sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

TOMADAS ANTIGAS


Estou mesmo ficando nostálgica. Hoje acordei com saudade das tomadas antigas. Aquelas mesmas, sem nenhum glamour. Opacas, escuras, com dois olhos vesguinhos a nos mirar.

Saudade daquelas casas com cômodos grandes e de pé direito bem alto. Paredes crespinhas pintadas de cores bem claras e, para cada cômodo uma única tomada. Para que precisava de mais? Uma tomada servia para o abajur ou para o rádio de válvula e, se precisava dos dois, lá vinha ele, o amigo benjamim.

Saudade de dedinhos gorduchos que desafiavam os furinhos. Vinha disfarçadamente engatinhando... Engatinhando... Até o momento exato e levantava os dois dedos, como bote certeiro de cobra, e quase enfiava dedinhos e unhas nos dois buraquinhos... Mas havia sempre a voz adulta que dizia: Não! Aí não! Faz dodói! 

Saudade da nova investida, mais ágil e dissimulada que a primeira. Dedinhos em riste... Agora vai! E a voz adulta repetia: Não! Aí não! Perigo!

Saudade da teimosia. Os dois furinhos escuros lá longe. Joelhos e punhos em frenética corrida. Agora vai! Agora vai! Dedinhos pro alto. Lá! Quase lá! E a voz adulta, frustrando a aventura, apenas falava: Nãããão... E uma palmadinha eloquente terminava a mensagem.

O beiço pra frente e os olhos marejados citavam Castro Alves: "Quanta infâmia e covardia!" 

A voz adulta, então, trazia com ela um colo macio e muito aconchego. Não pode! É perigoso! Na tomada não pode!

Saudade do tempo passando. E as tomadas ainda eram escuras e vesguinhas. A voz adulta dizendo: Cuidado com o fogo! Não corre na bicicleta! Encima do muro, não!

Depois a voz foi se calando um pouquinho. Acho que ela achava que já era hora de aprender a se machucar. Que arranhão também ensina. E quando o pedido era de mercúrio cromo, o que vinha mesmo era iodo, mas sempre dava pra se dar uma sopradinha.

Depois o tempo foi passando rápido e as tomadas agora perderam os olhos. Ficaram com o olhar meio de gato, retilíneo. Outras tinham até uma boca bem redonda e eram robustas. Para cada cômodo da casa, pelo menos duas tomadas para todos os modernos aparelhos. 

As teimosias continuaram e a voz adulta, agora mais rouquinha, ia dizendo coisas. Repetindo frases. Às vezes, em seu silêncio, se adivinhava uma Ave Maria. Mas nunca se calou. E quando os dedinhos que já não eram mais tão gorduchos e os joelhos que já não mais engatinhavam retrucavam argumentos, dizendo: Você, não entende! O mundo mudou! A voz adulta e rouquinha respondia: Um dia você vai me entender. É isso. Deixa passar o tempo que você vai me entender.

Ai, que saudade das tomadas antigas. Opacas, escuras e sem nenhum glamour. 

Agora, as tomadas têm diferentes formatos, cores e tamanhos. E têm esses três furos em desalinho... Dizem que é por segurança. Existem até aparatos para se colocar nas tomadas para que nenhum dedinho gorducho possa perscrutar os furinhos. Mas, sei não... 

Sinceramente, acho que tem faltado aquela voz adulta. Sempre presente. Repetitiva. Cansativamente repetitiva. Que quando silencia, sussurra Ave Marias. Mas que não se cala. Tão teimosa quanto a própria teimosia...

E... Ai, Meu Deus... Vou dizer... Politicamente totalmente incorreta... Vou dizer... Está faltando a palmadinha. Aquela que vem sempre acompanhada de um colo macio e muito aconchego, mas que é eloquente quando tem de ser.

(A mão da vida é mais pesada e há muitas tomadas em curto pelo mundo).

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Hoje acordei com saudade das tomadas antigas.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

Um comentário:

Eulalia disse...

Caramba! Fantasticamente bom!