quinta-feira, 22 de abril de 2010

LEMBRANÇAS E CARINHOS



Enquanto eu viajava, recebi de Marilia uma mensagem super carinhosa e um poema anexado.
Um poeminha bem singelo que eu havia escrito há muitos anos atrás, enquanto trabalhávamos juntas e enquanto ela ia me ensinando que não importava quantas pessoas estivessem na platéia, o importante era tocar... o melhor possivel. Se um ouvisse, a magia estaria feita. Trago esta lição por toda a minha vida. Se um ouvir... já vai ter valido a pena.

Hoje, enquanto organizava as fotos da viagem, encontrei uma, feita em Lisboa, que, a principio, não entendi bem o que era. Um céu azul...??? Um pedaço de fio (conector?) e... ??? Ah, sim... perdida em azul, pequena, quase imperceptivel... uma gaivota... Sem nenhuma preocupação, ousando seu voo. Quanto azul a percorrer!

Achei que texto e foto tinham tudo a ver. Ambos desprentensiosos e, justamente por isso, infinitos. 




UM POEMA PARA MARILIA

São muitas as muitas maneiras
de se tocar o piano

Quantas e tão distintas...



Uma sonata ... um sorriso
Uma valsa ... um olhar



De harmonia em harmonia
as mãos dedilham e buscam
um certo compasso certo



O ritmo é você que faz
como um momento ... uma oitava
Não pertence a mais ninguém

Passeie pelo marfim ... pelo ébano
Desafine ... desafie... 
Improvise nas teclas da vida
Isso você sabe fazer

Porque jazz em você o sonho
E em seu céu
entre nuvens e blues
A sua clave é de sol
(nascente)





Que nesta semana pós-chuvas intensas e em meio a cinzas vulcânicas, possamos encontrar, por um momento que seja,  o prazer de voar... em nosso pedaço de céu azul.

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

LISBON REVISITED 2010

Não.

Não foi a chuva fina e nem o frio.
Nem o céu de chumbo que, de repente, se fez em manhã de sol.

Não.

Não foi a visita aos Jerônimos.

Não foi a Torre de Belém.

Nem mesmo a vista imensa e líquida do Tejo lá do alto do Castelo.

Não.

Não foi o Castelo de São Jorge. Nem o elétrico por ladeiras de Alfama.

Não.

Não foram as guitarras. Nem o vinho. Nem as velhas canções.

Não. Não foi o Fado.

Nada pode descrever melhor aquele meu encontro que o meu choro no Martinho da Arcada.

Trinta e um anos sem voltar à Lisboa. Lugar sempre adiado em minhas viagens. E, enquanto esperava, escrevi poemas, uma tese de mestrado, trabalhei, perdi meus pais, me descobri, me perdi, me redescobri... Me apaixonei. Virei outra. E virei ostra ... com pérola dentro. Cresci. E deixei pedaços pelo caminho. E criei pele nova ... para me bronzear! Deixei de escrever... E morri um pouco...



Trinta e um anos e lá estava eu à porta do restaurante Martinho da Arcada ... Olhando. Senhora, já não estamos servindo o almoço. Era tarde. Sorri e me desculpei. Eu queria só dar uma olhada... Eu adoro Fernando Pessoa. Foi como uma senha. O garçom sorriu. Me tomou pelo braço com força e decisão e lá fomos os dois andando entre as mesas. A decoração antiga nos observava como se já tivesse visto aquela cena outras vezes. O garçom, eu e Silvio que nos seguia e observava a uma certa distancia. Venha, por favor... E caminhei até aquela mesa. A única sem toalha. Um copinho de bebida. Um par de óculos. Livros. Sente-se, por favor. E eu me sentei na quina da sala. Na mesa do canto. Aqui ele escrevia. E bebia. E conversava. Quer que eu tire uma foto?



Podia ser só uma mesa para turista ver. Podia.



Como?... Quer que eu tire uma foto? Silvio pegou a câmera ... Olha pra cá.



De repente me lembrei ... O Eu Profundo e outros Eus ... O livro que mamãe mantinha sempre na mesinha de cabeceira. Todo anotado. Trechos imensos sublinhados. Alguns textos dela, escritos nas margens do volume. Patricia, foi você que me apresentou Fernando Pessoa... Como boa ariana, adorava a eloqüência e a volúpia de Álvaro de Campos.



A foto!! Olha para cá!! [Não há na travessa achada o número da porta que me deram...]



Olhei. E, por mais que quisesse, não conseguia fingir. Ela está chorando! Silvio sorriu (ele me conhece). O garçom, surpreendido, não sabia o que fazer. Foi quando uma senhora que estava na única mesa ainda sendo servida se aproximou da cena. Era brasileira e o marido dela era um pessoano apaixonado. Ela me disse que ele tinha se emocionado com o meu choro. O casal nos ofereceu um Porto. Silvio falava com as pessoas e eu ali anestesiada. [Escrevo por lapsos de cansaço...]



Eu continuava chorando. Um choro engolido por meu desejo de não chorar. E me vi em uma sala. A banca diante de mim e eu discorrendo sobre o aspecto da negação na poesia lírica de Fernando Pessoa. A que chamei... A Trajetória do Nada. Era um dia de muito calor. Papai estava na sala, em uma das últimas cadeiras e me olhava de longe. [Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...]



O garçom chegou com o Porto. Tentei ser sociável. Não sei o que me deu...Me emocionei... Chorei o choro das coisas deixadas por fazer. O choro das coisas não ditas. De uma saudade dos meus. De uma saudade de mim. Quando eu era... sei lá... [Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —].



A tarde se fechou com um Porto e troca de cartões.


No dia seguinte fomos à Brasileira do Chiado. Muito tumulto. Muitos turistas. Como uma turista a mais, coloquei minha mão sobre a do poeta. Tentei entrelaçar carne e bronze. Queria dizer-lhe: Estou aqui. Pode me reconhecer? Aquela... É verdade, já faz muitos anos. E, em um lapso de tempo que não passou de segundo, ele me olhou e me sorriu. Também apertou a minha mão e me segredou... Não: não quero nada. Já disse que não quero nada. ... Não tardo, que eu nunca tardo... E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! ] 


E entre frio e muita gente, me levantei da cadeira e parti. De longe, ainda me virei para observá-lo. À sua volta, um grupo de alemãs tirava fotografias.

Nota:Em negrito, fragmentos dos poemas Lisbon Revisited 1923/1926
Nota: Foto by Silvio Wouters

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

OH, DANNY BOY...


Sim. É claro que há muitas desvantagens em se envelhecer, mas uma coisa que me encanta neste infindável processo da passagem do tempo é que podemos ver nossos bebês virarem gente grande. Está certo que cada vez mais relutam em ficar no nosso colo e reagem com veemência a conselhos básicos e essenciais como: Leva um casaco que tá frio. Ou o conhecido: Você não tá comendo direito. Mas não faz. É bom vê-los crescer. É bom encontrá-los como adultos tão semelhantes ao que fomos, ao que somos. Com sonhos, certezas, medos, desejos, paixões, expectativas e teimosias. Adultos.



Fazia quatro anos que eu não ia a Londres e, apesar de todos os encantos da cidade, desta vez aterrissei em Heathrow para ver Danny. A idéia era dar uma fugidinha de Roma e passar o final de semana com meu primo. [Definição inadequada] Danny não é meu primo de segundo grau, filho de minha prima Celina, que é como uma irmã para mim. Não é só isso. Danny é irmão de Carol e os dois são para mim como meus filhos. E Celina que não reclame!


Por uma dessas coincidências da vida, no mesmo dia em que embarquei para vir morar em Caracas, Danny voou rumo à Europa para, como cidadão europeu, começar sua vida por lá. E foi por isso que passamos quatro anos sem nos vermos.



Confesso que estava ansiosa para encontrá-lo. Tão ansiosa que enquanto esperava Silvio no aeroporto, esqueci minha mala no banheiro e quase chego a Londres com a roupa do corpo e, por sorte, um casaco pesado. Mas isso é outra estória.



Passado o susto, fiquei sentada esperando e sendo visitada por momentos.


Manhã de sol em Niterói. Toco a campanhia e uma figura de menos de um metro e cabelo lourinho me saúda com um Oi, Tia Amiga! Era assim que ele me chamava, Tia Amiga. Doce intuição infantil. Amiga pra sempre.




Tarde lá em casa. Tomavámos café enquanto aquele menininho de bermuda de malha e camisetinha nos contava estórias de dagãos.



Tinha uma voz deliciosamente rouquinha e nenhuma timidez para se apresentar e conversar com quem quer que seja. Era cheio de opinião.



Noite de chuva forte. Celina tem que ir para o hospital e lá fico eu (sem a mais remota experiência de tratar de bebês) com Danny no colo. Nossa cumplicidade era plena, mas eu simplesmente não conseguia trocar suas fraldas. Botava a nova e ele ia caminhando com seu jeito de bebê e a dita cuja ia escorrendo por suas perninhas. Tentei de tudo... sem sucesso. Depois, criei uma estratégia de colocar a fralda e colocar um shortinho por cima. Funcionou. E foi aí que decidi fazê-lo dormir. Em meu colo, ele ouviu pacientemente todo o meu repertório de canções de ninar. Olhos abertos. Atentos. Quando a exaustão já tinha me dominado, virou para mim e me pediu: Mamalinha!!!! Tinha fome. Em meu afã de cuidá-lo, tinha esquecido de lhe a dar mamadeira. Depois disso, dormiu.


Silvio chegou do trabalho e embarcamos.



Durante o vôo, lembrei de seus primeiros desenhos. Sempre amou desenhar. E de como foi crescendo, assim, rápido. Tão rápido que um dia se apaixonou. E sofreu. E pintou seus amigos em aquarelas.



Oh, Danny Boy...



Nos encontramos no sábado. Eu o estava esperando no hall do hotel. Chegou e nos abraçamos. E nos olhamos. Como ele estava bonito. E nos abraçamos de novo. Quando ele falou, sua voz era rouquinha ... e comovida. E eu com os olhos cheios d’água. Que saudaaade!!!!



No quarto do hotel, ele me disse, assim, de repente, que nunca queria me decepcionar. Que bobaaagem!!!!



Silvio se negou a sair com a gente. Disse que com aquele frio era loucura andar pela rua. Então, ficou no hotel e caímos em Londres. Tia, onde você quer ir? South bank! South bank!


South bank. Muito frio, muita gente. Fomos caminhando à beira do Tâmisa. Ele me contando sobre sua vida, suas experiências, suas idéias. Caminhamos muito. De vez em quando, eu pedia para ele tirar uma foto do lugar. Que foto você faria aqui? Tia, deixa eu te fotografar. Não. Fotografa o momento, o lugar. Registramos, assim, o nosso encontro.



Comemos em um pub e ele me falou de suas preocupações e ansiedades.



Caminhamos mais e chegamos a Saint Paul’s. Ali, ele me contou de seus estudos com programações para desenho animado. Foi, então, que eu fiz uma foto que ele achou triste. Ah, eu gostei. Um dia eu a uso em um texto do blog.



Não satisfeita, decidi ir a Oxford Street para comprar uma capa.


Não foi a melhor idéia. É porque ele gosta muito de mim, senão teria me enforcado. Caos. Milhares de pessoas se acotovelavam ao cair da noite. Decidimos tomar o tube e voltar para o hotel.


O caos se replicou no subsolo. E se agravou, quando começamos a ouvir: Emergency Alert! Emergency Alert! E tivemos de deixar o Metro. O caos subterrâneo se uniu ao caos da superfície. E começou a chover. Aquela chuva que cai em Londres que parece que não molha, mas, quando a gente vê, está encharcado. Tia e agora? Vamos pegar um táxi. Ledo engano. De todos os lados surgiam táxis... cheios.



E foi quando a chuva apertou mais que um ônibus para Victoria Station passou. Corremos até a parada e conseguimos pegá-lo. Na estação, certamente, encontraríamos um táxi disponível.



Oh, Danny Boy...



No tumulto, confesso que eu quase paniquei, mas eu estava com você. Enquanto buscávamos uma solução, você estava de mãos dadas comigo.



Do fundo do tempo, me chegou uma cena: Danny, dá a mão pra tia e, para atravessar, olha para um lado e para o outro, tá?


Agora, era você que me dava à mão...



Sim. É claro que há muitas desvantagens em se envelhecer, mas uma coisa que me encanta neste infindável processo da passagem do tempo é que podemos ver nossos bebês virarem gente grande.

PS: Carol, nada de ciumes. Ainda vou escrever muitos textos para você.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

AVILA


Chegamos ontem à noite a Caracas. Depois de quase dois meses fora e de dois voos bastante tranqüilos (mas longos, especialmente o segundo, de oito horas), chegamos em casa.



Enquanto enfrentávamos a já tradicional cola entre Maiquetia e Caracas, eu ia lembrando da primeira vez que cheguei à cidade, não como turista, mas como moradora. A lembrança me veio porque novamente chegávamos em uma sexta-feira santa. A primeira, em 2007, quando tudo para mim era muito novo (inclusive eu!), e a segunda agora, depois de quase quatro anos na terra. Depois de tantas aventuras e descobertas.



Já era de noite e havia uma névoa estranha na estrada. O motorista nos explicou que ainda era o resultado do grande incêndio no Ávila. A cidade ficou por semanas envolta em fumaça, enquanto helicópteros com água tentavam em vão conter o fogo.



A seca continua implacável, mas por sorte, uma chuva forte na semana passada conteve as chamas. Infelizmente, o cheiro de fumaça ainda permanece no ar.







Decidi desfazer as malas aos poucos, pois o jet lag de uma diferença de fuso de seis horas e meia (lembrem que na Venezuela ainda tem esta meia hora a mais ou a menos) é mortal para mim. E, enquanto mexia nas coisas e descarregava as fotos no computador, via o Ávila dependurado em meu balcón. O Ávila envolto em uma névoa branca. Fui para a varanda para matar saudades. O que dava para ver era uma ferida aberta na terra, restos de mata feitos em cinza. Quis acarinhar a montanha. Minha eterna companheira. Atenta e paciente ouvinte de minhas mais loucas elucubrações. Quis botar o Ávila no colo.

Mas como era tarefa impossível, como amiga fiel, quis amenizar suas dores. Então lhe contei sobre as minhas andanças. Lisboa, Londres, Roma. Contei para ele da noite de lua cheia em Siena e das tardes de sol na Vila Borghese. Falei do frio e da chuva e do inicio da primavera. Fui assim lhe contando tudo. Sobre sensações e sentimentos. Sobre encontros e reencontros. Sobre silêncio e burburinho. Não pude deixar de lhe dizer que me senti o máximo, entendendo muito italiano e já falando um pouquinho.



Não sei se foi por causa da névoa (fumaça?), mas tanto os meus olhos, quanto os do Ávila, em um momento, se encheram de água. Então ficamos ali, assim, à beira do balcón, nos mirando. Quietinhos.



Não sei bem por quê, mas de repente lhe garanti que as feridas cicatrizam e que as dores passam. Em breve, a estação das chuvas lhe traria novas flores, multicoloridas, como é a Venezuela. Multicolorida.



O cerro Ávila, sorriu. Um sorriso de Monalisa.



Foi então que Silvio me chamou ...

(foto by Ivani Galvão)

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sexta-feira, 26 de março de 2010

AULAS, PROFESSORES E ALUNOS

Esta semana decidi passar um dia visitando alguns museus da Vila Borghese. Primeiro a Galeria de Arte, com direito a seguir todo o protocolo: hora marcada para a visita, bolsas revisadas e guardadas em lockers, e a delicia de passar duas horas entre quadros e esculturas. Se sò hovesse na Galeria as esculturas de Bernini, jà valia a visita e os oito euros e cinquenta da entrada. Gente das mais diferentes nacionalidades, em silencio respeitoso, disfrutavam da arte. Fico pensando o quanto de belo que o ser humano pode produzir e como ele é capaz de gastar tanto tempo criando holocaustos e hecatombes. (Pobres de nòs, pobres mortais.)
Visita feita, decidi seguir meu caminho rumo ao Museu de Arte Moderna e ao Museu Etrusco. As placas iam indicando a direçao que eu seguia atentamente. Com o passar do tempo comecei a me preocupar. Chegar aos museus, eu chegaria, mas o problema seria voltar, pois todo o caminho era uma descida, o que significava que a volta seria subir a ladeira. Se minhas pernas jà estavam se ressentindo da ida, para a volta eu ia ter de encontrar um plano B, talvez encontrar a parada de uns dos muitos onibus que tem me ajudado a ver a cidade.
Queria começar pelo Museu Etrusco, mas o que primeiro se apresentou foi o de Arte Moderna e nao me fiz de rogada... entrei.
Depois de passar pelos tramites de segurança, adentrei o seculo XIX, entre esculturas e quadros. De repente um burburinho e um SHIIIIII aflito e rouco,  tipico de professora quando jà nao sabe o que fazer para conter a turma.  De repente me vi cercada de grupos de adolescentes e de seus professores. Formavam grupinhos diante das obras e, enquanto os guias explicavam o engenho e a arte de pintores e escultores, os alunos adolesciam. Alguns de olhos vagos e distantes se escorriam pelos poucos assentos das salas. Outros, mais afoitos se belisavam, cochichavam, riam baixinho. Tinha o grupo dos Ipodistas. Enfado e musica alta. Havia tambem duas moçoilas perdidamente apaixonadas pelo professor jovem e de gola role. Um casalzinho iniciava um romance. Os guias tentavam transformar o evento em algo memoravel e inesquecivel (isso me lembra algo), mas nao havia nenhum botaozinho nas obras, nenhum joy stick, nada que possibilitasse àqueles seres qualquer interaçao com o evento artistico. Entre as obras e os alunos, em um espaço menor que tres metros, seculos de gap. Um dos guias até que era bom. Falava, perguntava, mas as respostas normalmente eram monossilabicas e equivocadas (para desepero dos professores que juravam de pé junto que jà tinham dado esta materia).
Fiquei olhando e me distraindo com a cena. Afinal, para meu bem, eu nao era nem guia, nem professora, nem aluna. Era apenas uma mera observadora. Afinal, aquilo nao deixava de ser arte, em todos os sentidos.
Passei ao segundo andar e ao seculo XX. E foi là, em uma das salas, que vi, espalhadas pelo chao, um grupo de crianças de seus seis ou sete anos desenhando. Reproduziam seus quadros favoritos. (Quantas vezes fiz isso em minhas aulas! Mas acho que a tecnica ainda funciona). Fiquei surpresa de ver como Mirò faz sucesso entre esta faixa etària. Por que serà?
Fui me esgueirando entre aqueles corpinhos em pleno processo de criaçao.
Jà saindo, tendo voltado ao primeiro andar e ao seculo XIX, reeencontrei os adolescentes, os guias e um SHIIIII seguido de uma professora exausta.
Sorri.
De repente meu olho bateu em uma menina de seus treze anos. Estava em um canto sala. Nao fazia parte do grupo das "muito boas alunas" que ficam no gargarejo para mostrar serviço. Nao. Quietinha, no fundo do grupo. Seu olho olhava e via e ela copiava e acompanhava o dedo do guia em seu voo entre esculturas e quadros. Sem a necessidade de botoes e joy sticks inter-agia.
Sorri e, plena de vida, segui para o Museu Etrusco.

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sexta-feira, 19 de março de 2010

MEDOS

Hà muito tempo atràs, escrevi em um poema... o poema que nao foi feito/por medo do abismo/por medo do medo...
Sim. Sempre tive medo de ter medo e isto deu muito pano pra manga em meus encontros com minha analista.
Tenho uma imaginaçao um tanto feérica e sou capaz de amplificar situaçoes de perigo ou, no minimo, de desconforto. Sofro do que chamo da sindrome do E se...? E se acontecer isto? E se acontecer aquilo? E ai vou criando filmes de terror.
Foi exatamente por isso que quando estive em Roma pela primeira vez, hà mais de trinta anos, nao visitei as catacumbas. Cheguei a ir a Via Appia, mas quando estavamos nos preparando para descer, o infeliz do guia fez o seguinte comentario: Se alguem sofrer de claustrofobia, nao deve entrar. Foi o suficiente para eu panicar. Nao estava com medo dos possiveis fantasmas de vetustos cristaos, tinha medo de meus medos. E se eu sofrer de claustrofobia e nao souber? Criei a cena perfeita. Eu tendo um treco no meio das tumbas e todos me atendendo. A falta de ar... O desespero. Nao desci. Ficamos eu e Timo, o motorista do onibus, esperando os turistas nao claustrofobicos voltarem do passeio.
A vida é assim. Foram precisos mais de trinta anos para que eu decidisse voltar às catacumbas e melhor que tudo, entrar terra a dentro. Nao vou negar que no momento exato em que ia pisar o primeiro degrau, as maos gelaram, mas o casal espanhol que estava atras de mim me sorriu e eu olhei para o ceu que estava de um azul perfeito. Respirei fundo e entrei.
A visita foi tranquila e, ao sair da terra, nao resisti e sussurrei um YES!, sò para mim.
Catacumbas vencidas, resolvi visitar uma igreja que fica na Via Veneto e que me haviam dito que tinha a cripta feita com os ossos dos padres enterrados là. Um tanto macabro, mas achei que valia a pena.
A igreja em si é normal, com uma linda Nossa Senhora da Conceiçao pintada no altar e enfeitada com coroa, brincos e pulseras de ouro. Rezei... que eu rezo sempre e fui para a area que eles chamam de cemiterio. Entrei. Uma senhorinha sorridente me informou que nao poderia tirar fotos por respeito e que eu deveria fazer um oferta de no minimo um euro. Me disse tambem que o caminho de ida era o mesmo de volta (achei simbolico). Deixei minha oferta e entrei. Uma cripta toda caiada de branco e toda ornamentada de ossos. Girlandas, esculturas, flores, simbolos religiosos. Tudo feito de ossos e tudo guardado por muitos esqueletos vestidos de frades. Confesso que nao me deu medo, era ate esteticamente bonito e quando sai sussurrei outro YES!, sò para mim.
Engraçado... realmente nao sei se foi resultado das visitas um tanto estranhas a que me dediquei durante esta semana ou se o jantar de ontem estava um pouco mais pesado, mas o fato é que, durante a noite, tive um dos piores pesadelos que ja tive em minha vida, com direito a acordar Silvio, acender todas as luzes e ligar a televisao para ver se passava o medo. E ainda tive de ouvir de Silvio: Voce é maluca. Quem manda ficar visitando esqueletos.
O medo do medo...
... e de fantasmas tambem.

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sexta-feira, 12 de março de 2010

63,116,175,119,71...

Há algum tempo atrás, eu escrevi um texto sobre os onibus que fizeram parte de minha vida. Acho que este texto é a sua continuação.
Esta semana decidi ver a cidade usando transporte público. Começou de forma organizada, comprando o bilhete para todo o dia e pedindo informações sobre trajetos e linhas. Descobri, entao o 63, o onibus que pode resolver a maioria dos problemas dos turistas, pois passa pelos points mais desejados. Mas foi ai que o vicio começou...
Como uma boa adicta, comecei com o light 63, e buscando novas emoçoes, me entreguei ao 116, que, para falar a verdade, é uma versao ainda mais leve do 63. Um micro onibus elétrico que tambem perambula pelos sights turisticos. Alias todos estes onibus da linha 11... sao assim. Pequeninos, vao se embrenhando por vielas e Roma vai surgindo... inesperada. Hoje tomei o 119 e cai na Piazza dei Popoli, de repente. O vicio està instalado e busco agora o tuimmmm do 115, ainda um mistério para mim.
O 175 jà foi uma outra experincia. Fui andando pela Via dei Fori, ruinas romanas de um lado e do outro, e acabei chegando ao Coliseo. Veio entao a pergunta, que onibus pode me levar daqui ate a Via Veneto? Levei um tempo perscrutando as placas com as indicaçoes até que descobri o 175. Decidi espera-lo. Mas passava tudo que era onibus, menos o dito cujo. Quando ia desistindo, pensei na fantastica oportunidade de poder ficar em frente ao Coliseo esperando um onibus. Tinha ainda um solzinho morno que jogava uns raios fraquinhos entre os arcos do monumento. Decidi esperar, o quanto tivesse que esperar. Eu as vezes pensava, Ei Patricia, é isso mesmo. Voce esta parada em frente ao Coliseo esperando um onibus. E sem urgencias. E sem horas marcadas. Curte.. muito. Por essas e por outras é que o vicio foi se instalando. Literalmente, viagens inesqueciveis.
Cada vez mais confiante em minhas very good trips, decidi tomar o 63 e ir até o final da linha, Largo Pugliese. Era uma manha ensolarada e la fui eu. Aos poucos, os pontos conhecidos foram desaparecendo e, na janela do onibus, começou a surgir uma outra Roma, feita de largos e suburbios. As pessoas tambem mudaram um pouco. Mais simples, menos turisticas. Um burburinho de falas ao celular. Eles falam muito ao celular. Em todas as partes. Andei por mais de uma hora ate o ponto final. E ai a decisao foi inevitavel... ir de volta ate o outro fim da linha. Ja podia sentir o vicio instalado em minhas veias. E a volta me levou à beira do Tibre. Bem proximo à ponte que leva a Isola Tiberina e ao bairro judeo, outro lugar por onde perambulei, entre restaurantes de comida Koshe e muitas lojinhas que vendem de tudo.
E, como viciado sempre quer mais, quando Silvio me disse que tinha que comprar um microfone para Ricardo na Via Tiburtina e que nòs iriamos là no sàbado, eu nao pensei duas vezes e decidi ir antes, e de onibus. Foi na Piazza Barberini que descobri o 71 que poderia me levar a Stazzione Tiburtina. E là fui eu, mas ai a trip foi um pouco bad. O onibus foi passando por uns lugares estranhos e seu ponto final era debaixo de uns viadutos. Tudo bem feiozinho. Ainda tentei descobrir onde ficava a loja, mas como me informaram que eu tinha que atravessar uma ponte (por sinal bem feiozinha), decidi retornar.
Voltei a meu velho vicio, o 63. E foi ele que me levou até a exposiçao dos impressionistas que està na Piazza Venezia. Linda!!!!! Ia vendo os quadros e me lembrando de tanta gente que eu queria que estivesse comigo ali. Me bateu uma saudade... morninha.
Bem... Posso dizer que a vida mudou. Com o vicio totalmente instalado, agora nao consigo mais passar por uma parada de onibus sem que tenha a incontrolavel compulsao de entrar no primeiro que vier e seguir... seguir ate o ponto final. Esse é o jogo... ate o ponto final... (mas sempre tendo no bolso [do colete], a passagem de volta). Que hà que se voltar, nem que seja para escrever mais um texto no blog e passar a vida a limpo, como diria Drummond.


(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)