quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

HALLACAS


Se alguém pensa em Natal e em Venezuela terá necessariamente que pensar em hallacas. Buscando em vários sites, descobri ou confirmei muitas coisas que eu já sabia ou intuía depois de passar três dezembros em Caracas e de degustar algumas hallacas maravilhosas. Existem no mundo dois tipos de pessoas: as que gostam de hallacas e aquelas que as odeiam. Eu sou uma hallaca person.



Inundei o inicio do texto com a palavra hallaca na tentativa de dar ao leitor uma leve idéia do que é novembro e dezembro na Venezuela. Todos falam de hallacas. Os supermercados oferecem seus ingredientes, os restaurantes anunciam que já servem o prato navideño, hallacas congeladas são vendidas em delicatessens como El Rey David e as famílias começam as negociações de que tipo de contribuição cada um terá na feitura do quitute. Há, também, programas de rádio com as mais variadas entrevistas sobre o assunto. Um tópico bastante discutido é o de como comer hallacas e não engordar. Todos os anos, inclusive, é feita uma pesquisa, com certas conotações políticas, que investiga o quão inflacionados estão os ingredientes das hallacas e se a família média terá condições financeiras de cumprir com a tradição.


Há muitas teorias sobre a origem do prato e o seu nome. Encontrei, por exemplo, em um comentário de um site a seguinte observação:






La hallaca es una receta tradicional y típica de Venezuela. También conocida y popular en las Islas Canarias (España), especialmente en Navidad. Las hallacas guardan cierta similitud con los tamales de otros países de América Latina. Como se ve en la receta, las hallacas se hacen con una masa de harina de maíz rellena de diversos ingredientes, luego se envuelve en hojas de cambur (o de plátano) y finalmente amarrada con "pabilo" y se hierve en agua caliente.[in www.mis-recetas.org]






Fiz a citação, pois estava tentando resumir o irresumível e acho que o texto acima conseguiu. Quando falei que as famílias negociam suas tarefas na feitura da hallaca foi porque há, além das diferentes receitas dependendo da região, muitas etapas em sua preparação. Por exemplo, Claudia, minha professora, é apenas responsável por preparar as folhas de bananeira que envolverão o acepipe para sua família (uma média de 400 folhas!!??!!).


Para matar a curiosidade do leitor mais chegado a um fogão listo apenas os ingredientes necessários para se fazer uma hallaca básica: (Se não quiserem podem pular esta parte, só a incluí para dar um certo clima ao texto. Estou imitando Humberto Eco em seu livro O Nome da Rosa. Muito latim para trazer a atmosfera da época)


1/2 Kilogramo de Carne de ternera, 1/2 kilogramo de carne de cerdo, ambas cortadas en parmentier, 1/2 kiogramo de pollo cortado en julianas, 1/4. kilogramo de cebollín, puerro, pimientos, cebolla, todos cortados en brunoisse, 100 gramos de alcaparras desaladas, 150 gramos de olivas rellenas con pimientos, 1 cucharada de comino recién tostado y triturado, 1 cucharadita de curry en polvo (madras), 1 cucharada de azúcar, 1 taza de vino dulce, 1/4 taza de puré de tomate, 3 dientes de ajo majado, sal, cantidad necesaria, 1 kilogramo de harina de maíz, choclo, elote, mazorca de maíz, jojoto, chilote, aceite onotado, hojas de plátano ahumadas, hilo para cocina 1 madeja, y cucharada de leche en polvo y otra de harina de trigo.


Hallacas … Quanto mais penso nelas, mais as considero uma metáfora perfeita do Natal atual, moderno e tropical.


Tudo começa com a massa. Informe. Pesada. Úmida. Seguirá cegamente todas as subrepticias sugestões da mídia e do marketing. O presente da moda. A loja da moda. O point da moda. A moda da moda. E é essa massa que envolve o guisado. A geléia geral. Amigos (secretos ou não). Parentes (distantes ou não). Há lugar para todos. Papais Noéis suarentos. Renas! Chaminés!!! E neve!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ao som de Jingle Bells expomos a nossa alegria comprada nas 25-de-março da vida. Celebramos. Celebramos muito. Celebramos intensamente. Enquanto, com pressa, esbarramos em reis magros caminhando por seus desertos particulares. E a massa e o guisado (nós?) é embrulhada para presente, em folhas de cambúr super chiques. Nos enfatiotamos e ... fervemos.


Acabo de reler o que estou escrevendo e levei um susto. Não era este o texto que eu queria. Acho que virei uma hallaca desandada, embora, realmente, tenha gostado da comparação. E vou insistir nela por teimosia.


Como disse, sou uma hallaca person e se por um lado o Natal virou um evento marqueteiro. Uma efeméride da mídia. Uma hallaca mal embrulhada e fervida. Por outro, insiste em ter um sabor especial. Realmente acredito que, na noite de paz (?!), possamos reencontrar a magia infantil da festa. Nem que seja por um segundo. Em um sorriso. Um telefonema de alguém distante. Uma gargalhada inesperada. Ou na eloqüência do silencio.


Neste Natal, que todos nós tenhamos a delicadeza de sermos criança por um minuto que seja. Uma criança... Qualquer criança... Que, em um momento, brote de nossas almas ou do umbigo mesmo, um sorriso infantil como só as crianças sabem dar (mesmo que já não acreditem em Papai Noel). Um sorriso de menino... daquele menino... a quem insistimos em chamar de Cristo.

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A CÁPSULA



Cheguei em São Paulo na 3ª feira. O vôo Caracas/Sampa foi tranqüilo, mas aterrissei em uma cidade em pleno caos. A sorte foi que optei por fazer a conexão em Guarulhos, pois se tivesse seguido o que normalmente faço e ido para Congonhas, provavelmente ainda estaria tentando chegar ao Rio.



O caos, na verdade, não era absoluto. Tenho que ser justa. Havia teto para voar, nenhuma bagagem foi extraviada, os passageiros passaram pela imigração e alfândega ordenadamente e até havia algumas coisas interessantes na Free Shop. Para que eu chegasse ao Rio só faltava uma coisinha básica: os pilotos. Eles, apesar de toda a sua expertise para deslocamentos velozes e sob intempéries, simplesmente não conseguiam vencer as inundações do Tietê e do Pinheiros. Assim é São Paulo. Grande. Caótica. Deslumbrante.


Esperei.


Depois de mais ou menos duas horas e de uma longa conversa com um americano que tentava entender o que estava acontecendo e, principalmente, o que era a cidade de São Paulo, consegui levantar vôo e chegar a um Rio de Janeiro caótico e semi-inundado. Estivera eu em Kopenhagen, seria um testemunho vivo de que o clima do planeta realmente enlouqueceu.


Mas cheguei.


E, depois de três dias de correrias entre bancos, visitas a amigos, reunião na Cultura e ida a Niterói, acordei às 5:30 da manhã de 6ª feira na ... onde mesmo que eu estou? ... Ah, sim ... na cápsula.

Decidi me levantar.

Olhei a minha volta e mantive um silêncio sepulcral. Márcia continua ficando no apartamento durante a semana e dormia profundamente. Como eu sou International Vagabond e ela anda trabalhando enlouquecidamente, decidi respeitar o seu descanso.


Fui para a sala e me sentei na cadeira de balanço, um dos poucos móveis que restou das três casas onde eu morava antes de ir para Caracas. Fiquei um tempo me embalando e lembrando de tantas coisas que passei naquele apartamentinho do Humaitá.


Quando fui para a Venezuela, Márcia me sugeriu que eu escrevesse uma peça de teatro chamada A Cápsula. Na verdade, a gente costumava brincar sobre esta peça já fazia algum tempo. Tínhamos certeza que seria um sucesso!Ficávamos pensando que atrizes poderiam fazer as nossas personagens, como seria o cenário, a iluminação... A trilha sonora nós já havíamos escolhido: Roda Viva de Chico Buarque... A gente vai contra a corrente / até não poder resistir / na volta do barco é que sente/ o quanto deixou de cumprir...


Era assim que eu me sentia naquela época. Uma devedora de mim. Correndo muito para chegar a lugar nenhum.


Cursos, palestras, congressos, reuniões, o MBA e a permanente distância de Silvio. A gente ria, brincava sobre o assunto, mas quanto mais passava o tempo, mas pesava estarmos longe um do outro. Afinal foi uma espera de dez anos para que nós pudéssemos jantar juntos em um dia de semana. Dez anos para podermos conversar ao vivo e a cores depois de um dia de trabalho. Dez anos para que pudéssemos até ter tempo para brigar. (Quem tem tempo de brigar se só tem o final de semana para estar junto?) Mas brigar faz falta também.


Olhei novamente a minha volta. O dia já tinha amanhecido e havia lá fora uma mistura que só acontece na Rua Humaitá: passarinhos cantando, uma cigarra sobrevivente da chuva torrencial da noite anterior e o barulho do trânsito começando a ficar cada vez mais pesado.


Como a cápsula mudou nesses quase sete anos! Quando alugamos o apartamento de Jorge, o lugar era um chiquê, tinha até cadeiras assinadas por designer famoso. Depois, quando comprei o imóvel, ainda tentamos dar um charme ao espaço, mas com a minha viagem, ele foi ficando cada vez mais cheio de livros, móveis, utensílios. Coisas que eu insisto em preservar.

Acho que a cápsula é uma espécie de metáfora de mim. Ou talvez seja uma fiel parceira em minha trajetória. Tanto ela quanto eu fomos nos adaptando às novas realidades. Reinventamos espaços. Fomos nos desfazendo de supérfluos. Preservamos apenas o que nos parece essencial e, mesmo assim, de vez em quando fazemos novo balanço e sempre encontramos algo para jogar fora.


Talvez não tenhamos mais o glamour de cadeiras assinadas, mas ... preservamos a cadeira de balanço, onde embalamos os mais recônditos sonhos e deliciosas recordações.




(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

UMA CARTA AO NIÑO JESÚS



Querido Niño Jesús,



Eu sei que já faz algum tempo que não lhe escrevo, mas esta coisa de ter Papai Noel como intermediário sempre me incomodou muito. Como estou aqui em Caracas, as coisas ficam mais fáceis, pois por aqui as cartas vão direto para você. Isto é certo. Pode perguntar a qualquer criança da cidade. Então decidi lhe escrever.


Antes de tudo, quero lhe dizer que acho que tenho sido uma ótima aluna. Tenho aprendido muitas coisas novas e feito um grande esforço para desaprender algumas que já estão muito antigas, ultrapassadas mesmo. Esta tem sido a maior dificuldade... Pobres de nós, mortais! Como é difícil desaprender os vícios!

Vou também lhe contar um pouco do que está se passando por aqui. Dia 1º., La Cruz Del Ávila foi acesa com pompa e circunstância para o inicio das celebrações navideñas, mas, este ano, por motivos de racionamento de luz, ela só vai ficar acesa das seis da tarde até a meia noite. Perdi minha companheira das madrugadas no mês de dezembro. Não faz mal, pelo menos ela foi acesa, o que já dá uma ponta de esperança.

Os centros comercias também estão menos iluminados, mas a abundância de presépios permanece. Los pesebres não podem faltar. Tem presépios de todos os tamanhos, formatos e materiais. De metal, plástico, vidro e até de tagua, que é uma semente que parece marfim.


Todas as famílias já estão mobilizadas comprando os ingredientes das hallacas e já se pode comer el plato navideño em muitos restaurantes da cidade (hallaca, pan de jamón, ensalada de gallina e de sobremesa dulce de lechosa). Depois querem saber porque eu engordei tanto... Tem a ver com os vícios!


Mas para quê eu estou lhe contando tudo isso, se eu sei que você está bem pertinho, olhando a cidade lá do alto de Galipán. Pelo menos é o que diz uma antiga canção de Natal... (El niñito baja desde Galipán, viene con sus flores y sus mil colores para los regalos que vienen y van [Bis])

Sabe, a cidade pode estar um pouco mais escura e com falta de água, mas a lua tem estado perfeita nestas noites límpidas de dezembro. Há coisas que não abrem mão de ser o que são. Não mudam. Nem de cor. Nem de direção. Não seguem ordens. Têm seu brilho próprio. E, talvez por isso, sejam sempre mais brilhantes.


Quanto aos meus pedidos, os meus regalos mais desejados, você já sabe o que são. Eles são sempre os mesmos. Olha por Silvio e por mim, cuida bem da gente. Protege também as nossas famílias e a todos os nossos amigos. Eu sei que o mundo está, como sempre, uma loucura, e agora então com essas mudanças climáticas!... Mas não esquece da gente não. Reserva um tempinho que seja para olhar por nós.


Este ano, eu vou pedir um pouquinho mais. Afinal, eu me comportei bem e até aprendi a cozinhar! Então, aí vai o meu pedido: Olhe com muito carinho por esse povo que me recebeu tão bem. Por esse povo que sempre está disposto a me ajudar. Por este povo que entende o meu espanhol de pé quebrado quando grito !Ayudenme!. Se você estiver muito atarefado, por favor, peça a senhora sua mãe, que aqui tem muitos nomes (Coromoto, Chiquinquirá, Del Valle...) para te ajudar. O importante é ter sempre alguém que esteja pendiente, para que eles nunca fiquem sozinhos.


E assim, vou terminando minha cartinha que eu sei que você vai ter que ler muitas outras mais.


Saludos, muchos besitos y Feliz Navidad,



Patricia


PS: Ah! Já ia esquecendo. Se der, não é prioritário, mas se der, traz um Chihuahua pra mim?

(in pblower-vistadelvila.blogspot.com)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

UM TEXTO PARA ALZIRA

Em seus últimos comentários, Alzira aponta uma certa melancolia. Fiquei pendiente (como se diz por aqui). Confesso que me senti um pouquinho culpada. Ando escrevendo uns textos um tanto  meditativos. Então, decidi: esta semana a coisa vai ser diferente.


E, portanto, convido a Alzira a viajar comigo. O texto de hoje é dedicado a ela. É só dela. Se bem que conhecendo o seu altruísmo, tenho certeza que ela vai adorar dividir esta história com as outras pessoas.


Amiga Alzira,



Há um lugar onde existe uma cidade dentro de outra. Em uma terra moderna, brota, bem de seu centro, uma cidadela, una ciudad amurallada. E por de trás de seus altos e grossos muros, surgem resquícios de piratas, donzelas com leque e mantilha, comerciantes, ricos senhores e negros escravos. Em suas ruelas, pode-se ainda ouvir o burburinho de tempos passados. Tempos de muitas esmeraldas.


Há, ali, uma praça Bolívar, como sempre, cercada de museus, igrejas e lojas. É por onde transitam os vendedores de frutas, os guias de turismo e a gente da terra. Morena, mulata. Uma mescla de muitas Histórias.

Não se deve usar carro nesta cidade sem tempo. O ideal é perambular por suas vielas. Surpreender-se com seus pátios abertos. Encantar-se com o repicar de seus sinos, som que se perde entre os muitos sobrados com seus balcones floridos.

 


Há que subir nas muralhas. Andar entre o que sobrou dos canhões que protegiam o pueblo de ambiciosos corsários e sentir o vento do mar que, sem cerimônias, vai entrando na gente, alma adentro, salgando nossos sentidos... e, de repente, tudo virá um enorme por de sol.

É também do alto da muralha que se pode ver, a uma certa distância, a casa de Gabo, envolvida em romance e mistério.

À noite, depois de um passeio de carruagem!!! por esta  cidade tão mágica, a gente se senta nas praças, em seus restaurantes e bares e joga conversa fora e ouve música típica e vê improvisos e danças.

Bem junto à praça, há uma escultura gorducha, um regalo de Botero à tão famosa província. Estátua solidária e cúmplice de exageros etílicos. E há que se fazer comilanças com arroz de coco e pescado. (Que a gordita abençoa tão saboroso pecado).




É fundamental que numa manhã, bem cedinho, a gente se encaminhe pro porto e, de lá, em uma lancha voadeira vá direto pras islas, Las Islas Del Rosário, um arquipélago de corais em pleno mar do Caribe. E nas ilhas a gente fica só olhando o vento e o mar...

No mergulho a gente vê a transparência da água. Vê o dedão do pé, vê peixinho, vê arraia. Por perto tem tubarão, mas nada que amedronte. E de tarde, depois de um lauto almoço, a gente deita na hamaca e fica sentindo a vida, a vida que vai passando... pouco a pouco.




Essa é uma terra de histórias, um quase conto de fadas.

E na corrida da vida, no tempo que insiste em voar, nesta terra a gente encontra um pouso, uma parada... Pra virar fotografia!


Uma imagem sonolenta de muitos coqueiros e praias. E, na sombra do momento, o sol que vai se pondo aos poucos em tênues vermelhos rosados.






Assim é esse lugar que tem nome e sobrenome: Cartagena de las Índias, um cantinho na Colômbia.

(in pblower-vistadelvila)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

QUE CAMINHOS TOMAR?



Se olharmos bem a foto, podemos ver que há outros picos além do Ávila na Cordilheira da Costa e, também, há muitos caminhos para se chegar ao topo. Os caraquenhos, muitos deles, curtem caminhar e até mesmo correr montanha acima pelas várias trilhas que há na região.



Tudo começa na Cota Mil, uma larga e longa avenida que fica a exatamente mil metros do nível do mar e que costeia uma boa parte da montanha. É na Cota Mil que se pode pegar aguaceiros inesquecíveis. As nuvens batem na Cordilheira e se derramam em água pesada. Un palo de agua, como dizem por aqui.


À noite, aqui de casa, posso ver um cordão de luz no sopé da montanha, parece uma praia, mas na verdade é a Cota Mil iluminada.

Pois é de lá que se escolhe o caminho a trilhar. Há o teleférico e também os jeeps que saem de San Bernardino e que levam turistas até Galipan. E há os caminhos, as estradinhas, as trilhas que vão serpenteando a montanha em um intrincado labirinto de possibilidades.


Além disso, há uma variedade de picos a escolher: o Ávila, o Ocidental, o Oriental, passando pela Silla (que de longe parece uma cela de cavalo), até se chegar ao Naigatá.


De lá de cima há a promessa de se ver o mar. Até se chegar lá em cima, há a possibilidade de se fazer paradas em cachoeiras ou laguinhos ou grutas. E por todo o caminho, muito esforço, que é sempre recompensado pela paisagem e pela sensação de vitória por um desafio cumprido: Chegar!


(Parei agora de escrever e fui até a varanda olhar a montanha. A tarde está caindo e há uma brisa suave. Um helicóptero passou bem perto da Cota Mil, deve ser de alguma rádio dando informações sobre o trânsito. Em breve vai ser noite e a avenida vai se iluminar.)

Há muitos caminhos para se chegar ao topo. E ... há muitos picos se a visitar. Cabe a cada um de nós escolher que paradas queremos fazer, que paisagens queremos fotografar e com que esforço vamos fazer a subida. Alguns querem caminhar. Outros só aceitam se for na corrida, pra chegar logo, pra chegar primeiro, porque o que importa é chegar.


Esses não param pra fotos. Não descobrem recantos. E se há um riacho, dão um salto e num pulo se livram daquele obstáculo, que é a possibilidade de molhar os pés na água gelada, mexer os dedos, molhar o rosto, descansar. Não. Um pulo e já se foram pra próxima etapa, porque o que importa é chegar.


O que me surpreende é o quanto de paisagem que eles deixam de ver em seu passo apertado, em sua corrida pro topo, não importa que pico... o que importa é chegar.


O que me intriga é que nessa corrida, não há espaço pro outro, pro parceiro de trilha. Que gente faz a gente perder tempo e... o que importa é chegar.


O que mais me entristece nessa escalada infinita é que estamos treinando os nossos meninos para a trilha mais curta, para o atalho mais fácil, para o pico mais baixo, porque... o que importa... é chegar.


(Voltei à varanda. Já é noite e decidi fotografar a Cota Mil para registrar esta praia às avessas. A cordilheira está bem nítida neste outono caribenho. Silvio chegou e foi para a varanda também. Me contou do seu dia... Olhamos a paisagem ...)


Há muitos caminhos para se chegar ao topo. Há muitos picos a se visitar. E é dever de cada um escolher... Ou será um direito? E será mesmo que o importante é chegar?




(in pblower-vistadelvila)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

SIMPLICIO (OU A ESTRELA PERFEITA)



Claudia combinou de nos apanhar de manhã para irmos conhecer a feirinha de artesanato que é montada aos sábados perto do Teatro Teresa Carreño. A idéia, mais que ver e comprar as artezanías, era conhecer as barraquinhas de buhoneros (camelôs) que vendem DVDs de filmes venezuelanos.

A Venezuela é um país caribenho e, portanto, afeito à pirataria. Em Caracas, pode-se comprar qualquer filme, digamos assim ... genérico, do o mais cult ao mais comercial, em lojas especializadas, a preços bem módicos e com direito a recibo. Filmes estrangeiros, é verdade, pois há uma espécie de acordo de cavalheiros que filme venezuelano deve ser preservado. Mas na feirinha do Teresa Carreño se encontra de tudo da produção local.

O grupo não era pequeno, pois Soraya mais Bragança e seus pais e o irmão se juntaram a nós. Deixamos o carro em Sabana Grande, tomamos o metro e duas estações depois já estávamos entre artesãos, pulseirinhas, discos de vinil de segunda mão, muitos CDs, incenso e as barracas dos DVDs. Claudia ia mostrando os clássicos criollos e nós íamos montando nosso acervo particular: comédias, dramas, policias, filmes históricos e documentários. O vendedor, conhecedor do cinema venezuelano, estava em êxtase diante de duas brasileiras que pediam sugestões e iam separando os filmes. Ao todo foram quatorze películas. Uma féria inesperada para o nosso camelô. Como bons venezuelanos, mais gente foi se juntando a nós, opinando, sugerindo. A barraca virou uma festa.

E, de noite, nos preparamos, Silvio e eu, para a nossa sessão de cinema, com direito a pipoca e tudo. Foi ele quem sugeriu que víssemos Simplicio, pois disse que estava com saudades do mar (Silvio tem dessas coisas... saudades do mar!?!) e como o filme se passa na Isla Margarita...

O filme, de 1978, foi dirigido por Franco Rubartelli. Recebeu um prêmio se não me engano em Cannes e seus atores não eram profissionais, era gente da ilha. Conta a história de Simplicio, um menino que foi abandonado pelos pais (um bandido e uma prostituta) e que passa a ser criado por um velho pescador.

A cópia não era lá essas coisas e o sotaque margaritenho dos atores só piorava a qualidade do som, mas com todas as dificuldades, Simplicio foi tomando conta da gente. O menino e o pescador, a morte do pescador, a decisão de ficar morando no barco pesqueiro abandonado, o novo amigo (uma gaivota ferida), a preocupação do padre com o menino sozinho, as discussões do menino com o padre e o sacristão, sua necessidade visceral de liberdade, as brigas com os outros meninos, os encontros com o fantasma do amigo, suas falas... seus silêncios. O fim eu não conto. Inesperado.

Mas o que mais me encantou foi a amizade incondicional entre o menino e o velho. Inicio e fim de vidas. História escrita e página em branco. Uma amizade de dois seres humanos que se contemplam e se completam em pura cumplicidade.

Me lembrei de vovô Claudio e eu (com uns cinco anos) comendo churrasquinho passado na farinha e tomando Mineirinho depois que ele me buscava na escola. Não conta nada pra sua mãe que a gente tá comendo isso, senão ela briga comigo. E eu solidária: Pode deixar, não conto nada... Vovô, conta de novo a história de quando um tubarão te raptou. O clímax dessa história, que ele me contava quase todas as tardes, era quando ele tinha de trabalhar na casa do tubarão varrendo a sala e as correntes marinhas empurravam o lixo de volta para dentro da casa. Um sofrimento. E eu, de olhos marejados, sempre buscava uma maneira de ele se livrar do suplício.

O menino e o pescador. Simplesmente... Simplicio.

A cena que agrego ao texto se passa no inicio do filme e é quando vamos entendendo o quão ligados eram os dois. Certamente o som é inaudível e, portanto, faço aqui uma transcrição de pé quebrado.

Simplicio se irrita e não entende porque os outros meninos implicam tanto. O velho lhe diz que é porque o menino anda sempre com ele. Os outros, na verdade, querem mesmo é agredi-lo (Por ser velho? Por ser podre? Por não ser como os demais?): No hagas caso...E eles, então, dançam, e nadam, e brincam e medem forças. Observam pelicanos.
O menino, ao sair do mar, diz que queria poder voar para visitar muitas estrelas. E o pescador lhe segreda, até encontrar a estrela perfeita. O menino lhe pergunta como é essa estrela e ele conta que é um lugar onde todos se queiram bem. E o menino acrescenta: como nós dois. O pescador fecha a cena com um sussurro de fala: Sin ninguna duda nuestra amistad es la estrella perfecta.

Amistad...

Penso agora em amigos com quem compartilho estrelas perfeitas. Distantes ou próximos, não importa. São esses amigos que me enchem de luz, que me fazem pensar que vale a pena seguir, que me presenteiam com um bem querer que é feito de mar. Queridos amigos em estrelas perfeitas, onde a qualquer hora se pode chegar.

Amistad...

E neste vôo de acasos, a que chamamos vida, são eles meu mapa, minha bússola e meu compasso. São eles que me indicam no espaço vazio, a rota e o rumo no caminho do Sol.

(in pblower-vistadelvila)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

ASSIM FALOU LEVÍ-STRAUSS



Silvio me avisou que teria de ir a Jose (onde vai ser construída a planta petroquímica) no dia seguinte. É um vôo curto, como uma ponte aérea, mas como moramos em Caracas, a mil metros de altura, e o aeroporto fica em Maiquetia (a beira do mar do Caribe) qualquer viagem de avião fica mais demorada, pela estrada e, dependendo do horário, pelos engarrafamentos. Silvio me disse que o carro viria buscá-lo por volta das quatro da manhã e, então, fiz o meu plano: que o carro chegasse, o apanhasse e fosse embora, que eu ia ficar dormindo.



Ouvi o despertador, o barulho de Silvio se arrumando, mas fiquei bem quietinha. Me negava a acordar àquela hora. Silvio começou a andar de um lado para o outro, com uma ansiedade absolutamente incomum nele. O celular tocou e ele começou um diálogo mais que conhecido para mim: ?Donde estás? ?Cerca de la Embajada? ?Conoces Unicasa? Entendi de imediato. Motorista novo e totalmente perdido. Para se chegar a nosso apartamento é preciso ser um experto em caminos verdes.


Decidiram, ele e o motorista, que deixariam o celular ligado e Silvio iria dando as orientações necessárias. O tempo passava, Silvio resfolegava e o motorista continuava perdido. Foi quando o sinal do celular caiu que eu decidi me levantar. Não tinha nada que fazer, mas pelo menos estaria solidária.


Quando conseguiram restabelecer contato, Silvio achou melhor descer e eu tive meus quinze segundos de fama. Fiquei na janela de vigia. Ao ver o carro chegando, fui eu que avisei ao motorista que ele estava no caminho certo e que Silvio já havia descido.


Depois deste acordar, diríamos... intempestivo, quem consegue voltar a dormir? Às quatro e meia da manhã, eu estava a toda.



Olhei a minha volta. Tudo em penumbra. Somente algumas luzes acesas na casa e o dia, que ainda era noite, iniciando timidamente o seu oficio de amanhecer. Silêncio.


Voltei para a cama e tentei terminar de ler o Trem Noturno para Lisboa. Um desafio para mim. Lento... Um livro estranhamente masculino. Isabel Allende disse que era bom, mas prefiro os livros dela. Decidi saltar algumas frases, depois parágrafos e quando saltei algumas páginas, achei melhor ir fazer um café.


A janela da cozinha estava entreaberta e entrava o friozinho da madrugada. O cheiro do café foi, aos poucos, aquecendo o ambiente.


De caneca em punho fui para a sala ver o amanhecer. A essa hora não dá para ficar no balcón. Silêncio.

E enquanto olhava a cidade ir aos poucos se acendendo (os caraquenhos acordam cedo para fugir das colas) e o céu se iluminando para mais um dia de seca (quem sabe hoje choveria?), pensei em Leví-Strauss...

Tristes Trópicos...

Quando cheguei a Caracas, achava que o Brasil ficava em outro continente e que estávamos a quilômetros e a séculos de distância. Essa América hispânica tão diferente de nós... Mas, enquanto o dia nascia, eu ia vendo que, no mapa de nossos destinos, compartilhamos os mesmos descaminhos. Ia entendendo que a nossa linha do equador fica bem abaixo do Texas.

Tristes Trópicos...

Essa África equivocada. Essa irônica Europa. Essa América feita de ouro, prata e sacrifícios. De todas as nossas pirâmides escorre sangue e sonho em onírica hemorragia.

Terra pecadoramente católica. Carnavalescamente caótica.

Vivemos um sincretismo de astúcias. Falamos demais. Prometemos demais. Esperamos demais. E trocamos por espelhos a nossa pedra mais preciosa...  a vida.




Tristes Trópicos...


E apesar disso dançamos e rimos e vamos a praia e fazemos amor e arte. Gingamos ao som de maracas, tambores, cuícas... Vamos ao sabor do vento... ou das tempestades. Mas vamos...

Talvez seja essa alegria descabida que nos faça possíveis.

Olhei a minha volta. Silêncio...

O café tinha acabado. O dia já havia amanhecido e eu, decididamente, devia estar dormindo.

Tristes Trópicos?

Talvez seja essa alegria descabida que nos faça possíveis... Talvez...



(in pblower-vistadelvila)