sexta-feira, 5 de março de 2010

TOUS LES HOMMES SONT MORTELS

Quando eu era adolescente li um romance de Simone de Beauvoir que me impressionou muito. O livro chamava-se Tous les hommes sont mortels (1946) e contava a historia de uma especie de alquimista que conseguiu tornar-se imortal. A narrativa era séria e angustiante, pois, a medida que o tempo passava, ele desejava cada vez mais morrer e, assim,  começa a fazer coisas como ficar sessenta anos sem respirar para ver se morria. Angustias muito a parte, tenho lembrado desse homem enquanto perambulo pelas ruas de Roma.
Tenho todo o tempo que necessito para fazer o que necessito e o que eu necessito é ver, descobrir, aprender, ver mais, redescobrir e olhar novos olhares.
Posso ficar uma hora e meia esperando um onibus que eu pensava que me levaria para um lugar e enquanto esperava... via. 
A cidade, apesar de ainda fria(zinha), assumiu seu estado primaveril e percebo com alegria que a luz branca do outono carioca tambem està por aqui neste inicio de primavera.
Tenho tantas historias para contar... mas, por agora, là fora faz um sol maravilhoso e a vontade é de cair no mundo.
Sei que todos os homens sao mortais, mas tenho certeza que hà em todos nòs um grau de imortalidade que se manifesta em plenitude nos momentos felizes.
Que possamos exercer a nossa precaria imortalidade a cada dia... em um sorriso, um olhar ou apenas esperando um onibus que a gente pensa que nos levarà ao lugar desejado.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

E JA E SEXTA FEIRA DE NOVO!

Nao sei porque, mas as semanas tem passado mais rapido por aqui. Por que sera?
Lisboa/Roma.
Quase duas semanas na cidade aberta e livre. Ja sou uma local. Metro/ caminhadas e, como consigo entender a televisao, decidi comprar um livro em italiano para ver se conseguia ler e estou adorando. E a historia de um pirata e uma escritora. Se passa nos mares do Atlantico no ano de 1730. O maximo! Se chama... Il Pirata e la Prigioniera. E incrivel, eu consigo seguir super bem a historia. Mama mia!!!
Mas tambem fui ver a exposicao de Caravaggio, o grande hit do momento por aqui. Emocionante. Luz e sombra!
Como hoje e sexta feira, inventei de ir a Londres. Eu nao sei como Silvio me aguenta. Ele esta exausto. Tem sido uma loucura de trabalho para ele. Mas vamos passar o final de semana em Londres. Estou ansiosa!
Beijos para todos,

Pat (diretamente do inicio da primavera em Roma)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

BREVE MENSAGEM

Tenho que aprender que vale a pena trazer o computador nas viagens, mas na hora H fico com preguica. Resultado: 0,35 euros por minuto. So mesmo uma brevissima mensagem.
Navegar e preciso e, seguindo a orientacao do poeta e dos marinheiros, naveguei por terras lisboetas ate o inicio da semana e agora volto a meu quase novo lar: Roma. Ja estou intima dos vendedores, mas ainda parlo un italiano bem novela das 8 da Globo.
A primavera vai se impondo em terras italianas e eu por aqui comecando ate a sentir um calorzinho.
muitos beijos a quem quiser recebe-los.
pat

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

UMA FOTO ANTIGA


Decididamente o Ávila continua me impondo um voto de silêncio. Aceito a proposta e me calo.

 
Quando criei o blog, tinha a idéia de não publicar fotos de pessoas, pensava que se não houvesse rostos, todos os rostos poderiam estar presentes. Caberia à imaginação de cada um preencher as lacunas. O que eu queria registrar eram as paisagens ... plenas, bonitas, inesperadas. Oferecer os cenários. Desta vez, abro uma exceção.

A foto é antiga, 1947, e o homem é Henry Swinburn Blower, meu avô paterno. Também conhecido como vovô Daddy. Como os filhos lhe chamavam de daddy, os netos incorporaram o epíteto e... ele virou o vovô papai.

Não tenho muitas recordações dele. Ele morreu quando eu tinha uns dez anos e já estava muito velhinho quando eu comecei a me entender como gente. Os meus primos mais velhos, sim, contam histórias deliciosas sobre ele. Sobre as brincadeiras, em especial a caça ao tesouro feita no quintal enorme da casa. Para mim, não houve recordações tão cheias de aventuras. A primeira lembrança que tenho dele aconteceu em um domingo chuvoso quando Daniel, meu primo, e eu tentávamos construir castelos de cartas. Imaginem dois pequerruchos de cinco ou seis anos no maior esforço para manter a construção de papel e imagens. Para cada novo andar, o desabamento era inevitável. E vovô lá, no canto da sala, sentado em sua eterna cadeira, só olhando. Me lembro que aquela nossa luta em glória o foi irritando e ele começou a resmungar em seu inglês castiço, Damn!!!! Se levantou, agarrou o baralho e com suas mãos enormes, com os dedos manchados de nicotina, foi construindo o castelo. Como em um passe de mágica, paredes e telhados foram surgindo e, melhor que tudo, ficando de pé. God bless you, aprendi com você a construir meus primeiros castelos.

Também me lembro dos natais e dos crakers que ele preparava cuidadosamente e era na hora dos presentes que aqueles cilindros de papelão e celofane explodiam em balas, apitos e lembrancinhas.

Vovô nasceu em Liverpool no final do século 19 e veio para o Brasil com vinte e um anos. Como bom inglês, foi morar em Niterói e ali criou uma família e viveu por mais de sessenta anos. Nunca mais voltou à Europa, mas sempre que falava em Home estava se referindo a uma Inglaterra que não existia mais.

Era britanicamente metódico. Me lembro, quando a casa foi demolida, a surpresa de papai ao ver, na pedra mármore do filtro, um cavadinho. Era a marca do copinho em que ele tomava o seu vermute. Tantos anos, sempre deixando o copo no mesmo lugar. Um caso de erosão!

Mas afinal, por que justo hoje decidi falar sobre ele? Porque ando achando que foi de vovô que eu herdei o meu gen de International Vagabond.

Fiquei sabendo dessa história há pouco tempo atrás em uma conversa com um de meus tios. Ele me contou que, depois de trabalhar muitos anos de terno e gravata, quando se aposentou, vovô pegou a maioria de suas roupas e arrancou as golas (the white collar que aprisionava a gravata), cortou as mangas das camisas e as pernas das calças. Criou um modelito básico de bermuda e camisas de manga curta. Entregou-se às sandálias (de couro, como as de frade) e passou a se dedicar a seu cocker spaniel, chamado Kim, e a seus papagaios. Passou a curtir a vida do jeito que ele queria, entre bichos, livros, suas ferramentas e a oficina e os passeios pela praia de Icaraí. Criou o seu ritmo... até o fim.

Vovó contava que a última refeição que ele fez antes de falecer de um terrível enfisema foi um bom prato de ostras com cerveja preta. Tudo de bom! O prazer pela comida e bebida runs in the family.

Também cortei com a tesoura de meus sonhos minhas golas e mangas. Ah! E meus saltos altos também.

Uma foto antiga, como uma paisagem. Uma parte de um mapa mágico e pessoal onde tracei meus caminhos. Onde risquei, com lápis grosso e vermelho, minhas passagens e meus desvios na busca da direção certa. Talvez um atalho perfeito no rumo da alegria.


Nota: Estou publicando antecipadamente o texto, pois amanhã saio de viagem e não vou levar computador. A direção vocês vão saber na semana que vem. Afinal... Navegar é preciso.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

UMA ÁRVORE EM MAUI

Chegamos a Maui ao cair da tarde e fomos recepcionados no hotel com os famosos colares de flores. De flores mesmo, verdadeiras, repolhudas e muito cheirosas. (Por mais incrível que pareça, passamos oito dias na ilha e nossos colares permaneceram lindos, cheirosos e repolhudos).



Maui é bem diferente de Honolulu. É mais bicho-grilo. Mais zen. Mais alternativa. Uma parte da ilha é puro verde, a outra, separada por uma montanhazinha (acho que é um vulcão adormecido), é mais agreste. Entramos no hotel e nos debruçamos para o Pacifico, para um paraíso. Tudo era simples e perfeito, ou seria simplesmente perfeito? Tudo no lugar certo, mas sem fazer alvoroço pela perfeição. Céu, mar, jardins, sol nascente e poente, tudo envolvido por uma brisa constante e suave. O hotel dava para as piscinas e as piscinas davam para a costa... azul e irreverente. Mar tranqüilo o suficiente para que você tivesse uma vontade incontrolável de se atirar nele, mas com um movimento quase arrogante. Desafiador.



Enquanto Silvio participava do congresso, só me restava uma coisa... fazer nada. Ou inventar o que fazer. É claro que eu tinha que fazer um social com outras esposas que também estavam lá, mas o que eu queria mesmo era ficar sozinha, olhando, vendo, sentindo. Passava horas à beira da piscina lendo e perscrutando os outros hóspedes. Adoro observar gente. Muitos casais em uma gradação existencial: lua de mel, bodas de prata, bodas de ouro. Rapazes e moças sarados, bonitos. E uma família que parecia ter muita grana e que tinha como esporte favorito brigar. Discutiam o tempo todo, sobre qualquer coisa. Os dias iam passando e o grau das discussões se intensificava em uma relação diretamente proporcional à vermelhidão de seus corpos. E eu lá, só olhando, me distraindo com as rodadas de baiana.



Também fiz muito snorkel. O hotel alugava o equipamento e eu caia no mar e me entregava a um festival de peixinhos. Quanto mais junto às pedras, mais cardumes, de todas as cores. Havia também um baiacu (para quem não sabe, um peixe gorducho e que quando tocado fica todo espinhento), mas havia esse baiacu que me acompanhava em todos os passeios. Eu e ele perscrutando cavernas. Mergulhar talvez seja uma das coisas que eu mais goste de fazer.



Havia os passeios oficiais, oferecidos pelos organizadores do congresso. Foi em um deles que conheci a casa de Marilyn Monroe, hoje um clube de golfe super sofisticado. Em outro passeio fomos de catamarã até a região onde vivem muitas tartarugas e, a convite do capitão do barco, pude nadar com elas. Houve também jantares oficiais, mas o que eu mais gostava era de acordar e tomar café da manhã com Silvio em um dos balcões do hotel. Varandão largo com mobília de vime e almofadas coloridas. Todos os dias éramos acompanhados pelos mais diferentes passarinhos que dividiam conosco o American breakfast.



Antes do cair da tarde, antes de Silvio voltar das palestras, eu saia pelo pátio da piscina e ia caminhar na calçadinha. Se olharem com atenção a foto acima, poderão vê-la. Entre o hotel e o mar havia uma calçada que ligava todos os resorts. De um lado, a costa com o seu marulhar espumoso e, do outro, casas e jardins espraiados e inesquecíveis. Como a calçadinha ia costeando o mar, seguia ao sabor das pedras. Tinha curvas e subidas, pequenas áreas mais amplas como pracinhas, em outras o caminho se estreitava por causa de uma rocha ou uma árvore.



Árvores... que árvores! Grandes e com troncos retorcidos e gorduchos. Copas arredondadas ou então bem viradas para um lado, seguindo a direção do vento. E foi em uma das curvas do caminho que eu encontrei a minha árvore. Redonda e aconchegante com um banquinho de madeira junto às raízes. Era um colo esquecido em um cantinho de Maui. Dei uma parada e a fiquei admirando por um tempo. Não estava com a câmera e me prometi que no dia seguinte iria fotografá-la. Mas, no dia seguinte, saí com um grupo e novamente não fiz a foto. Não fazia mal, ainda tinha bastante tempo. Na outra tarde achei que já estava meio escuro e novamente não fotografei. As tardes foram passando e eu sempre adiando o registro de meu encontro com a árvore. E chegou o último dia. O jantar seria um luau. As palestras terminaram mais cedo e quando eu me preparava para fotografar a árvore, Silvio chegou e disse que teríamos de nos arrumar logo, pois íamos encontrar um casal amigo. Resultado: a foto não foi feita.



Eu poderia dizer que não fez mal, que afinal de contas o que importa é a lembrança daquele encontro, daquelas tardes na ilha, mas... seria uma enorme mentira. Sofro até hoje de um grande arrependimento pela perda da oportunidade, por ter adiado um prazer, por acreditar que no dia seguinte daria tempo... Não deu. Não fiz do registro daquele encontro uma prioridade para mim. Adiei-me e odiei-me por isso.



A árvore deve ainda estar lá e eu vou bem por aqui, mas a foto ... bem a foto virou uma das tantas coisas que a gente se promete fazer e que se perdem entre outras urgências. Como a gente se adia!



Bem, quem sabe um dia eu volte a Maui. Quem sabe?

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

HONOLULU

Não sei o que está acontecendo, realmente devo estar sem inspiração. Nestes últimos dias é como se não me permitissem falar sobre a Venezuela. Sei lá... Acho que o Ávila está me exigindo um voto de silêncio.



Então, como não vai sair nada sobre a terra, me debruço sobre outras histórias. Sobre antigas histórias. Como aquela em que, acidentalmente, passei um dia em Honolulu.



Só mesmo um artista como Lulu Santos poderia dizer... “O Havaí é aqui...”. Nada disso. O Havaí não é aqui, nem ali e nem acolá. É muito mais longe... de qualquer lugar.



Silvio me avisou “Vai ter um congresso em Mauí e eu fui indicado para ir. Viajamos daqui a quinze dias”. MAUÍ!!!!????!!!!!!! HAVAÍ!!!!??????!!!!!! Fiquei exultante, nunca podia imaginar. O Havaí era AQUI!!!!



Mas não era bem assim. Não era tão aqui assim. A viagem começou com um vôo Caracas / Atlanta. Cinco horas. Seguido de outro Atlanta / Los Angeles. Mais umas cinco horas. A seguir um Los Angeles/ Honolulu. Nada menos que sete horas. Para encontrar seu clímax em um voozinho rápido Honolulu / Maui. Uma coisinha básica de trinta minutos.



Partimos com um céu de brigadeiro que foi nos acompanhando por todo o caminho. Vôos tranqüilos e muitas horas. O brigadeiro foi nosso companheiro até quase aterrissarmos em Honolulu, mas aí parece que houve mudança de turno e quem assumiu deve ter sido um sargentão brabo. A noite caiu e a chuva também. Chegamos a Honolulu já por volta das nove horas da noite (de lá, não considerando todos os fusos horários por que passamos). Chovia muito e ainda tínhamos que encontrar onde fazer o check in para Maui. O aeroporto não era grande, mas comprido o suficiente para descobrirmos, depois de muito perguntar, que o nome da companhia aérea mudava ao longo de seu trajeto. Me explico. Desembarcamos por um portão onde se podia ler indicações da MESA AIRLINES, mas a medida que nos afastávamos procurando o seu balcão, as indicações iam se esvaecendo, como num passe de mágica. O tempo passava, a chuva continuava a cair e tínhamos a angustiante sensação de que iríamos perder o vôo. (Uma nota se faz importante aqui. O Havaí faz parte do território americano só nos mapas, pois os havaianos não poderiam ser mais caribenhos. Também são leeeeentos.). Decididamente íamos perder o vôo, até que um senhor moreno, baixinho, gordinho e de camisa bem colorida nos informou que a MESA era a GO e que já tínhamos passado por seu balcão.



Foi o gatilho para que despencássemos pelo aeroporto, com malas e maletas. Só não tínhamos pranchas de surf, mas estávamos carregados.



Passamos pelo check in correndo, corremos pelo pátio e, finalmente, entramos no avião... Está bem, aviãozinho. Chovia. Forte. Enquanto rezávamos para que nossas malas tivessem sido levadas para o compartimento de bagagem, tomávamos conhecimento de onde e com quem estávamos. Nossos companheiros de viagem eram jovens, modernos, sarados, surfistas. Havia também umas maletas e algumas pranchas (acho que no Havaí são consideradas como bagagem de mão). Tudo parecia levemente escuro e razoavelmente apertado. Chovia. Forte.



Enquanto esperávamos para levantar vôo, o casal ao nosso lado decidiu se apresentar. Talvez porque os quatro fossemos os únicos não surfistas do pedaço. Eram do Equador e ele tinha uma firma de esportes radicais. Essa coisa que os departamentos de Recursos Humanos fazem agora com os pobres executivos que, além de terem de dar resultados custe o que custar, ainda têm que passar alguns dias escalando montanhas e cruzando rios para mostrar a seus chefes que têm uma grande sinergia com os seus pares e que são capazes de enfrentar as piores crises com alegria e destemor. Pois é, o equatoriano era dono de uma dessas firmas. Enquanto nos apresentávamos, os motores foram ligados e surgiu ela... a aeromoça. Era jovem. Não tinha mais que dezoito anos. E depois de fazer a famosa dança ritual que todos os comissários de bordo fazem no inicio dos vôos (saídas de emergência, cinto de segurança, máscaras de oxigênio...), se sentou em seu banquinho, de frente para os passageiros e levantamos vôo. Chovia. Forte.



E foi depois de uns cinco minutos, em pleno ar, que ouvimos aquele barulho. Seco. Intenso. Muito alto. Metal contra metal. Parecia que vinha do chão, mas era difícil definir de onde. A única certeza era que piorava cada vez mais. O nosso amigo dos esportes radicais começou uma reza forte. Se persignava e rezava. Os outros passageiros ainda tentaram levar na brincadeira, mas quanto mais o barulho aumentava, mas gente começava a pedir informações a pobre aeromoça que continuava amarrada a seu assento.



Quando falo de barulho, não estou falando de um chacoalhar, um tamborilar, uma trepidação. Nada disso. Era como se o chão fosse se desprender da fuselagem e fossemos todos, turistas, surfistas e pranchas, ser arremessados na escuridão.



Silvio, como sempre tranquilo, me disse que poderia ser problemas no trem de aterrissagem. Olhei para fora. A noite. O mar. E a chuva. Forte.



O piloto não falava nada. E foi então que a aeromoça decidiu se levantar e foi falar com os passageiros. Explicou que não sabia o que estava acontecendo e que nestes vôos nem ela podia falar com o piloto, mas que ficássemos calmos... PÁ! Um barulho mais forte e um solavanco. Ela pulou, os passageiros gritaram e o equatoriano dos esportes radicais pirou. Rezava em voz alta, se benzia e mantinha os olhos assustadoramente esbugalhados com a expressão típica de quem pensa: !Estoy jodido!



A aeromoça, sem fazer nenhum contato com o piloto, tomou uma atitude. Decidiu entregar coletes salva-vidas para as crianças. Aí fui eu que paniquei, pois Silvio não sabe nadar.



Novo solavanco e a jovem entregou os pontos. Foi passando de fila em fila sussurrando com a confiança de uma comissária experiente: Vamos rezar. Vamos rezar.



Não sei se foi a nossa reza ou a do equatoriano, mas o fato é que o barulho passou. Silvio então comentou: Viu? O trem de aterrissagem encaixou. E quando pensávamos que íamos chegar sãos e salvos a Maui, o piloto fez uma curva de cento e oitenta graus. Parecia que estávamos voltando.



E estávamos.



Quando vislumbramos o nosso ponto de partida, as pistas estavam cheias de carros de bombeiros e de homenzinhos prateados. Fomos nos aproximando e o medo agora era de que o trem de aterrissagem não saísse. O aviãozinho descendo e os bombeiros em alerta máximo. Mas de repente... PLUM! O trem saiu e aterrissamos sem maiores problemas. O equatoriano radical quase desfaleceu entre preces. Chovia. Forte.



Enquanto saíamos, a aeromoça tentou manter a pose e sorrir. O piloto não. Ao sair de sua cabine, estava lívido.



No aeroporto, houve como que uma confraternização entre os passageiros e foi então que Silvio me disse que haveria um outro vôo para Maui à uma da manhã. A minha reação foi serena, segura e até que achei bem madura. Soltei um palavrão e com firmeza disse que não levantava mais vôo naquele dia, nem à força. Ele entendeu a mensagem. Voltou ao balcão e com rapidez conseguiu hotel e um vôo para o dia seguinte, de tarde.



Ainda chovia em Honolulu de manhã, mas nada que pudesse atrapalhar nosso dia acidental na ilha. O sightseeing começou em Waikiki Beach e terminou em Pearl Harbor. Com direito a paisagens inesquecíveis.



À tarde, embarcamos para Maui com céu de brigadeiro. Maui... Ah! Maui... Bem, mas isto já é uma outra história.




(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ESQUINAS DE CARACAS


Tenho que admitir, o terremoto no Haiti mexeu comigo. Nestes últimos dias, as imagens e as noticias que chegam de lá têm me relembrado algo em que não gosto de pensar: a precariedade do ser humano. (Levei anos de análise para lidar com isso. Eu, leonina e levemente controladora.).



É claro que há milagres e o terremoto também mostrou que a gente tem a hora certa de ir, ou talvez, alguns tenham um desejo mais forte de ficar. Sei lá...


O fato é que, apesar de Caracas continuar bem agitada, com convocatórias de marchas e manifestações de ambos os lados para este 23 de janeiro, me sinto sem gás e sem assunto.


Foi então que pensei em escrever sobre um livro que li há algum tempo: Las Esquinas de Caracas.


Como já disse algumas vezes, a maioria das casas da cidade não tem numeração e, para encontrar um edifício é preciso saber o seu nome e perto de que marco histórico ou arquitetônico ele está. Acho que isso reflete uma verdade cultural, pelo menos da cidade (não sei se de todo o pais). Caracas é um lugar de nomes, palavras, muito mais que de números. Caracas é uma cidade em Word e não em Excel. Isso se reflete na atitude das pessoas. Fala-se muito, mas na hora de se fazer as coisas, botando tudo na ponta do lápis, sacando las cuentas (como dizem por aqui) aí eles ... começam a falar de novo.


Mas voltando às esquinas...


A cidade começou bem organizadinha, um quadrado dividido em calles e manzanas, isto é, em ruas e quarteirões (por muito tempo não entendi o que tinha a ver ruas com maçãs). Estamos falando dos idos de 1578. Com o crescer do lugar e com o passar dos tempos, havia que se determinar, imagino, pontos de encontro, por exemplo, e foi assim que as esquinas começaram a ganhar seus nomes. Não é como no Brasil, esquina da Rio Branco com a Sete de Setembro, não. A esquina tem seu próprio nome e o livro trata exatamente disso. Cada capítulo explica como foi dado o nome a cada esquina. Cada capítulo é uma deliciosa história de fantasmas, nobres, piratas, sovinas, freiras e padres, comerciantes, soldados, santos e mais santos e muita persignação.


A única esquina que conheço (passo por ela quando vou à Candelária de Metro) é La Pele el Ojo, isto é, a do Olho Vivo, no sentido de atenção, cuidado com o perigo. Não é a toa que ela fica em frente a uma outra que se chama El Peligro. “El Peligro fue esquina oscura y azaroza”, narra Don Santiago Key, mas um dia, surgiu na outra esquina um bodegueiro que dizia não temer a nada nem a ninguém. Quando decidiu abrir sua bodega, queria um nome chamativo que atraísse a clientela e, depois de muito pensar, pintou em letras gordas e negras a placa de seu estabelecimento: “Pele el ojo al Peligro”. O livro não esclarece se os assaltos melhoraram na região, mas informa que por volta de 1856 El Peligro era um lugar onde pastavam tranqüilamente algumas cabeças de gado. É, o lugar ficou bucólico e pastoril. Aí está, o poder da palavra!


Outra história que eu adoro é a da Esquina de Las Ánimas, ou esquina das almas. Preciso explicar o porquê? Imaginem uma Caracas do início da colônia, una ciudad oscura, donde apenas si en las casas principales, allá em la Plaza de Armas, existían algunas pequeñas luces alimentadas con sebo. E era neste cenário que se podia ouvir el grito del sereno: La una há dado...Tiempo nublado..., soava a frase do faroleiro. E, nesta cidade, também na região da Cadelária, havia uma esquina onde se podia ouvir el rosario de las ánimas, um cântico fúnebre, monótono, modulado por vozes que pareciam sair das entranhas da terra (!!!!!). Quem tentava enfrentar estas vozes nas altas horas da noite era punido com muito susto e pavor. É verdade que o próprio livro também informa que estas vozes do além poderiam ser vindas de gargantas mais humanas e ... mais profundas(?) Podiam ser o canto de pecadoras que saiam em procissão nas altas horas escuras, rezando suas orações para fazer penitência. Quem poderá saber a verdade? O fato é que o nome pegou e não me convidem para um passeio pela região depois do cair da tarde.


Há muitas outras esquinas e muitas outras histórias: a da Torre, das Monjas, dos Mercaderos, dos Jesuítas... A do Cristo al Revés, reafirma a nossa tradição de botar os santos de cabeça para baixo para conseguirmos algo deles. Por falar nisso, as moçoilas venezuelanas também põem Santo Antonio de ponta-cabeça quando querem achar um bom partido.


E, por falar em Cristo, há também La Esquina de El Cristo. Sua história começa em los tiempos em que los pobres y amedrentados habitantes de la vieja Santiago de León de Caracas no tenían paz nem nas ruas, nem em suas casas. Um tempo de histórias escalofriantes (adoro esta palavra). Nesses tempos, em uma esquina distante e isolada, apareceu um nicho com a imagem do Cristo. Ali eram feitas festas para celebrar a imagem e a cobriam de flores. Isto se fazia em memória a uma lenda que corria entre os vizinhos. Contavam que ali el diablo estuvo suelto por algún tiempo na figura de um bodegueiro a quem todos temiam. Era ladrão, era mau. Por muito tempo o bodegueiro fez suas ruindades, até que um dia um vizinho creyente y temeroso pediu ajuda a seu confessor. Foi o padre que o aconselhou a colocar um Cristo na esquina. E assim o fizeram, ele e os demais moradores. E conta a lenda que, depois daquele dia, el diablo dejó de atormentar a los vecinos.


Lendas, histórias, palavras. Mantras, rezas e orações. Talvez seja desse magma que sejamos feitos todos nós, pobres mortais. Por mais que saquemos nuestras cuentas, por mais que queiramos ser precisos como uma planilha em Excel, somos frágeis e precários como uma lenda qualquer. Somos feitos de carne, ossos e palavras... Nossas histórias.


No Haiti, a igreja onde estava a Dra. Zilda Arns caiu por inteiro soterrando vidas, sonhos, palavras... Só ficou de pé a imagem de um Cristo. Como uma lenda.


Enquanto o mundo se mobiliza em ajuda, a imagem observa em seu altar de escombros.


Que este Cristo possível abençoe às almas e aos homens, precárias lendas, palavras perdidas nesses desvãos e esquinas a que chamamos vida.






(Informações in Las Esquinas de Caracas de Carmen Clemente Travieso, Los Libros de El Nacional)

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