sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DIAS ALARANJADOS




Não sei se foram os dias muito corridos nestas últimas semanas ou talvez este outubro que escorreu entre os dedos numa velocidade de filme de ficção científica...



Ou quem sabe não foi esta seca fora de estação que faz com que já se anuncie em cadeia nacional um racionamento de água e de luz no país e que já me deixou tal qual sertaneja catando gotas em baldes há alguns dias atrás...

Ou talvez seja a proximidade de um novo Natal, novamente, uma data que não me cai muito bem já faz algum tempo...


Pode ter sido a ida ao Cementério (contra a vontade de Silvio), um mercado popular que fica em um bairro aqui de Caracas famoso pela violência. Um mercado onde se pode comprar de tudo a preços inacreditáveis. Uma babel de roupas e comidas. Uma mistura perfeita de Porto bello Road e Mercadão de Madureira...


Não sei ... O fato é que tenho andado cansada.

(Pode também ser a idade ... Que ninguém nos ouça.)


É um cansaço estranho que nem mesmo me sentar no balcón e ficar vendo a vista do Ávila consegue resolver. A cidade me parece mais congestionada e os venezuelanos um pouco mais impacientes, principalmente nos dias dos jogos da temporada de beisebol. (Ainda bem que os Leones estão ganhando!) Outro dia, só porque dei uma paradinha na rua, impedindo que todo o trânsito fluísse, uma coisinha rápida, já tinha um motorista atrás me gritando: !!!Arrecha!!! (Que seria algo como: Arrogante ou ... Fodona.) Me enfureci, me indignei, mas não sabia como responder ao insulto. De qualquer forma gritei: !!!Coño!!! Acho que funcionou, pois o motorista saiu ventando e fazendo gestos com as mãos que são conhecidos internacionalmente.


(Pode ser a idade sim ... Ando cansada e impaciente.)


Replantei minha hortinha há quase um mês: manjericão, salsa e chicória e nada das sementes brotarem. Faço tudo que meus sogros faziam quando estavam por aqui. Rego, ponho pra pegar sol, falo com a terra, suplico: Cresce. Nasce. E nada. Ou pior, estão saindo uns verdinhos que eu acho que é mato.


(É a idade... Ando muito impaciente.)


Podem também ser Los Dias Naranjos. Hoje, enquanto eu ouvia Contra Reloj, um de meus programas favoritos, ouvi uma entrevista com o produtor de um novo filme venezuelano sobre um de esses dias alaranjados. O filme trata de outras coisas, mas é verdade, tem amanhecido e entardecido mais cedo e o céu de seca assume esta cor sempre que o sol chega e se vai. Isto deve mexer com a gente.


(Não tem nada a ver com a idade.)


Tem a ver com o silêncio das tardes e também das manhãs. Por onde andam minhas amigas, las guacharacas,  que não as escuto ao amanhecer?

Está uma época estranha ... Não é a idade, não.


E aí me ponho em frente ao computador para escrever um novo texto. E não sai nada. Só a tela em branco me olhando de lado. Me desafiando... Vai arrecha. Escreve! E eu nada. Só olhando.


Quem sabe mais tarde, eu tento de novo. Sei lá, acho que o texto desta semana não sai não.

(in pblower-vistadelvila)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NOVAS ANTIGAS EXPERIÊNCIAS



Não tive muitos ônibus em minha vida, mas os que existiram foram inesquecíveis.



Me explico. Não sei se é assim com todo mundo, mas para mim, houve alguns ônibus (os seus trajetos, seus horários, as pessoas que usualmente encontrava neles) que me marcaram para sempre.


Não vou nem falar das recordações mais remotas da infância. A voz de papai dizendo: Vou pegar a amarelinha. Ou quando saía com mamãe e a gente comprava as fichas da lotação e depois as deixava cair em um vidro acestavado e fazia um barulho surdo ... Plom, plom, plom. As fichas tinham cores diferentes e como eu as desejava em silêncio. Eu costumava brincar de cobradora de ônibus com vovô Claudio e seria um sucesso ter as fichas para usar na brincadeira. Eu e as minhas idéias me menina.


Mas o primeiro ônibus em minha vida foi o 49. Um circular que nem sei se ainda existe em Niterói. Circulava de tal forma que quando se entrava no ônibus sempre se encontrava alguém conhecido. Como estava sempre cheio, ia todo mundo apertado, se esbarrando e os motoristas ainda davam umas freadinhas que empurravam as pessoas mais para frente, o que eles chamavam de freio de arrumação e aí dava para entrar mais gente. Pois foi o 49 o representante de um dos ritos de passagem em minha vida. Um dia mamãe me deu o dinheiro da merenda e o da passagem também e disse: Já tá na hora de você ir sozinha pra escola. Ali começou minha adolescência. (As coisas eram bem mais simples naquele tempo. Eu nem sabia, na época, que eu era uma pré-adolescente com grandes variações hormonais e com potencial de sofrer problemas existências que poderiam afetar minha psique para o resto da vida). Nada disso. Me senti uma adulta(!!), pegando o 49 sozinha.


Depois foram o 119 e o 154. Era meu primeiro ano de faculdade. Eu tomava a barca, fazia a travessia Niterói/Rio, aproveitava para estudar no percurso, pegava um dos ônibus para chegar à praia de Botafogo e, finalmente, chegar à universidade. Eu gostava mais do 154, era mais vazio. São inesquecíveis as manhãs de outono, quando passávamos pelo Aterro e uma névoa baixa, um resquício da noite, insistia em permanecer na paisagem. Era o ônibus correndo e a minha cabeça a mil... planos para futuras aulas, viagens desejadas, muitos poemas ... Todas as possibilidades da vida se abriam para mim naquelas manhãs.

No ano seguinte, decidi ir para a faculdade de 996. Não tomava mais a barca, atravessava a ponte, que, naquela época, eu achava engarrafada. (Que inocentes podem ser os jovens! Nos muitos anos que se seguiram enfrentei na ponte engarrafamentos antológicos). O 996 demorava e ainda demora tanto tempo para chegar a qualquer destino que se pode tomar decisões das mais profundas em seu percurso. Uma pessoa pode criar estratégias consistentes para mudar toda a sua vida entre a Praia de Icaraí e a Gávea. E foi no 996 que comecei a planejar minha primeira viagem à Europa e também fui visitada por inúmeros poemas inéditos. A cabeça ia encostada na janela, vento no rosto e as palavras fervilhando no cérebro.


Mas, no outro ano, comecei a ir para a faculdade de carro e me transformei no que sou ainda hoje, uma motorista compulsiva, um ente moderno feito de cabeça, tronco e rodas.


Tenho uma amiga que diz que tem dificuldades de andar de ônibus porque perdeu o timing entre tocar a campainha e sair no ponto desejado. Tenho o mesmo problema. Quanto tempo antes se deve avisar ao motorista que se quer saltar? Quando o ônibus está cheio então é um horror!



Passei muitos anos sem pisar em um ônibus e, portanto, quando cheguei a Caracas, nem cogitei de usar transporte público. Mesmo no tempo que fiquei sem carro por aqui, preferia contar com os táxis, que também são problemáticos, mas, pelo menos, eram meios mais conhecidos para mim.


O transporte público aqui deixa a desejar. Há o Metro (se diz métro) que é muito bom, moderno, mas que só atinge uma parte da cidade e está sempre, como eles dizem... full. Táxi não tem taxímetro e pode ser moderno e confortável ou absolutamente bandalha, em todos os sentidos. Há o Metrobus, excelente, mas que não chega onde moro. E, há os ônibus normais, menores e às vezes bem velhos: as camioneticas ou melhor dizendo ... las busetas. Tenho problemas para usá-las por muitas razões, mas acho que a principal é lingüística. Em bom espanhol, pegar um ônibus é tomar, ou pior, agarrar una buseta!!!!! Por mais cabeça aberta que eu seja, tenho dificuldades para perguntar as pessoas: Por favor, ?Donde se agarra la buseta para Bello Monte? Difícil, né?


Mas, naquele dia, Claudia, nossa professora, nos queria mostrar a cidade por outro ângulo. Sugeriu que fôssemos à Quinta Anaudo Arriba, a casa mais antiga de Caracas (1632) e que fica em San Bernardino, um bairro tradicional da cidade. Iríamos de carro até Sabana Grande, tomaríamos o Metro para o centro, tomaríamos um Metrobus até o Hotel Ávila, almoçaríamos no hotel e, depois, tomaríamos una camionetica (Claudia nunca diz buseta) até à Quinta.

No Metro, apesar de totalmente full, deu para eu matar saudades de Londres. O barulho do trem nos trilhos (caplac, caplac, caplac), o escuro e as luzes. Só não tinha o mind the gap. Eles não falam nada aqui. Cada um que cuide de si. No Metrobus, passando pelo centro, Ana e eu optamos por ficar em pé, perto do motorista, para ver todo o movimento da cidade. Chegamos ao hotel e o lugar era uma delícia. Um parque bem aos pés do Ávila. Almoçamos super bem e aí chegou a hora fatídica: !La hora de la buseta! Fiz de tudo para Claudia desistir. Propus pagar táxis para todas, mas ninguém me dava apoio e lá fomos nós para o ponto. Logo chegou uma camionetica que não era tão velha e não estava tão cheia. Não havia muita gente esperando na parada e, quando entramos, as amigas fizeram questão de me fotografar. Achei exótico o motorista estar acompanhado do Piu-Piu, mas mascotas são mascotas, não dá para questionar.


O trajeto foi rápido e, confesso, bastante interessante. A senhora sentada a meu lado, como boa venezuelana, imediatamente começou a conversar comigo. Me explicava onde estávamos e dizia das vantagens daquela buseta. Atendia a toda a região e era bastante barata.


Uns dois ou três pontos depois chegamos à Quinta e, depois da visita, regressamos ao ponto para o percurso de volta. A espera foi mais longa desta vez, mas valeu, pois a buseta que pegamos era super incrementada. Toda pintadinha de verde, com cortinas nas janelas, uma imagem de La Virgen de Coromoto e uma frase gravada junto ao vidro: En honor de mi hijo. Perguntamos a Claudia, mas nem ela sabia dizer se era uma homenagem póstuma ou uma celebração pelo nascimento do filho. Não importava. Ela também nos explicou que aquela buseta podia fazer transporte para outras cidades, pois tinha cortinas nas janelas, o que indicava que tinha autorização para tal.


E lá fomos nós, descendo e subindo ladeiras. As amigas fotografando, conversando, rindo, mexendo comigo. Mas, como o percurso era mais longo, foi todo mundo se calando e, de repente, me vi em uma cena antiga... a cabeça encostada no vidro, o vento no rosto, não havia mais planos de aula, nem mesmo o desejo de viagens, só meu olhar correndo a cidade, visitando o entardecer... E, aí, as palavras começaram a fervilhar...

(in pblower-vistadelvila)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

UM ANO DE BLOG



E já se passou um ano desde o primeiro texto. E já se passaram 54 textos! Quase três anos em Caracas e um ano cumplido, escrevendo o blog.

O primeiro texto, bem curtinho, uma tentativa de trabalho em um tipo de mídia tão novo para mim, dizia apenas:


Aqui começa a narrativa de minhas experiências e impressões vivendo junto à Cordilheira Del Ávila ou Warairarepano (El mar que se hizo tierra), a montanha mágica que abraça e observa a cidade de Caracas, Venezuela.
Será meu diário, algo que havia me prometido fazer há mais de um ano quando cheguei a Caracas. Só agora me disponho a fazê-lo. Espero que este registro possa ser para mim um bom companheiro de viagem!


E como tem sido parceiro e amigo este meu espaço virtual onde me conto e me encontro com amigos. Onde me aconchego, em meus silêncios, nas tardes de chuva; em minha alegria, quando o sol nasce iluminado; em minha eterna surpresa e deslumbramento, quando olho a Cordilheira da Costa e vejo, à distancia, o meu Cerro Ávila.


Na primeira apresentação do blog, eu informava que ele traria “Relatos de experiências e impressões de uma brasileira vivendo em Caracas, Venezuela.” E assim foi, no inicio, mas aí comecei a querer mais. Queria contar para além das fronteiras da cidade. Foi Eulália quem me propôs a mudança. Um dia ela me disse: "Amplia a apresentação" e então complementei: "E ainda ... eventuais poemas e outras histórias."


De um salto, cruzei a montanha e cai no Caribe e em um mar de possibilidades. De um salto, abri meu baú e me reencontrei com poemas escritos há tanto tempo. Uns ainda tão eu, outros, uma sombra de tempos passados (perdidos?).


A disciplina de trazer um novo texto a cada semana reativou em mim uma coisa que estava adormecida há tempos: o olhar atento ao detalhe, ao acaso, à surpresa. Olhar e ver. Ver para contar. E olhar para fora e para dentro. E perceber reflexos em espelhos, metais, estilhaços, vidraças ... Reflexos em profundas superfícies, como naquele texto sobre amigos:


Se amigo é casa, amizade, para mim, é uma vidraça muito transparente. E é no silêncio do vidro que se dá o encontro. Íntimo. Pleno. Muitas vezes, raro. Amizade que nos surpreende, nos emociona. Cúmplice superposição de almas.(in Amigo é Casa)

E ao longo deste ano, quantos encontros aconteceram. Lúcia e Bia, a quem fui apresentada via comentários e que depois encontrei pessoalmente numa deliciosa tarde no Rio. Elzinha, Marilia, Celina e Eulália, amigas/irmãs de tantos anos e que me visitam com íntima assiduidade. Mônica e seus comentários rápidos e precisos. Soraya, companheira de aventuras em terras caribenhas. Alzira (um gratissimo reencontro!) e suas observações feitas de contida emoção. E Cida Neves, que nunca aparece, mas que agora eu conto para vocês, me escreve (via email!) toda semana. O blog para nós serve de uma boa desculpa para matarmos saudades e colocarmos o assunto em dia.

Outros são invisíveis encontros. Como quando estou com alguém que me diz: "O texto desta semana foi ótimo!" Ou: "Leio seu blog toda semana."

 

E que gratas surpresas são as visitas esporádicas de Ricardo, Ana Cristina, Valéria e Vera, amigos de diferentes épocas. Queridos amigos.

Quando penso nos textos, descubro que há os grandes sucessos. Os preferidos. E em primeiríssimo lugar está Jo hablo Portinhol ou Jonathan, Mãos Sujas, a saga de um eletricista em minha casa.


Tive ímpetos de pedir para que parasse de se arrastar pelas paredes e fosse lavar as mãos, mas nem os meus dez anos de análise me possibilitaram tal gesto. Em que registro se pede para que o electricista, tão aguardado, pare tudo e vá lavar as mãos.

Minhas aventuras entre terremotos e enxurradas têm também boa receptividade, bem como meus esforços em academias de ginástica.

É um blog com muitas fotos, mas nenhum rosto. Cabe ao leitor desenhar seus personagens. E por falar em personagens... Não posso deixar de falar de Silvio, meu companheiro de todas as viagens e meu personagem mais que especial. Lembro que um dia ele ficou de mal comigo porque eu o comparei a Shrek em um dos textos. (Mas era verdade!)


Nas últimas semanas Silvio chegava do trabalho cada vez mais verde. Foi esverdeando aos poucos, mas sua cor de Shrek se intensificava a olhos vistos.(in Um Casal Argentino)


Mas também foi para ele que fiz um dos textos que mais gostei de escrever e que Valéria classificou como “narrative verse”. Fiquei super orgulhosa.


Depois ele olhou para mim e sorriu um sorriso que só ele sabe dar. Não se fez de rogado: “Viu? A pedra maior é a minha, porque sou maior e mais forte.” E eu sorri e me fiz de ofendida e incrédula, mas não disse nada ... Eu sabia que era verdade. Olhei para o nosso castelo. Nossas pedras unidas, o vento e o sol. Fotografei o momento com a câmera e meu coração.(in Amor)


Momentos. Meus momentos ... que compartilho com todos que me queiram ler.


Quando comecei o blog, acreditava que seria a autora de minhas histórias, mas que nada. Hoje, percebo que não passo de uma das muitas personagens. Quem me narra, me cria e me dá vida, é quem me observa, a uma certa distancia, e que, com a sabedoria das montanhas, pode perceber todas as minhas nuances. Minhas mudanças de tom e humor. Meus dias de arco-íris.


Um ano de blog... Agora sei quem é o meu autor e, como cúmplice, em um pacto de vida, me entrego em suas mãos e permaneço, pelo menos por mais um ano,  À Vista Del Ávila.



(in pblower-vistadelvila)


PS: Podem enviar comentários. Agora a configuração está modificada e os comentários entram. Pelo menos, espero que entrem.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

DA ILHA DE CAPRI AO SOL DA TOSCANA



Saimos cedo de Sorrento, mas ainda deu tempo de conhecermos uma fábrica de marchetaria com produtos lindíssimos. Nunca pensei que os trabalhos fossem feitos com lâminas de madeira tão finas. Pura arte.



De lá para o cais, rumo a Capri. O guia foi insistente: Temos que chegar à Gruta Azul antes dos japoneses, porque senão vamos esperar um tempão para entrar. Aquilo me soou quase como uma operação de guerra. Brasileiros, australianos e demais aliados prontos a enfrentar o inimigo comum. A estratégia deu certo. Chegamos ao catamarã antes dos japoneses, nos colocamos em melhores posições para ver a chegada à ilha e tomamos os barcos para a Gruta, sempre à frente dos demais. Apesar da corrida, chegar a Capri faz bem à alma. Tudo é simples e bonito. E há um burburinho, uma mistura de vozes, diferentes línguas, água batendo no cais e uma música...


Fomos costeando a ilha até chegarmos à entrada da Gruta. Aí sim, uma operação de guerra. Mar batendo, barquinhos à volta, barqueiros gritando e, num pulo, você se atira no barquinho e, agachado no chão, está pronto para enfrentar a entrada. Por sorte a maré estava baixa, se não, não dá para entrar. O barqueiro grita: uno, due, tre! Você abaixa a cabeça e tchibum! Está dentro da Gruta. A total escuridão explicita o azul do chão. Os barqueiros cantam, levantam os remos para que a gente possa ver a água brilhante caindo no mar. O SOLE MIO!!!!


Foi bom voltar. Depois de tanto tempo. Quando estive com Silvio na Itália, o clima não permitiu que fôssemos a Capri. Então, só agora, eu pude me encontrar, na escuridão do momento, com aquela moça cheia de sonhos que tinha ficado perdida por trinta anos na Gruta. Uma Patricia que já não existe hoje em dia. Nos entreolhamos e sorrimos uma para a outra. Molhamos juntas as mãos na água e juntas vimos gotas brilhantes caindo de nossos dedos. Ela não me falou de seus sonhos e eu não tive coragem de lhe contar que muitos não se realizaram. Quis me aconchegar em sua juventude... mas o barqueiro nos avisou que era hora de abaixar novamente a cabeça. Hora de sair. Voltar para o mar aberto. Uno, due, tre e tchibum. Como em um parto, voltamos à luz do dia. O SOLE MIO!!!!


Depois da Gruta, a ilha. Silvio parecia uma criança. Queria registrar tudo. Ele, que normalmente é tão preguiçoso, tomou a câmera da minha mão e saiu fotografando. É lindo ver como esse gaúcho de Santa Maria da Boca do Monte pertence ao mar.




Enquanto almoçávamos, o guia nos falou de um teleférico que chega ao topo da ilha. Eu já sabia, seria inevitável subir. Silvio também é apaixonado por teleféricos e topos de ilhas. No Canadá, subi em todos e, na Grécia, fiquei especialista em dirigir até o ponto mais alto de muitas das Cyclades.


A subida é linda. A ilha vai se espraiando diante de nós. Me lembrei de minha amiga Cida enquanto subia. Podia vê-la dizendo: Você é maluca! Ia vendo as escarpas, os limoeiros, o mar ao longe... e Silvio na cadeirinha de trás me gritando: Está filmando? Está filmando?





Depois tudo foi muito rápido: cais, Nápoles, ônibus, estrada, placas indicando a chegada a Roma. O hotel, um bom banho e o sono dos justos e dos exaustos.


No dia seguinte, como a agência de turismo continuava na frente do hotel, decidimos passar por lá para ver se havia outro passeio que pudéssemos fazer. Eu queria muito voltar a Florença. Queria que Silvio visitasse a cidade. E assim, foi. Escolhemos uma excursão de um dia. Uma visita rápida, mas daria para ele ver o sol da Toscana.



Dessa vez, o programa só não foi de índio, porque estávamos na Europa.


Bem cedinho, uma vanzinha veio nos buscar no hotel e nos levou a um ponto de encontro junto à Santa Maria Maior. Havia muitos turistas e ninguém sabia que ônibus nos levaria a Florença. Depois de entrar e sair de vários, sempre seguidos por um casal que falava uma língua de formiga (depois descobrimos que eram libaneses), conseguimos encontrar o veículo certo, mas aí o ônibus já estava cheio e só nos restou um dos últimos bancos, a cozinha mesmo. E por falar em cozinha, nossas companheiras eram três latino-americanas (depois descobrimos que eram hondurenhas) que fizeram no banco seu picnic particular. Cabe registrar um detalhe bastante relevante: era terminantemente proibido comer no ônibus. Como em um golpe de estado, as hondurenhas decidiram transgredir e abriram um farnel que ia desde leite e pão ao indefectível frango, não só assado como defumado também. O cheiro foi se espalhando como um rastilho de pólvora, como gás lacrimogêneo. Apesar da proibição, ninguém questionou o desayuno. Alguns se entreolhavam, como o casal de espanhóis a nossa frente, mas ninguém falou nada. Se elas só comessem dava para resistir, mas elas falavam. Falavam muiiiito! O tempo todo. E falavam alto, porque duas delas, já bem entradas em anos, eram surdas, com direito a aparelho e tudo. Me senti em plena embaixada brasileira em Tegucigalpa, cercada pelas forças rebeldes. Não tive coragem de perguntar se elas eram contra ou a favor de Zelaya.



E assim, entre frangos, iogurtes e conversas, atravessamos o Lazio, a Úmbria e chegamos a Florença.







De imediato, descobrimos que setembro é o mes em que a cidade é mais visitada. imaginem a praia de Copacabana em um dia de verão escaldante. Quando a gente diz: Nossa! Não tinha lugar nem para eu colocar meu pé na areia! Pois é, a única diferença era que ao invés de barracas, o que se via era uma sucessão de sombrinhas, jornais, bandeirinhas, ursinhos e tudo mais que os guias usam para se identificarem e não se perderem do grupo. Nossa! Não tinha lugar para eu botar o meu pé na praça, no museu, na rua, na igreja ... Não tinha lugar. Mas deu para a gente ver as coisas. Eu aguardava a reação de Silvio com relação à Catedral. Ele a olhou, olhou e me disse: Podiam lavar o mármore, né? Eu quis morrer. Mas gostou da porta do batistério, e do Davi, e da igreja de São Francisco. (Estavam todos bem limpinhos!)



Na hora da saída, a guia descobriu que faltava um espanhol. Todos se modilizaram, mas como é que se acha um espanhol no meio daquele caos? A esposa teve uma idéia. Ligar para o celular dele. Todos achamos que era a saída. E qual não foi a nossa frustração quando, logo depois de ela ligar, um tilintar em sua bolsa indicou que o celular do marido estava com ela. E nós lá, às margens do rio Arno, esperando. Silvio decidiu dissertar sobre a poluição do rio. Não sei o que está acontecendo com ele e essa fixação por limpeza. E foi então que alguém gritou que o espanhol tinha sido encontrado. Estávamos prontos para partir. Me lembrei das hondurenhas. Eu me negava a repetir a odisseia da ida. Como o casal libanes ia ficar em Florença, sobrou um lugar a nossa frente e eu decidi ocupá-lo. Não entendi por que Silvio preferiu ficar no banco de trás, bem a frente de nuestras hermanas. O ônibus saiu, a conversa começou, Silvio começou a roncar, e todos pareciam bem felizes. O idílio só foi interrompido quando ele decidiu abaixar o banco e espremeu a hondurenha mais velhinha. A senhora gritava:!Estoy apretada! !Apretada! Não sei se foi por vingança ou por sono mesmo, mas ele nem deu bola. Continuou a roncar.


E aos poucos, elas pararam de falar, Silvio parou de roncar e o sol foi se pondo nos campos. E eu, que tinha dado a viagem por perdida, fui desvendando o entardecer. Finalmente, como no filme, eu me sentia sob o sol da Toscana.







Chegamos a Roma a tempo de jantarmos no La Fontana, um restaurante que fica em uma das transversais da Via Venetto. No dia seguinte, um pouco de Roma, um tanto de descanso porque já era hora de voltar.


O carro veio nos buscar às quatro da manhã. O voo para Frankfurt saiu no horário e o de Frankfurt para Caracas também. Atravessamos o Atlântico e andamos seis horas e meia para trás. Chegamos em casa ainda dia, mas, para nós, já passava da meia noite.


E foi por causa do jetleg e da loucura do fuso horário que acordei no dia seguinte de madrugada. Amanhecia em Caracas e a minha frente, como a me saudar, lá estava o Ávila, se espreguiçando entre núvens e o nascer do sol.

(in pblower-vistadelvila)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A COSTA AMALFITANA: ESCARPAS, CÉU E MAR

Silvio tem muitas qualidades, mas um de seus defeitos mais graves é considerar Roma uma cidade velha. Ele sempre explica: não tem nada a ver com a idade da cidade, mas com sua manutenção. Todos os prédios deveriam ser bem pintadinhos (!?!?). Isto quer dizer que aquela caiação sépia e mal feita que é a marca do lugar e umas das coisas que mais amo na cidade, para ele é falta de cuidado.

Para evitar um divórcio por incompatibilidades estéticas e levando em consideração que ele é um baiúcho (gaúcho totalmente baiano) que ama o mar, decidi que nossa semana de férias seria no sul da Itália, mais precisamente na Costa Amalfitana, a começar por Sorrento, passando por Positano, Amalfi e Ravello. O problema era como chegar lá.

A primeira idéia foi a de alugar um carro, mas foi rechaçada com veemência pelos italianos do projeto. Segundo eles, o trânsito na região é absolutamente louco e com a alta temporada não haveria nenhum lugar para estacionar. Sugeriram tomarmos um trem, mas aí fui eu que não achei muita graça. Afinal, eu já me imaginava dirigindo um daqueles carrinhos SMART, se possível, sem capota. Silvio e eu naquela máquina, serpenteando a costa italiana. Não ia ter graça tomar o trem. Continuei a considerar possibilidades, até que descobri que bem em frente ao hotel havia uma agência de turismo.

Depois de muita negociação, decidi que iríamos fazer uma excurção. Esperem, sei que pode ser um programa de índio, mas essa era só de três dias e nos levaria a Sorrento, onde teríamos um dia livre. Aí, já ficou melhor. Ofereciam também uma visita a Pompéia, que já conhecíamos e outra a Capri, que seria algo novo para Silvio. Topei fazer o pacote.

E, no domingo bem cedinho, lá estava o ônibus a nos pegar no hotel. O grupo era heterogêneo, mas consistente. Muitos australianos e alguns brasileiros, um casal venezuelano também. Não havia russos, pois russo não faz excurção, compra a agência de turismo.

Primeira parada Nápoles, que como terra já conhecida, não trouxe maiores emoções. Nem mesmo a proximidade do Vesúvio deu frio na espinha.

E chegamos a Pompéia em um dia tórrido de verão europeu. Silvio e eu, munidos de chapéu e garrafinhas de água, enfrentamos o périplo com bravura. Para Silvio foi uma vitória, pois eles estão reconstituindo algumas casas exatamente como eram no momento da hecatombe. Ele achou o máximo. Já eu, com o meu purismo radical, continuo temendo que as ruínas virem uma Disney. A História feita de plástico.



Apesar de já conhecermos a região, a visita nos trouxe surpresas, como a ida ao bordel da cidade e a descoberta de como era indicada a sua direção. Um achado de Marketing! Gravadas na pedra, a figura de um pênis indicava o caminho.





E assim, o dia foi passando, entre muita caminhada, calor, almoço, sorvetes, mais estrada e a chegada a Sorrento. A chegada ao hotel. O hotel!

Não ficava na cidade, mas em seus arredores. No topo de uma colina. De seus quartos se divisava o mar, alguns cruzeiros que se iluminavam ao cair da tarde e casas brancas em meio ao verde muito escuro da vegetação típica da região. Tudo subindo e descendo colinas. Para fechar a cena, um céu azul, que se fez rosado e assumiu seu tom noite, com direito à lua. Tudo emoldurado por nossa varanda.

Ficamos um tempo ali, parados, olhando a paisagem. Em silêncio. Ficamos quietos, só olhando e vendo as cores se transformarem, nos surpreendendo com luzes que surgiam. O calor foi aos poucos sendo substituído por uma brisa de fim de tarde. E nós dois lá, em silêncio. Olhando ...


Antes do jantar, contratamos um carro com motorista para ficar a nossa disposição no dia seguinte. Assim, resolvíamos o problema do trânsito e dos estacionamentos. Uma breve passagem por Sorrento já nos tinha dado a proporção exata da quantidade de carros que estavam na região. Estacionar? Só por milagre.


Tonny (por que todos se chamam Tonny?) chegou cedo ao hotel e, com ele, começamos nossas descobertas.

Serpenteávamos por estradas estreitas feitas de encostas escarpadas, despenhadeiros e o mar. Como em um passe de mágica, dois carros podiam se cruzar onde não havia espaço para uma lambreta. O céu, o Mediterrâneo, casas, praínhas, barquinhos, iates, hotéis, barraquinhas de temperos e frutas. Limões, oliveiras, uvas. Uma parada em Positano, com suas ruelas e lojas de grife.
Depois, uma loja de cerâmicas, onde comprei um garfo e uma colher para minha saladeira e a Grotta dello Smeraldo, uma gruta de chão de mar azul esverdeado e com um presépio sob as águas.




Amalfi nos trouxe o burburinho das pessoas e o caos no trânsito. Tonny nos deixou na pracinha e nos prometeu voltar em mais ou menos uma hora. Daria tempo para vermos a catedral com o seu claustro, suas obras de arte e seu silêncio. Subimos uma enorme escadaria e nos encontramos com a catedral medieva (839-1135 A.D.) e com seu interior barroco, do início do século 18. Ali estavam reunidas muitas épocas, muitas mãos de artistas, muita beleza.

Caminhamos pelo centrinho de Amalfi e nos encontramos com Tonny. Próxima parada, Ravello.

A cidade fica encarapitada no alto de uma colina bem alta. Em seu caminho: estrada estreita, limoeiros, parreiras, hortas, casas antigas, vegetação, subidas, carro que vem em outra direção. Muita espera para subir e uma chuvinha rala que molhava a possibilidade de boas fotos.

Almoçamos em um restaurante pequeno e delicioso. Bom vinho. Boa comida. Seu dono se encantou ao saber que éramos brasileiros. Se sentia nosso compatriota, pois tem casa em Geriquaquara, no Ceará e é lá que passa os meses do inverno europeu. Nos saudou com muitos abraços e antipasti por conta da casa.
Depois do almoço, passeamos pela cidade, por seu centrinho. Vimos mais cerâmicas e quadros. Vielas com flores e, ao longe, os Apeninos.

De volta ao hotel, a chuva caiu forte só para que depois, ainda na estrada, uma sucessão de arco-íris enfeitasse o caminho. No dia seguinte: Capri.


(in pblower-vistadelvila)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ROMA, CIDADE ABERTA

A viagem foi bastante longa, afinal começou no Rio de Janeiro, onde eu pretendia ficar até 7 de setembro, passou por São Paulo com o jantar das primas que estava marcado há mais de quatro meses, seguiu até Caracas onde me encontrei com Silvio, fez uma escala em Frankfurt e, finalmente, Italia! Uma caminhada de 4a feira a domingo, com muitas emoções, diferentes fusos horários e a deliciosa expectativa de reencontrar uma das cidades que mais amo: Roma, minha cidade aberta! (Como diria Roberto Rosselini).

Enquanto o avião aterrissava, a ficha caiu, já se haviam passado trinta anos desde a primeira vez que pisei em solo italiano. Era a minha primeira viagem à Europa, com direito a se ter vinte e um anos e uma incontrolável curiosodade de viajante.

Da primeira vez que fui, apenas visitei, como turista jovem e sem muita grana, a Via Veneto, desta vez, a rua foi meu endereço. Há pros e contras no passar do tempo: os hotéis ficam mais chiques, mas a gente tem mais rugas e mais ... corpo! Se é que me entendem.

Eu sabia que na primeira semana eu ia ficar por minha conta, já que Silvio tinha uma agenda de trabalho longa e certamente bem cansativa. Resultado: por uma semana a cidade era minha para eu fazer o que quisesse, do jeito a na hora que eu quisesse.

A cidade fervia. Por ser pleno verão, além dos muitos turistas (em especial brasileiros, russos e australianos), o calor era intenso, o sol implacável e o céu de um azul arrogante. Depois da primeira manhã de passeios, em plena Fontana di Trevi, cercada de uma multidão, comprei um chapéu de palha e filtro solar, meus fieis e únicos companheiros de aventuras.

Há uma atmosfera especial quando se está só. Você tem tempo para ver os lugares, mas também para ver detalhes que passam desapercebidos quando se está acompanhado. O silencio propicia observações especiais. O olhar fica mais atento e surgem novos e inesperados ângulos.

Comecei tomando um daqueles ônibus de dois andares que fazem sightseeing. Foi minha estratégia para me reencontrar com os lugares. De câmera em punho, ia fotografando ao acaso. O céu era tão azul que, de vez em quando, a lente subia e registrava uma quina de telhado e o céu, uma estátua e o céu, uma escadaria e o céu. O ônibus ia seguindo e aquele rosado amarelecido pelo tempo e pela poluição que faz de Roma, Roma, ia se impregnando em mim. O meu reencontro com a cor da cidade. Às vezes, não um, mas muitos sinos tocavam em conjunto, anunciando as meias e as horas inteiras.

O Coliseu, o Forum, o Capitolio, a Boca da Verdade, Santa Maria Maior, Piazza de la Republica, o Tibre, o Vaticano, fontes, estátuas, igrejas, esquinas. Ruínas, ruelas e o rumor da cidade. Viva. Cheia. Tórrida.


Os dias que se seguiram serviram para eu refinar o olhar e as visitas.


Passei um dia entre o Coliseu e o Forum, e foi quando descobri que os australianos, russos e brasileiros haviam invadido a cidade. A própria invasão dos bárbaros. Os australianos, esportivos e alegres, querendo ver. Os brasileiros, sempre descontraidos e em sua maioria mulheres, querendo fotografar e comprar lembrancinhas para a familia e os amigos e os russos, ricos e opulentos, querendo COMPRAR e mostrar a todos que podem COMPRAR MUIIIITO. Eles, ou atléticos e com acompanhantes lindas e chiquérrimas ou velhuscos e com acompanhantes lindíssimas e chiquerésimas. (Acho que as esposas russas ficam guardadas na Sibéria por uns tantos meses do ano).

No outro dia perambulei pela Fontana di Trevi, Piazza di Spagna e a Via Veneto. Joguei minha moedinha na fonte e pensei em me atirar na água com ela, por estar a um passo de uma insolação. Afinal, se uma moeda faz a gente voltar, imagina o corpo inteiro, deve resultar em dupla cidadania.
Teve o dia da Piazza di Popolo e seus arredores, onde me diverti vendo a paquera de um garçom romano (bem bonitinho, por sinal) e uma americana. Fico encantada com esta dança entre machos e fêmeas de todas as raças. Ele falava alto, sorria, gesticulava e ela se fazendo de distante, mas sempre com uma pergunta quase sussurrada e um sorriso que todas as mulheres sabem dar ... quando querem dar. (Opa! Escorreguei!)

Mais um dia e fui ver o Capitólio e fiquei deslumbrada com o seu museu. Toda a região é linda. E foi onde pude explorar ruínas, estando protegida por um forte ar condicionado. Mas também subi e desci muita escada e aproveitei para me perder na Piazza Venezia. Escadas, estátuas, jardins e sorvete!


No dia destinado ao Vaticano, eu ia só dar uma passadinha na Catedral de São Pedro para matar saudades da imagem de São Longuinho, que fica bem perto do altar mor, mas no tumulto dos muitos visitantes, escutei uma voz, um trimilicar de sininhos ... Fui chegando mais perto e eu, que cada vez mais me sinto distante da Igreja, me ajoelhei e assisti à missa em uma das capelas lateriais. Missa com direito a comunhão e a me comover silenciosamente. Rezei por todos que amo. Senhor, escutai a minha prece! Dali, depois de uma caminhada a sol a pino, fui ao museu e, seguindo o instinto e as setas, cheguei à Capela Sistina. Uma vez estive lá com Silvio e ficamos sentados olhando o teto, aquele teto. Desta vez, com a capela invadida por milhares de turistas que me seguiam fosse eu aonde fosse, arranjei um cantinho entre um australiano e uma russa e fiquei olhando. Tomei da câmera e fotografei uma das imagens mais fotografadas do mundo: Deus e Adão... mas esta era a minha foto, só minha.


E assim, a semana foi escorrendo entre os dedos, até que, na 6a feira, decidi passar o dia na Villa Borghese. Fui ao museu. Passeie de trenzinho. Comi pizza e tomei sorvete. Fui até ao zoológico, mas fiquei pouco tempo. Achei ridículo ficar olhando elefantes em plena cidade de Roma. Se ainda fossem aqueles usados nas Guerras Púnicas... Um solo de jazz me chamou à aléia principal. Um saxofonista e uma menininha. Ela, deitada em seu colchãozinho e chupando o dedo. Ele, com CDs caseiros e um sax suave, gostoso de ouvir. Sentei em um banco e fiquei ouvindo e vendo as pessoas passar. A menina ensaiou dançar ao som da música. Desistiu e voltou a chupar o dedo. Não sei se o bailado fazia parte do espetáculo, mas não aconteceu. A minha frente, em outro banco, uma senhora, com cara de inglesa e com um chapéu de palha maior que o meu, ouvia também o concerto. Às vezes, sorria para a menina. Às vezes, só sorria, como se lembrasse de algo muito bom, mas que ficou distante, perdido no tempo. Me lembrei de um antigo poema estudado nas aulas de inglês: When I am an old woman I shall wear purple/ With a red hat which doesn't go/ and doesn't suit me. / And I shall spend my pension on brandy and summer gloves/ And satin sandals, and say we've no money for butter. (by Jenny Joseph)



Todas as tardes, eu ia até o Sweet Life, um desses bares/restaurante que fica na Via Veneto. Pedia um cappuccino ou um vinho ou um campari e ficava olhando as pessoas. Ficava imaginando como teria sido aquela rua quando Fellini fez La Dolce Vita (Sweet Life). Ficava ... Alessandro, o garçom, às vezes puxava conversa. Me contou que já tinha estado em Foz do Iguaçu. Falávamos uma mistura de português, espanhol e italiano. Numa dessas tardes, um passarinho decidiu visitar minha mesa. Ficamos ele e eu ali, vendo os carros passar.

E de repente a semana havia passado. Houve sempre bons jantares, onde se falava de negócios e se discutia os contratos e se tomava bons vinhos. E assim chegou a 6a feira, os contratos assinados e a missão cumprida.


Na semana seguinte, alguns dias de férias. Silvio e eu. Que planos teria a Itália para nós dois?

in pblower-vistadelvila)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ARRIVEDERCHI ROMA

Ainda sem um computador decente, vou me despedindo de Roma. Amanha bem cedo sigo para Frankfurt e depois Caracas. E ai, o Avila que me perdou, mas tenho algumas historias sobre esta terra maravilhosa para contar.
Estou bem na recepcao do hotel, o mais inadequado lugar para se ter um busisness center, mas estamos na Italia e, em Roma, facamos como os romanos. Ao meu lado, tres aeromocas americanas tentam ver sua agenda de trabalho e acabo de ouvir que alguns voos da Delta estao atrasados. Bom para elas, alguns minutos mais em Roma.
Nesta semana, passamos quatro dias na costa de Amalfi, proximo a Napolis, com direito a Capri tambem. Ontem fomos a Florenca e hoje e se despedir da cidade.
Semana que vem, muitas fotos e um texto novo e decente.
Arrivederchi!!!!