quinta-feira, 22 de julho de 2010

UMA TARDE EM HOUSTON




Talvez tenha sido por causa do dia. A sexta-feira em que a Holanda desclassificou o Brasil em um jogo inexplicável na África do Sul. Ou, quem sabe, fosse a chuva, tão forte, e o vento. Estávamos pegando um rabo de furacão, o Alex, que chegou pela fronteira norte do México. O mais provável, porém, é que tenha sido porque finalmente, depois de tantas reuniões, depois de  tantas idas e vindas, havia ficado claro que estávamos saindo definitivamente da Venezuela. Não sei. Quizás não foi a mistura de tudo isso que me fez desistir de sair e ficar ali sentada, no quarto do hotel, olhando pela janela e sentindo meu coração apertado. Muito apertado.





Entre vento e enormes gotas de chuva, eu podia ver as pessoas estacionarem seus carros e correrem até a MicroCentre, uma dessas grandes lojas americanas onde se pode comprar o que há de mais moderno em tecnologia. Cada uma delas saía voando de uma camionete impecável e, de tênis e bermuda, ia se protegendo da chuva. Cada uma delas tinha suas preocupações, seus interesses, suas necessidades. Todas corriam com os seus guarda-chuvas. Todas, como personagens de um filme, pareciam ter seu papel a performar e o seu script bem decorado.



Só eu é que não me encaixava na história, no cenário. Eu, sozinha e vazia em meu quarto vazio de hotel.



Na TV, o Weather Channel informava que, apesar das chuvas, tudo estava sob controle, à exceção de algumas zonas com alagamentos.



Um menino escorregou e quase caiu na calçada em frente. Foi o tempo do pai levantá-lo no ar.



Sair da Venezuela... Deixar o Ávila para trás... Talvez perder o que havia encontrado entre engarrafamentos e caminhos verdes naquela cidade caótica chamada Caracas. Perder... perder tanta coisa... Me perder...



Um vento mais forte fez com que as gotas de chuva batessem com força no vidro. Como a me chamar. Como a me acordar para algo. Desperta! Desperta, que o sonho acabou. Agora é hora de fazer as malas... mas há coisas que não se pode levar na bagagem. Há coisas que sempre ficam pelo caminho. Num para-trás esquisito que quando a gente olha, já nem lembra o que foi.



Os sustos e a minha incompetência lingüística logo que cheguei. As alegrias de se conquistar, a cada dia, algo novo. Entender o programa na rádio. Fazer compras sem ajuda. Ir aos poucos encontrando pessoas, lugares, amigos. Sentir-se criolla, da terra. Acordar bem cedo para se surpreender com o Ávila. Silvio é perito nisso. Salta da cama e vai para a janela e depois chega me informando, Pat, hoje vale a pena ver...



Minhas muitas tardes em que eu e a montanha trocamos confidências e nos medimos e nos conhecemos. Ela e seu verde e seu céu e seus arco-íris e suas chuvas repentinas. Ela e sua secura e seus incêndios. Ela e seu friozinho e sua neblina. (Todavia el Pacheco no ha llegado.)



Saudades... Já saudades...



A chuva não dava trégua e, aos poucos, as luzes da rua foram se acendendo. Camionetes e texanos... Ao longe, The Galeria.



É claro que vai ser bom o que vier e continuarei a aprender em meu oficio de IV, a perambular por aí. É claro. Mas não naquela tarde. Naquele quarto de hotel. Na cidade de Houston...



Entre chuva e vento. No colo de um furacão.

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

SALTO ANGEL (O FINAL DA AVENTURA)

  
E, de repente, estávamos no acampamento. Finalmente, estávamos aos pés do Salto!

E eu podia dizer que, até chegarmos, pegamos muitas corredeiras. E foi em uma delas que Soraya se virou para trás e me disse: A gente começou aqui na Venezuela com uma super aventura. Se lembra? Sinamaica. E estamos fechando com outra, inesquecivel. (Soraya está indo morar em São Paulo.)


Eu podia dizer que o indio Luiz fez um super jantar para a gente.


E que dormir na rede não foi nada ruim.

Podia dizer que choveu por toda a noite e que na manhã seguinte o rio tinha subido muito. Podia dizer que, de repente, já era hora de partir.

Podia dizer que na hora de tomar a avioneta de volta a Ciudad Bolivar, com muita chuva, passei por uma aventura à parte. Por uma confusão no embarque, tive de me separar do grupo e meu aviãozinho foi parar em Puerto Ordáz. Algo como ser esperada no Santos Dumond e aterrissar em Cabo Frio. Tive de rodar uma baiana daquelas para que o pessoal do aeroporto pagasse um taxi para mim para eu fazer uma pequena viagem de quase duas horas e conseguir me reencontrar com meu grupo.

Sim, podia. Mas nada seria tão importante quanto aquelas horas em que estive junto ao Salto.



O Salto...

Imenso em seu silêncio.
Em seu jogo de esconder com meus olhos.
Poeira de água...
Núvem e rocío...



O Salto...

Perdido em sua verde distância.
Tênue e sólido.
Textura de sonho.
Paisagem concreta
Em sua presença lejana...



O Salto...

O jorro, a fúria, a angústia.
O choro dos deuses...
Alba hemorragia!





O Salto...

Ao encobrir-se,
Entre chuva e amanhecer,
Aos poucos me desnudou.
"Assim és...
Com seus limites e sua teimosia. 
Com sua infinita ânsia de infância.
Assim és...
Mi niña"



O Salto...

!Estuvimos allá!
Sim...
Lá estivemos.


(Para Soraya, Bragança, Claudia, Anele, Giordano, Lourenço, e, especialmente, para Lizete, por sua coragem e perseverança.)

(Nota: Foto noturna by Soraya)

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

A CAMINHO DEL SALTO ANGEL (II)


E chegou a manhã do dia seguinte. E lá estava eu preparada para o clímax da aventura: chegar a Salto Angel. Ambos preparados, eu e mi bastón.
Tomamos café junto com o nosso guia, señor Jose Camino (nome bastante sugestivo para um guia) e ouvimos dele as principais orientações. A cada explicação dada, tenho certeza, cada um de nós antecipava grandes emoções.
Ele nos disse que dali iríamos tomar uma canoa a motor para subir o rio. Ouvi as palavras com ouvidos citadinos e as traduzi como: vamos a um pequeno porto onde tomaremos um barco para chegar ao Salto.
Bem, mas não foi bem isso que aconteceu.


O lugar onde pegariamos os barcos, não era nem de longe um porto e os barcos, as curiaras, eram realmente canoas feitas pelos os indigenas de um só tronco de árvore. Tinham espaço para umas dez pessoas e mais toda a bagagem que precisavamos levar. Tooooda. De mochilas a lanternas, passando por material de higiene e a comida do almoço, jantar e café da manhã. Isso não vai caber tudo na canoa... pensei.
Enquanto o guia e os pemones ajeitavam as coisas, um indio tirava diligente água de dentro do barco. Esse troço tá furado... pensei. 
Enquanto eu elocubrava, nossa matolotagem ia sendo colocada na canoa e depois fomos nós, cuidadosamente ajeitados nos bancos. De dois em dois.  A operação era matemática. Um embarque de astronautas da NASA não seria mais preciso. Os indios iam indicando onde deviamos sentar. (Só depois entendi que eu e Bragança, mais, digamos assim, fortezinhos, seriamos usados como contrapeso do barco. Assim...Lastro mesmo.)
E saimos.
Saimos para cinco horas de canoa, rio acima. Ai, meu Deus! !Voy a tener calambres en mi culo!
A sensação é muito dificil de explicar. A paisagem ia mudando e cada vez mais iamos entrando na paisagem. Passávamos a ser parte dela. O que tinhamos visto do alto, lá da avioneta, agora nos abraçava e nos acolhia.



E havia as corredeiras que foram muitas e se intensificavam a medida que subiamos o rio. Teve uma que nos pegou de tal surpresa que lá estava eu conversando com Claudia e.... de repente... Vapt! O susto, a onda, muita água, um solavanco. E, quando vi, Claudia estava entalada entre as pernas do Anele. No fundo da curiara.
Às vezes, quando as águas e a correnteza eram mais violentas, um dos indios caminhava pela borda da canoa, ia para frente e indicava ao que estava no leme a melhor opção de caminho.
E assim fomos indo ao longo das horas. Entre selva, Tepuis, cachoeiras e fotografias.


 

Ainda bem que não estava chovendo... Mas choveu. Depois de mais de duas horas de navegação, o guia nos disse que iriamos parar para comer alguma coisa. A idéia era parar no Poço da Felicidade, mas quando chegamos lá, que tristeza, as águas tinham subido tanto que não pudemos parar a curiara. Seguimos mas um pouco até um acampamento e foi então que entendi onde eu, quotidiana e citadina, iria comer, dormir e ir ao banheiro na próxima tarde, na próxima noite, no próximo dia. Não fazia mal. Tudo era festa e paisagem bonita. Ainda bem que não estava chovendo... Mas choveu.
Arrumamos o nosso picnic nas mesas do galpão e antes de comer buscamos o melhor lugar para fazer pipi. Nessas horas é que eu tenho certeza de que Deus é homem ou foi um péssimo escultor de costelas. Se eu fosse Deus, as mulheres fariam xixi pela orelha. Virava a cabeça para o lado e pimba. Seria que nem tirar água do ouvido quando se vai a piscina.
Talvez inspirada pelas mulheres do grupo, a chuva começou a cair. Muita. Forte. Diligente.
Foi nos acompanhando por todo almoço e, quando eu pensei que os nativos iam dar um tempinho para a chuva amainar, já era hora de entrar na canoa novamente. Todos agora monidos de seus ponchos, umas capas amarelo-ovo compradas especialmente para a ocasião.
E entramos rio a dentro, chuva a dentro. A água subia, as corredeiras ficavam mais fortes. E pensar que estávamos só na metade do caminho. 
Foram mais umas quase tres horas. E, agora, a cada curva do rio, perguntávamos se uma das muitas cachoeiras que se despencam dos Tepuis era o Salto Angel.
A chuva amainou, mas o tempo ficou menos limpo. Núvens iam se entrelaçando entre pedras e mata fechada.
E, de repente, lá estava ele com seus mil metros de altitude.
Salto Angel... Só por aquela visão já teria valido todo o esforço.
Mas, muito mais nos esperava ao longo das próximas vinte e quatro horas.



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quinta-feira, 1 de julho de 2010

A CAMINHO DEL SALTO ANGEL


Sempre fui avessa a publicar fotografias de pessoas no blog e já em mais de um texto expliquei o porquê, mas desta vez não dá para ficar invisivel. Quero me ver, ao vivo e a cores, para acreditar que eu realmente estive por lá.
Desde que cheguei a Caracas, muita gente me falou sobre o Salto Angel e da aventura que era visitá-lo. Com breves descrições da viagem, eu me convenci que estava velha demais para o périplo, ou melhor, que era comodista  demais para me entregar a tal odisséia. E, de repente, lá estava eu diante da avioneta, prestes a levantar voo rumo à selva venezuelana. Euzinha, cotidiana e citadina, dando uma de Indiana Jones.
O primeiro percalso já se deu mesmo antes de levantarmos voo. Como iamos ficar em acapamentos e andar muito tempo por rios, todo o grupo decidiu que não iria levar os documentos originais. Nada de passaportes, cédulas de identidade, nada. Só levariamos cópias, os laminados, que usamos todo o tempo em Caracas. A ideia pode nos ter parecido boa, mas para a inspetora de embarque não colou. Ou apresentam os documentos originais ou a viagem acaba aqui, isto é, antes de começar. Custou tempo, tensão e saliva, para convencermos à inspetora e ao sargento que chegou depois de que éramos apenas brasileiros boa gente e não terriveis traficantes de drogas. Malfeitores procurados internacionalmente. Até porque, parte de nossa delegação era composta de dois meninos de 8 e 12 anos (possiveis precoces bandoleiros). Custou, mas o sargento nos liberou. Se fossemos depender da inspetora, estariamos até agora em Ciudad Bolivar, tentando provar que não éramos das FARC.
Quando subi no aviãozinho, o medo não era do transporte, mas do que me esperava em Canaima e para além de lá.
Mas embarquei... Eu sempre embarco... Sou a aventureira mais covarde ou a covarde mais aventureira de que se tem noticias. 
A viagem foi tranquila e, depois de algum tempo, já dava para se ver uma das razões porque decidi empreender tal aventura... Los Tepuis.



Gigantescos platôs espraiados pela imensidão. Terra sagrada dos indios pemones. Por si só, mágica paisagem. De tirar o fôlego. De encher o coração da gente com uma alegria medrosa. Magestosos.
Apesar de alguma turbulência. Apesar da avioneta não ser, nem de longe, do último modelo (nem do penúltimo... ou antepenúltimo...). Apesar de o piloto parecer aqueles artistas de filme de aventura da sessão da tarde (um sessentão de bigode com sua roupa tão surrada quanto seu avião). Apesar de tudo, os Tepuis eram um espetáculo à parte. Sólidos na imensidão da selva venezuelana.
Olhando aquele mundo, eu imaginava quantas histórias e lendas já não foram contadas sobre aquelas terras e... quantas cobras e sapos não me aguardavam na aterrissagem!
E, depois de uma hora de viagem, depois de passarmos pela represa de Guri (também imensa e ainda bem seca), o piloto fez uma curva para a esquerda e se atirou para a pista. Não vai dar.... Nao vai dar... Do alto já dava para ver Canaima e se surpreender com suas cascatas. Tiro foto ou me agarro no cinto de segurança? Não vai dar...
E, de repente, a avioneta parou e o piloto acariciou o painel. Tenho mais de vinte anos com ela. Nunca me falhou. (Ainda bem!!!)
Quando descemos do avião, o calor húmedo indicava que já estavamos na selva.
Agora era só esperar o resto do grupo que vinha em outro avião (que, detalhe, demorou muito a chegar porque teve uma pane e tiveram de voltar do meio do caminho para Ciudad Bolivar, com direito da bombeiros a postos na aterrissagem.) Mas chegaram e o guia nos levou para a pousada. 


A pousada...


Para quem estava esperando uma oca, encontrei uma oca holywoodiana, com ar condicionado, água quente e despojadas redes nas varandas. Em seu quintal, as cascatas que tinhamos visto do avião.

 

O guia nos explicou que iriamos almoçar e partir para o primeiro passeio: Salto del Sapo. 
Foi a primeira vez que quis declinar o convite. Ai, meu Deus! Que negócio é este de sapo? Não teve jeito e tive de explicar para o guia sobre a minha fobia de sapos e similares (inclusive os de plástico). Foi então que ele nos explicou que naquela região dificilmente veriamos animais. Eles podem ver vocês, mas vocês não os verão.
Como a vontade de fazer o passeio era maior que a minha covardia, decidi acreditar piamente no guia. E, depois do almoço, partimos.
Primeiro, atravessamos o rio e passamos bem pertinho das cascatas. Tomamos um banho de respingos. Água geladinha em uma tarde de muito calor. Boommm!!!
Depois, saimos do barco e caminhamos por uma espécie de savana. Ao longe os Tepuis nos observavam. De vez em quando, encontravamos outros grupos que, se já estavam voltando, vinham sempre muito molhados.
Fomos nos aproximando de outras cascatas...




O caminho ficava mais dificil. A mata mais fechada. Subiamos e desciamos entre pedras. E, de repente, o guia nos disse para deixarmos nossas coisas junto a uma pedra. Explicou que iriamos passar por detrás do Salto dos Sapos e que se, em alguma parte, sentissemos falta de ar que não nos preocupassemos, pois ia ser muito rápido. Tinhamos de cuidar por onde andávamos para não escorregar e também para não bater com a cabeça nas pedras.  A água caindo fazia um barulho enorme. E entramos atrás da cachoeira. E não teve quem não gritasse. Pelo susto. Pelo gelado da água. Pela emoção indescritivel. Era como um mergulho na gente mesma. Água. Muita água. Não dava medo. Era bom. Era uma energia imensa e nós lá dentro. Em um turbilhão. Faltou o ar, mas só um pouquinho.  Nem deu para assustar.
E depois, um espraiado maior. A água batendo forte. Energia.



Batizados pelas águas, era hora de voltar. O caminho, agora conhecido, se fez mais fácil e, graças ao meu fiel companheiro, mi bastón, enfrentei com galhardia os altos e baixos da caminhada. Fiquei orgulhosa de mim. Quando a coisa apertava, eu sentava no chão e ia escorregando. A estratégia funcionou muito bem, mas não me livrou de um tombo, já quase no final da aventura. Mas nada de grave. Nada além de um joelho arranhado.
E, no caminho de volta, a tarde foi caindo. Estávamos, literalmente, de alma lavada. 
Como fecho desta etapa, nada melhor que um arco-iris, que surgiu de surpresa como prenúncio das aventuras que nos aguardavam nos próximos dias. 



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quinta-feira, 17 de junho de 2010

TRES IGLESIAS Y PUEBLA

A Igreja de San Andres foi pura beleza. O peso do barroco hispânico mesclado à delicadeza da cerâmica. Ouro e cor. Anjos e santos aconchegados entre espelhos e cristais. Havia, lá fora, um burburinho de pássaros e, como havíamos chegado por volta das 12:30, de repente tudo se assustou com o bater dos sinos. Fazia calor.



Nosso grupo era pequeno. A família de colombianos observava detalhes, as chinesas tiravam fotos, o guia se dividia entre explicações em espanhol e inglês e eu me sentei num cantinho e rezei. Pedi coisas e agradeci por muitas outras. Lá fora, dois senhores cuidavam de um jardinzinho minguado pelo calor da estação.



Depois de algum tempo, o guia anunciou o próximo capitulo da jornada: Tonantzinla, un pequeño poblado donde se venera la Purisima Concepción de Maria. E completou a explicação nos dizendo que nesta igreja, de 1653, o trabalho foi feito pelos indígenas e poderíamos ver a mistura de imagens católicas com toda a tradição mexica. O sincretismo estético que para nós brasileiros se deu com os africanos, lá se passou com os índios. Oxomoco e Cipactonal como Adão e Eva.



Seguimos caminho entre ruazinhas estreitas e empoeiradas. Em algumas, uns restos de bandeirinhas penduradas eram indícios de festejos passados.



Pouco tempo depois chegamos a uma espécie de largo. De um lado uma vendinha, do outro a Igreja... pequena... Santa Maria Tonantzinla.



De imediato o guia nos informou que era terminantemente proibido tirar fotos do interior da igreja. (Desta vez o Google me ajudou com o registro de imagens, mas por mais que eu tenha buscado na rede, nenhuma foto consegue retratar o que eu vi.)



Fomos entrando por um jardinzinho e adentramos a igreja onde, junto ao altar, um professor de escola pública contava a um grupo de alunos a história do lugar. Não pude deixar de me lembrar de Roma e do Museu de Arte Moderna. Professores empenhados e o olhar vago e fluido dos alunos. Alguns copiavam as informações... (Há sempre alguns que as copiam).




Aos poucos meus sentidos foram abandonando os alunos e a voz compassada do professor e fui sendo envolvida pelas imagens. Anjinhos astecas com olhos bem grandes e cocares. Frutas e animais. Coroas e penas em ouro. Cor. Brilho. Estrelas do mar (simbolizando Maria), a palma do deserto (símbolo de castidade), águias e los xochipillis (meninos flor).



Difícil explicar a sensação. Era como se por um momento, tudo parasse para dar lugar a o que há de mágico e místico no ser humano. E a Virgem Tonantzin pousada em uma meia lua de ouro em sua gruta, Tlaloc.



Não me lembro se rezei.



O guia, com voz respeitosa, explicou que era hora de partir. Próxima parada, La Iglesia de La Virgen de Los Remedios. A igreja em cima da pirâmide. Ai, meu Deus!!!!



Quando entrei na camionete, ainda fiz uma última tentativa: ?Señor Álvaro, en serio vamos a subir la pirâmide a pie? O guia aproveitou minha dica para dizer como seria a próxima etapa do tour. A van nos deixaria na base da pirâmide e seguiria para um outro lugar, onde nos encontraria mais tarde. Subiríamos bem devagar, apreciando a paisagem. Uma e meia da tarde. Sol e calor.



Chegamos a um cruzamento e a camionete parou. Todos saímos. Eu agarrada a uma garrafinha de água e a meu bonezinho cor de rosa com a inscrição Hola México. Começamos a subir.


Eu me impedia de pensar que estava a mais de dois mil metros de altura, a sol a pino, em uma tarde super seca, subindo uma pirâmide. Não posso pensar senão tenho um ataque de pânico. Não posso pensar. Olha a paisagem. Olha a paisagem.



Aos poucos meus companheiros de jornada iam se afastando de mim. Colombianos e chineses se mostravam bem mais em forma que eu. Não posso pensar...



A paisagem era bonita. A cidade ia se espraiando a nossos pés. E de repente o guia parou. Pensei que era por comiseração a minha alma, mas ele queria nos mostrar algo.



Sentado à sombra de uma das poucas árvores, estava um senhor (índio?) com seu sombrero e sua mercancia. Frutas e umas coisinhas que pareciam uns camarõezinhos secos. O guia nos explicou que eram chapulines. Em bom português, uma espécie de grilo das plantações de milho. Come. Pode comer, dizia nosso guia. É limpo. O problema não era a limpeza do bicho e sim a sujeira das mãos do vendedor que, pressuroso, nos ofertava a guloseima na palma de sua mão. As chinesas sequer olharam o acepipe e os colombianos fizeram cara de nojo e retomaram a subida. Pensei, se não como, voltamos a subir e eu ainda estou sem fôlego. Encarei o bicho. Salgado e crocante, foi se derretendo na minha boca. Engoli. Tomei um gole d’água e entabulei uma conversa com o índio até me sentir menos cansada.



Voltamos a subir.



Dali para a frente, foi puro esforço e determinação. Comecei a pensar em Regina me ajudando a subir a pirâmide do sol em Teotihuacan há muitos anos atrás. Vai, você consegue. Vai. Os companheiros me esperaram ao sopé da igreja. Cheguei. Agora só faltava subir um lance de escadas. Me deixaram e se foram. Subi e cheguei. Cheguei a um pátio. Cheguei à porta da igreja. Cheguei no topo da pirâmide. Cheguei.



Enquanto os outros desfrutavam da paisagem, eu me refazia da subida e constatava que a bateria da máquina estava acabando. Nem liguei. Se não tivesse fotos, tudo bem. Eu estava lá. (Mais uma vez o Google me ajudou neste registro de fotos).



Entramos na igreja e, pela primeira vez, o guia se persignou. Diante de nós a imagem milagrosa de La Virgen de los Remédios.



Depois de algum tempo, ele nos convidou a entrar por uma portinha lateral ao altar onde estava escrito: el camarin de la virgen. Na saletinha havia dois armários. Um, com as roupas da imagem. A cada ano ela troca de roupa. Tem até mordomo. O outro, com outras três imagens da Virgem. O guia nos explicou que eram os clones da original e que são essas imagens que itineram por diferentes partes do país.



Depois desta sala, fomos a outra. Na verdade, os fundos do altar. Uma pequena capelinha e lá podíamos subir até o altar e tocar o manto da imagem. Toquem e façam seus pedidos.



Lá, dependurada naquela escadinha estreita, espremida entre parede e vidro, eu fiz muitos pedidos e pensei em muita gente. Foi bom estar ali.



A descida foi mais fácil e ainda deu tempo de ver parte do sítio arqueológico que está junto à pirâmide.



A camionete já estava nos esperando e de Cholula seguimos para Puebla. Um trajeto rápido de uns vinte minutos.



Puebla, que tinha sido a razão da viagem, na verdade, se transformou em mero desfecho para o passeio.



Não que fosse feia. Nada disso. Cidade gostosa e com um centro histórico bastante interessante. O problema é que estávamos (todos) muito cansados. Almoçamos um maravilhoso pollo con mole. Afinal, foi em Puebla que inventaram o mole. Caminhamos por suas ruas. Visitamos um mercado de artesanias a céu aberto. Visitamos uma fábrica de cerâmica Talavera e passeamos por calles muy dulces. Explico, em Puebla há ruas onde só há lojas de doces típicos da região. Foi em uma dessas ruas que vi pessoas tomando sorvete com pimenta... Bem, afinal, estávamos no México.





Fechamos o dia e o passeio na praça principal da cidade, junto à catedral. Grande, sóbria, sólida.



Enquanto a camionete nos levava de volta à Ciudad de México, eu olhava a paisagem pela janela e pensava que em algum lugar ali perto, anjinhos astecas com seus penachos de ouro brincavam entre frutos, flores e animais.
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quinta-feira, 10 de junho de 2010

A CAMINHO DE CHOLULA Y PUEBLA

Desde a outra vez que visitei o México, tinha vontade de conhecer Puebla. Realmente não sei o por quê da curiosidade. Talvez pelo nome. Ou talvez porque muitos mexicanos da Cidade do México, quando falam do lugar, reviram os olhos e complementam com um !A mí me gustaria mucho vivir en Puebla!



Desta vez, portanto, não me fiz de rogada e separei um dia para visitar a cidade.



Com rapidez, resolvi tudo no hotel e, no dia seguinte, acordei bem cedo para não me atrasar, pois o guia viria me buscar por volta das 7:30. Nem tomei café com Silvio, tal a minha ansiedade.



Tenho certeza que carrego em mim um gen britânico que me exige estar pontualmente em todos os meus compromissos. Mesmo aqueles em que sei que terei de esperar muuiiiitttoooo! Exemplos clássicos, Itália, Brasil, Venezuela e o México não seria exceção.



Às 7:30, estava eu prontinha no hall do hotel. O rapaz da recepção me pediu para sentar e esperar um pouco, pois, devido ao trânsito (sempre o trânsito), o guia iría se atrasar um pouco. E, em tom amigável, me perguntou se eu iría também a Cholula. Apesar de não ter idéia do que era ou onde ficava Cholula, confirmei que o passeio contemplava o lugar. O rapaz sorriu e me garantiu que eu iria gostar muito do tour.



Sentei, comecei a ler o jornal e esperei. Lá fora, o friozinho da manhã dava lugar a um dia de primavera mexicana, azul e quente.



Até que não atrasou muito e, lá pelas oito, um senhor de seus quarenta anos começou a perscrutar pelas cadeiras a procura da senhora Patricia Costa... eu.



As coisas começavam bem, sem muito atraso.



Encontramos outro hóspede, um gordinho que eu já tinha visto na piscina, e partimos. Quer dizer, começamos a tentar partir.



O guia nos informou que iríamos coletar outros hóspedes, em outros hotéis e depois iríamos para o escritório central da empresa onde, só então, seríamos alocados nas camionetes que nos levariam a nossos tours. Logo percebi que em nosso micro-ônibus havia gente que iria a Teotihuacan (as pirâmides), outros estavam interessados no centro histórico e museu de antropologia, outros iriam a Cuernavaca (minha próxima meta, em próxima visita) e outros, incluindo eu e duas orientais parecendo mãe e filha, iríamos a Puebla (e Cholula, é claro).



Enquanto o guia nos falava, o deus sol se apresentava em sua plenitude.



Para quem esperava partir do hotel direto para Puebla às 7:30 da manhã, o fato de já ser quase nove horas e de continuarmos emaranhados no trânsito matinal de Polanco dava para preocupar um pouco, mas turista é turista e tem que ter jogo de cintura.



Então o celular do guia tocou e eu não acreditei no que ouvi. O celular era daqueles de empresa que é como um rádio e alto e em bom som o escritório central pedia que nós voltássemos ao Hotel Nikko, o meu hotel, ponto inicial e alguns milhares de carros engarrafados atrás, para buscar dois outros clientes. Tremi nas bases ao ver o reverberar do sol do outro lado do vidro. Fazia calor.



Chegamos ao ponto de partida e o guia saiu a procura dos outros turistas que, depois de irritantes minutos de espera, se apresentaram lépidas e fagueiras. Uma mulher de meia idade e sua mãe. Todos nós tivemos de esperar até que as duas terminassem o seu café.



Saímos novamente do hotel e caímos novamente no emaranhado matinal de carros em Polanco em direção ao centro da cidade, ao escritório central.



A essa altura, eu queria, mas meu gen britânico não me permitiu, checar a hora. Na van, o ar condicionado no máximo trazia um certo aconchego. O motorista, o guia, as orientais, eu, o gordinho da piscina, um italiano bronzeado e a filha e a mãe éramos quase uma família. E neste idílio, chegamos ao escritório central.



O lugar era apertado e estava repleto de turistas que, aos poucos, foram sendo alocados em seus devidos transportes. No meu caso, eram as orientais, eu e uma família colombiana com um montão de malas. Estavam indo a um casamento em Puebla e depois iriam para Cancún.



Todos acomodados... Agora vai! E foi aí que o colombiano sussurrou algo no ouvido do guia e saiu da camionete. O guia entrou na van, se desculpou pelo atraso e nos explicou que o senhor colombiano ia trocar algum dinheiro, mas que seria rápido.



Enquanto o sol da primavera mexicana se apresentava em todo o seu esplendor, e exatamente quando o colombiano subiu na camionete, desobedeci a meu gen britânico e olhei o relógio. Dez para as dez em ponto. O motorista ligou o motor e partimos.



Enquanto saímos da cidade, o guia foi fazendo as apresentações: brasileira, colombianos e orientais de Singapura. Em uma mescla de espanhol e inglês foi dando as explicações iniciais. Tomaríamos a autoestrada e, em duas horas, chegaríamos a Cholula. Isto é, ao meio dia em ponto. À hora do deus sol em todo o seu poderio. Segurei angustiada meu bonezinho cor de rosa com a inscrição Hola México. Por que não comprei de lembrança um sombrero com aba bem larga?



Ao longo do caminho fomos nos entrosando e eu nem queria mais matar os colombianos pelo atraso. O fato de eu viver na Venezuela nos aproximou e passamos um bom tempo falando de eleições, fronteiras e Cartagena de las Índias. As orientais queriam saber dos vulcões que ficam no caminho.



Fizemos uma parada para um café, servicios (banheiros) e vulcões. O guia nos explicou que de ali, às vezes, dava para vê-los. O problema era a neblina, que, naquele lugar, eu não sabia se era da poluição ou do clima. A olho nu dava para ver alguma coisa, mas nem as câmeras super potentes das orientais conseguiram registrar nosso contato com o Popocatépetl e o Iztaccihuatl.



Seguimos viagem e, quando já estávamos chegando a Cholula, o guia passou a nos dar informações sobre o que visitaríamos na cidade. Três igrejas. A primeira do século XVI, a segunda feita pelos índios e a terceira ... Aí meu Deus! Não pode ser verdade... É uma brincadeira... E a terceira, a de La Virgen de Los Remédios, do século XVII/XVIII, e que fica no alto de uma das pirâmides mais altas do México. Vamos a subirla de espacio. En veinte minutos ya estaremos arriba. Seguro que todos traeron agua.



Chegamos a Cholula ao meio dia em ponto. Sol a pino. A cidade divida entre uma parte moderna e uma outra feita de casinhas baixas, geminadas. Ruas poeirentas e algumas com bandeirinhas, lembrando nossas festas de São João. Tomamos uma estradinha em direção a primeira igreja... A de San Andres. Toda em cerâmica. Apesar de todo o calor, a visão foi de sonho.



Assim começava o recorrido... Ainda me esperava muito mais!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AGORA MÉXICO?!?!?!


Não esquentei o lugar em Caracas e Silvio foi me dizendo que estava indo ao México. Para não fugir à tradição, fiz minhas malas e embarquei com ele. Decididamente o ano de 2010 mais parece um tempo de peregrinação que qualquer outra coisa. Não possso reclamar, afinal, quando larguei tudo no Brasil tinha como principal meta viajar muito e estou me tornando uma PhD em deslocamentos rápidos e inesperados. Se necessitarem de mim como voluntária para testes de teletransporte, podem contar comigo.



O voo foi tranquilo e, quando o comandante nos informou que começavámos a descer, experimentei mergulhar na Ciudad de México.



Desde o alto, a cidade é sólida. Havia uma camada de poluição de fazer inveja a São Paulo em seus melhores dias de inversão térmica. Fui fotografando a descida. O contraste entre o céu azul e o azul enevoado. Aos poucos, podia ver a cidade se apresentando em toda a sua imensidão de ruas, viadutos, muitos carros, prédios modernos e antigos. Do alto não consegui ver o Zocalo, a principal praça da cidade e uma das maiores do mundo. O Zocalo ficaria para mais tarde.



Diferente de Caracas, o aeroporto fica dentro da cidade, ou melhor, com o passar do tempo, a cidade foi envolvendo o aeroporto. Chegamos, e depois de passar pelos trâmites oficiais, tomamos um taxi para o hotel. A chuvinha fina que começou a cair e o grande engarrafamento em que nos metemos me faziam sentir que eu estava em São Paulo e, logo logo chegaria a Moema. E cheguei... Nosso hotel fica em Polanco, um bairro que me lembrou muito Moema.



Chegamos cansados ao hotel, provavelmente pela altura. Estamos acostumados aos mil metros de Caracas e toma um tempinho para encarar o dobro, os dois mil e quatrocentos metros da cidade.



Descansamos o resto do dia e no dia seguinte saimos para dar um rolê pela cidade. Senhor Diódoro, o taxista, foi nos mostrando os principais pontos até que chegamos a Coyoacán. E foi lá que me reencontrei com um delioso momento de minha vida.



Em 2003, estive no México para participar de um congresso. Comigo estava um grupo enorme da Cultura e, na última tarde, antes de embarcarmos, eu e Ricardo, meu amigo/irmão, comemos em Coyoacán, depois de disfrutarmos da Casa Azul, morada de Frida Kahlo, um pollo con mole inesquecivel. (Amigo Ricardo, lembrei muito de você enquanto via novamente a pracinha, o coreto e a igreja que fazem do bairro um lugar tão especial. Lembro que comentei com você que gostaria de morar ali. Coisas da vida...)



Os dias que se seguiram ficaram por conta dos arredores do Parque Chapultepec e do Museu de Arqueologia. Até que na segunda feira à noite, Silvio começou a se sentir mal. Seria a famosa maldição de Metezuma? E ele nem tinha abusado da comida e da pimenta. Mas não teve jeito, passou a terça-feira, seu aniversário, de molho na cama à base de consomé de pollo. Solidária, permaneci a seu lado como china poblanera, isto é, fiel mocama.



E chegou a quarta-feira e, talvez por obrigação do trabalho, Silvio ficou um pouquinho melhor e partiu para suas reuniões. Ele para o trabalho e eu para o meu oficio de perambular por cidades. Tomei um Turibus na frente do Auditório e, encaripitada lá no segundo andar, fui vendo e revendo a cidade.



Três horas e meia de fotos, descobertas e anotações. O transito é infernal, isto eu já sabia, mas, entre barraquinhas coloridas, bozinas, vozeirio, calor e uma manifestação contra as privatizações, fui vendo muitos namorados em pleno idilio na hora do almoço (como eles se beijam na boca!!!), mulheres com suas sombrinhas para se protegerem do sol, restaurantes com cadeiras na calçada em recantos sombreados, monumentos de bronze, fontes, edificios super modernos, parques, praças... e tudo ao som de um som recorrente que me acompanhou por quase todo o passeio. Homens simples com seus chapéus de aba larga tocando seus realejos. Talvez as pessoas não se apercebam diante da enormidade da cidade, do cenário, mas há muitos realejos por aqui. Muitos.



Tantos que, aos poucos, foi me dando uma vontade danada de escrever um texto, um poema, sei lá... Se chamaria A Cidade dos Realejos. Quem sabe um dia...



A Cidade dos Realejos... Dava também um bom nome para um novo blog ... pblower-acidadedosrealejos.blogspot.com. Quem sabe um dia eu crie este blog. Um dia... Quem sabe...

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)