sexta-feira, 10 de maio de 2013

SE A COXIA É BOA ...

 
Existe um antigo ditado entre atores que diz que "Se a coxia é boa, o espetáculo vai ser um sucesso."
 
Quer dizer, se o que está atrás do palco, escondido na intimidade de espelhos é bom e aconchegante, a peça, o show vai funcionar.
 
E isso faz todo o sentido, porque é na coxia onde se põe e, principalmente, se retira a maquiagem. É lá que, diante do espelho, encontramos o nosso rosto despido. E é lá também que, já na quase madrugada, encontramos o rosto dos outros, limpo, livre de alheios personagens.
 
Se a coxia vai bem... O espetáculo é sucesso. Porque há encontro, amizade, equilíbrio, emocionada tensão.
 
Se isso vale para atores, vale também para nós, cotidianos mortais. E a coxia da gente é flexível. É maleável. Às vezes, tem o tamanho do mundo. Às vezes, cabe na palma do coração.
 
Coxia é metáfora para esse nosso cantinho de alma onde podemos ficar. Sem sapatos. Onde nos aconchegamos, nos encolhemos, (às vezes) nos escondemos, nos encontramos. Onde soltamos despudoradas gargalhadas. Lugar para onde se vai quando as luzes se apagam e o palco desaparece em silêncio. É lá na coxia que moramos quando o espetáculo acaba e o aplauso (esperado) termina. É para lá que vamos, quando a plateia vai dormir ou tomar um chopinho ou jantar.
 
E é por isso que há que se cuidar muito bem desse lugar. Varrê-lo com frequência deixando a poeira sair porta a fora. (Nada para debaixo do tapete. Nada!) Limpar os espelhos também é importante, para que possamos ver, em transparências,  olho no olho, a força de nosso olhar. Deixar um vasinho com flores em um parapeito qualquer também faz parte. Retratos são fundamentais. De todos aqueles que amamos. De nossos momentos inesquecíveis, mas que passamos tanto tempo sem lembrar. E, se for possível... Uma janela. Será que coxia tem janela? A minha vai ter.
 
Uma janela como aquelas antigas, de madeira e quadradinhos de vidro. Com quatro folhas. Para que a gente possa abri-la todos os dias para viver o espetáculo.
 
Pela janela, poder deixar sair um cheirinho de roupa lavada ou de café passado na hora e poder deixar entrar a vida. Esta história cheia de atos e cenas e personagens...
 
É muito bom poder sair da coxia para pisar neste palco cotidiano, não para representar, mas para dizer o seu texto. Verdadeiro e pleno, não importa se comédia ou se drama.
 
Se a coxia é boa, não precisa nem de maquiagem. E o espetáculo? Vai funcionar...
 
Nota: Foto retirada do Google images.
 
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

OLHARES

 
 
Nas últimas semanas tive três sonhos que, a princípio, não têm nada a ver um com o outro, mas que me marcaram por um mero (?), simples (?), um único detalhe: o olhar.
 
Não me lembro do roteiro de um deles e, dos outros dois, ficaram só umas farripas de história, como tela esmaecida ou tecido roto que de nada serve. Mas nos três sonhos havia um olhar.
 
Em dois deles, eram mulheres de já certa idade que, através de olhares, se impregnaram em mim.
 
A primeira me olhou por um longo tempo. Longo tempo. Um olhar triste e doce que na distância de seus olhos escuros e mulatos se comprazia em me olhar. Um olhar de carinho e cuidado. Eu não conhecia o seu rosto nem tão pouco seus olhos. Uma desconhecida. Entre nós duas não havia nada mais que o seu olhar. Eu sou aquela que te conhece há muito tempo, me disse. E, então, acordei.
 
A segunda não olhou para mim a princípio. Foram meus olhos que se prenderam a ela. Era pobre, meio bêbada, maltrapilha e caminhava ao acaso em minha direção. Dessa vez foi o meu olhar que invadiu sua nórdica imagem. Olhar triste e doce. Comovido. As pessoas vêm lá de baixo para beber, me disse com um forte sotaque. E, então, cumpri o gesto dos impotentes e lhe dei um dinheiro. Acordei.
 
O último sonho. Foi esta noite. Era um homem. Um velho. Um senhor. Não me lembro do sonho, me lembro do olhar. A principio, doce e triste. Fixo. Físico. Olhos de gente olhando para mim. E, aos poucos, foi se fazendo retrato. Em preto e branco. Não. Era um quadro. Olhos a óleo, com as pupilas em conta, brancas e luminosas. Pupilas de pérola olhavam para mim. E, então, acordei.
 
Que olhos são esses que a mim me pertencem porque passeiam em meus sonhos?
 
Enquanto escrevo, do alto da estante, um livro me chama: O OLHAR. Uma coletânea de textos sobre o assunto.
 
Intrigada, decido folheá-lo ao acaso. Quem sabe eu entenda? ... Quem sabe, a resposta?...
 
Página 327, por acaso. Um artigo de Leyla Perrone-Moisés: PENSAR É ESTAR DOENTE DOS OLHOS. (Epa! Uma mensagem cifrada?) Um estudo sobre o olhar na poesia de Fernando Pessoa e de seus heterônimos!(Epa! Apenas uma coincidência ou eloquente sincronicidade?) 
 
Olhei intrigada para o texto. O que tudo isso quer me dizer? Para mim que passei um tanto da vida estudando e escrevendo sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos.
 
Corro os olhos pelo texto, esbarro em poemas. Pessoa, Caeiro, Reis e Campos... Olhos e sonhos e Deus e luar. Olhos e sonhos e sinuosas figuras.
 
Pessoa me interroga: Por que então minha vista/ Por meus sonhos se perde?
 
Caeiro me segreda: O meu olhar é nítido como um girassol...
 
Reis, com seus deuses e ninfas, nos informa: Olho os campos, Neera,/Campos, campos, e sofro...
 
Mas é Campos quem exclama, clama e repete: Não, não, isso não!/ Tudo menos saber o que é o Mistério!/ Superfície do Universo, ó Pálpebras descidas,/ Não vos ergais nunca! O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!
 
Que seja. Que assim seja. Freud não me explique, por favor!. Aqui interrompo o meu texto.
 
Quem sabe um dia eu consiga entender, com a nitidez de um girassol, mas sem sofrer, que verdades estão guardadas naqueles olhos... Olhos e olhares que a mim me pertencem, porque invadem os meus sonhos... Doces e tristes.
 


Quem sabe algum dia eu consiga entrever, através de oníricos cristalinos, o fundo do poço às avessas e, por fim, consiga entender.
 
Quem sabe algum dia? Algum dia, quem sabe?


(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

SÓ SOLIDÃO

 
E não é que tem dias em que a gente se sente sozinha
e experimenta esta forma estranha de solidão:
Nada escuro, sombrio, maligno.
Só solidão.
 
À volta, o silêncio de um oco de concha
(que, eloquente, sussurra histórias do mar).
 
À volta, uma brisa sem rodopio de pipas
(que, eloquente, segreda antigas canções).
 
À volta, uma névoa de início de outono
(que, eloquente, anuncia bom tempo).
 
Só solidão é só isso:
Ficar, ainda que perto, bem longe.
E poder olhar à distancia
as voltas que a vida dá.
 
Sem parceiros na brincadeira de roda,
sozinha se dar as mãos.
 
Meia volta, volta e meia...
 
Sem parcimônia no piquenique,
se deitar na toalha xadrez e
dividir com formigas os farelos do bolo
 
E sorrir...
 
Sem meio termos, acordar bem cedinho e
descobrir
 que tem dias em que a gente se sente sozinha.
 
Feito concha.
Feito pipa.
Feito um farelo de bolo.
 
E, feito uma formiguinha, só
 
rir...
 
 
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

ÀQUELES







Se eu deixasse de saber das notícias...
Se eu teimasse em me entregar ao outono...
Se eu fechasse bem apertado os meus olhos...
Se eu ficasse aqui, agora, me deixando levar...
Se eu olhasse só para o meu umbigo...
Se eu me negasse a saber...

Aí, a manhã seria mais clara e mais branca.
Aí, haveria espaço pro riso.
Aí, a vida dava para se viver.

Mas eu teimo. E vejo. E reajo. E divido. E deixo de ser eu, para ser nós. 
Nós, apertados nós!

Então, me invadem os mortos e feridos.
Então, se impõem os loucos e calhordas.
Então, me visitam apátridas de todas as terras.
(Com suas  monocromáticas camisas e seus slogans de guerra.)

Hoje era dia de texto bem leve...

Mas encontrei a foto.
E me lembrei da oração.
E achei que valia a pena repeti-la.
Agora.
Neste dia tão leve.

Àqueles que não sobrevivem
por maltrato, por maldade, por acaso, por doença, por desleixo, por loucura, por consciência, por vontade, por desespero, por tentar, por desistir, por acreditar,  por não aceitar, por não se render, por não se vender, por não se entregar a monocromáticas camisas, por não repetir slogans e guerras...

(Que se repita o rito...)

O meu minuto de silêncio e
O meu ponto final.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

BORGES E EU




Como terminei meu curso de espanhol, fico, agora, à procura de oportunidades para hablar un poquito e o Club de Lectura ou, como o professor prefere, las tertúlias, surgiu como uma ótima opção. Tardes de quinta-feira, por todo o mês de abril. Ouvir, falar, discutir, aprender sobre Jorge Luis Borges.

O primeiro encontro foi muito bom, pois como o professor explicou, com o seu sotaque porteño entrecortado de algumas muitas palabrotas, é que se fala muito de Borges, mas há uma certa (grande?) distância entre se falar sobre obra e autor e, efetivamente, ler e saborear os seus textos.

Mas... Na verdade, este texto não é sobre o primeiro encontro do Club de Lectura. Este texto trata de outro encontro. Mais rápido. Mais efêmero. E profundamente impactante.

Rodrigo, o professor, começou a sua fala explicando como havia conhecido e se encantado com Borges. Puxou, então, do fundo de uma mochila (os professores de literatura continuam usando grandes mochilas e sandálias de couro!) um livro muito grosso, verde, que logo reconheci. BORGES OBRAS COMPLETAS.

Explicou que o havia recebido de presente de sua mãe quando ainda era muito jovem e foi com aquele livro que ele fez seus primeiros contatos com autor e obra.

Explicou que o havia recebido de presente de sua mãe quando ainda era muito jovem... E reclamou da dedicatória muito curta que ela havia deixado na folha de rosto.

Explicou que o havia recebido de sua mãe... Quando ainda era muito jovem... 

O encontro... Ou seria um reencontro?

O livro grosso e verde. Uma tarde de frio em São Paulo. Toma Patricia... Obras Completas de Borges... Acho que você vai gostar...

Mãe, eu não sei espanhol! Folheei o livro com desconforto. Tropecei por alguns poemas. Abri uma página ao acaso e Borges me segredou, com sua voz rouca e levemente gaga: Si las páginas de este libro consienten algún verso feliz, perdóneme el lector la descortesía de haberlo usurpado yo, previamente. Nuestras nadas poco difieren; es trivial y fortuita la circunstancia de que seas tú el lector de estos ejercícios, y yo su redactor.

O livro grosso e verde... Cheio de palabras e de intenções. Borges o seu redator e eu sua possível leitora... Naquela época, eu sonhava ser poeta...

Mãe, eu não sei espanhol!... Não faz mal. Um dia você vai aprender. Minha mãe era assim. Ariana. Determinava destinos.

Um dia você vai aprender... O livro habitou muitas estantes por muitos anos. Mais de quarenta. Às vezes, eu o abria ao acaso. Tropeçava por alguns poemas. Quando fui morar na Venezuela, foi um dos poucos livros que levei comigo. Aos poucos, o desconforto foi virando uma sem cerimônia entre amigos.

Aprendi espanhol. Ela disse que um dia eu iria aprender.

O livro grosso e verde... Não deixou para mim, em sua folha de rosto, qualquer dedicatória...

Mas... Toda vez que me perco em suas palabras, sempre me lembro daquela voz rouquinha de fumante inveterada que determinava meu destino de leitora... Não faz mal. Um dia você vai aprender.

Minha mãe era ariana e determinava destinos. Muitas vezes me disse que eu iria aprender. Não só espanhol, mas muitas outras coisas. 

Assim seja. Já estava determinado. Sigo em meu oficio de aprendiz. E, como artesã inexperiente, teço descobertas. A cada dia... 

E saboreio encontros e reencontros... Como esse... Entre Borges e eu.

Nota: O título deste texto foi usurpado de um lindo texto de Borges... Borges y Yo.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com) 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

FAZ UM PUXADINHO


Mabel costumava dizer: Ai, Pat, a vida é dura! E Silvio tomou a fala como mantra e mote e vive repetindo: É como diz Mabel... A vida é dura.

Conheço um bocado de gente (incluo-me nesta tribo) que gostaria de controlar a vida como se fosse escritor de novela, uns tantos capítulos de perigo, mas sempre um final feliz. 

Mas a vida tá na dela. Escorre por nossas mãos. Foge por entre os dedos. É areia... Movediça!

Levei muito tempo de análise para entender que a vida é precária. A vida não dá mole pra ninguém. No meio do salto, lá bem no alto, ela sopra um vento de lado e a gente cai de barriga, de queixo ou de bunda. E fique feliz se só ficou arranhado, que tem muitos que não se levantam nunca mais.

Foi ontem que a sobrinha me disse: Ai, tia, é muito difícil! A vida é muito difícil.  E eu respondi por instinto: É... Na vida, a gente tem de aprender a fazer puxadinhos.

A vida não é lançamento de construtora famosa, com banner, folheto e apartamento decorado.  Que nada. Não dá pra se comprar na planta, que nem planta tem. 

Se a gente tem sorte, consegue fazer, de inicio, um alicercezinho. Depois, cada dia é um dia e o que a gente pode fazer é ir ao sabor e ir fazendo uns puxadinhos. 

Apertou de um lado, joga um segundo andar com teto de amianto e janela de alumínio. Se der, pinta de branco, se não der, deixa no tijolo mesmo e reza pra aguentar.

Apertou do outro lado, cava um pouco do barranco, põe mais um quartinho e reza pra não chover.

Sobrou um dinheirinho, corre uma laje e põe churrasqueira e piscina. E reza pra fazer muito sol e ser de vez em quando domingo.

E se tem festa na laje, tem também dia de bala perdida. E se o terreno tá pacificado, a gente festeja e vai aprender alguma coisa nos cursos e nas escolinhas.

E um dia vem a chuva e leva tudo junto com a lama e a gente tem de recomeçar. E como chove de quando em quando, porque às vezes é verão, a gente recomeça... E recomeça... E recomeça.

E recomeça no susto, tirando a casa do lixo. Mas depois... Mesmo sem alicerce, a gente vai construindo paredes e janelas e varandas. Vai criando puxadinhos. E se der, a gente pinta a casa de rosa ou verde ou de um azul bem azulzinho...

A vida é precária e difícil. É feita de inesperados e surpresas. É feita de acasos... Cada dia é outro dia. Se quiser controlar, morre tentando. O negócio é ser criativo. Abrir espaços e... Construir puxadinhos!

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 29 de março de 2013

TRANSPARENCIAS



 
Já disse mais de mil vezes. Todo o ano eu repito. Adoro o outono. Adoro o outono em qualquer parte do mundo, mas o outono do Rio de Janeiro é algo especial.
 
Se, no hemisfério norte, o outono se apresenta com aquela orgia de folhas enferrujando a cada minuto, por aqui a estação vai chegando com gestos bem mais sutis. Sim. Podemos ser mais sutis e delicados que europeus e afins. Por aqui o outono chega pelas mãos da luz. (Mas há que se ter olhos de ver!).
 
Os dias vão ficando mais brancos e a silhueta das montanhas mais nítida. Dias brancos de outono. Não necessariamente mais frescos, mas sutilmente mais brandos.
 
Nosso verão é estação adolescente, dada a paixões e volúpias. Intenso e pirracento. Com suas mudanças de humor.
 
O inverno, por aqui, nem sempre diz a que veio, e, quando se desfaz em chuvinha fina ou friozinho malandro é por mera imitação. O inverno daqui é puro placebo. Dizem que é inverno e aí, por sugestão, sentimos frio e vestimos nossas botas e nos entregamos a golas altas (às vezes de pele!) e nos enredamos em cachecóis. 
 
Já a nossa primavera... Ah, sabe... Por aqui é sempre primavera! (Mesmo quando esbarramos em buquês de flores murchas!).
 
E o outono?... Bem, nosso outono é estação para iniciados. O outono no Rio nem sempre dá frutos... Mas dá uma certa paz e uma inesperada alegria. É estação de brisa leve (tempo de pipas é agosto!). É estação pra se deixar ficar... Assim, bem quieto. Sentindo a cidade mais amena (e quem dera, mais humana também!).
 
O outono carioca, não é para quem olha... É para quem vê.
 
Tem gente no Rio que vai passar a vida inteira por aqui, sem nunca ver, encontrar, sentir nosso outono. Este outono tropical de que um dia já falei.
 
Nosso outono é como vidro que, ainda que opaco, se anuncia em sutis transparências... Vai chegando...
 
Às vezes, um rosto...
 
Às vezes, um brilhante...
 
Às vezes, uma flor...
 
Às vezes... Só um copo de água qualquer...
 
                                                               (mas que sabe matar nossa sede.)
 
(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)