um daqueles famosos pocketbooks que acompanham a todos os ingleses em suas viagens.
Tomamos a lancha e indicamos a praia onde queríamos passar o dia. Nesta pousada, o sistema é assim, a lancha te leva para a ilha que você quiser. Oferecem um guarda-sol, cadeiras, uma mesa e uma geladeirinha (que se chama cava por aqui) com o almoço. Frutas, ceviche e bebidas. Tudo para você ter o maior conforto por todo o dia. Decidimos ir a Paiclá, uma ilha tranqüila que fica bem em frente a Isla de Los Pájaros, um ninhal de garças, coro-coros, gaivotas. Um lugar incrível.
Enquanto nos deslocávamos, eu, como a mais nova guia de turismo de Morrocoy, ia descrevendo a região e falando das delicias de se estar em uma praia deserta, com mar tranqüilo e muito sol. Ilhas desertas e paradisíacas, só mesmo no Caribe.
Chegamos a Paiclá e a paisagem foi mais eloqüente do que qualquer descrição. Tudo perfeito. Ramón, o barqueiro, depois de armar nossos acampamentos com a distância necessária para uma certa privacidade britânica, partiu, prometendo nos buscar por volta das quatro e meia da tarde.
Em minutos estava estabelecido o cenário. Silvio em atitude vegetativa ao sol. Eu dentro d’água, buscando peixes e corais. Desde criança sempre quis ser mergulhadora. E o casal, já de sunga e biquíni, lendo pocketbooks. A paz reinava em nossa ilha deserta.
O tempo ia passando e as únicas coisas que se moviam eram as folhas das palmeiras e as dos livros dos ingleses. Silêncio. Serenidade. O casal interrompia eventualmente a leitura para sorver a tropicalidade do instante. Ao longe, se podiam ouvir alguns pássaros. E foi também ao longe que eu vi se aproximando um barco.
Breve pausa para fotos. Imaginem um rebocador velho em que, por sobre muitas camadas de ferrugem, foi aplicada uma leve camada de tinta branca. À medida que se aproximava, dava para ver o seu nome, NORWAY, e como complemento, “minicruceros, una manera diferente de disfrutar la mar!” Dava também para ouvir o som ensurdecedor de salsa que saia de seus muitos alto-falantes. Dava para ver os muitos turistas bailando em seu ... diagamos assim... deck. Pensei, estão só passando ao largo. Vão visitar outras ilhas. Mas, quanto mais o barco se aproximava, pela movimentação da tripulação, podia-se ver sua decisão de ancorar. E foi isso que fizeram, exatamente na frente do acampamento do casal inglês. O som mais suave que ouvi saindo dos alto-falantes foi Macarena!
Uma coisa que aprendi é que estes barcos são acompanhados à distância por outros barquinhos que servem comidinhas as mais variadas: ceviches, moluscos, pescados, maionese e salada de frutas. Trazem também sorveteiros e massagistas para o deleite dos turistas.
Breve pausa para fotos. Uma parte dos navegantes estava na praia, comendo e bebendo muito e a outra permaneceu no barco para fazer um ... karaokê!!!! A inglesa tirava mil fotografias. O inglês permanecia com seu livro na mão, mas me pareceu bem mais interessado nos biquínis das venezuelanas. E Silvio estava cercado de duas nativas sendo massageado, a quatro mãos, com cremes naturais. Eu continuava na água, mas meus amigos peixinhos tinham desaparecido.
Quando Rámón, o barqueiro, chegou para nos buscar, a festa tinha diminuído um pouco. Até porque, por mais forte que se seja, a mistura de muita cerveja e whisky causa um certo torpor.
Ramón recolheu toda a nossa equipagem ao som de merengues. Subimos no barco. Sandy, Richard e eu levemente roxos e Silvio totalmente bronzeado e muito relaxado. Acho que a massagem e os cremes eram bons mesmo. Tirando a troca de enigmáticos sorrisos, até aquele momento, eu não havia falado com os ingleses. Foram eles que tomaram a iniciativa. Estavam delighted! Nunca tinham visto nada igual! Que alegria! How tropical!!!Teriam muito que contar aos amigos em Exhall.
Diante de tamanho entusiasmo, decidi oferecer a eles, quando chegamos à pousada, um drink brasileiro que eu sei que os venezuelanos adoram preparar: uma caipirinha, com vodka, porque o bar não tinha cachaça.
Breve pausa para fotos. Vimos o cair da tarde no cais, tomando caipirinha e falando de coisas do Brasil, da Venezuela e de... Exhall que fica perto de Alcester.
Como bons súditos da rainha, o casal fez com que nossos papos de cair da tarde se transformassem em tradição. Pelos dias que se seguiram e em que ficamos juntos nos passeios por Morrocoy, ao entardecer sempre nos encontrávamos para jogar conversa fora e tomar aquele drink brasileiro... “how do you say... CA-I-PI-RRRI-NIA! That’s it!”


6 comentários:

Alzira Willcox disse...

Como sempre, deleitei-me com a sua narrativa, tão viva que me transporta aos locais e situações descritas.
Quanto à "enésima" reforma ortográfica que enfrento, estou com você, mas, disciplinada que sou, tento já habituar-me às novidades. Herói continua acentuada já que tem ditongo aberto, mas é oxítona. Quanto ao hífen, questão controversa, é melhor aguardarmos mesmo o lançamento do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, desenvolvido pela ABL. E vamos nós...Enquanto isso, acho que estamos oficialmente autorizadas até 2010 ou 2012, sei lá, a usar a grafia antiga.
Bj

monica disse...

Oi Patricia,

'Um casal inglês e os piratas' é simplesmente maravilhoso, e delicado também.

Bjs,
Mônica

Elza Martins disse...

Querida Pat:

Eu li seu texto, adorei e decidi, vou conhecer Morrocoy!
O lugar deve ser mesmo incrível portanto entrou na minha lista de lugares a se conhecer, logo.
Enquanto lia, fiquei íntima dos ingleses, tão bem descritos estão.
Fiquei feliz por Silvio ter recuperado a cor saudável e a alma relaxada.
Um grande beijo agradecido pelos ótimos momentos que seus textos me proporcionam.
Chegando ao Rio, faça contato conosco!

Bia Veiga disse...

Que história!!! Adorei, mas tenho que te contar uma coisa curiosa que aconteceu comigo. Ao ler o título dessa mais nova história criei uma expectativa, rsrsrs... com relação aos piratas... Fui até o fim aguardando os piratas chegarem. Não aqueles engraçados que você descreve,mas os de verdade, rsrsrs... Pensei em um suspense com humor, rsrs..
Só no final minha expectativa acabou e eu tive pensar para entender, rsrs... e rir.
Obrigada por mais esse texto.
bjs Bia

Fábio L. Rockenbach disse...

Oi tia querida, adorei ler sobre mais uma aventura sua aí por estes lados. Saudades já dos dois, pois nosso encontro foi muito curtinho né! Bjos para vcs, dos afilhados Carla e Fábio.

Bia Veiga disse...

Oii... Patrícia,
Adoro ler e sou muito criativa como você sabe, essa criatividade também me faz criar um monte de histórias em cima das histórias, rsrs... Te confesso que fiquei feliz quando cheguei ao final da história e não tinha nenhum pirata como personagem, e nem parecido com o bonitão rsrs...
Ainda não li a nova história aí de cima, daqui a pouco eu vou ler. Mil beijnhos e quando você vier passear entre em contato para nos conhecermos.