sexta-feira, 16 de maio de 2014

HITCH YOUR WAGON TO THE STARS




Lá pelos idos da década de 1980, rascunhei um poema curto e triste que falava de uma geração brasileira que preferia fazer as malas e sair do Brasil para tentar a vida fora do que ficar dando murro em ponta de faca em terras tupiniquins. Um poema curto... Triste... Inacabado. 

Era ainda o tempo do chamado "entulho autoritário", vivíamos ainda as sequelas de uma ditadura. Havia desemprego, desesperança, uma inflação de dar medo e uma geração nova e cheia de gás não encontrava espaço para botar o pé em seu futuro. A culpa era do passado...

Um poema curto... Triste... Inacabado.

Nunca o retomei, porque os tempos mudaram, a esperança voltou. Fomos nos encontrando em desencontros e equívocos. Exercemos o nosso direito democrático de votar, escolher, recriar o país. Ao invés de olharmos para o passado, tentamos inventar o futuro. Fizemos até sucesso. Fomos capa de revista... O Cristo Redentor levantando voo como foguete.

E voltamos a ser capa de revista... O Cristo desgovernado...(Eu disse desgovernado!)... Em queda livre.

E agora, não dava mais para culpar o passado. Agora,não era mais o "entulho autoritário", mas quem sabe,o "lixo demagógico" que foi sendo varrido para baixo dos tapetes oficiais.

Um poema curto... Triste... Inacabado.


E hoje, quase meados de 2014. A menos de um mês da Copa das Copas, sediada no Brasil, o eterno país do futuro, pensei em retomar o poema... Triste e inacabado. Li e reli o rascunho algumas vezes, buscando um final menos banal. Mais que um final, buscava uma saída. Não para aquela geração que já pariu seus filhos em outras terras, mas para esta geração brasileira de 2014. Nova, forte, cheia de vida, que retoma o bordão: " A melhor saída é o aeroporto...".

Tentei encontrar um final feliz... Mas desisti. 

Ficou apenas um poema curto... Triste... Com um final banal.

EIGHTIES SUNSET

as cidades
ciladas de pedra

minha terra
mãe vadia
aborta seus filhos pródigos
por portões de aeroportos
todos com o mesmo rosto
tudo um mesmo passaporte
filhos paridos no vento
(hitch your wagon to the stars)

cocaína cucarachas
epcots carabinas

lavam pratos
comem restos
do farnel do Mickey Mouse

pobres eighties
eighties tantos


etcetera
etcetera
etcetera
e tal.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

BONS MENINOS E MENINAS




Sim, eu sei que o Dia das Mães não é comemorado na mesma data em todo o mundo. Sei, também, que as comemorações têm um viés comercial de fazer inveja a muito cacheiro viajante de tempos imemoriais. Sei que há muito mais lacinhos cor de rosa em eletrodomésticas lembranças ou carinhos virtuais do que em rotineiras cumplicidades e carinhosa obediência. Fomos e somos filhotes levados, mas sempre com muito amor!

Mas vamos imaginar, por um minuto que seja, que o dia universal das mães é no próximo domingo e que todos, mas todos mesmo, somos irmãos, filhos da mesma mãe parideira: A Mãe Terra.

Que presente poderíamos dar para ela que nos fez, nos carrega em seu colo, nos alimenta e cria os filhos dos filhos de nossos filhos.

Se fizéssemos uma vaquinha de intenções, juntando a contribuição de cada um dos habitantes da Terra, que lembrancinha cor de rosa poderíamos lhe dar?

Tenho uma ideia. E se todos, mas todos mesmo, por um dia, um lapso de vinte e quatro horas, pudéssemos nos comportar bem? Sermos todos bons meninos e meninas. 

Será que a gente aguentava se segurar por um dia e não brigar com os irmãos e não sujar nossa casa, que é grande e que já está imunda, a despeito dos desesperados esforços de nossa Mãe Terra em tentar se auto limpar.

Por um dia, sermos o que é esperado de nós. Todos nós. Todos nós, mesmo. Seres humanos e civilizados. Sermos humanos e civilizados. Não precisamos nem exagerar nas delicadezas, mas exercer o prazer do convívio entre irmãos.

Por vinte e quatro horas, nada de guerra, nada de confronto, nada de poluir, nada de se vingar, nada de ver o outro como diferente, antagonista, inimigo, uma ameaça. 

Neste Dia das Mães, haveria um culto megaecumênico e todos se veriam plenos em suas diferenças de cor e corpo e raça e credo. Quanto à orientação sexual, todos nos travesteríamos de alegria e exerceríamos o direito a amar o amor.

Não seríamos nem ricos nem pobres e todos comeríamos o almoço de celebração debaixo de pés de frutas lá no fundo de um quintal. 

Nosso maior ato de sustentabilidade seria sermos delicados e gentis uns com os outros e não precisaríamos ser politicamente corretos, pois seríamos corretos sem nenhuma segunda intenção.

Todos teríamos a chance de ser o que bem quiséssemos, sem nenhum perigo de bullying. 

Então, ao cair da tarde, nos sentaríamos em roda no colo de nossa mãe e nos contaríamos histórias. Nossas histórias. E falaríamos de nossos sonhos e medos. Tudo para ela escutar. E depois ela nos falaria da vida e de seu medo de que tudo acabe como em um jogo de faz de conta onde se pode morrer e matar.

Acho que poderia ser um bom presente e nem precisaríamos de grandes caixas douradas e brilhantes laços de fita.

Só nós e a Terra. Nós. Todos nós. Todos nós, mesmo.

Sei não... Pra este ano não dá. Tínhamos de ter combinado com mais antecedência. 

Quem sabe ano que vem? Talvez no próximo ano?

É... Se sobrevivermos às nossas brincadeiras de deus... Quem sabe?

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A ESTRADA


(Não, nada a ver com Fellini ou sua Giullieta Masina.)

A estrada é minha. Própria. Intransferível.

O caminho que me cabe. O caminho que me traça. O caminho que me trama. No caminho, caminho.

Um traço marcado na areia. Um risco lavrado na terra. Destino.

Às vezes, atalho. Às vezes, uma ponte. Às vezes, vereda. Às vezes, uma highway. Às vezes, sendeiro sem saída.

O caminho que me cabe cabe na palma da mão. Entre linhas tortas. De vez em quando, o guardo entre dedos. Outras vezes, o solto feito passarinho.

Já passou por muito túnel... Ele, o caminho. Já subiu muita montanha. E se perdeu por desertos e se embrenhou por florestas e atravessou tanto rio.

Me leva por sua mão. Me impõe a caminhada... Ela, a estrada.

Sem mapa, a sigo por intuição. Sem bússola, vou só seguindo. Nem olho pro céu pra não me perder nas estrelas. Só sigo. Um passo atrás de outro passo. Poeira, pedra ou lajota.

Às vezes, uma fonte. Às vezes, abismo.

Por que paragens me leva? Em quais paradas descanso? Com quem, ao acaso, me encontro? Sei lá... No caminho, caminho.

Minhas pegadas...  Saltos altos... Scarpin apertando o mindinho... Botas pra me proteger... E muito pé descalço, que o tempo cultiva bons calos.

No apressado dos passos, nem sei se realmente deixei marcada na estrada uma pista de tanta encruzilhada. 

Só espero que no emaranhado desse mapa invisível que não consigo decifrar, exista uma linha reta. Uma linha. Que me leve a uma praia pequena e de água tranquila. Onde, algum dia, eu possa molhar os meus pés... Lavar o meu rosto... Refrescar os punhos e a nuca...

E, finalmente, poder mergulhar. De corpo inteiro. Num infinito tchibum! Ir até o fundo do fundo, tomar um empuxo com o pé e, na volta, chegando à tona... Respirar. Fundo. Tão fundo. 

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com) 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

RESSACA


Abril nem bem chegou e já vai se despedindo. 

Foi um mês esquisito, embaralhado em feriados, dias enforcados e dias santos. 

Numa Inconfidência pós-moderna, Tiradentes veio de mãos dadas com Judas, ambos ajudando Jesus a carregar o seu fardo e, saltitantes, seguindo o cortejo, São Jorge tentando matar o coelho, enquanto o dragão, quase esquecido, brandindo uma coroa de espinhos, distribuía ovinhos de chocolate para beatas, manifestantes e criancinhas.

Abril teve lua de sangue! E teve eclipse! 

Chegou trazendo o outono e um susto de gripe a que os médicos insistem em chamar de virose. Talvez porque ao pobre paciente só reste mesmo é se virar na cama e tomar antitérmicos. 

Chegou trazendo chuva e disfarçadas ameaças de racionamentos. 

E já se vai, feito touro bravio e pragmático, bufando indícios de pouco crescimento para o país e muita inflação para seu povo. 

Ah! O mês trouxe com ele também a taça da Copa, os chefes da Fifa e a mesma lengalenga de que tudo estará perfeito para o evento com seus fantásticos estádios imersos no caos.

(Esta Copa confirma a nossa falência... Tudo uma grande falácia!)

No engarrafamento dos ônibus queimados, abril fechou todas as portas ao bom senso e à esperança.

(Atualmente, cidadania é um evento pirotécnico...)

Abril nos trouxe um mar revolto e a confirmação da revolta.

Abril superou agosto... Em seus maus ventos e sua ressaca.

Que ressaca! Do tipo que dá muita vontade de vomitar!

Abril entrou por uma porta, saiu pela outra e quem puder... 

Que conte uma boa história. Que traga uma boa nova. Ou, pelo menos, que nos lembre que quinta-feira que vem é feriado, Dia do Trabalho! 

E, melhor que tudo, já vai ser maio... 

O mês das noivas, com seus alvos e virginais vestidos...

E o mês das mães com sua doçura e a oportunidade de boas vendas no comércio. (Tudo com muito laço de fita... E muito amor!)

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

TÔ DODÓI



Como a febre está renitente
Como a tosse não me deixou dormir
Vou ficar devendo o texto desta semana
Mas deixo a foto

A principio a achei com cara de bactéria
Dessa que eu imagino deva estar me visitando
(Febre alta é sinal de bactéria. Não é só vírus não.)

Mas que nada
É uma pipa solta no ar
É uma pandorga em voo livre
É uma cafifa

Muita paz e liberdade...

Ai... Bem que eu gostaria de pegar uma carona com ela

Vamos aguardar a próxima semana
Vou melhorar

Ah... E aproveito para desejar a todos
Uma Feliz Páscoa!
Inicio de novos caminhos

Muita Paz e Liberdade

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

UM GOSTO DE MINEIRINHO


Como a infância gosta de brincar com a gente. Gosta mesmo de nos pregar peças. Decidi nos visitar nas sutilezas.

                                ........................................

Nasci no Rio por acaso. Ou melhor... Nasci no Rio por teimosia de minha mãe. Ou ainda... Nasci no Rio como resultado de meu primeiro ataque de ansiedade. De tanto medo de perder a hora de eventos, chego sempre adiantada. 

Estava tudo preparado para eu nascer no dia 28 de agosto. Eu seria uma virginiana de primeiro decanato. Organizada e metódica.

Se era para o dia 28, minha mãe encasquetou de ir visitar meus futuros padrinhos em Copacabana. Sair de Niterói. Pegar a barca e passar a tarde em uma casa de varanda na Rua Santa Clara. Sou do tempo em que ainda havia casas e varandas...  Imagino que meu pai tenha reagido à ideia, mas ele era pisciano de último decanato e ela, ariana de boa cepa. Não deu outra. A visita se fez. E eu, que ainda nem era, dei uma de leonina com ascendente em Libra, ansiosa e metida, e decidi chegar mais cedo. 

E a história terminou na manhã do dia seguinte na antiga Casa de Saúde Arnaldo de Moraes.

Todo este introito para dizer que, efetivamente, nasci no Rio, mas sou mesmo é de Niterói.

                            ................................................

Como a infância pode ficar entranhada no rés da alma. No onde e quando você não a espera encontrar.

                            ..................................................

Minha mãe trabalhava fora e já estava tudo combinado. Minha avó tomaria conta de mim enquanto minha mãe estivesse no trabalho. Mas um dia, quando eu tinha só sete meses, minha avó faleceu e sobrou para meu avô, general reformado, aquela menininha careca e desdentada. Imagino como não era difícil para ele (Fui a rainha das assaduras...), mas ele ia bravamente cumprindo sua missão.

Minha primeira infância foi entre mamadeiras, chupetas, espadas e batalhas.

Aos dois anos e meio, meus pais acharam por bem me colocar na escola.

                              ...............................................

A infância não pede licença, nos invadi. É tatuagem. Grafite em nossos sentidos. 

                              .................................................

E, toda tarde, vovô tinha por tarefa me pegar no Curso Pequeno Polegar. Muitas vezes, me levava para o Campo de São Bento, onde eu podia dirigir o autopista, o bate-bate, até a nota acinzentada de cinco cruzeiros acabar. Acho que aprendi a dirigir nas longas sessões dirigindo o carrinho. (Na verdade, minha autoescola começou no carrinho do carrossel. Sempre detestei o cavalinho. E, só depois de mais crescida, me entreguei ao bate-bate)

Toda tarde ele me pegava na escola e tinha de seguir mil recomendações. Não pode isso. Nem aquilo. Cuidado com o vento. Cuidado. Cuidado. Não pode comer nada fora de casa. Ela já lanchou na escola.

                             ..................................................

A infância tem sabores...

                             ...................................................

Na lanchonete na esquina da Rua Oswaldo Cruz, ele me instruía: É só um churrasquinho com farinha, está bem? E não conta nada pra sua mãe!

Eu seguia as suas ordens como soldado raso. Tá legal, vovô. Mas conta aquela história de quando o tubarão te pegou.

A história era uma epopeia. Ele sendo sequestrado por um tubarão em plena praia de Icaraí. Virava escravo na casa dos tubarões e tinha de fazer todo o serviço. O momento de maior tensão era quando ele tinha de varrer a casa e a maré levava toda a sujeira de volta para a sala. Um horror!

Ele contando a história. Um final de tarde avermelhando o céu e o mar. Os pedacinhos do churrasco de gato prendendo entre os meus dentinhos de leite e, de vez em quando, um gole de Mineirinho (O refrigerante tradicional da cidade. Feito da erva chapéu de couro. Uma maravilha para pedra nos rins).

                           ..............................................

Minha infância tem sabor de Mineirinho. Docinha, docinha. 

                           .............................................

Hoje almocei em uma padaria em Niterói, fazendo hora pro dentista. Não resisti, pedi um Mineirinho (É certo que diet, mas Mineirinho).

Dei o primeiro gole... O segundo... E ouvi: Era de tarde quando o tubarão me pegou pelas costas, nem pude me defender...

                             ............................................

A infância tem essa mania de nos deixar com os olhos assim, sei lá, com um brilho estranho, feito beira d´água, onde se reflete o sol e o entardecer e onde, às vezes, só às vezes, um tubarão pode vir te pegar.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

ESPELHO


Tem sempre aquele dia em que se olha firme no espelho e se confirma... Quanto tempo passou!

É o tipo de dia em que a gente olha pro espelho e se conforma... É, passou!

E neste olho no olho, entre imagem e imagem, entre real e avesso, o espelho te conforta... Até que nem tanto passou.

Mas, arranhada no espelho, uma ruga te confronta... Que passou, passou!

O espelho é almofariz onde se macera a imagem. 

O sumo de seu reflexo é um canto de olho, um olhar, um subir de sobrancelha, um certo jeito de rir... Um rosto meio fada, meio bruxa, meio ninfa e duende. Um rosto que se dilui em um emaranhado de histórias... Nem sempre com final feliz.

No reflexo desse espelho, tempo diluído em água, se confirma e se confronta o que foi e o que não foi. Desejo que se perdeu em fato. Vontade que virou enfado.

O espelho é só reflexo. Sem magia e sem respostas. Não reage ao Espelho, espelho meu...

Não perdoa nem Narcisos...

O espelho é o que é. E só.

Almofariz de pedra onde se macera, com ervas e sal grosso, o caminho e a viagem. Miragem... Miragem...

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)