sexta-feira, 29 de outubro de 2010

AINDA DÁ TEMPO... AINDA É SEXTA-FEIRA



quase fiquei devendo
por pouco
por pouco mesmo
mas ainda é sexta-feira

Em noite sem lua cheia
o céu se enluarou
e eu fiquei aluada
perdida
perdida mesmo
é sério...descaminhei

um torvelinho de histórias
(como dedos de avó)
trançaram meus pensamentos
lembranças e reencontros
queridos amigos queridos

e depois
da imigração
do avião
da turbulencia
depois
do desayuno
a dez mil pés de altura
pousei o corpo e os olhos
no olhar da minha tribo
meus índios e carapálidas
queridos amigos queridos

ainda é noite
ainda é sexta
cumpri a promessa
de um texto prometido

é bom chegar
muito bom
é bom voltar
muito bom

e enquanto laço e entrelaço palavras
na busca da poesia
a noite se enluarou
aluada noite morna
perdida
descaminhada
neste quase fim de dia





(Foto [perfeita] retirada do Google images. Foto do jornal O Povo)


(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

MORIDO (PALAVRA INVENTADA)


Dizem que uma foto vale por mil palavras, imaginem nove fotos!
Mais do que uma simples conta de multiplicar, neste caso, estas nove fotos têm uma eloquencia infinita e, no infinito silêncio da sala de exposição, se contaram e nos contaram palavra a palavra, idéia a idéia, conceito a conceito.
Arte!

Viajar tem dessas coisas... O convívio com as surpresas, com o inesperado. Quando vim para o México desta vez, não imaginava que iria passar uma deliciosa manhã visitando a XIV Bienal de Fotografía, no Centro de la Imagen del Centro Nacional de las Artes que fica na Plaza de la Ciudadela 2, Centro Histórico 2, Mexico DF (metro Balderas).

Tão logo cheguei ao México desta vez, entrei em contato com Vilma, amiga que fiz na Venezuela e que agora está morando por aqui. Foi bom encontrá-la, porque a dona de casa venezuelana, deu lugar novamente à professora de fotografia da universidade gaúcha. E com que prazer ela me falou de suas aulas, de suas idéias, do que andava fazendo. Vilma, professora e fotógrafa... artista. Foi ela que me falou da exposição. Como adoro fotografia, sem nenhum pudor, me inclui na visita que ela iria fazer à Bienal com duas de suas alunas.

Como chegamos cedo, ainda deu tempo de perambularmos um pouco pelo mercado La Ciudadela que fica ao lado de onde estava a exposição. Conversávamos entre corredores repletos de artesanías, cerâmicas, couro, comidas e espelhos. Depois, foi só dar uma corridinha e já estávamos na Bienal.

Só o prédio do Centro de la Imagen, já é uma experiência estética. É como ir ver arte na Pinacoteca de São Paulo, a arte começa na arquitetura do lugar.

Fomos nos perdendo por corredores e fotos. Instalações visuais, experiências. Paredes antigas, tetos de madeira gasta e muito vidro e metal serviam de cenário. Caminhamos ... Às vezes parávamos para Vilma nos explicar uma coisa ou simplesmente para olhar. Cor, luz, sombra, contrastes e muita violência. Chama a atenção como a violência que o pais está vivendo impregnava o trabalho dos artistas. (E como mexicano não tem pudor com a morte... lá estava ela, nas fotos, sem nenhum pudor.)

Até que diante de nós estava um conjunto com nove fotos em preto e branco. Fotos de crianças. Tudo bem equibrado, meninos e meninas, contraste na cor das roupas, uma aura ao redor de cada uma delas. Mas afinal do que se tratava? Em um pequeno texto, a artista, Claudia Hans, nos contava sua idéia - Morido, uma palavra inventada. A principio me assustei... Que maldade fazer isso com as criancinhas! Depois fui entendendo ... entendendo... e me vi nas tantas vezes que estive diante da precariedade da vida. E, diante de mim, nas fotos, estava a nossa eterna e etérea precariedade diante do irreversivel. E como cada um de nós reage ... Nós, pobres mortais.

(Querem um tempo para observar as fotos? Então voltem a elas. Ampliem a foto.)

Isso mesmo, cada criança foi colocada diante de um pássaro morto. Isso mesmo. E só. Arte.

No mais, não quero falar mais nada. Não preciso. Afinal... uma foto vale por mil palavras. Imaginem nove, flagradas pelo silencioso olhar da artista.

Nota: Não sei se há implicações de direitos autorais pela reprodução das fotos, de qualquer forma anexo a página da artista http://www.claudiahans.com onde está apresentado o trabalho.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

MUITOS RESGATES


Quando viajei para o México, tinha muitos planos de passeios. Afinal, já é quase uma tradição de há séculos, enquanto Silvio trabalha, eu tiro os dias para descobrir lugares. Desta vez não seria diferente.

Por causa das outras vindas à Cidade do México, já conheço bastante de suas colonias, calles, plazas y parques. Já conheço muito de seus pueblos vizinhos, mas, com imaginação, sempre dá para ver novas coisas. Ou rever outras que sempre serão bem vindas ao olhar. 

Mas... como se diz por aí, "o homem põe e Deus dispõe". E foi isso que aconteceu.

Até domingo de manhã as coisas estavam bem, mas de tarde, Silvio começou a sentir dores fortes nas pernas. Tivemos uma noite, daquelas que a gente quer por tudo esquecer, mas, na segunda feira, ele, todo engravatado, me avisou que iria trabalhar. Nem discuti, também já tive meus dias de workaholic, e sei que quando a gente cisma com uma coisa, não há Cristo que nos faça mudar de idéia. Mas...'" o homem põe e Deus dispõe."

De tarde, ele me ligou dizendo que ia ao médico, não estava aguentando a dor. (Esta é a única coisa ruim de se estar fora de nosso país, ficar doente. Dá uma angustiante sensação de abandono...)

Quando chegou em "casa", trazia muitos remédios e um diagnóstico: inflamação do nervo ciático. (Pode????)

Os remédios lhe deram uma noite mais tranquila, mas de manhã, não houve vicio que o fizesse se engravatar novamente e ir trabalhar. Podia ficar de pé, podia se deitar, mas sentar... bem, nem com almofadinha ergométrica.

O que lhe restava era ficar deitado (e eu ao lado dele, por amor e solidariedade) e ver televisão.

Na CNN, o assunto do dia era o resgate dos 33 mineros chilenos previsto para durar em torno de dois dias. Portanto, tinhamos programação para as muitas próximas horas.

No anseio de desmentir Chico Buarque ("a dor da gente não sai no jornal"), a CNN e outros canais de televisão, esmiuçavam o passado de cada mineiro e de seus familiares, descreviam em detalhes (ainda que os mais sórdidos) o seu presente e especulavam, como mágicos oráculos, o seu futuro.

Nada passava desapercebido, ainda que os câmeras tivessem que se engalfinhar pelo ângulo mais preciso. Da progressiva exaustão do presidente, às lágrimas e sorrisos angustiados dos familiares. 

E começou o resgate. O primeiro resgatista desceu, lentamente, até o refúgio. Com sua chegada, apresentada ao vivo e a cores, graças ao advento das fibras óticas,  os mineiros choraram, eu chorei e o mundo se comoveu em edição extraordinária.

E subiu o primeiro mineiro, lentamente. A tensão era grande. Por quase vinte minutos, esperamos até que a sirene tocasse, indicando a chegada à superficie do primeiro herói. E ele chegou, trazendo palmas, cânticos, abraços e beijos e também enevitáveis comentários dos jornalistas. É um novo nascimento!!!! A mãe terra parindo seus filhos/heróis. O drama épico ao vivo e a cores.

E assim foi se passando o tempo. Às vezes, já era novamente hora de Silvio tomar remédio.

Um a um, os mineiros iam chegando com seus óculos escuros e sua força  e coragem. Sem dúvida, foram, são heróis. Sobreviveram a dezessete dias perdidos e sem comunicação. Sobreviveram à espera de que uma sonda chegasse a seu refúgio. Sobreviveram à escuridão e a fome. Sobreviveram às promessas de que jamais outro acidente como este acontecerá. Sobreviveram às mazelas da pele e dos dentes. Sobreviveram à claustrofóbica subida pelas entranhas da terra. Sobreviveram.

Enquanto Silvio dormia e eu assistia ao resgate, terceiro evento mais visto em toda a história da televisão, eu ficava pensando no Day After. Temi pela sobrevivencia dos trinta e três ao assédio enlouquecido da mídia, à barganha pelo melhor contrato para a filmagem do evento, para o best-seller, para a propaganda dos óculos escuros, dos macacões térmicos. E tudo tendo que ser feito com a maior rapidez, porque o ser humano está ficando com a memória cada vez mais fraca e, se já passou uma semana, já é página virada. Quem? Mineiros? Chile? Onde?

Quem, agora, poderá resgatá-los de seu destino inexorável? Serão eles capazes de sobreviver a essa nova mina? ... Que dizem ser de ouro?

É... continuo concordando com Chico Buarque... "a dor da gente não sai no jornal". (E nem na CNN, apesar de todos os esforços de reportagem).

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

UM CANTINHO EM POLANCO




A foto é a entrada do Obelisk Residencal, que fica na Calle Julio Verne 28. Um apart hotel em Polanco, uma das colonias, bairros da Cidade do México. Desde ontem, meu cantinho. (Agora mesmo, escrevendo este texto, estou por detrás das cortinas do segundo balcón).  

A vida é cheia de atalhos e surpresas que ninguém pode explicar. Êta vida engraçada! A primeira vez que estive na Cidade do México, em 2003, conheci o lugar nos intervalos de um Congresso sobre ensino de inglês e me encantei com uns cantinhos que se escondem por trás de seu caos urbano. Coyoacán (onde fica a Casa Azul de Frida Kallo) e Polanco.

O que me encantou em Polanco, mais que sua proximidade com o Parque Chapultepec, com seus Museus e Palácios, foi o seu ambiente. Casas antigas ou edificios mais baixos, quase todos de dois ou tres andares e ruas arborizadas, todas com nomes de escritores, filósofos e pensadores. A gente sai da Calderon de la Barca e, se vira para a direita, cai na La Fontaine, se vira para a esquerda, se encontra na Edgar Allan Poe. A Tolstoi faz cruzamento com a Dante, que por sua vez vai dar na Vitor Hugo.

É bom caminhar por aqui. Ir vendo as coisas do bairro. Na Av. Moliere estão as lojas das grandes grífes e o Plaza Moliere, um centro comercial pequeno mas bem charmozinho. Porém, se se quer consumir pesado, é só seguir em frente e ao final da avenida encontramos o Antara Polanco, um shopping para ninguém botar defeito. 



Mas o que realmente me encanta na região é o verde, de praças, parques, de muitas árvores, que, diariamente, têm um embate feroz com os milhares de carros que invadem as ruas estreitas de Polanco nas horas de rush

É esse contraste, um dos muitos que existem por aqui, que faz com que eu  sempre me encante com a cidade. Uma cidade enorme. Nascida de um lago. Parida por crenças e lendas. Vizinha a pirâmides e templos. Uma cidade com suas igrejas, deuses, realejos e problemas. Uma cidade encrustada na América Latina. Esta América que não consegue lapidar sua riquesa bruta. Ainda hoje, tão bruta.

Esperem!.... Não vou cair nesta armadilha. Me nego a tecer comentários histórico-sociológicos. O texto é só para marcar o segundo ano do blog. O segundo aniversário deste espaço virtual onde vou registrando meus tantos encontros, reencontros e desencontros com as coisas da vida.

Quando sai de Caracas, pensei muito em acabar com o blog, ou talvez criar outro. Não via sentido em continuar.  Quase me neguei a ouvir as palavras de estímulo e convencimento da montanha.

Mas agora, diante deste outro balcón, olhando este verde cosmopolita e urbano que não tem nada a ver com o da Cordilheira da Costa, mas que também me acalma e me instiga, acendo as velinhas e celebro, com quem quiser participar desta festa, o segundo aniversário do À Vista del Ávila... !!!Feliz cumpleaños amigo!!!  


É... A vida é mesmo cheia de atalhos ... Êta vida engraçada!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ANTIGOS PAPÉIS


Casa nova, vida nova. Assim diz o ditado. E casa muito nova... novinha, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, significa uma casa, como direi, compacta. Há piscina, sauna, espaço gourmet, brinquedoteca, área zen e muito mais... Mas espaço que é bom para colocar tudo que a gente tem... Bem, aí são outros 500 metros quadrados.

Então, cá estou eu em plena cápsula, mais uma vez tentando abrir espaços... e caminhos para uma mudança que já saiu da Venezuela e que ameaça chegar em meu moderno e compacto "3 quartos" sem que eu tenha tido tempo de me desfazer de tudo que ainda preciso descartar. (O que me apavora mais são as coisas de Silvio. Uma papelada amorfa e caótica que deve ser preservada por razões metafísicas.)

De minha parte, estou fazendo o melhor que posso. Enquanto lidava com louças e móveis, a coisa foi fluindo bem, mas agora entrei em território delicado e perigoso... meus livros e meus papéis... meus escritos. Tudo no original. Muita folha paltata coberta por uma letra corrida, às vezes tímida, às vezes arrogante. Letra de menina que começa a contar sua história, letra de jovem que vai mudar o mundo no grito. A maioria das coisas escrita a lápis, que foi assim que eu sempre gostei de me escrever. Tres, quatro versões de um mesmo texto. A busca pela palavra exata. Risco, rabiscos, imprecisões.

Em uma folha de fichario encontro o original de Oráculo, meu primeiro great hit. O título original era "Nostradamus no Fantástico", a data 1974. Eu tinha dezesseis anos e, apocalíptica, anunciava: Somos os dos últimos tempos...

Fiquei olhando o papel e me revisitando. O meu rosto e minha alma iam mudando em frações de segundos. Da menina que naquela noite escreveu o poema até aquela mulher, que há uns sete anos atrás, disse pela última vez o mesmo texto para uma platéia de adolescentes como ela um dia havia sido. No final da palestra, uma menina de seus dezesseis anos foi falar comigo e me disse: Gostei muito daquele poema... Aquele... Somos os dos últimos tempos... E eu sorri e agradeci orgulhosa. O texto continuava vivo.

E agora aquele original em minha mão... Rasgo ou não rasgo? Quem vai se interessar por este papel amarelado? O poema já foi publicado. O registro já foi feito e afinal... outras gerações vieram. Não éramos os dos últimos tempos, mesmo que não se pueda volver a los diesisiete. Sempre haverá outras meninas e outros textos apocalipticos.

Virava e revirava o texto em minhas mãos. Vai Patricia, pára com isso. Rasga e pronto. Há que abrir espaços para outras coisas. Rasga.

Rasguei outros originais. E cópias feitas a mimiógrafo e xerox. Papéis antigos, amarguradamente amarelos. Outros textos. Outras histórias. Outros momentos de mim. Às vezes, eu era capaz de me lembrar do momento exato em que havia escrito um determinado poema, outras... ficava olhando para a folha, as letras rabiscadas e não lembrava mais. Tinha ficado só o texto como que descolado de mim.

Esbarrei novamente com a folha de fichario... Somos os dos últimos tempos...

Vai, Patricia. Rasga. O mundo não vai parar se você rasgar esta folha de papel. Não há para quem legar garatujas e folhas amareladas... Rasga.

Não importa se rasguei ou não o papel, mas o que sei é que há pastas que devem ser queimadas sem serem abertas... Queimadas vivas... Como se fazia com as bruxas medievais.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)





quinta-feira, 23 de setembro de 2010

E JÁ É PRIMAVERA


Não deu tempo para escrever um texto. Os últimos dias foram dedicados a papéis, burocracia, negociações... até que consegui comprar um apartamento. Foi também tempo de começar a descobrir e entender o novo espaço. Novo, bem novinho, primeira locação.

Só ontem, depois de conseguir fazer o pedido para a ligação da luz e após uma longa conversa, bastante profícua, com a arquiteta que vai ficar responsável pelos últimos retoques,  foi que tive uma leve sensação de tranquilidade. 

Na verdade, tinha tido uma idéia para um novo texto, mas textos, como frutas, têm que amadurecer e só então dá para a gente enfiar os dentes no doce de sua polpa. Ainda estava verdinho...

Então, como já é primavera, tiro do fundo de meu baú um poema antiguinho, mas que é um dos meus favoritos...

JOÃO E MARIA

Sim... as janelas da casa vão estar sempre abertas
e deixarei migalhas de sonhos pelo caminho

Não usarei perfume
mas haverá uma flor em cada vaso
em cada canto do jardim

Sim... providenciarei primavers
um quê de música e muito céu azul

Não me farei bonita
mas estarei plena

Ao chegar
não bata à porta
ela estará entreaberta

Entre em silêncio...
Com um sorriso...

Assim...

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

AREPA, A GATA QUE EU NUNCA TIVE

Não posso dizer que foi amor à primeira vista. Não. Na verdade, foi mais um susto. Um por acaso. Há uns dois meses atrás, eu estava saindo do apartamento às quatro e meia da manhã para pegar um vôo para o Brasil e, de repente, lá estava ele, entre meus pés. Pequeno. Ainda filhote. E muito feio. No lusco fusco do amanhecer, pensei que era um rato que se metia entre minhas pernas. Eu gritei. Ele berrou mais alto. Assim nos conhecemos.



Quando voltei, umas semanas depois, a primeira coisa que vi na porta do edifício foi aquele gato esmirrado, com a pelagem falhada (será que era sarna?). Enquanto retirávamos as bagagens, o bicho não se fez de rogado, foi se chegando e se acarinhou em minhas pernas. Miava baixinho, como se dissesse Olha pra mim, me dá colo. Eu te escolhi. E eu nada, durona. (E se o bicho estivesse com sarna?)

Foi só com o passar dos dias que descobri que as falhas na pelagem eram mais resultado de machucados, talvez ataques de outros bichos, do que de qualquer problema na pele.



Era um filhote de rua. Sem nenhuma proteção. Entregue a sua própria sorte, ou... a seu azar.



Os dias passavam e o bicho sempre rondando o edifício e, em especial, a mim. Eu chegava e do nada lá vinha ele, miando saudações. Fui me apegando...

Lhe batizei de Arepa e pedi que Jarol, o zelador,  desse um pouco de água e comida para ele. Es una hembra, señora Patricia. Una hembra.

Uma gatinha. Arepa. Fui me apegando, mas... não havia mais tempo. A mudança já estava por sair. O período na Venezuela tinha acabado. Seria impossível arrumar a papelada que se necessita para se levar um animal de um país para outro. Não... Arepa não podia vir comigo.


Os dias passavam e ela ia engordando como podia. A pelagem melhorou, mais ainda tinha cicatrizes.


Agora era eu que a saudava primeiro, quando chegava em casa. Hola,Arepa.?Como estás? E ela me afagava com os seus miadinhos.


Às vezes, porém, olhava fixamente para mim e miava alto. Um grito urgente de quem sabe que não tem muito tempo. Era como se me dissesse .... E agora? Que eu faço? Era como se me perguntasse ... O que você vai fazer comigo... por mim? Era como se me pedisse... Me leva com você!


No dia em que entreguei o apartamento, ela me seguiu por todo o tempo. De súbito, tomou toda coragem do mundo e num salto, pulou no meu colo. Senti suas unhas se entranhando na trama do jeans. Sua última chance. Me leva! Me implorou com seu rabo espigado. Me leva! E roçou o focinho em minha blusa. Me leva!


Me levantei... Arepa, no puedo. No puedo , Arepa.!Vete de aqui!


O dono do apartamento chegou e subimos para eu entregar o imóvel. A última visão que tive de Arepa foi seu caminhar arrastado. Foi diminuindo o passo... Até que ficou para trás... Para sempre.



O dono do apartamento falando e eu longe, querendo ser criança de novo. Criança manhosa e mimada. Me atiraria no chão, berrando bem alto Eu quero a gatinha!!! Ela é minha!!!! É minha amiguinha!!!! Eu quero!!!! Quero!!!!


A vida é muito engraçada. É irônica. É cruel. Se Arepa tivesse chegado quatro anos antes, eu teria tido tempo de adotá-la. Quando partisse, ela viria comigo. Nem precisava pedir.

Mas não foi assim. A vida só nos deu um gostinho. Um exercício de separação e de saudade.

Eu tive cachorros que me amaram muito. Daquele amor de cachorro... sem pudor e sem condições, mas nenhum animal me olhou com tanto carinho como aquela gatinha magrela e esmirrada. Um amor tímido e sinuoso.

Arepa, a gata que eu nunca tive.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)