O telefone tocou tarde. Muito tarde. Tarde demais para ser boa notícia.
A cuidadora me avisou: Patricia, liga para os seus primos. Sua tia está no hospital. Parece que está mal...
Liguei uma, duas e, só na terceira vez, meu primo atendeu. Não fez rodeios. Não havia razão par fazer rodeios... Patricia, mamãe acaba de falecer. O enfarte foi fulminante.
Tarde demais...
Como ela podia fazer isso comigo, se no dia seguinte a gente tinha marcado de almoçar juntas? Jogar conversa fora... Rir muito... Tia Helena também iria, então, uma ia ficar implicando com a outra. E eu lá só olhando... E rindo... E me aconchegando como criança pequena no colo da oportunidade de ter as duas tias juntas.
Há anos, todos os dias, eu ligava para ela e iniciava a conversa com a nossa saudação secreta: Hildergard! Uma brincadeira de minha adolescência. Um dia decidi que iria chamá-la de Hildegard e ela gostou e virou o nosso mote e segredo.
Hildegard! Aqui é sua sobrinha mais querida. E ela me contava o que tinha feito. Me falava das aulas que tinha planejado para a creche onde era voluntária. Reclamava da vida. Me dizia que estava com dor no joelho.
Hildegard! Aqui é sua sobrinha mais querida. Tenho que dar uma palestra. Reza por mim. Tenho que fazer uma prova. Reza por mim.
Hildegard! Aqui é sua sobrinha mais querida. Estou no aeroporto embarcando agora... Para a Bahia. Para São Paulo. Para Londres. Para Roma. Para o mundo. E ela extasiada com a rapidez das viagens. Você está no celular? Incrível! Parece que você está bem pertinho de mim.
Hildegard! Aqui é a sua sobrinha mais querida. Já cheguei de viagem... Então vem a Niterói. Faz tempo que a gente não se vê.
Tempo... Como o tempo passa rápido! Como o tempo passa sem pudor.
Já fazia dez anos que eu não passava o Natal com ela. Este ano, almoçamos juntas. E teve bolo de amendoim. Receita dela! E ela me deu uma lembrancinha. E ela parecia feliz. E ela parecia tão cansada...
A última vez que a vi, foi na semana passada. Dei um pulinho na casa dela. Um pulinho... Estava sem tempo...
Tempo... Tarde demais...
Alô! Hildegard! Cê pode me ouvir? Cê ainda pode me ouvir? Hildegard! Aqui é a sua sobrinha mais querida. Reza por mim. Que a saudade é grande. E saudade é mais difícil que qualquer defesa de mestrado. Que saudade é morrer as avessas... Hildegard! Reza por mim. E, se ainda houver tempo, sussurra no meu ouvido aquela frase que você falava alto e sorrindo... Juízo! Juízo!
Tempo... Tempo... Tarde demais ... Saudade...
Ai tia, se você me visse agora. Tão doída. Tão doída. Tenho certeza, você ia dizer: Reza pro Espírito Santo que ele vai te iluminar. Reza pra ele e juízo.
Tempo... Tempo... Tarde demais... Saudade.
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)





